Viver sempre contente: é possível?

Violência, fome, lutos, perdas, conflitos e separações. Nosso mundo está permeado disso. Diante desse contexto, como estar contente? É realmente possível viver contente vivenciando ou assistindo situações como essas?

De início, quero falar um pouco do que significa o contentamento. Contentamento tem a ver, em primeiro lugar, com satisfação. As demais sensações e sentimentos que estão atreladas ao contentamento derivam da satisfação. Não consigo achar analogia melhor para falar de satisfação do que se lembrar de como ela se manifesta em nossas refeições. O que acontece quando comemos o bastante? Ficamos satisfeitos. Isso produz prazer, alegria e tranquilidade. Não comemos mais, pois estamos satisfeitos, estamos contentes. Se não comemos o bastante, o contrário ocorre: continuamos inquietos, descontentes, buscando preencher aquele “buraco” comendo mais, até que, finalmente, estarmos satisfeitos.

Mas, afinal, é possível chegar a esse estado de satisfação e contentamento em nossa vida como um todo? Será que há um momento no qual, finalmente, diremos: “não preciso de mais nada estou plenamente satisfeito e contente?” Será que, algum dia, vamos olhar para nossas vidas e perceber que temos o bastante e nos contentarmos plenamente nisso?

Sobre isso, a filosofia e psicologia secular argumentam que “o homem é um ser de falta.” Ou seja, há um vazio permanente nele e isso o move a estar sempre buscando elementos que o preencham (como alguém que ainda não comeu o suficiente). A experiência é capaz de comprovar que isso não é, de todo, um equívoco: estamos sempre insatisfeitos com nosso estado atual de vida e buscando alcançar um estado melhor. Mas isso cessa? É possível preencher, plenamente, essa falta? Será que em, algum momento, teremos o bastante, estaremos contentes e descansaremos plenamente nisso ou viveremos na eterna e cansativa busca de estar sempre em busca de algo que nunca nos preencherá de fato?

Paulo nos diz que há um contentamento pleno e verdadeiro, sim. Mais do que isso, ele declara que provou esse contentamento em sua própria vida:

“Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.12).

Leia a última parte da frase novamente: TODA E QUALQUER situação. O contentamento de Paulo não dependia das situações exteriores. Você há de convir que deve ser até fácil para alguém que é abastado, possui muitos bens e que está cercado de pessoas que o amam dizer que está contente. Mas o que dizer de um homem que fez essa declaração em uma prisão? Paulo estava preso enquanto escrevia aos Filipenses! Isso é a maior prova que o contentamento de Paulo não estava ligado às circunstâncias. Mas, afinal, qual o segredo de Paulo?

Vamos ler um trecho mais abrangente da passagem:

Alegro-me grandemente no Senhor, porque finalmente vocês renovaram o seu interesse por mim. De fato, vocês já se interessavam, mas não tinham oportunidade para demonstrá-lo.
Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância.
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
(Fp 4.10-12)

Paulo está agradecendo aos irmãos de Filipos por se lembrarem dele (e isso dizia respeito, também, a suprirem algumas de suas necessidades materiais), mas está deixando claro que, embora se sinta grato pelo companheirismo, não é esse o motivo base de seu contentamento, afinal, ele tinha aprendido a se adaptar “a toda e qualquer circunstância.” É como se Paulo estivesse, dizendo: “Irmãos, obrigado por tudo, pela ajuda e apoio, mas ainda que assim não fosse, eu estaria contente.” Paulo, sim, era um homem preenchido!

Ele nos ensina uma importante verdade nessa passagem: o verdadeiro contentamento não está ligado às circunstâncias exteriores. O contentamento permanente e seguro não pode depender das situações que nos cercam, por um motivo simples: elas mudam. E alguns momentos não são tão favoráveis. E são exatamente neles que o verdadeiro contentamento permanece inabalável. E qual era o segredo de Paulo? Apenas um: Cristo.

Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se! (Fp 4.4)

A alegria de Paulo estava fundamentada no Senhor. E assim ele ordena que seja conosco: alegrem-se no Senhor. A falta de Paulo já havia sido totalmente preenchida em Cristo. Ele estava satisfeito, não necessitava de mais nada porque já tinha tudo: o próprio Deus e a certeza de estar com Ele na Eternidade. Diante disso, tudo parecia muito pouco aqui na terra para Paulo: tanto os sofrimentos quanto as conquistas. Vitórias e derrotas. Tudo isso era muito pequeno diante da realidade da Eternidade: certa, pura e perfeita. De fato, Paulo considerava “tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8).

Parece ser difícil, não é? E realmente é! Jamais Paulo (nem ninguém) conseguiria tal feito se não fosse pela ação do Espírito Santo. Porém, não é como mágica que isso é realizado. O senhor usa Sua Palavra para tal milagre e, portanto, é necessário que estejamos nos lembrando, diariamente, dessas verdades para que elas se firmem em nosso coração. Paulo diz que “aprendeu” o segredo de viver contente. Todo processo de aprendizado exige trabalho! Não seria diferente com a aprendizagem do verdadeiro contentamento. Devemos estar conscientemente e insistentemente nos lembrando da razão da nossa verdadeira alegria e esperança.

Obviamente isso não quer dizer que não vamos sofrer. É claro que vamos chorar nesse mundo. Sentir dor. É claro que tristezas vão dilacerar a nossa alma. Mas, se estivermos contente em Cristo, Ele será maior. E Ele mesmo nos auxiliará e nos socorrerá nessas situações.

Da mesma forma, isso não quer dizer que não nos alegraremos com os prazeres e momentos bons que vivenciamos nesse mundo. Mas, se estivermos contentes em Cristo, não colocaremos o coração nessas coisas, mas desfrutaremos delas, entendendo que são apenas sombras de uma realidade muito melhor e maior: a Eternidade com Cristo. E nosso coração descansará nele e não nas boas situações.

No mais, qual é o fim supremo e principal do homem?

O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. (Pergunta 1 do Catecismo Maior de Westminster)

Estarmos alegres em Deus faz parte de nosso fim supremo e principal, portanto, aprendamos como Paulo a estar e permanecer contente no Senhor.

Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se! (Fp 4.4)

Com Cristo estou contente, Ele me satisfaz!
Com esse amor do Salvador, agora estou contente,
Agora estou contente!
(Hino do 395 do C.C.)

22 anos, estudante de ciências biológicas, pernambucana. Congrega na Igreja Presbiteriana dos Guararapes. Vê na escrita uma maneira de servir ao Reino.

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