Deus não abandona sua obra

“Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.” (Jo 10.28)

Com base neste versículo, uma doutrina bíblica pode ser exposta, a saber, a doutrina da Perseverança (ou preservação) dos Santos.

Os Cânones de Dort, depois de discorrer a respeito das dificuldades e falhas dos crentes, no 5º cap. Art. 6, declara: “Deus, que é rico em misericórdia, de acordo com o imutável propósito da eleição, não retira completamente o seu Espírito dos seus, mesmo em sua deplorável queda. Nem tampouco permite que venham a cair tanto, que recaiam da graça da adoção e do estado da justificação. Nem permite que cometam o pecado que leva à morte, isto é, o pecado contra o Espírito Santo, e assim, sejam totalmente abandonados por ele, lançando-se na perdição eterna.” Muitos rejeitam este escrito que, claramente, reflete bem esta doutrina.

Outro documento histórico que sustenta a mesma posição é a Confissão de Fé de Westminster; no seu cap. XVII, I, afirma: “Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas, com toda a certeza, hão de perseverar nesse estado até o fim e estarão eternamente salvos.” Mais uma vez é afirmado que os filhos de Deus, de maneira alguma, poderão cair do estado de graça; que jamais poderão perder a salvação.

Aqueles que contribuíram na formulação destes escritos estavam completamente convencidos que, de fato, o crente, uma vez salvo por Cristo, permanecerá nEle para sempre. Esta verdade era indiscutível para esses irmãos, pois as Sagradas Escrituras afirmam isso; e como bons servos, se submeteram à Palavra e escreveram essas tão belas obras que nos auxiliam bastante na compreensão da doutrina.

Não sei o que você sente ao ler estes versos, caro leitor. Eu, particularmente, todas as vezes que leio, sinto uma paz, uma alegria tremenda e, sobretudo, segurança! Como não sentir-se seguro depois de lê-las? O próprio Jesus de Nazaré garante, ao proferir estas belíssimas palavras, que as Suas ovelhas, ou seja, o Seu povo eleito, redimido e regenerado pelo Seu Santo Espírito, jamais cairão desse estado. Devemos ficar mui alegres, porque Ele nos garante que nossa salvação é certa; e só é certa porque Cristo a garante.

Jesus afirmou que nos deu a vida eterna, e se é vida eterna, não pode ser perdida. Gozamos hoje e gozaremos para sempre, em sua plenitude, a vida que Ele garantiu para o Seu povo. Ele também deixa claro que o Seu povo está livre da condenação vindoura, que jamais pereceremos! Como não saltar de alegria depois de ouvir isso?! O verso finaliza dizendo que ninguém arrebatará Seus filhos das Suas onipotentes mãos. Nenhuma outra palavra deve nos trazer maior segurança do que esta, meus queridos irmãos. O que nos traz mais segurança do que estarmos certos de que Ele nos segura pela mão? Não há pessoa mais confiável que o próprio Cristo. Alegremo-nos e cantemos louvores ao Seu nome por tão grandiosa segurança.

É importante salientar que não somos nós que seguramos a mão de Cristo, é Ele quem segura a nossa. Se fosse o contrário, a perdição seria inevitável, pois não somos capazes de permanecer. Somos seres fracos demais. Só continuamos de pé até o fim porque Deus está conosco e nunca abandona a Sua obra.

Gostaria de concluir o texto com o que diz Herman Bavinck em sua Dogmática Reformada:

“Não é um punhado de textos que ensinam a perseverança dos santos: todo o Evangelho a sustenta e confirma. O Pai os escolheu antes da fundação do mundo (Ef 1.4), ordenou-os à vida eterna (At 13.48), para serem conforme a imagem do sei Filho (Rm 8.29). Essa eleição se mantém (Rm 9.11; Hb 6.17) e, no devido tempo, traz consigo o chamado, a justificação e a glorificação (Rm 8.30). Cristo, em quem todas as promessas de Deus têm o “sim” e o “amém” (2 Co 1.20), morreu por aqueles que lhe foram dados pelo Pai (Jo 17.6, 12) para que pudesse lhes dar vida eterna e não perder um só deles (Jo 6.40; 17.2). Ele, portanto, lhes dá vida eterna e eles nunca serão perdidos, em toda a eternidade, e ninguém os arrebatará de suas mãos (Jo 6.39; 10.28). O Espírito Santo que os regenera permanece eternamente com eles (Jo 14.16) e os sela para o dia da redenção (Ef 1.13; 4.30). A aliança da graça é firme e confirmada com um juramento (Hb 6.16-18; 13.20), inviolável como um casamento (Ef 5.31-32), como um testamento (Hb 9.17); e, em virtude dessa aliança, Deus chama seus eleitos. Ele escreve a lei em seus corações, põe seu temor dentro deles (Hb 8.10; 10.14ss.), não permitirá que sejam tentados além de suas próprias forças (1 Co 10.13), confirma e completa a boa obra que começou neles (1 Co 1.9; Fp 1.6) e os conserva para o retorno de Cristo, quando receberão a herança celestial (1 Ts 5.23; 2 Ts 3,3; 1 Pe 1.4-5). Em sua intercessão diante do Pai, Cristo age de tal forma que a fé dos eleitos não pode falhar (Lc 22.32); que, no mundo, são guardados do mal (Jo 17.11, 20); que eles são salvos para todo sempre (Hb 7.20); que seus pecados são perdoados (1 Jo 2.1); e que todos eles estejam onde ele estiver para verem sua glória (Jo 17.24). Os benefícios de Cristo, que o Espírito Santo lhes comunica, são todos irrevogáveis (Rm 11.29). Aqueles que são chamados também são glorificados (Rm 8.30). Aqueles que são adotados como filhos  são herdeiros da vida eterna (Rm 8.17; Gl 4.7). Aqueles que crêem têm a vida eterna já, aqui e agora (Jo 3.16). Essa vida, sendo eterna, não pode ser perdida. Ela não pode morrer, pois não pode pecar (1 Jo 3.9). A fé é um firme fundamento (Hb 11.1); a esperança é uma âncora (Hb 6.19) que não nos confunde (Rm 5.5) e o amor jamais acaba (1 Co 13.8).”

Amém!

Soli Deo Gloria.

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