Nascidos para depender

A dificuldade em confiar em Deus e de, em nosso íntimo, reconhecer que dependemos totalmente dele, é uma clara característica da natureza humana pecaminosa. Pare para pensar. Quantas vezes você ficou ansioso, nervoso, chateado ou com raiva e lançou as frustrações em pessoas ao redor, apenas porque algo atrapalhou o que você planejou? Eu posso responder que já reagi dessa forma inúmeras vezes. Fazemos questão de dizer que nossa teologia exalta um Deus soberano sobre todas as coisas, porém, muitas vezes na prática, perdemos a cabeça quando nossos planos não dão certo. Infelizmente o ser humano quer ser independente de Deus desde a Queda, quando Adão e Eva agiram contra o Soberano Senhor e, assim, toda a geração humana é concebida em pecado e prossegue pecando (Sl 51.5; Rm 3.23).

O conceito mundano é que a independência é algo bom e deve ser buscada. É comum, por exemplo, uma jovem ser ensinada por seus familiares que ela deve construir sua carreira profissional e ser bem-sucedida para não precisar depender do marido. E essa visão de independência no matrimônio não é só nas questões financeiras, mas é considerado até humilhante para muitas mulheres ter que pedir a autorização do marido em determinadas decisões. E quando se trata dos filhos? “Ah, Thaís, confiamos em Deus, mas hoje em dia as coisas são diferentes. Ter filho é muito caro e não queremos diminuir o nosso padrão de vida”. Será que Deus mudou e não sustenta mais as famílias? Claro que não. Deus não muda (Tg 1.17)! Os padrões do mundo é que são baseados em egoísmo, orgulho, insubmissão e consumismo, completamente diferente do padrão perfeito que Deus tem para nós. O mundo se perde em futilidade, preocupando-se com coisas terrenas, e despreza o que existe de mais precioso, os valores do reino.

A benção de ser dependente

Uma coisa que tenho aprendido com uma irmã e amiga piedosa é que fomos criados por Deus para sermos dependentes dele e uns dos outros. Isso é bom e também nos mostra quão pequenos somos. Assim que alguém nasce, depende totalmente dos cuidados dos pais. E até antes disso, quando um bebê é concebido, está se desenvolvendo e recebendo sustento na barriga da sua mãe. Depois, se é da Nova Aliança, depende também da comunhão com os santos, a igreja. E se for se casar, deixa pai e mãe e depende do seu cônjuge.

Sabemos, como cristãos, que o casamento reflete a relação entre Cristo e a Igreja, sua noiva (Ef 5.22-33). Uma relação de amor e de entrega, na qual o marido ama sua esposa de modo sacrificial, perdoando seus pecados, liderando-a pacientemente e mantendo-a segura. A esposa, todavia, é alcançada por esse amor, submetendo-se a ele em respeito, gratidão e confiança. Também, marido e mulher cristãos, antes de tudo são irmãos em Cristo Jesus. Assim, dependem um do outro e ambos de Cristo. Uma vida que exerce a confiança nas providências divinas, reflete essa graça nos relacionamentos aqui na terra.

Certa vez me deparei com o seguinte trecho de um livro de Adauto Lourenço (Gênesis 1 e 2):

(…) precisamos entender que a natureza foi criada para ser sempre dependente do Senhor Deus. Observe que as plantas foram criadas no terceiro dia e o Sol foi criado no quarto dia. As plantas dependiam de Deus e não do Sol. (…) Deus planejou todas as coisas de tal maneira que elas sempre seriam 100% dependentes dele, a fonte inesgotável de tudo aquilo que elas (e nós, seres humanos) precisamos para existir. (LOURENÇO, 2011, p.83, 84)

Você já havia parado para pensar nisso? Incrível, não é? Então, assim como a natureza, nós dependemos de Deus. Fazemos inúmeros planos a todo o momento, mas quem dirige tudo é o Senhor. Se vivemos é porque dependemos da graça de Deus.

“O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.” Pv  16.9

Uma luta diária

“Não digo isto por causa de necessidade, porque já aprendi a contentar-me com as circunstâncias em que me encontre. Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade.” Fp 4.11-12

Contentamento é uma palavra que precisamos ter fixada na nossa mente. Precisamos lutar contra as tentações da nossa carne que nos fazem cogitar que dominamos alguma coisa (Gl. 5.24,25). Aprender a nos contentar com a vontade do Senhor e a descansar nessa dependência, nas situações mais simples às mais difíceis da nossa vida. Muitas vezes não vamos compreender porque Deus quis que determinada situação ocorresse,  mas “em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1 Ts 5.18).

Pode parecer um tanto quanto difícil, ou até mesmo impossível, ter uma atitude piedosa diante de situações dolorosas que nos pegam de surpresa. Mas, quando temos guardado no nosso coração os princípios do Senhor, exercitando-os no nosso cotidiano, nos debruçando no estudo das Escrituras, mantendo uma vida de humildade e oração, buscando a sabedoria que vem do alto… Preparamos o coração para dependermos de Deus, e suportar todos os momentos, confiando em sua providência perfeita. Sabendo, assim, que participamos de algo maior que nós mesmos. Se confiamos em Deus no pouco, nos detalhes que compõem os nossos dias, confiaremos no muito, nas situações difíceis de suportar.

Lembremos dos ensinamentos de Cristo

“Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis. Mais é a vida do que o sustento, e o corpo mais do que as vestes.” (Lc 12.22-23)

Não podemos deixar de notar o que Cristo fala em Lucas 12.22-31. O Senhor sabe como somos ansiosos. Sabe que nos preocupamos demasiadamente com o que não nos compete, e nos importamos com coisas tão fúteis. Jesus estava ensinando os discípulos a viverem em piedade. Sempre que leio esse trecho, sinto como se Jesus estivesse “puxando minha orelha”: Filha querida, você depende de mim! Viva segundo o meu padrão. É o que eu quero para você.

Ele ainda nos conforta dizendo que os corvos, que não têm despensa, Deus os alimenta, e nós, os seus filhos, também não seremos desamparados (v. 24). E vocês estão preocupados com vestes? “E, se Deus assim veste a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?” (v.28). Oh, como é pequena a nossa fé! Mas o Senhor nos conhece, sabe o que precisamos (v.30), Ele nos criou e nos mantém. E o que devemos fazer diante disso? Antes de tudo, buscar o Reino de Deus (v.31). Isso sim é o mais importante. Dessa forma, as outras coisas nos serão acrescentadas.

Como sempre estou estudando e conversando sobre família, filhos e atividades no lar, reflito nessa questão de dependência de uma forma bem prática. Herdar uma roupa que foi do irmão mais velho, por exemplo, não é algo ruim, mas é Deus sustentando a família. Além do mais, Deus levanta a sua igreja como meio providencial para que não estejamos desamparados. Uma igreja fiel, que entende o chamado de Cristo, se alegra em ajudar uns aos outros de acordo com suas necessidades. Deus é bom e planeja tudo de forma perfeita, para que vivamos completamente dependentes dele. Como é bom e confortante saber disso!

 

Soli Deo Gloria.

 

Recifense, estudante de Serviço Social, porém, conservadora. Serve na Congregação Batista da Graça em Recife, amante de livros e principalmente das Escrituras Sagradas. Salva pela graça e para o louvor da glória de Deus.

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