Reforme sua reforma

“Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios.”

(Rm 12.10 – NVI)

Não nasci dentro de uma comunidade reformada, minha família é de tradição cristã católica e fui educado dentro desse padrão. Não cresci lendo Calvino e Lutero, Karl Barth e Spurgeon, Piper ou Washer. Na verdade, apenas depois de quase dois anos de convertido que conheci a doutrina reformada. Foi uma longa época em minha vida até que, de fato, pude me considerar um cristão reformado. Não é algo que acontece em apenas um final de semana, leva tempo. E ser reformado vai além do que apenas defender um sistema doutrinário.

Digo isso porque tenho notado um crescimento do “calvinismo” entre os jovens evangélicos dentro das redes sociais. Friso o “calvinismo” porque a maioria desses jovens parecem estar equivocados em relação ao que defendem.

Essa geração tem confundido o “ser reformado” com defender o calvinismo e  “zoar o arminianismo”, se opor a teologia da prosperidade e falar mal de cantor gospel. E só. A falta de humildade é gritante. O desrespeito pelo próximo também. Parecem nunca terem lido sobre reforma.

Aprendi com J. I. Packer  algo muito legal sobre os Puritanos. Estes não usavam o termo reformado apenas para designar um limite no aspecto exterior da ortodoxia, na ordem, nas formas de culto e códigos disciplinares da igreja, mas também para apontar renovação.

J. I. Packer, na apresentação do livro Santos no Mundo, escrito pelo Leland Ryken, cita algo muito interessante sobre o assunto:

“Na página de título da edição original de The Reformed Pastor (traduzido para o português sob o título de O Pastor Aprovado – PES), de Richard Baxter, a palavra  ‘Reformado’ foi impressa com um tipo de letra bem maior do que as outras; e não se precisa ler muito para descobrir que, para Baxter, um pastor ‘reformado’ não era alguém que fazia campanha pelo calvinismo, mas alguém cujo ministério como pregador, professor, catequista e modelo para o seu povo demonstrasse ser ele, como se diria, ‘reavivado’ ou ‘renovado’. A essência deste tipo de ‘reforma’ era um enriquecimento da compreensão da verdade de Deus, um despertar das afeições dirigidas a Deus, um aumento do ardor da devoção, e mais amor, alegria e firmeza de objetivo cristão no chamado e na vida de cada um. Nesta mesma linha, o ideal para a igreja era que por intermédio de clérigos ‘reformados’ cada congregação na sua totalidade viesse a tornar-se ‘reformada’ – trazida, sim, pela graça de Deus a um estado que chamaríamos de reavivamento sem desordem, de forma a tornar-se verdadeira e completamente convertida, teologicamente ortodoxa e saudável, espiritualmente alerta e esperançosa, em termos de caráter sábia e madura, eticamente empreendedora e obediente, humilde mas alegremente certa de sua salvação.”

Espero que nós, cristãos brasileiros, estudemos, sim, a reforma e os reformadores, mas que  não seja motivo para nos sentirmos superiores aos irmãos que não compartilham dos mesmos pensamentos teológicos.

Conta John Piper, que anos atrás, apresentou em sua igreja uma série de sete mensagens sobre Romanos 8.28-30:

“Até então, em nossa igreja, onde estava por 5 anos, não tivemos nenhuma discussão sobre o assim chamado calvinismo. Nenhuma discussão sobre essa tema controverso. Só tentei ser fiel aos textos bíblicos, para ter confiança do povo de Deus. Eles não queriam ouvir só sobre sistemas. Eles queriam ouvir da Bíblia. É isso o que eles devem ouvir aqui. Queria que confiassem que sou um homem da Bíblia, não sou um homem de sistemas.”

E é isso que venho pedir aqui. Que sejamos jovens bíblicos, não apenas de sistemas. Desejo que com a mesma aptidão que dispomos a nos posicionar como calvinistas, que venhamos nos dispor a amar como cristãos. Que tratemos nossos semelhantes com respeito e humildade. E não estou falando em se calar diante de heresias, pois exortar e corrigir faz parte do ato de amar. Estou falando em respeitar os irmãos da fé que seguem linhas teológicas distintas.

E pra encerrar, deixo aqui o comentário de João Calvino sobre o versículo do início do texto, Romanos 12.10:

“Não há palavras suficientemente eloquentes com as quais Paulo pudesse expressar o ardor daquela afeição que deve impulsionar-nos ao amor recíproco. Ele se refere a esse sentimento como sendo amor fraternal, e diz que o mesmo produz uma afeição muitíssimo cândida, que em latim significa aquele amoroso respeito que existe no seio da família. Este, sem dúvida, deve ser o tipo de amor que conferimos aos filhos de Deus. Com este propósito em vista, ele adiciona um preceito que é de extrema necessidade caso o bem deva triunfar, ou seja: que cada um deve preferir, em honra, a seu irmãos. Não há veneno mais letal para arrefecer as afeições do que alguém imaginar-se menosprezado. Não questiono muito se os leitores preferem esta honra no sentido de toda sorte de bondade, mas prefiro a primeira interpretação. Como não há nada mais contrário à harmonia fraternal do que o desdém que nasce do orgulho, quando alguém tem os demais em menos estima do que a si próprio, assim a modéstia, pela qual cada um traz honra aos demais, nutre muito mais o amor.”

Que a graça do Senhor esteja conosco.

22 anos, nordestino da Paraíba, membro da IPBE (Igreja Presbiteriana do Bairro dos Estados), casado com a Narayanne e estudante de Gestão Comercial. Um rapaz que acredita que as duas maiores realizações de um homem são: Ser um ótimo marido e um bom pai.

3 comentários em “Reforme sua reforma

Deixe uma resposta