Nossa luta

“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7.24,25-a)

Ao lermos o capítulo 7 da carta de Paulo aos Romanos, notamos uma grande prova da doutrina bíblica da depravação total da humanidade. Mas a depravação citada nesse versículo não se restringe apenas aos homens não regenerados. Podemos perceber que ainda há resquício desse homem totalmente depravado na vida dos crentes regenerados, pois ainda não estão completamente livres do pecado que habita em seus corpos. Durante toda caminhada nesta vida, como peregrinos, os crentes terão que lutar intensa e incansavelmente contra esse mal.

Até Paulo, o grande apóstolo dos gentios, ministro da Palavra e fiel servo do Senhor não estava completamente livre do pecado, por mais que ele tenha sido um homem fora do comum. Como todos os demais seres humanos, Paulo nasceu em pecado. Lendo atentamente as palavras do apóstolo, percebemos que ele não estava iludido, imaginando ser uma criatura boa, perfeita e imaculada… Não! De modo algum! Ele estava completamente convencido de que era um pecador como os demais, um ser depravado e imperfeito.

No v. 24 deste capítulo, o apóstolo, provavelmente sob uma profunda convicção de pecado, grita, dizendo: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”. Precisamente neste verso, Paulo agoniza de tanta tristeza que sentia no seu interior. O profundo sentimento de tristeza surgiu porque desejava servir plenamente a Cristo, com alegria, devoção, fervor e o que mais queria era viver em plena harmonia com a vontade de Deus. Foi o que ele sempre almejou e arduamente lutava todos os dias, mas uma coisa o impedia, deixava-o incapaz, a saber, o pecado.

Mas não estamos falando de qualquer homem aqui, falamos de um homem que se chamou de “miserável”! Não o Zé da esquina nem o João da Rua Direita, mas o apóstolo Paulo! Certamente o maior dos apóstolos, o maior teólogo, o mais devoto e piedoso servo do Senhor que já existiu! Eu, sem a menor dúvida, estou a anos luz de ser um servo como ele foi, um crente tão fiel. Ele foi um homem que odiou o pecado (7.15); que desejava fazer o que era bom (vs. 19,21); um homem que profundamente arrependia-se dos seus pecados (vs. 15, 18-24); e que, intimamente, tinha o seu prazer na lei de Deus (v. 22). Mas apesar de tudo, carregava no seu corpo, a dolorosa carga do pecado.

A carta não só descreve a experiência dele, o que enfrentamos em nossos dias é descrito ali também, a batalha enfrentada pelo apóstolo é também a nossa. Se Paulo passou por isso, não poderia ser diferente com os demais cristãos. O pecado que ainda habita em nós não só nos entristece, como também afeta tudo, inclusive as obras que desejamos fazer. Servir e realizar boas obras eram coisas que Paulo não deixava de fazer, ele era incansável. Porém o que ele fazia não era perfeito, e se as obras dele foram imperfeitas, as minhas e a suas também serão.

Citarei aqui as confissões de Westminster e a Belga, para nos auxiliar:

Referindo-se as obras dos crentes, a Confissão de Fé de Westminster (cap. XVI.vi), declara: as “suas obras são também aceitas por ele, não como se fossem, nesta vida, inteiramente perfeitas e irrepreensíveis à vista de Deus, mas porque Deus, considerando-as em seu filho, é servido aceitar e recompensar aquilo que é sincero, embora seja acompanhado de muitas fraquezas e imperfeições.”

Referindo aqueles que aceitaram Jesus Cristo, a Confissão Belga (Artigo XXIX), declara: “Isso não quer dizer, porém, que eles não tenham ainda grande fraqueza, mas, pelo Espírito, combatem todos os dias de sua vida…”

O ser humano, mesmo regenerado, não é capaz de servir a Cristo perfeitamente, pois é um ser fraco e ainda luta contra a carne que o conduz a fazer o que é mau.

Isso valida ainda mais a doutrina da depravação total. Realça a profundidade do abismo que fomos lançados na queda, pois se o homem regenerado peca, não consegue fazer o bem que gostaria e nem sempre agrada a Deus através dos seus atos e etc. Os não regenerados são os que não conseguem mesmo, porque o seu estado é de total depravação e inimizade com Deus.

Quando o apóstolo Paulo gritou possuído de tristeza, não gritou como uma pessoa desesperada, sem esperança e frustrado. Ele estava consciente de que o Senhor o salvaria e que toda sua dor teria um fim. Sabia que chegaria o dia em que o pecado que nele habitava já não existiria mais, que seu corpo não estaria mais envolto pela corrupção do pecado, mas o inverso disso, ou seja, incorruptível, glorificado e livre de todo mal! Por isso ele louva a Deus, dizendo: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 25-a).

Caro leitor, enfrentamos batalhas semelhantes às Paulo. Às vezes a luta é sangrenta, angustiante, e pode até em alguns momentos parecer que não terá fim ou pelo menos uma trégua. Há dias que pensamos em desistir da batalha, por acharmos que não temos mais forças para lutar, e chegamos a gritar como fez o apóstolo. Mas que não fique apenas no grito, lembre-se das palavras ditas no verso 25-a todas as vezes que isso acontecer.

Por fim, não nos esqueçamos de que o Deus de Paulo, a quem ele rendeu graças, é também o nosso Deus. Louvemos a Ele neste dia por tão grandiosa e graciosa salvação que está adiante, e glorifiquemos o Seu nome, “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória para sempre. Amém!” (Romanos 11.36).

22 anos, de Recife – Pernambuco, membro da Igreja Presbiteriana Memorial do Curado I, Jaboatão dos Guararapes.

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