Não foi com Marx que aprendi a repartir o pão

Como em qualquer lugar que venhamos a andar, é bom prestar bem atenção aonde pisamos. E, como cristãos, devemos estar sempre calçados com o Evangelho da Paz (Efésios 6:15), pois não sabemos dos espinhos no caminho.

Quando falamos de Marx, já se espera uma enxurrada de comentários defendendo a “religião” por ele estabelecida. O cujo dito, de fato, tem fiéis ferrenhos. Meu objetivo com este texto é simples: manifestar meu compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo, excluindo completamente a necessidade, em minha vida, do evangelho de Karl Marx.

Existe uma teologia no Brasil chamada de Teologia da Missão Integral (TMI), cujos precursores e seguidores fazem uma espécie de junção entre Evangelho do Reino de Deus e o marxismo. Seus seguidores amam a ideia política de que o Estado é um pai, o qual este tem o dever de suprir qualquer necessidade de toda a sociedade. Coisa que é completamente incabível. Seu discurso inicial era o de que o pobre precisava ser alimentado. Contudo, hoje muitos desses tendem a defender doutrinas completamente contrárias ao Evangelho que conhecemos: ideologia de gênero; um estado que governa todas as áreas da vida humana, excluindo a liberdade do indivíduo; feminismo; aborto; e muitas outras práticas absurdas.

Me detenho aqui a falar somente sobre a necessidade de alimentar o pobre. Talvez esse seja o único ponto em que eu concorde com a TMI. Vale ressalvas. Me espanta o fato que de algum cristão primeiro precise conhecer Marx para depois se preocupar com nossa pobreza social. Afinal, quem alimentou mais de cinco mil pobres com cinco pequenos pães e dois peixes? (Mateus 14:17). Marx alimentou quem mesmo?

A Bíblia e sua relação com o pobre

Basta abrirmos nossas bíblias e logo encontraremos diversas passagens com as quais Deus, através de seus escritores, demonstra preocupação com o pobre, a necessidade de ajudá-lo e o alerta contra o enriquecimento ilícito. Vejamos o antigo testamento:

“Nunca deixará de haver pobres na terra; é por esse motivo que te ordeno: abre a mão em favor do teu irmão, tanto para o pobre como para o necessitado de tua terra!” (Deuteronômio 15:11)

“Ora, não chorava eu por causa dos que passavam necessidades? Quantas vezes minha alma se angustiou pelos pobres e aflitos?” (Jó 30:25)

“Mas os necessitados jamais serão esquecidos, nem será frustrada a esperança dos pobres e humildes.” (Salmos 9:18)

“Que ele faça resplandecer o direito dos oprimidos, salve os filhos dos pobres e esmague o opressor!” (Salmos 72:4)

Não são passagem claras o suficiente para entender que não foi Marx quem primeiro se “preocupou” com os pobres, ou melhor, oprimidos? Quando observamos o ministério de Jesus Cristo no novo testamento, logo notamos sua relação com o pobre. Uma relação de cuidado e amor:

“Então Jesus dirige-se ao que o havia convidado e lhe exorta: ‘Quando deres um banquete ou um jantar, não convides os teus amigos, irmãos, ou parentes, nem teus vizinhos ricos; se assim procederes, eles poderão, da mesma maneira, convidar-te, e desta forma sempre serás re-compensado. Pelo contrário, ao dares uma grande ceia, convida os pobres, os deficientes físicos, os mutilados e os que não podem ver.’” (Lucas 14. 12-13)

Jesus mostra a necessidade de olhar o pobre com piedade e seus discípulos seguem seu exemplo:

“Entrementes, havia em Jope uma discípula chamada Tabita, que em grego significa Dorcas; que se dedicava ao ministério de boas obras e ajuda financeira aos pobres.” (Atos 9:36)

“e ordenou-me: ‘Cornélio, Deus ouviu tua oração e lembrou-se de tuas ajudas aos pobres.” (Atos 10:31)

E assim foi o incio da igreja cristã

“Eles perseveravam no ensino dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. E na alma de cada pessoa havia pleno temor, e muitos feitos extraordinários e sinais maravilhosos eram realizados pelos apóstolos. Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam o produto entre todos, segundo a necessidade de cada um. Diariamente, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus por tudo e sendo estimados por todo o povo. E, assim, a cada dia o Senhor juntava à comunidade as pessoas que iam sendo salvas.”
(Atos 2:42-47)

Nunca foi dever da igreja erradicar a pobreza do mundo. Na verdade, os pobres sempre estarão entre nós (Mateus 26:11). O trabalho principal dado a igreja é pregar o Evangelho (Mateus 28:16-20) e não é nada justo chamar de integral uma missão que põe de lado o Evangelho e exalta uma doutrina humana.

É muito fácil abraçar uma causa “politicamente correta”, gritar contra injustiça social, enquanto indiretamente clama por mais poder ao Estado. Ignorando o fato de que em países onde os governos eram maiores, maior era a pobreza. Os discípulos nunca precisaram ser forçados a prestarem solidariedade uns aos outros, já que tudo era feito por espontânea vontade e amor. Difícil mesmo é pregar o Evangelho, é bater de frente contra ideologias explicitamente satânicas. Difícil foi morrer apredejado, crucificado, sofrer humilhação por causa de um Homem que pregava o amor ao pobre, mas ao mesmo tempo dizia um basta ao pecado.

É muito fácil viver esse cristianismo politicamente correto, diluído em mentiras, abraçando uma ideologia contrária aos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos. Teologia disfarçada de cuidado ao pobre, mas que prega poder ao Estado.

Quero que fique claro que não estou julgando as pessoas que fazem parte da TMI, que se sentem confortáveis em compartilhar um pensamento político de esquerda. Minha crítica é contra a ideia marxista. E, ainda, peço que leiam Marx, que não o ignorem, mas o entendam e analisem por si mesmos se ele é importante em suas vidas. É muito importante que façamos da piedade uma prática constante em nossa trajetória cristã. A igreja cristã primitiva foi um exemplo de que Marx e seus “seguidores de iPhone” não estão tão preocupados assim com o cuidado ao pobre, ao proletário, ao oprimido pela sociedade. Existe um abismo entre a prática e o discurso. A igreja cristã se destacava pela prática, enquanto, simultaneamente, pregava o Evangelho. Os discípulos de Marx não ganham nem no discurso.

Concluo com as palavras do Puritano Williams Ames:

“O amor a Deus não pode subsistir… sem caridade em relação a nosso vizinho”.

Que Deus seja louvado.


SUGESTÃO DE LEITURA

Santos no mundo: os puritanos como realmente eram / Leland Ryken; [tradução João Bentes]. — 2. Ed. – São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013.

3 comentários em “Não foi com Marx que aprendi a repartir o pão

  1. Bom, vou discordar, mas com desejo sincero de enxergar a verdade, então tô aberta a resposta também. Eu já tinha escutado sua posição outras muitas vezes, mas não tive oportunidade para debater melhor com as pessoas que disseram isso.
    A questão é: Ok. É dever da igreja e não precisa de Marx pra isso. Mas, o alcance e tipo de assistência que a igreja pode dar é diferente daquela que o estado pode dar.
    A igreja não pode oferecer saúde pública, por exemplo. Não é somente uma questão de alimento. Então o estado torna-se necessário.

    1. Olá, Giovana, tudo bem?

      Olha, a princípio, o objetivo do texto foi expor apenas que, enquanto cristãos, não precisamos de Marx para aprender a ajudar ao pobre, pois a Bíblia já nos exorta o suficiente sobre isso.

      Eu acredito sim que o Estado foi estabelecido por Deus (Rm 13:1) e que, em algumas áreas da vida humana, ele tem que exercer suas funções: Segurança pública, por exemplo (Rm 13:3). O problema é meter o Estado em áreas demais, em âmbitos da vida em que devemos ter a liberdade individual: educação dos filhos, liberdade econômica, propriedade privada, etc.

      Não quero a extinção do Estado, isso seria anarquia, que é anti-bíblico. Quero apenas um estado mínimo, liberdade.

      Se quiser conversar um pouco mais, estamos à disposição.

      Deus te abençoe.

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