Deus não tem por que responder ao homem pelo que faz!

Deus é soberano e faz tudo segundo o conselho inescrutável de Sua vontade. Louvo-O por isso, pois conforto maior jamais se pode ter no coração, senão pela certeza de que o Senhor dirige todas as coisas como quer. Estou convencido de que se o poder estivesse nas mãos dos seres humanos, tudo, absolutamente tudo estaria perdido, porque o homem é mau, corrupto, injusto.

Ao contrário de mim e você, Deus é absolutamente justo, bom e sábio. Ele faz tudo como quer e determinou o fim de cada uma de Suas criaturas do modo que quis. Ele não faz isso movido por um impulso egoísta, ou, como alguns se atrevem a falar, com injustiça. Na verdade, o homem que é injusto! Por ser arrogante e estúpido, longe de entender os mistérios de Deus ao ser finito e ínfimo, ainda assim se atreve, movido por sua arrogância, insensatez e cinismo, a colocar em dúvida a justiça de Deus (Rm 9.19). Paulo, respondendo às perguntas do versículo 19 do capítulo 9 de Romanos, o repreende nos seguintes termos:

“Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.20-21)

Do mesmo modo que, no passado, questionaram a soberania de Deus na predestinação, hoje não é muito diferente. Para muitos, essa questão parece ser absurda. Não foram poucas as vezes que ouvi pessoas falarem, até mesmo no seio da igreja, que Deus seria injusto se condenasse alguns e salvasse outros, estando ambos, tanto aqueles como esses, na mesma condição. Colocar Deus na condição de um tirano ou de um deus injusto não é correto, e não o é pela seguinte razão: o problema está em nós, não nEle.

E mais, jamais esqueçamos que há coisas que são profundas demais e que nossas mentes finitas jamais poderão alcançar ou entender, uma vez que tais coisas pertencem ao Senhor, por isso devemos nos contentar com as coisas reveladas (Dt 29.29). Pois como diz Calvino quando refuta as calúnias de homens que atacavam a doutrina bíblica da predestinação, falando mais precisamente daqueles que tentavam investigar a vontade de Deus, afirma que “se se insiste perguntando por que quis (quando se pergunta por que Deus fez algo de determinado modo), com isso se busca algo superior e mais excelente que a vontade de Deus; o que é impossível de achar. Refreie-se, pois, a temeridade humana, e não busque o que não existe, antes que não ache o que existe. Este, pois, é um freio excelente para reter a todos aqueles que queiram meditar com reverência os segredos de Deus.” (J. Calvino, Instituição da Religião Cristã, Editora Unesp – Edição integral de 1559, tomo 2, p. 403).

Ainda no seu comentário de Romanos, Calvino, opondo-se àqueles que tentavam encontrar na argumentação do apóstolo alguma explicação sobre o secreto conselho de Deus, diz que devemos saber “que Deus deixa de falar-nos, não por qualquer razão, mas pelo fato de saber que sua infinita sabedoria não pode ser compreendida dentro de nossa tacanha capacidade. E assim, apiedando-se de nossa fragilidade, ele nos convida ao cultivo da moderação e da sobriedade.” (J. Calvino, série Comentários Bíblicos, Romanos, Editora Fiel, p. 394).

Mais adiante do capítulo 9 de Romanos, Paulo coloca o homem no seu devido lugar com as seguintes palavras – observe o que ele diz no versículo 21: “Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra?” Neste verso, o apóstolo pega emprestado as passagens bíblicas do livro de Isaías, passagens acerca do oleiro e sua massa de barro, que diz:

“Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça.” (Is 45.9)

Noutro verso é dito:

“Que perversidade a vossa! Como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse ao seu artífice: Ele não me fez; e a coisa feita dissesse do seu oleiro: Ele nada sabe.” (Is 29.16)

Paulo argumenta que aquilo que é modelado não tem direito algum (direito algum!) de se voltar contra o seu modelador, pois aquele que modela tem toda liberdade para fazer com a massa o que ele bem entender. Se o modelador tem o direito de fazer o que desejar com a massa, então, ainda mais, Deus, o Criador, tem o direito de fazer com os seres humanos o que bem quiser. Como acertadamente diz Calvino: “Não há, seguramente, nenhuma razão plausível para um mortal imaginar-se superior a um vaso de barro, quando é ele confrontado com Deus.” (J. Calvino, Série Comentários Bíblicos, Romanos, Editora Fiel, p. 395). Sobre toda a massa podre que se encontra espalhada pela face da terra, Ele tem todo o domínio e, portanto, possui o poder para, dessa mesma massa, salvar alguns (vaso para honra) e deixar os demais (vasos para desonra) permanecerem no seu estado de miséria.

A Confissão de Fé de Westminster e o Catecismo Maior de Westminster declaram:

CFW, cap. III, VII: “Segundo o inescrutável conselho de sua própria vontade, pela qual concede ou recusa misericórdia, como lhe apraz, para a glória de seu soberano poder sobre as suas criaturas, o restante dos homens, para louvor de sua gloriosa justiça, Deus quis não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa de seus pecados.”

(Referências bíblicas: Mt 11.25,26; Rm 9.17-22; 2 Tm 2.20; Jd 4; 1 Pe 2.8)

CM, p.13: “Deus, por um decreto eterno e imutável, unicamente do seu amor e para revelar a sua gloriosa graça, que tinha de ser manifesta em tempo devido, elegeu alguns homens para a vida eterna e os meios para consegui-la; também, segundo o seu soberano poder e o conselho inescrutável de sua própria vontade (pela qual ele concede, ou não, os favores conforme lhe apraz), deixou e predestinou os demais à desonra e à ira, que lhes serão infligidas por causa dos seus pecados, para revelar a glória da sua justiça.”

(Referências bíblicas: 1 Tm 5.21; Ef 1.4-6; 2 Ts 2.13,14; 1 Pe 1.2; Rm 9.17,18,21,22; Jd 4; Mt 11.25, 26)

Tudo deriva da vontade de Deus. Deus é o criador de tudo e, portanto, Senhor de tudo que criou. Todas as coisas pertencem a Ele, e nada do que existe, existe fora dEle. Ele é Deus absoluto sobre tudo e sobre todos! E por ser Senhor soberano, elege alguns para Sua glória e deixa que os demais sigam seu próprio curso para o abismo. Deus não pode ser chamado de injusto porque dá a uns o que nega a outros. Deus não pode ser chamado de injusto por fazer o que quer com o que Lhe pertence. Toda a humanidade é culpada diante dEle, por isso ninguém tem direito à salvação, nem o direito de questionar o seu Criador. Deus não tem por que responder ao homem pelo que faz. O homem deve calar-se diante dEle e reconhecer que não passa de pó. Que aqueles que falam tais coisas fiquem em silêncio diante dAquele que é chamado de Senhor Todo-Poderoso.

O mistério da predestinação, longe de nos tornar pessoas arrogantes, deve nos constranger e fazer de cada um de nós pessoas mais humildes, e mover nossos corações a prestar a Deus uma reverente adoração.

Soli Deo Gloria.

22 anos, de Recife – Pernambuco, membro da Igreja Presbiteriana Memorial do Curado I, Jaboatão dos Guararapes.

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