Uma grande comissão e nenhuma omissão

O que muda quando alguém é alcançado pelo evangelho de Cristo? A resposta parece simples e talvez automática, mas, na verdade, é uma questão crucial para compreender nossa visão sobre os efeitos do evangelho e a amplitude de nossa missão – ou melhor, comissão (Mt 28.18-20).

Há um abismo oculto nas respostas de muitos cristãos, entretanto, a natureza não admite o vácuo. Alguns creem que a redenção em Cristo é a restauração de sua vida espiritual, mas não conseguem enxergar os efeitos abrangentes dela. Assim, quando pensam nas mudanças que o evangelho provoca, dão-se por satisfeitos com a assiduidade nos cultos, práticas devocionais diárias e envolvimento nas atividade da igreja. Na prática, vivem como se o evangelho alterasse muito pouco. E ainda que a vida espiritual de forma alguma seja algo menor, na verdade trata-se do aspecto principal, quando agimos como se ela não afetasse as demais áreas de nossa vida, atribuímos inconscientemente um papel secundário à nossa espiritualidade.

Esta perspectiva, no entanto, não faz jus à revelação bíblica e as suas descrições acerca do senhorio de Cristo (Cl 1.19-20). Quando as escrituras fazem referência à redenção, há uma característica que demarca todos os termos empregados pelos autores divinos: o retorno a uma condição anterior [i], de modo que a criação é o pano de fundo para compreender os alvos e o efeito da redenção. E o que encontramos na criação? O propósito de Deus para Adão é que vivesse para Ele, em harmonia com toda a ordem criada, cuidado e sujeitando todo o mundo para a glória de seu criador (Gn 2.15). Não há vácuo algum aqui. Toda cultura, todo trabalho debaixo do sol, os relacionamentos e qualquer empreendimento deveriam seguir os padrões divinos e ter como alvo manifestar uma oferta de amor pactual a Deus.

Esta condição harmônica envolvia a submissão completa do homem, representada no mandato específico ou focal dado por Deus (Gn 3.17) [ii]. Mas esta exigência pareceu um preço muito caro aos nossos primeiros pais, e, por isso, a rebelião manifestou-se (Gn 3.6). A queda representou a luta do coração pecaminoso para ser o centro da criação. A ruptura espiritual teve efeitos amplos, toda a ordem da criação foi afetada, pois com o pecado houve a corrupção completa do homem, em seus pensamentos, afeições e até mesmo em sua vontade. A própria criação foi posta sob a maldição do pecado e aguarda a redenção (Rm 8.19-22). Não há espaço neutro, o universo todo foi afetado pela rebelião cósmica.

Como poderíamos conceber uma redenção que não é tão ampla como a criação e que tem efeitos menos abrangentes do que a queda? Diante desse panorama teológico, não se pode pensar que a redenção em Cristo alcançaria somente um aspecto de nosso ser – nosso relacionamento com Deus – ainda que seja o central. É justamente por ir tão fundo em nosso coração que o evangelho lança sua influência transformado de forma ampla em todas as facetas do homem [iii]. A regeneração é uma nova vida (Rm 6.4) que não tolera vácuos existenciais, é “um abençoado fermento, que leveda a massa inteira… o pecado original infecta o homem inteiro; e a graça regeneradora, que é a cura, vai até onde vai a enfermidade (Thomas Boston). Tudo o que somos e o que fazemos deve ser modificado pelo evangelho de Cristo (1 Co 10.31). A redenção subjuga todas as perversões da queda e nos conquista para o padrão criacional, uma vida centrada em Deus, para a glória Dele, em Cristo.

Assim sendo, reformar o culto, as afeições, o entendimento, o comportamento e as estruturas sociais mais amplas jamais deveria ser tratado como alguma ênfase opcional da igreja cristã. A reforma pelo evangelho é a meta e a missão do povo de Deus neste mundo caído. O Senhor vem atuando desde o Éden para nos refazer à imagem de Deus, e isso não pode ser reduzido somente a algum aspecto isolado de nossa existência, pois nos afeta de modo completo. Temos uma comissão dada pelo próprio Cristo, e nela não há omissão. O mandato de anunciar o evangelho vem acompanhado da ordem de discipular, e isto envolve uma transformação completa do indivíduo, pois onde o evangelho for aplicado, nada pode permanecer como antes: liturgia, serviço eclesiástico, família, administração do tempo, perspectiva sobre o trabalho, relacionamentos, prioridades e visão política. Um discípulo de Cristo é um novo homem sendo reconduzido ao padrão criacional.

Há muito trabalho a ser feito. O alento é saber que quem o faz em última instância é Deus (Fp 2.13). Os instrumentos não precisam levar sobre si o fardo da redenção já conquistada por Ele. O evangelho certamente obterá êxito em suas demandas. O que não podemos jamais é limitar o alcance da redenção. O que muda quando alguém é alcançado pelo evangelho de Cristo? Tudo! Um novo coração, acompanhado de novos anseios, novos olhos para enxergar o mundo, novas mãos para servir e abençoar, uma boca para proclamar as boas novas e uma mente que leva todo pensamento a Cristo (2 Co 10.5). Qualquer omissão, que seja reputada como nossa, e não da comissão que nos foi dada.


 

REFERÊNCIAS

[i] Albert Wolters desenvolve este argumento analisando palavras como redenção, restauração, renovação e etc. WOLTERS, Albert, M. Criação Restaurada. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. P.78-79

[ii]O pacto da criação entre Deus e o homem pode ser discutido em termos do seu aspecto geral e do seu aspecto focal. O aspecto geral da aliança da criação relaciona-se com as responsabilidades mais amplas do homem para com o seu Criador. O aspecto focal da aliança da criação relaciona-se com a responsabilidade mais específica do homem decorrente do momento especial de prova ou teste instituído por Deus”. ROBERTSON, O. Palmer Cristo dos Pactos, 2a. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 60.

[iii]A espiritualidade Cristã, quando autêntica, não é, pois, fuga na interioridade. É contemplação do agir de Deus, que quer ser, claramente, árbitro das relações humanas no trabalho, na cidade e, também, nas trocas comerciais e financeiras. Aliás, como também em todos os demais domínios da vida.” BIÉLER, André. In: A Força Oculta dos Protestantes. Traduzido por Paulo Manoel Protasio.  São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 1999. pp. 125.

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