O que é justificação?

“Portanto, havendo sido justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio do nosso SENHOR Jesus Cristo.” (Romanos 5:21)

É difícil hoje em dia falar desse assunto sem confundi-lo com os demais aspectos da obra de Cristo. Geralmente, o que se faz é misturar os conceitos, por exemplo, santificação com justificação. Aparentemente isso pode soar como um erro inofensivo, todavia, pode resultar em sérios problemas no entendimento sobre como as coisas funcionam no processo de salvação que envolve tanto a redenção já feita pelo sacrifício de Cristo, quanto aquilo que cabe a nós como eleitos segundo a boa vontade do SENHOR Deus e Pai. Não é certo dizer que há algum tipo de colaboração do crente nesse processo, mas é nítido na Escritura que agora, como salvo na pessoa de Cristo, o cristão deve lutar contra as inclinações de seu coração, que ainda guarda restos da corrupção: a isso chamamos de santificação.

O erro quanto à confusão desses dois conceitos ocorre pelo fato de que a justificação é algo estanque, ou seja, aconteceu uma única vez; a saber, na ressurreição de Cristo e não tem nenhum processo onde isso é aperfeiçoado. Pensar o contrário disso, ou seja, que a justificação se dá gradativamente, implicaria dizer que, para a salvação, deve haver uma colaboração do crente. Esse procedimento (que é aplicado pelo Espírito) conduz o crente a ser aperfeiçoado com o fim de se parecer mais e mais com Cristo.

Devemos, a partir daqui, conceituar melhor o que é justificação, pois cremos que com isso teremos uma melhor visão dela, e poderemos captar o teor do que significa.

A confissão de fé de Westminster, em seu 11º capítulo no parágrafo I, conceitua a justificação da seguinte maneira:

“Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas. Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideração da obra de Cristo; não lhes imputando como justiça a própria fé, o ato de crer ou qualquer outro ato de obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, que não têm de si mesmos, mas que é dom de Deus.” Rom. 8:30 e 3:24, 27-28; II Cor. 5:19, 21; Tito 3:5-7; Ef. 1:7; Jer. 23:6; João 1:12 e 6:44-45; At. 10:43-44; Fil. 1:20; Ef. 2:8. [1]

É perceptível que, predominantemente nesse conceito, há uma ideia que assume todo o peso do que vem a ser justificação: a representatividade de Cristo em relação a seus eleitos. Nisso se baseia a justificação; exclusivamente por meio de Cristo, em quem somos justificados e aceitos. Todavia, para que isso faça melhor sentido, devemos entender o que justificação significa nos termos da salvação.

As palavras utilizadas para descrever alguém como justo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, possuem um teor forense ou jurídico. A imagem que está por trás da utilização dos termos é de alguém que, diante de um tribunal, foi considerado justo ou de conformidade com a lei. Observe que não se quer dizer com isso que a pessoa de fato não cometeu nenhum crime, pois, quando olhamos para nós mesmos, fica evidente que somos culpados devido a nossos atos pecaminosos, mas, como a decisão de um júri ou de um juiz, fomos considerados limpos e sem nenhuma falta para com a justiça, pois agora já não há mais nada que devamos.

Aqui entra o papel de Cristo. Só somos justificados devido às obras de Cristo, que pagou nossos pecados diante do Pai. Um dos termos que é usado para se referir a Cristo com relação a sua obra é “redentor”, e a significância dessa palavra pode também nos ajudar a compreender o que é justificação. No Antigo Testamento, esse termo era utilizado para classificar alguém que pagou a dívida de outro que não poderia fazê-lo. Se alguém adquirisse um débito ou se tornasse devedor por alguma razão e não pudesse quitar a dívida, ele esperaria que alguém com posses pudesse fazê-lo livrando-o do débito. Uma situação que ilustra bem o significado desse termo é o que acontece a Rute, quando Boaz quita sua dívida. Naquele momento, Boaz foi o redentor de Rute, que agora era considerada justificada de sua culpa.

Em Romanos 3:20, podemos entender que a justificação não vem por nossas obras. O próprio apóstolo Paulo afirma que ninguém é tido por justo diante de Deus por ter obedecido à lei. Nossa salvação não é garantida por meio de um legalismo que nos força a viver num padrão de vida inalcançável, pois essa graça não nos foi outorgada com o fim de nos oprimir através da constatação de que não poderemos atender à expectativa divina quanto a santidade. Mas como diz João Calvino: “quando os santos confirmam sua fé com sua justificação e tomam dela motivo para alegrar-se, não fazem outra coisa senão compreender pelos frutos de sua vocação que Deus os tem adotados como filhos [2]”.

Entendido isso, podemos já daqui compreender em que termos a justificação ocorre e como podemos compreender aquilo que aconteceu conosco diante do Pai. Tínhamos todos uma dívida para com Deus, transgredimos toda a sua lei e estávamos em um estado de inimizade contra Ele. Deus é santíssimo, pura luz e justiça, e nós estávamos imersos em pecado, em outras palavras, um não poderia viver na presença do outro, porque Deus não pode nem tem qualquer relação com o pecado. E nós não poderíamos jamais ter qualquer contato com Ele devido a nossa incapacidade e, além disso, não queríamos a justiça a santidade ou mesmo a salvação que Ele proporciona. Cristo, então, paga a dívida que só poderia ser quitada com a morte daquele que praticou o crime, somente assim a ira do Pai passaria de sobre seus eleitos. Tendo feito isso, agora, somos todos considerados justos porque Jesus teve condições de fazê-lo com perfeição em nosso lugar.

Agora, como justificados, temos paz com Deus. Antes, o Criador estava contra nós e nós contra Ele em ações pecaminosas. Mas agora, como disse Paulo no texto citado no início, podemos descansar em Cristo e desfrutar de todos os benefícios que sua obra proporciona para seus eleitos, principalmente, a alegria da salvação. No versículo 7 e 8 do mesmo capítulo, temos uma mensagem de consolo. Ninguém mais poderia fazer a obra que Cristo realizou com o fim de nos justificar, pois em nenhuma outra pessoa poderia ser encontrado tamanho amor, pois Cristo morreu em nosso benefício enquanto ainda andávamos no pecado.

Grande é a obra de Deus por meio de seu filho unigênito a nosso favor. Grandes coisas fez o SENHOR por nós e por isso estamos alegres. Nessa certeza deve repousar o cristão, que embora seja ainda falho, tenha ainda erros e cometa pecados, ele está fiado nas obras de Cristo Jesus, que são eternas e irrevogáveis. Somos justos em Cristo e isso traz consigo a boa nova de que um dia estaremos com Ele em pleno gozo. Confiemos em nossa justificação e aguardemos em santificação o dia de Cristo.

Cristo Triunfa!


REFERÊNCIAS

[1] Confissão de Fé de Westminster – 17ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 112, capítulo XIII, parágrafo II;

[2] Instituição da Religião Cristã – João Calvino, Felire, 2013, livro III, Capítulo XIV, p. 607.

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