Pura graça

O capítulo 9 de Romanos é provavelmente o texto bíblico mais amado por reformados em geral. Do versículo 10 ao 14, vemos Paulo expondo a eleição com base em Esaú e Jacó

Como está escrito: Amei a Jacó, mas rejeitei a Esaú.

Deus amou a Jacó, como diz o versículo 11, sem que ele tivesse feito nenhuma obra, isto é, independentemente de quem ele era (ou de quem viria a ser).

O livro de Gênesis mostra a história de Jacó em destaque a partir do capítulo 25 até o capítulo 35. Logo na sua primeira aparição, este patriarca engana ao seu irmão, Esaú, para que tivesse o direito de primogenitura (Gn 25.29-34).  Se atentarmos para o capítulo 27, veremos um homem um tanto quanto desprezível e mentiroso. Ele, com a ajuda de sua mãe, arquiteta uma forma de enganar seu pai, Isaque, que era cego e estava prestes a morrer. Jacó traça um plano regado de mentiras, a fim de que a que a bênção de Isaque viesse sobre ele (Gn 27.18-20,24,26-27). Em decorrência desta fraude muita tristeza é gerada (Gn 27.20-45). Por causa do que Jacó fez vemos Isaque sofrendo e Esaú clamando por vingança.

É certo que todos nessa história tiveram uma parcela de culpa. Os pais por terem preferência entre filhos, ao invés de se dedicarem igualmente a ambos (Gn 25.28); Esaú sendo infiel para com Deus (Gn 26.34) e menosprezando seu direito de primogenitura (Gn 25.32); Rebeca bisbilhotando e planejando enganar o seu próprio marido, ao ponto de, sem lamento, afirmar sua responsabilidade sob maldição (Gn 27.5, 8, 12,13).

No entanto, Romanos 9 diz que Deus amou a Jacó. Como Deus pode amar a Jacó? A resposta é: pura graça. Aos nossos olhos, Jacó não merecia sequer o amor humano, mas ele foi alcançado pelo amor divino. Um amor não baseado em méritos. Um amor não baseado em uma previsão de fé (Rm 9.11).

A história de Jacó nos permite visualizar como a graça de Deus se manifesta. Não cremos porque somos de alguma forma somos ou fomos superiores. Jacó em nada era superior. Se houvesse mérito, não era graça. Não há motivo para que haja graça. Ela se manifesta porque Deus quer e apenas por isso (Ef 1.5).

Frequentemente nos deparamos com ditos reformados orgulhosos (e impenitentes). Calvinistas que entendem que, por terem tido a graça de entender um pouco mais da Santa Escritura do que outros cristãos, são especiais. Isso não é cristianismo. Na verdade, essa é uma marca de que o conhecimento não desceu para coração. Hernandes Dias Lopes diz, em um de seus sermões, que muitos têm “muita luz na cabeça, mas pouco fogo no coração”. E isso é verdade.

A história de Jacó, bem como a de grandes personagens bíblicos, nos humilha quando é verdadeiramente compreendida por nós, porque não é apenas a história dele que ali está retratada, mas, sobretudo, a nossa. Assim como Jacó é desprezível, somos também individualmente desprezíveis por causa da nossa natural corrupção. Assim como Jacó fez tantas coisas erradas e tinha uma natureza com inclinação ao que é mal, nós fazemos coisas erradas e temos nossa natureza também inclinada ao que é mau. Mas assim como este patriarca tão miserável foi aceito somente pela graça, somos nós também aceitos por esta mesma graça, nos concedida através do sacrifício de Cristo.

Que este conhecimento desça aos pilares do seu ser, molde sua forma de ver o mundo e te humilhe, para que você seja encontrado com o coração constrangido de gratidão.

Sola gratia.

24 anos, paulista semi-pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Areias, estudante de Engenharia Química e noiva de Fábio. Trazida, mantida e confirmada por Cristo.

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