O sofrimento do homem e o sofrimento de Deus

Estamos cercados por falsos mestres que insistem que não podemos aceitar o sofrimento de forma alguma. Dizem que, se você é cristão, merece ter uma vida cheia de prosperidade financeira, ignorando o sofrimento ao ponto de dizer que é diabólico. Mas será que é assim mesmo?

Quando olhamos para as Escrituras Sagradas, nós vemos o apóstolo Paulo dizendo que aquele que quer viver piedosamente em Cristo sofrerá perseguições (2 Tm 3.12). Concluímos, pois, que todo cristão deve esperar coisas ruins deste mundo que rejeitou a Jesus Cristo. Se o próprio Deus, na pessoa do Filho, sofreu – e muito – o que se diria de nós? Os próprios discípulos do Senhor deram provas disso, muitos sendo atordoados e até mortos de maneiras trágicas. Estevão apedrejado, Paulo provavelmente decapitado e Pedro crucificado de cabeça para baixo são exemplos disso. Existiram muitos homens e mulheres de Deus que morreram queimados por não abrir mão do verdadeiro Evangelho; nós temos muitos relatos desse tipo na história.

É um fato incontestável, então, biblicamente falando, que o convite básico de Cristo aos seus discípulos inclui um convite ao sofrimento voluntário (Mt 16.24-25). Precisamos entender que às vezes as nossas aflições são castigos disciplinadores da parte de Deus. E não podemos achar isso ruim. Um grande homem de Deus certa vez disse que a disciplina é uma benção de Deus e um testemunho do Seu amor. O reformador Martinho Lutero entendia isso muito bem, visto que certa vez ele disse que a aflição era o melhor livro de sua biblioteca.

Muitas vezes quando estamos passando por momentos extremamente difíceis de sofrimento ou quando conhecemos alguém que está, pensamos no nosso íntimo: “Como Deus pode permitir isso? Como Ele pode olhar pra isso e não fazer nada?”. Muitas vezes pensamos que Deus não se importa com isso, achamos que Ele é indiferente a isso. Pensamos até que Ele nos abandonou.

Sem dúvida esse é um dos temas mais polêmicos que os cristãos apresentam alguma dificuldade de explicação. Tendo consciência disso, e sabendo da complexidade do assunto, observando filosoficamente e teologicamente, não proponho aqui respostas para perguntas controversas, mas uma reflexão cuidadosa numa breve leitura, mesmo que resumida, de uma peça teatral com o nome “The Long Silence” (O silêncio prolongado), que nos conta, de maneira prática, uma história que envolve o sofrimento humano e o sofrimento do ser mais perfeito do universo, a saber, Jesus Cristo, o Deus que se fez carne, habitando com a humanidade e partilhando de experiências dolorosas.

A obra diz:

“No fim dos tempos, bilhões de pessoas estavam espalhadas em uma grande planície, diante do trono de Deus. A maioria recuou diante da luz brilhante diante deles. Mas alguns grupos perto da frente debatiam acaloradamente – não se curvando, envergonhados, mas com beligerência.
‘Deus pode nos julgar? Como ele pode conhecer o sofrimento?’ perguntou ríspida, uma jovem morena, petulante. Rasgou, em um gesto rápido, sua manga para revelar um número que nela fora tatuado em um campo de concentração nazista. ‘Sofremos terror […] surras […] tonturas […] morte!’
Em outro grupo [um menino afro-americano] abaixou o seu colarinho. ‘O que vocês dizem disto?’ exigiu saber, mostrando uma feia queimadura feita por uma corda. ‘Linchado […] por nenhum crime, mas por ser negro!’. Em outra aglomeração, uma garota grávida, com olhos mal-humorados. ‘Por que eu tinha que sofrer?’ murmurou. ‘Não foi culpa minha.’
Estendendo-se por uma grande distância pela planície afora, havia centenas desses grupos. Cada um deles tinha uma queixa contra Deus por causa do mal e do sofrimento que Ele permitia no mundo. Como Deus era sortudo por morar lá no céu, onde tudo é doçura e luz, onde não há choro nem medo, não existe fome nem ódio. O que Deus sabia a respeito de tudo quanto a espécie humana tinha sido obrigada a sofrer nesse mundo? Afinal, diziam, Deus tem uma vida bem protegida.
Assim, cada um desses grupos enviou seu representante, escolhido por ser aquele que mais sofrera. Um judeu, um negro, uma vítima de Hiroshima, um artrítico horrivelmente deformado, uma criança malformada. No centro da planície, fizeram consultas entre si. Finalmente, estavam prontos para apresentar a sua causa. E isso com bastante astúcia. Antes de Deus poder ser qualificado para ser juiz deles, precisaria suportar o que eles mesmo tinham suportado. Sua decisão foi que Deus fosse sentenciado para viver na Terra – como homem!
‘Que nasça judeu. Seja duvidada a legitimidade do seu nascimento. Seja-lhe dado um trabalho tão difícil que até mesmo a sua própria família vá pensar que, quando tentar levá-lo adiante, ficou enlouquecido. Seja ele traído pelos seus amigos mais íntimos. Seja colocado diante de acusações falsas e processado diante de um juri já montado contra ele, e condenado por um juiz covarde. Que seja torturado. No fim de tudo isso, que ele experimente o que significa estar terrivelmente sozinho. Que morra de uma maneira que não deixe dúvidas quanto à sua morte. Que haja uma grande multidão de testemunhas para confirmar o fato.’
À medida que cada líder proclamava a sua parte de sentença, aclamações audíveis de aprovação subiam da multidão de pessoas ali reunidas. E depois de o último deles ter acabado de declarar a sua sentença, houve um silêncio prolongado. Ninguém falou mais palavra alguma. Ninguém se mexeu. Isso porque, de repente, todos tomaram consciência de que Deus já cumprira a sua pena.”

Escrito por Lucas Machado da Nóbrega

25 anos, paraibano, membro da Comunidade Reformada Evangelho do Reino, estudante de Ciências Contábeis por profissão, estudante de Teologia por paixão. Alguém que ama as Doutrinas da Graça e o seu ensino.

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