Idolatria do coração – parte I

“Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.” (Dt 6.4-5)

Durante anos em minha caminhada com Deus, acreditei que obedecia ao primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3), afinal, para mim, ídolos eram somente objetos externos que as pessoas acreditam serem divindades, e não havia nenhuma imagem de escultura em minha vida; logo, nenhum deus falso ou ídolo que eu adorasse. Eu não podia estar mais errada.

O que Deus verdadeiramente requer de nós no primeiro mandamento vai muito além de não adorar objetos tidos como falsos deuses. Deus deseja que O amemos acima de tudo, que Ele ocupe o primeiro lugar em nossas vidas, de modo que todo o amor que tenhamos a qualquer outra pessoa ou coisa seja insignificante, se comparado à adoração exclusiva dada a Deus. Pode não parecer uma ideia tão surpreendente que o Senhor requer de Seus filhos, com os quais Ele tem uma aliança por meio de Jesus Cristo, a devoção exclusiva. Todavia, precisamos refletir sobre as implicações profundas que o primeiro mandamento acarreta no cotidiano, nas escolhas e nas afeições de alguém que tem um relacionamento pessoal com Deus.

O Catecismo Maior de Westminster, em sua pergunta 104, fala sobre o que Deus requer de nós no primeiro mandamento:

Os deveres exigidos no primeiro mandamento são – o conhecer e reconhecer Deus como único verdadeiro Deus e nosso Deus, e adorá-lo e glorificá-lo como tal; pensar e meditar nEle, lembrar-nos dEle, altamente apreciá-lo, honrá-lo, adorá-lo, escolhê-lo, amá-lo, desejá-lo e temê-lo; crer nEle, confiando, esperando, deleitando-nos e regozijando-nos nEle; ter zelo por Ele; invocá-lo, dando-Lhe todo louvor e agradecimentos, prestando-Lhe toda a obediência e submissão do homem todo; ter cuidado de o agradar em tudo, e tristeza quando Ele é ofendido em qualquer coisa; e andar humildemente com Ele [1].”

Ter o Senhor como o único Deus e amá-lO acima de todas as coisas significa, portanto, ter um coração que tem nEle a maior alegria e satisfação, que se deleita nEle. Um coração que confia em Deus, mesmo em face de provações, planos frustrados e até do sofrimento por causa do Seu nome. Uma alma que quer agradá-lo a qualquer custo, estando disposta a sacrificar qualquer coisa por causa dEle. Valorizar Deus acima de tudo, lembrar dEle sempre, buscando Sua glória em tudo o que faço, digo e penso.

Olhando para nossos corações enganosos, podemos perceber como o amor que dedicamos a Deus é frágil e negligente. Diversas vezes dividimos nosso tempo em inúmeras atividades, e tão pouco ele é dedicado a estar aos pés de Cristo! Temos desejos e sonhos que amamos tanto, que pensamos que só seremos felizes quando eles se concretizarem. E, muitas vezes, quando as coisas que desejamos tanto que acontecessem não saem como gostaríamos, reagimos de maneira pecaminosa. Isso mostra que colocamos nosso coração, nossas esperanças de felicidade em alguma outra coisa que não é Deus; estamos tentando satisfazer nossos corações em coisas terrenas, quando somente o Senhor pode nos alegrar, nos suprir, nos satisfazer.

Se vemos uma pessoa ou uma coisa como uma condição para sermos felizes, se pecamos para conseguir isso ou porque não temos/perdemos isso, aí há um ídolo em nossos corações. Pode ser o sucesso na vida profissional, um relacionamento, a aprovação das pessoas, enfim, qualquer coisa que ocupe o lugar de Deus. Algumas vezes, os falsos deuses não são coisas ruins em si mesmas. Por exemplo, Raquel, uma das esposas de Jacó, era estéril e desejava muito um filho, enquanto sua irmã, Lia, já havia tido vários. No entanto, em vez de entregar seu desejo a Deus e confiar que Sua vontade é boa, agradável e perfeita, ela se desesperou ao ponto de dizer a Jacó: “Dá-me filhos, senão morrerei.” (Gn 30.2). Não havia nada de errado em desejar filhos; entretanto, Raquel colocou nisso sua esperança, sua felicidade e realização, ao ponto de pecar, falando com Jacó como se ele controlasse sua capacidade de ter filhos.

“Ídolos não são apenas estátuas de pedra. Eles são os pensamentos, desejos, anseios e expectativas que passamos a cultuar em lugar do verdadeiro Deus. Os ídolos nos levam a ignorar o Deus verdadeiro e a buscar o que pensamos serem nossas necessidades [2].”

Deus é onisciente, Ele nos sonda e conhece a realidade de nossos corações pecaminosos, conforme Hebreus 4.13 nos ensina: “E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.”. No entanto, há esperança para nós em Jesus, que, mesmo sabendo quem somos, morreu e ressuscitou para que nos tornássemos filhos de Deus. Cristo tem amor eterno por nós e é nosso Sumo Sacerdote, que se compadece das nossas fraquezas (v. 15)! Ele nos convida a dependermos dEle na luta contra os ídolos de nossos corações: “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.” (v. 16).

Que a cada dia possamos orar como o salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” (Sl 139.23, 24), nos arrependendo à medida em que o Espírito Santo nos mostrar os falsos deuses que ainda adoramos. Que tenhamos paz, sabendo que o Senhor está comprometido em concluir a obra que iniciou em nossos corações idólatras (Fl 1.6), de modo que podemos ter certeza de que a cada dia seremos conformados mais e mais à imagem de Jesus Cristo e que, na Eternidade, amaremos e desejaremos apenas o Senhor.

(Texto inspirado nos capítulos 1 e 2 do livro “Ídolos do coração”, de Elyse Fitzpatrick)


REFERÊNCIAS

[1] Johannes Geerhardus Vos. Catecismo Maior de Westminster Comentado. São Paulo: Projeto Os Puritanos/CLIRE, 2007, p. 309;

[2] FITZPATRICK, Elyse. Ídolos do coração: Aprendendo a desejar apenas Deus. São Paulo: Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos, 2012, p. 25.

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