Você evangeliza?

Nós, que nos declaramos reformados, por muitas vezes temos que nos defender das acusações de sermos hipercalvinistas. Temos constantemente que afirmar que o fato de sermos calvinistas não diminui nosso zelo evangelístico, nem nos torna fatalistas a ponto de afirmar que não temos responsabilidade ou função nenhuma no plano da redenção. Nosso argumento-chave é: “Grandes missionários eram calvinistas! Veja o exemplo de George Whitefield ou mesmo de Calvino, ao enviar missionários para o Brasil!”. O problema é que temos tratado isso como um mero fato histórico com o qual nos defendemos, mas não como um legado. Se considerássemos desta forma, seríamos aqueles que mais evangelizam, que mais teriam zelo pelas almas e que se disporiam a ir.

O que é evangelismo?

Uma pergunta que pode surgir é: “mas o que é evangelismo?” Evangelizar nada mais é que comunicar as boas novas da salvação aos descrentes. É uma definição muito simples, eu sei, mas considere os seguintes aspectos historicamente considerados como os pilares do Evangelho.

Criação: Há um Deus que é Todo Poderoso, bom, santo, eterno e trino. Esse Deus é o nosso criador e é quem mantém a criação desde o início. Sendo Senhor sobre tudo e todos, Ele é capaz de determinar o que podemos ou não fazer; o que devemos ou não ser – é nisso em que o mandamento, dado no Éden para Adão e Eva se baseia.

Queda: O ser humano, até então dotado de livre escolha, decidiu desobedecer a Deus. Essa desobediência nos alienou completamente de Deus, de modo que morremos espiritualmente e agora somos escravos de nossa natureza pecaminosa. Não podemos e nem queremos nos relacionar com Deus; somos incapazes de realizar obras boas ou puras. Tudo que sai de nós está corrompido pelo que nós somos: pecadores. Por natureza, estamos destinados à condenação eterna, porque nosso pecado é maior que possamos imaginar: é uma afronta cósmica!

Redenção: No entanto, por Sua pura graça e livre vontade, Deus providenciou uma saída. Jesus encarnou, mantendo sua natureza divina, para que pudesse ser o justo e o justificador. Ele perdoou pecados porque Jesus, enquanto Deus, foi a parte ofendida por eles. Ele morreu porque Jesus, enquanto homem, era o único o Homem poderia pagar eficazmente pelos pecados realizado pelo homens. A obra realizada por Ele requer dos pecadores arrependimento e fé. Precisamos sentir a tristeza pelos nossos pecados e abandoná-los. Mas só a fé é o meio para que recebamos a Cristo. Não é “fé + obras”, mas apenas fé. Cremos que Ele nos declarou justos perante o Pai, então descansamos na obra dEle e buscamos ter uma vida piedosa por gratidão, amor e arrependimento.

Consumação: Aqueles que crerem em Cristo, sendo assim justificados por Ele, serão salvos da condenação e ainda nessa vida serão mantidos por Ele na fé. Aqueles que permanecerem descrendo, serão condenados.
O inferno não é injusto, mas nosso “próprio lugar”. Se Deus decidisse não salvar ninguém e permitir que todos fossem para o inferno, ele permaneceria sendo Justo e Bom, porque ele não tem o dever de salvar ninguém, mas o faz por amor a Ele mesmo.

Evangelizar é contar a história completa. Não podemos falar para alguém que ele está condenado sem falar o porquê disso; nem falar da salvação sem deixar claro de que estão sendo salvos; nem falar que como essa pessoa pode ser salva sem deixar claro quem é Cristo; e nem falar de novo nascimento sem deixar claro que, se Deus é capaz de criar do nada, é capaz de recriar o homem.

Por que evangelizar?

Evangelizar faz parte das boas obras para as quais fomos preparados (Ef 2.10). É natural ao crente proclamar o seu Senhor, porque somos embaixadores (2 Co 5.20). É uma ordem dada pelo próprio Cristo (Mt 28.19) e mostra que amamos a Ele (Jo 14.15). É claro que há mais motivos, mas isso deveria ser suficiente para termos uma visão de que, se não estamos fazendo, devemos nos arrepender, isto é, lamentar nosso pecado e passar a agir da forma que Deus determinou que fizéssemos.

Como evangelizar?

O evangelismo tem várias facetas igualmente válidas, mas defendo que ele é essencialmente falar. Não se trata de “evangelizar com a vida”, mas de proclamar as boas novas da salvação. Não estou minimizando o ter um bom testemunho (é óbvio que isso é necessário e que abre portas para que falemos), mas isso não é evangelismo – como você ensina propiciação, redenção e justificação através da sua vida?

Quanto a métodos, gosto do ensinado por Paulo: “Como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar, e ensinar publicamente e pelas casas (Atos 20.20). Isto é, ele evangelizava pessoal e publicamente. Essa é definitivamente uma formulação bíblica e, portanto, algo que deve ser considerado enquanto pensamos em como fazer o evangelismo.

Um encorajamento para evangelizar

Trarei um testemunho pessoal. Faço parte de um grupo que evangeliza, semanalmente, na minha universidade – em uma mais áreas mais difíceis: nos prédios de ciências humanas. Esse grupo existe há cerca de 5 anos, e tivemos duas conversões durante o evangelismo. Muitas vezes sequer aceitaram ficar com literaturas – aqueles panfletos com versículos e reflexões bíblicas. Houve vezes em que fomos chamados de machistas, homofóbicos e até cigarros de maconha já nos ofereceram. Acho que muitos devem estar pensando, ironicamente, que este é um belo encorajamento.

No entanto, esse testemunho não tem como objetivo dizer que você terá grandes resultados numéricos ou que você será honrado. Essa  não é a função do evangelismo. O objetivo do evangelismo é a glória de Deus (1 Co 10.31). É claro que queremos enxergar os resultados, mas é possível que Deus,  graciosamente, não nos permita ver isso. Ele sabe o porquê. Mas nosso objetivo deve ser glorificar a Deus sendo bíblicos na mensagem passada, amando as pessoas que serão evangelizadas e obedecendo a um mandamento expressamente dado na Palavra de Deus.

“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes,
sempre abundantes na obra do Senhor,
sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.”

1 Coríntios 15.58

24 anos, paulista semi-pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Areias, estudante de Engenharia Química e noiva de Fábio. Trazida, mantida e confirmada por Cristo.

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