Idolatria do coração (Parte II)

“Todavia, os altos não se tiraram; neles, o povo ainda sacrificava e queimava incenso.” (1 Rs 22.44)

Quando o povo de Israel entrou na Terra Prometida, eles deveriam destruir todos os santuários dos altos dos cananeus, conforme Deus havia ordenado. Entretanto, os israelitas preferiram construir seus próprios centros de adoração, em locais divinamente aprovados. Por exemplo, Gideão edificou um altar ao Senhor (Jz 6.24), e Samuel edificou um altar ao Senhor em Ramá (1 Sm 7.17). Deus já havia revelado que escolheria um lugar dentre todas as tribos para fazer habitar o Seu nome (Dt 12.11), porém, enquanto esse santuário central não foi construído, Ele aceitou a adoração nesses locais [1].

Todavia, mesmo após a construção do templo em Jerusalém por Salomão, o povo continuou a oferecer sacrifícios e a queimar incenso sobre os altos – lugares de culto pagão -, e conforme o relato dos livros de 1 e 2 Reis, essa foi uma prática quase constante durante todo o período da monarquia no Reino de Judá, destacada de maneira interessante pelo autor de Reis, inspirado pelo Espírito Santo.

O rei Asa foi um monarca elogiado na Palavra de Deus, pois “fez o que era reto perante o SENHOR, como Davi, seu pai” (1 Rs 15.11) e combateu a idolatria de forma veemente (1 Rs 15.12-13); é dito dele que seu coração foi totalmente do Senhor todos os seus dias. Todavia, há a informação, sobre o reinado de Asa, de que “os altos, porém, não foram tirados” (v. 14). Segundo os comentaristas, esses altos eram centros rurais de adoração, que podiam ser devotados ao Senhor, a uma das divindades cananeias ou a alguma combinação de ambos [2].

O rei Josafá também agradou ao Senhor, obedeceu à Sua Lei e combateu a idolatria; contudo, mesmo em seu reinado íntegro, os altos não se tiraram (1 Rs 15.4) e o povo persistiu adorando a Deus de uma maneira diferente da que Ele havia estabelecido para ser adorado e adorando outros deuses! No reinado de Joás, o relato é semelhante – ele também fez o que era reto perante o Senhor, porém vê-se que seu governo teve falhas religiosas e que o povo não estava adorando exclusivamente a Deus, pois novamente é dito que “Tão-somente os altos não se tiraram; e o povo ainda sacrificava e queimava incenso nos altos.” (2 Rs 12.3). Quanto aos reis Amazias (2 Rs 14.3-4), a Azarias (2 Rs 15.3-4) e Jotão (2 Rs 15. 34-35), exatamente o mesmo é relatado. Assim, o povo de Judá permaneceu na idolatria.

“Para advertência nossa”

O apóstolo Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo 10, fala sobre a história do povo de Israel – mais precisamente, sobre o Êxodo e a peregrinação no deserto – e faz uma aplicação à vida dos coríntios. Por intermédio dele, o Espírito Santo nos ensina que tudo o que aconteceu aos israelitas constitui um exemplo para os filhos de Deus e que tais coisas “foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1 Co 10.11), ou seja, de nós que somos cristãos no período entre a ascensão de Cristo aos Céus e Sua segunda vinda. Portanto, também podemos e precisamos aplicar às nossas vidas a narrativa dos livros de Reis, que evidencia que, apesar de vários governantes de Judá terem sido fiéis à Aliança de Deus e terem vivido de forma íntegra – alguns até tomaram medidas drásticas para combater a idolatria -, eles não eliminaram os altos, os locais de culto pagão, muitas vezes localizados em área rural, nos quais o povo insistia em oferecer sacrifícios e queimar incenso. Torna-se evidente, por conseguinte, o peso da influência que os governantes exercem sobre um povo.

Todavia, mais chocante do que perceber essa influência, é ter noção de que não somos tão diferentes assim do povo de Judá. Provavelmente não adoramos outros deuses em altos, não prestamos culto a imagens de escultura, nem temos colunas ou postes-ídolos. Contudo, caímos nos mesmos pecados, e por trás de cada pecado “de estimação” se encontra um ídolo, algo que nós amamos mais do que a Deus, ao ponto de preferirmos agir frequentemente da maneira que quebra a Sua Lei a obedecê-lO. Insistimos em não tirar os altos que existem em nossos corações.
Tristes foram as consequências do fato dos altos não terem sido retirados e do povo ter persistido na idolatria: o juízo de Deus se manifestou sobre eles nos longos cercos a Jerusalém pelos babilônios, na tomada da cidade, nas mortes pela espada, pela fome e pela peste e no fato de boa parte do povo ter sido levado cativo à Babilônia.

Quanto a nós, quando permanecemos com nossos pecados intocáveis, sem combatê-los em suas raízes idólatras, sem agir de maneira drástica contra os ídolos de nossos corações, a consequência é a decadência espiritual – a alma perderá força no combate ao pecado e na obediência ao Senhor, ficará doente, enfraquecida, sem vigor, ao mesmo tempo em que tais pecados endurecerão cada vez mais o coração; eles ainda privam a alma do conforto e da paz que existem no relacionamento pessoal com Deus [3].

A alma na qual existem pecados que não estão sendo combatidos e mortificados, altos que não foram tirados, é como uma planta que está na jardineira ao lado da janela do meu quarto. Há alguns meses, percebi que seu caule, seus galhos e suas folhas estavam repletos de pequenas bolas brancas – fungos. Apesar disso, não me preocupei muito e relevei a presença dos fungos, pois a planta parecia, exceto por essa condição, saudável, tanto que até floriu. Fiquei surpresa e triste quando, há alguns dias, abri a janela e percebi que seus galhos se inclinaram muito em direção ao chão; ela está sem vigor, enfraquecida, consumida pelos fungos.

Esperança e um convite

Em meio à séria advertência contida nos dois livros de Reis, existe a esperança: o Senhor, que é compassivo e justo, não tratou o povo de Judá segundo seus pecados, mas foi misericordioso – alguns capítulos depois, vemos que Ele levantou o rei Ezequias, um homem que viveu em retidão e que levou a luta contra a idolatria da nação a tais efeitos que “Removeu os altos, quebrou as colunas e deitou abaixo o poste-ídolo;” (2 Rs 18.4). Ora, se Deus usou um homem, pecador, para promover reformas religiosas na nação escolhida, levar os judeus ao arrependimento e a se aproximarem novamente dEle, quão elevada é a misericórdia do Senhor em nossas vidas, e quanta esperança existe para nós, porque Ele, que é o mesmo ontem, hoje e o será eternamente, continua perdoador e misericordioso para com os que escolheu para Si!

A maior prova disso e o fundamento da nossa esperança estão no fato de que Deus enviou o Rei Eterno e perfeito para entregar sua própria vida por nós em uma cruz, pagando pelos nossos pecados, e Ele ao final venceu a morte, ressuscitando ao terceiro dia! Assim, com a nossa fé posta nesse Rei, infinitamente mais poderoso do que o rei Ezequias, que nos enviou o Consolador, o Espírito Santo, para operar em nós a santificação, nos conformando à Sua própria imagem, que tenhamos esperança e, nos arrependendo de nossos pecados, clamemos por misericórdia e graça para que possamos, a cada dia, remover os altos que existem em nossos corações, quebrar as colunas, derrubar os postes-ídolos.

“Pai, desejo conhecer-te, mas meu coração covarde teme desistir de seus brinquedos. Não posso desfazer-me deles sem sangrar por dentro, e não procuro esconder de ti o terror da separação. Venho tremendo, mas venho. Por favor, extirpa do meu coração todas aquelas coisas que estou amando há tanto tempo, e que se têm tomado parte integrante deste “viver para mim mesmo”, a fim de que tu possas entrar e habitar ali sem qualquer rival. Então tornarás glorioso o estrado dos teus pés. Meu coração não terá mais necessidade da luz do sol, porquanto tu mesmo serás o seu sol iluminador, e ali não haverá mais noite. Em nome de Jesus. Amém! [4]”


REFERÊNCIAS

[1] Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999, p. 394, comentário de 1 Reis 3.2.

[2] Idem, ibidem, p. 414, comentário de 1 Reis 15.14.

[3] OWEN, John. Tentação e mortificação do pecado: o que todo cristão precisa saber. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2013, p. 97, 110-111.

[4] TOZER, A.W. À procura de Deus. Belo Horizonte: Betânia, 1985, p. 27.

 

 

22 anos, pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Boa Viagem, em Recife e estudante de Direito. Uma sonhadora que permanece com os pés no chão graças à Palavra de Deus.

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