Carta aberta aos pastores

Querido Pastor,

Antes de tudo, quero que saiba que lhe escrevo com amor, como sua irmã em Cristo e como quem crê que nosso entendimento deve ser renovado a cada dia através das Escrituras.

Sabe, Pastor, gostaria de ter conversado com o senhor sobre a Palavra de Deus, a mesma que cremos que é viva e eficaz, que transforma vidas e que é usada pelo Santo Espírito para fazer a fé brotar em corações incrédulos. Esta tem sido negligenciada e domesticada em nossos púlpitos e isso deveria encher nossos corações de tristeza.

Nesse cenário de negligência, surge a tendência que faz muitos acreditarem que a emoção é a melhor ferramenta para levar ímpios à conversão. Mas essa “estratégia”, Pastor, é um perigo: ela nos afasta daquilo que é ensinado nas Escrituras, que nos diz que a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Rm 10.17). Ou seja, a fé não vem através das histórias da vida de um pregador sendo expostas, ou de uma música de fundo atrelada a experiências pessoais. A fé vem pela Palavra de Deus quando aberta, estudada, lida, compreendida, apresentada – com amor e verdade – através de uma pregação expositiva, que permite que o homem não fale de si, mas que testemunhe aquilo que lhe foi revelado através da doce Escritura.

Lembro-me do exemplo de Paulo que, segundo a revelação bíblica, saía anunciando o Evangelho de Cristo: era necessário que Este padecesse, mas ressuscitasse ao terceiro dia para que pudéssemos ter vida eterna (At 17.02,03). Da mesma forma, a nossa pregação hoje deve testemunhar desse Cristo que morreu por seres depravados que carecem da graça salvífica! E assim como o Senhor abriu o coração de Lídia para entender o que Paulo dizia, Ele abrirá o coração de outros para ouvirem a sinceridade do Evangelho. Cristo não nos ama simplesmente pelo que nós somos, Ele nos ama apesar do que nós somos, e esconder essa verdade pode ser mortal! A sua igreja tem sofrido com pregações que só fazem crescer o ego, que trazem ideias de autoajuda e que não nos levam a reconhecer quem realmente somos diante de Deus. A Palavra não tem sido dada como alimento e suas ovelhas estão perecendo em suas próprias concepções (Ez 34.01-06). Isso nos enfraquece e nos leva a compreensões equivocadas sobre Evangelho.

Escrevo-lhe, querido Pastor, por ver a sua sinceridade em pregar em muitos púlpitos com o objetivo de apresentar Cristo a outros, mas fazer isso sem as Escrituras, ou as colocando como plano de fundo de cinco ou seis histórias pessoais usadas como ilustração quando a Palavra traz a maior de todas as histórias da humanidade, é muito perigoso! Muitos podem levantar ao seu apelo, mas só permanecerão de pé se forem apresentados verdadeiramente à Palavra, porque ela é usada pelo Espírito Santo para quebrar e reconstruir corações. E como serão apresentados a essa Palavra se não há quem a pregue fielmente? Como ouvirão que precisam se arrepender de seus pecados se apenas lhes falam que são amados por Deus e que Ele é a solução de todos os nossos problemas? Sabemos que não é apenas isso que deve ser dito ao chamar pecadores ao arrependimento, e seremos culpados perante Deus se apresentarmos um falso evangelho ou um evangelho incompleto aos nossos irmãos! Por causa de Cristo eles serão perseguidos, serão atormentados. Mas só por causa de Cristo eles poderão viver eternamente e por isso devemos ensiná-los a glorificar a Deus com suas vidas!

Por isso, Pastor, com o coração inquieto lhe escrevo hoje. Deus tem lhe dado a oportunidade de testemunhar nos mais diversos lugares, por isso, convido-o a não perder mais oportunidades e permitir que as Escrituras falem no lugar de suas histórias! Sem sentimentalismo, sem omissão de verdades, sem medo de chocar os outros (o Evangelho é um choque por si só, é sobre um Deus santo morrendo por pecadores indignos – Rm 5.8), sem medo do que pensarão, sem medo se aceitarão ou não, já que isso não mais depende do senhor.

“O profeta que tem um sonho conte o sonho; e aquele que tem a minha palavra, fale fielmente a minha palavra. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor.” (Jr 23.28)

Nós temos a Palavra que é viva e eficaz. Nós temos a benção de ter a Revelação de Deus disponível em nossas mãos… por que não pregá-la de forma fiel? Se continuarmos nos distanciando das Escrituras, Pastor, em breve não teremos muitas diferenças dos movimentos neopentecostais que crescem em número alarmante em nosso país. Paulo ainda nos lembra que:

“E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (1Co 2.1-5)

A pregação é poder de Deus, Palavra de Deus! Insisto, com amor, que não deve ser sobre nossas experiências de vida, mas deve ser sobre Cristo, a âncora de nossa alma! Apenas pela “pregação da fé”, o mesmo Espírito que ressuscitou Cristo agirá em nós e seremos chamados filhos de Deus (Gl 3 e Rm 8).

Querido Pastor, não tenho dúvidas que o senhor é um servo sincero do Senhor e por isso lhe escrevo hoje pedindo, de coração, que não se afaste das Escrituras, e que possa pregá-las em toda e qualquer oportunidade, com intrepidez, chamando pecadores ao arrependimento! Esse foi o seu principal chamado. Lembre-se, não existe conversão genuína sem Evangelho, não existe crescimento saudável de igreja sem Evangelho. É disso que as Escrituras falam e é isso que devemos anunciar ao mundo todo.

Que o Senhor molde nosso entendimento com a Sua verdade e que a Sua misericórdia não se aparte de nós. Que Ele guie seus caminhos, proteja seu coração e o guarde em Seu amor.

Escrevo-lhe na certeza de que muitos conhecerão o verdadeiro Evangelho, tendo sido o senhor, Pastor, usado como instrumento pelo Espírito Santo.

Com respeito,

Regina Braga.


Texto de autoria de Regina Braga
Disponibilizado ao Jovem Reformado via Alicia Catarina.

24 anos, paulista semi-pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Areias, estudante de Engenharia Química e noiva de Fábio. Trazida, mantida e confirmada por Cristo.

2 comentários em “Carta aberta aos pastores

  1. Um dia, humildemente fui dizer algo extremamente semelhante a isso ao meu antigo pastor, mas não fui bem compreendido. Que Deus retire dos nossos pastores o orgulho e lhe dê disposição para escutar e compreender até a mais humilde ovelha do rebanho que Deus lhe confiou. Ótimo texto!

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