O Achamento do Livro: notas sobre a reforma de Josias (Parte I)

[Para Pr. P. Rocha e E. Peterson]

O segundo volume do Livro de Reis narra a queda dos israelitas: seus reis e povo maus, em Israel e Judá, inimigos do Pentateuco e idólatras – infiéis às alianças. Raros são os reis bons. Ezequias é célebre, mas é Josias, “o rei menino” (que iniciou a reinar aos 8 anos), o mais notável. Este artigo é sobre ele: sobre o Livro gerou a reforma ou avivamento em/de Josias.
Marcou o tempo de Josias um generalizado desconhecimento de Deus manifesto no esquecimento ou/e ignorância do Livro. As prostituições (idolatrias) de seu avô Manassés e seu pai Amom patrocinaram essa escuridez. Longe da aliança, caíram na miscigenação religiosa e possuíram ídolos: era um povo vazio porque deixou a Deus por outros ídolos (Jr.2:13). Quem pode se afastar do Livro e não viver no vazio e morte? Fechados para Deus, para o Livro, desprezavam as ameaças e os chamamentos dos profetas que se voltavam contra o Senhor; corriam aos falsos profetas, devotos, como o povo, do próprio ventre, cuja pregação era liberdade, prazer, bem-estar, e uma ilusão de paz. Profanada e extraviada foi a adoração bem como o senso de Deus. Ele escondeu a sua face. Os gregos tinham um altar ao deus desconhecido, mas para esse povo, Deus era-lhe não só desconhecido, mas abandonado. Os judeus investiram forte no desconhecimento de Deus: seus bens e até filhos foram doados a ídolos. Seguiam doutrinas de demônios e a sociedade se autodestruía com a normalização do adultério, da violência, da falta de virilidade e de feminilidade, do homicídio (morte de inocentes), da escravidão e do filicídio; da injustiça e da impunidade; da mentira; da falta de vergonha e da corrupção.
(Se esse pequeno relato de contextualização te parece anacrônico e falso, leia 2 Re. 18:3-4, 21 e Jeremias 1-7. Qualquer parecença do tempo de Josias com o nosso é mera coincidência!)

Josias reinou bem perante o Senhor

Em resumo, do reinado de Josias, lemos que “Fez o que o reto perante o Senhor, andou em todo o caminho de Davi, seu pai” (22:2), não se desviando dele. Imitação de David, Josias creu que Deus é quem criou e decretou o certo e o errado, o bem e o mal. Daí viver “perante o Senhor”. Um dia, lemos em 22:3-20, ele, aos 26 anos (ano 18 do seu reinado), iniciou a reparação do templo. Surpresa? Já aos 16 anos ele começara “a buscar ao Deus de Davi, seu pai” (2 Cro. 34:3)! Nessa busca da Face, notou as fendas do Templo e quis repará-lo. Mandou o escrivão real chamado Safan delegar o sumo sacerdote Hilquias que usasse as ofertas em carpinteiros, edificadores e pedreiros “para repararem os estragos da casa” (22:5). (As rachaduras e a carência de reparação do Templo não sugerem o estado e necessidade daquele povo?) Com essa reforma, Josias estava sendo um rei cuja glória é o Templo e não o palácio. Foi durante isso que o extraordinário ocorreu: o achamento do Livro. Lemos:

Então, disse o sumo sacerdote Hilquias ao escrivão Safã: “Achei o livro da Lei na Casa do Senhor”. E Hilquias entregou o Livro a Safã, e ele o leu. Então, o escrivão Safã veio ter com o rei e lhe deu relatório, dizendo: “Teus servos contaram o dinheiro que se achou na casa e o entregaram na mão dos que dirigem e têm a seu cargo a Casa do Senhor”. Relatou mais o escrivão Safã ao rei, dizendo: “O sacerdote Hilquias me entregou um livro. E Safã o leu diante do rei. Tendo o rei ouvindo as palavras do Livro da Lei, rasgou as suas vestes” (22:8-11).

Hilquias achou o Livro! Carpinteiros e pedreiros obraram o ressurgimento do Livro! O povo de Deus achou o Livro de Deus!!! A reforma do Templo seria inútil sem a reforma das almas com avivamento pentateuco! Hilquias achou a Torá, “o Livro da Lei do Senhor dado por intermédio de Moisés” (2 Cro. 34:14): Levi encontrou Moisés e o levará ao povo, novamente! Glórias a Deus! Mas é infeliz saber que o Livro e seu Deus e Profeta estavam perdidos da vista e da vida do sacerdócio e do povo. Como e por que ainda assim se viam como servos conhecidos e conhecedores de Deus? Sem o Livro, não há vida! A vida com Deus não é sobre o templismo, mas sim o Livro – a Revelação.
O Safan leu o Livro e depois foi e leu-o ao rei. No durante da leitura, lentamente aparecia em Israel, palavra por palavra, frase por frase, a vida e a face de Deus em visitação a seu povo. (Moisés disse que o rei devia de ser amigo pessoal do Livro e que as palavras deste são vida.) A leitura do Safan e a audição piedosa do Josias casaram o Livro e a alma do rei: Josias “rasgou as suas vestes” (22:11). Penetrou sua alma uma forte emoção e senso de Deus que lançou-o no desespero da lamentação de quem ama a Deus, mas vê a sua iniquidade e sabe que isso o separa dele: seu coração, ante a descoberta da Voz de Deus, ficou enternecido, ele humilhou-se, orou, lamentou e chorou (22:19). Josias rasgou as suas vestes reais dando mostra de que devemos, ante o Livro, primeiro ter a disposição de ouvir (shâmá – Dt. 6:4) e, em seguida, encarnar o que foi ouvido, cumprir, praticar o Livro e lê-lo com nossas ações. Josias achou o Livro e ouviu-o. É isso que o Pai exige: ouvir o Verbo de Deus (aqui a memória traz-me o brado da transfiguração: este é o meu filho amado, a Ele ouve!)! O ouvido é a porta de entrada do Livro para a alma do ouvinte: quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. O Livro é uma invasão do Céu irresistível para as almas que amam a presença divina, para os “espirituais”, os que tremem diante da sua Palavra.
Que Livro é esse que, lido com o coração, rasga as vestes? É o Livro Sagrado do Senhor e seu divino poder de envolver o homem integralmente nas suas histórias e promessas surpreendendo-o como nada mais consegue: o rei Josias foi surpreendido pelo Livro, pela Escritura.

O grande e súbito achamento

O que Josias achou? O que descobriu quando suas vestes reais rasgou? Sim, quando descobriu ou foi descoberto pelo Livro? Que a sua nação não “deu ouvidos às palavras deste Livro, para fazerem tudo quanto acerca de nós está escrito” (22:13). Ou seja, que os reis (incluindo ele) e o povo de Judá desconheciam ao Senhor. Ele descobriu que há uma nuvem pesada de ameaças insuportáveis pairando sobre Israel, que Deus não estava indiferente, mas enraivecido com o povo. Diante disso, nada podia senão começar a oração e o lamento por si mesmo: rasgou as vestes. Assim vemos que o Livro não é impessoal (como diz E. Peterson), não é uma relíquia, tampouco um estimulante intelectual ou imaginativo apenas, mas a mensagem pessoal de Deus para a humanidade. E Josias, pela audição das Palavras de Deus, descobriu o interior do Livro e de si mesmo: chorou e se rasgou como quem diz: “Soberano e Altíssimo Ele é e eu e meu povo pecamos contra ele”. O Livro é um lugar de envolvimento, de relacionamento, e cuja erupção no coração do ouvinte é o brado de Deus exigindo que a alma seja livre e sirva apenas e somente à Voz do Livro: ao nosso Deus.
O Livro fez o rei questionar, começando nos seus antepassados, toda aquela espiritualidade dele e do povo, todos aqueles sentimentalismos no Templo, todas aquelas oferendas e dízimos, sábado após sábado. É como se dissesse: de que tudo aquilo adiantava quando o Livro está ausente do Templo e da vida do povo e nosso Deus está com raiva de nós? Josias descobriu que toda aquela adoração era falsa, estava distante de ser fruto da audição ao Livro e cumprimento das palavras deste. Faltava envolvimento pessoal do povo com Deus: serviam por fora, mas por dentro estavam longe do Senhor. Faltava aquela casta de envolvimento que impede a alma de fugir das implicações de andar com Deus: a santidade e a proclamação da sua glória; envolvimento que implica aceitação inteira da Escritura e crença activa nela. E as consequências disso tudo, o rei descobriu, eram ameaças horríveis cujo peso caiu sobre Josias. Ele mesmo desconhecia a Escritura e o reinado em Israel é uma questão de conhecê-la ou não (conhecer é amar!). Deus estava irado e ele insatisfeito com a adoração corrente, sua e do povo. O que fazer? Arrepender, lamentar e buscar em Deus misericórdia: rasgar as vestes!

O rasgo das vestimentas

O rasgo das vestes é a primeira resposta do homem ao encontrar-se com o Livro – é o ser aceitando o convite irresistível e pessoal a um mergulho radical no Livro e a consequente compreensão de Deus, do estado da sua alma e a do povo, e da ameaça de destruição que paira sobre a nação. O rasgo é indicativo de que o Livro está se manifestando no homem de modo prático, direto e pessoal: é o Livro participando do ser e existência do homem e, simultaneamente, é o homem todo a participar do Livro de modo pessoal e vivo. É o Livro lavando e a recriando o homem. As reformas começam com o achamento do Livro, seguido da invasão do Livro à alma mediante a audição desta àquele (ou comer o livro, na linguagem profética) pela leitura e audição, o (re)conhecimento do estado da alma e, por fim, o rasgo das vestes (que é tanto desespero e tristeza quanto abrir portas para Deus entrar; um desnudamento da alma que é tristeza e abertura do ser para a Verdade; lamentação e fé, choro e consolação: o rasgo é o resultado do “peso da Palavra”, do “tsunami” que a Palavra é!), seguido da missão. Os avivamentos são mergulhamentos em Deus e o arrependimento (que sem fé, não agrada a Deus e, portanto, não é arrependimento) são empurrões que lançam-nos neles, onde é impossível estarmos sem que nos molhemos: avivamento é interno e externo sempre e, quando somos avivados pelo Espírito Santo, isso se expressa na nossa vida como igreja nesse mundo. Somos do Livro para proclamar o Livro, conforme o Livro, para a glória de Deus.
O avivamento pessoal de Josias afasta e, com justeza, acusa de farisaica e ineficaz qualquer encontro com o Livro que não seja espiritual – que não frutifique um arrependimento pessoal, interno e externo e obediência (amor) ao Livro – e qualquer encontro com o Espírito que não seja escriturística, bíblica, livresca e ainda que não seja do homem completo: corpo e espírito. O avivamento ou reforma faz de nós homens espirituais, homens do Livro. E se o fruto desse milagre permanece e se evidencia em uma vida espiritual bíblica, inteligente e sábia, evangelista e rica em Deus, então tivemos um avivamento, uma reforma pessoal ou coletiva verdadeira.
Josias prega-nos que o verdadeiro encontro com Deus acontece no e pelo Verbum Dei, mergulhando-nos numa participação desnuda, desmascarada, pessoal e real. Todo encontro de Deus com o seu povo é realizado nas Escrituras. A força disso é ainda maior quando compreendemos que o fato de a Escritura ser a nossa vida significa que Deus acontece na/a partir da Escrituras e que nós também só acontecemos na/pela Escrituras: nela vivemos e nos movemos. Fora dela, estamos mortos. Em Josias vemos claro que somos Filhos do Livro: brados bípedes e ambulantes do Sola Scriptura.
O avivamento que caiu sobre Josias aconteceu pelo desejo e busca da face de Deus, seguido pelo descobrimento do Livro Sagrado e pela oração e lamentação (sintetizadas na expressão “rasgou as suas vestes”) e a pregação de Hulda. Esses elementos, como vemos no texto, não são independentes, mas profundamente unidos como membros de um só corpo e acontecem no homem inteiro, todo. E, por fim, Josias foi ouvido pelo Senhor, cuja graça aceitou o lamento crente dele, pois temeu e tremeu diante a palavra de Deus: “o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante o Senhor, quando ouviste o que falei contra este lugar, e contra os seus moradores, que seriam para assolação e para maldição, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o Senhor (22:19)”. Com a experiência de Josias, Deus inaugurou uma nova visitação, um novo movimento do Livro que responde pelo epíteto de avivamento ou reforma.

Deixe uma resposta