A essência do culto a Deus

“Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo” (Sl 50.14).

O culto ao SENHOR é regulado por Ele mesmo. Em inúmeras passagens das Escrituras, percebemos o cuidado do Criador em ensinar o homem como cultuá-lo. Sacrifícios, festas, assembleias solenes: cada parte do culto a Deus foi devidamente registrada e passada aos sacerdotes e, posteriormente, ao povo para que por meio da Lei eles pudessem manter um padrão. Esse padrão tanto servia para apontar para a promessa da redenção final quanto para fazer distinção entre os povos vizinhos, mostrando-lhes a glória do SENHOR dos exércitos.

Destarte Deus tenha revelado como o povo de Israel deveria prestar culto, lemos nas Escrituras que frequentemente eles abandonaram a Deus, e se voltaram a outros deuses. Malaquias, Oséias e muitos outros profetas falaram contra Israel, acusando-os desses pecados e de outros que eram acarretados por estes.

Entretanto, um pecado merece atenção. Não somente pelo fato de o povo ter ido após outros deuses a ira do Soberano se acendeu, mas eles também desvirtuaram o culto, quebrando os princípios que foram estabelecidos para que o mesmo fosse prestado. Para as ofertas de sacrifício, os animais deveriam ser perfeitos (sem defeitos físicos) e imaculados, como são exigidos nos livros da Lei (o Pentateuco), mas, em determinado momento, o povo começa a oferecer a Deus animais coxos, impuros e com inúmeras outras falhas, incorrendo em uma falta grave para como culto a Deus. Isso é possível de ser evidenciado ao ler todo o livro do profeta Malaquias, por exemplo. Também está escrito que o povo sonegava ou fraudava as ofertas que deveriam ser entregues como dízimo das colheitas, que também faziam parte do culto ao SENHOR no Antigo Testamento.

Todo o culto ao Criador estava sofrendo com o descaso do povo de Israel. Cultuavam de forma vazia, não atentando para o real significado de tudo aquilo. Seus corpos estavam circuncidados, mas não seus corações.

O salmo 50 apresenta partes de uma estrutura que é muito presente em textos proféticos. Embora estejamos diante de uma poesia, as profecias de julgamento se encaixam exatamente nesse contexto, na adoração vazia que Israel estava prestando a Deus.

Nos versos 1 e 2, temos uma breve saudação e louvor a Deus feita pelo salmista. No texto original hebraico, há nesses versículos o uso dos nomes de Deus considerados pelos próprios judeus como sagrados, como o tetragrama, que só era utilizado em ocasiões altamente solenes, trazendo a ideia de que a própria majestade está sendo anunciada para a ocasião, e ainda aponta para Sião, que tanto é referenciada como a cidade de Jerusalém quanto em diversos outros textos é tida como a morada do Criador.

Do verso 3 ao 4, é anunciado o caráter da visitação da majestade, ele vem como juiz: “Chamará os céus lá do alto, e a terra, para julgar o seu povo”. (v.4), além disso, o mesmo juiz chama suas testemunhas (os céus e a terra) para participar do julgamento. E a partir daqui, ele anuncia a acusação.

A princípio Deus se apresenta como dono de todas as coisas criadas, e com isso ele deseja demonstrar a Israel, que Ele não se apraz no sacrifício dos animais que ele mesmo criou. Seria como se esperássemos que uma pessoa ficasse muito feliz, se lhe déssemos um objeto como presente sendo este já dela. Isso já nos faz refletir sobre um ponto que salta aos nossos olhos com essa informação: se o próprio Deus estipulou os sacrifícios de animais para seu culto, como agora Ele diz que não sente prazer nisso? A resposta é simples, e nos confronta violentamente.

Israel se acomodou. Achou que poderia cultuar a Deus como simples regra ou como simples obrigação diária. O povo deixou que o culto ao Criador fosse transformado em meros rituais religiosos que, se feitos, forneceriam os benefícios que eles precisariam (o perdão de pecados, a benção na agricultura e pecuária, etc.), esquecendo-se dos princípios que estão por trás do culto. Quando isso acontece, perdemos de vista dois pontos primordiais que deveriam sempre nortear nosso sentimento durante o culto; o primeiro é que somos pecadores e indignos de qualquer bem que o SENHOR faça para nós. Se estamos vivos, é por causa da graça de Deus, e isso não vem da oferta que temos ou que prestamos. Segundo, Deus é excelente e seu culto deve estar de acordo com seu caráter. É claro que do ponto de vista literal, jamais poderíamos oferecer um culto a Deus ao seu nível, pois somos imperfeitos e limitados, mas é nosso dever prestar a Deus um culto tão excelente quanto for possível, em respeito e temor Àquele que é digno de toda glória, fiados em Cristo, pois somente através dEle, nosso culto pode ser aceito por Deus.

No verso 14, Deus revela a Israel o que realmente importa: “Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para como o Altíssimo.”. As ações de graças deveriam estar diretamente ligadas à um coração grato e feliz a Deus por todas as bênçãos que constantemente são derramadas, e também a alguém que tem contentamento com aquilo que lhe foi confiado por Deus para administração, entendendo que nada se tem nesse mundo, mas que tudo o que está conosco pertence ao Criador, e esses bens nos foram confiados para que por meio do correto manuseio dos recursos, se possa glorificar a Deus. O cumprimento dos votos tem a ver com a fidelidade em executar aquilo que foi requerido pelo SENHOR, mas não meramente como parte de um ritual vazio e sem sentido, mas em obediência aquilo que fora prometido a Deus, bem como Israel havia prometido que tudo o que o SENHOR falou seria feito (Êx 19.8, 24.7).

O que tem acontecido em nossas igrejas é exatamente o contrário do padrão de Deus. Nossas igrejas estão cheias de pessoas que não sabem sequer o porquê de estarem ali. Talvez tenham sido desde crianças ensinadas que a igreja é um local onde as pessoas boas devem estar, ou que é bonito e agradável ir aos cultos no domingo à noite. Por outro lado, muito se valem do culto como amuleto que os trará boa sorte nos negócios de suas empresas, ou mesmo em seus estudos, ou em seus relacionamentos.

Todavia, não é preciso ir ao culto com um coração pronto para fazer uma barganha para que o desvirtuemos. Na verdade, basta que, assim como Israel, não entendamos o significado do que nos é requerido no culto, ou do que é estar na presença de Deus. Fazê-lo sem que se perceba que Deus é digno de louvor e que é nosso dever como suas criaturas adorá-lo, já configura uma afronta ao nosso Deus, e é exatamente isso que tem acontecido em nossas igrejas. A ida à igreja tornou-se vazia de sentido ao invés do culto ser prestado com toda nossa alma, força e vida.

O culto ao SENHOR é mais do que cantar, erguer mãos, ou outras ações contemporâneas que têm sido introduzidas nos cultos. Cultuar a Deus é um estado constante de espírito, onde nos inclinamos desde o dia em que recebemos a Cristo como SENHOR, até o dia de nossa partida desse mundo, somente para o adorar diante de seu trono na glória. O salmo 51.17 diz que “sacrifícios agradáveis a Deus são espírito quebrantado; coração compungido e contrito[…]”. O verdadeiro culto ao Criador, em primeiro lugar vem de um coração que o reconhece como digno de honra e louvor, que entende que se está diante da Coroa do universo, e que é digno prestar louvores pelo o que Ele é.

Em segundo lugar, o culto a Deus é obediência aos seus estatutos, àqueles que regulamentam o culto e àqueles que gerenciam nossas práticas. O salmo 15.1 questiona: “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo?”. O tabernáculo era o lugar onde se ofereciam os sacrifícios a Deus. No pátio eram preparados os animais e, depois de o sangue ser aspergido sobre o altar, o sacerdote entrava no tabernáculo para oferecer o sacrifício. Durante todo o salmo, Davi apresenta características daquele que permanece no tabernáculo do SENHOR. Veja que a questão é quem ficará no lugar onde são prestados sacrifícios, ou em outras palavras, no lugar onde e oferecido culto ao SENHOR, e as características na verdade são ações que ele pratica em obediência as leis de Deus.

Unindo esses dois aspectos temos o verdadeiro culto ao Criador. Não um culto vazio e sem vida, mas um culto onde se entende que Ele é digno de glória e louvores, e que deve ser o nosso constante prazer cultuá-lo e servi-lo, através da obediência diária à sua palavra. Que possamos cultuar ao SENHOR, de toda nossa alma, de todo nosso entendimento e com toda nossa força, para que glorifiquemos à majestade e estejamos em harmonia com Ele por meio de Cristo nosso Rei.

Cristo triunfa!

22 anos, cristão, escritor, blogueiro. Estudante de teologia. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, Recife – Pernambuco.

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