Teologicamente fortes, espiritualmente débeis: é possível?

Sabemos a essencialidade de buscarmos profundidade no conhecimento bíblico. Por várias passagens bíblicas vemos a necessidade de corrermos às Escrituras, estudarmos e não cansarmos de observá-la para nosso crescimento. Porém, por causa de nosso coração pecaminoso, entendemos que até mesmo coisas boas e essenciais à vida cristã podem se tornar corrompidas quando usadas de forma a satisfazer nossos próprios desejos (Mt 23.5). A busca pelo conhecimento é uma delas.

Teologia é o que nos faz forte, mas como tem sido examinada essa teologia? Como está o solo que a adquire? Como tem sido aplicada?

Fatores como esses – que fazem parte do alicerce – podem ocorrer de serem negligenciados pela busca cega de uma construção de muros de teologia. O paradoxo é que, quanto ao conhecimento, podemos nos tornar fortes combatentes, cheios de argumentos sólidos e perspicazes; mas ainda nossa alma pode estar cauterizadamente faminta e carente de entendimento.

Seguem alguns dos perigos que podem ter como resultado o comprometimento da utilidade de uma teologia mal empregada:

1.A retenção de uma teologia seca, sem prática.

Ocorre quando foco é apenas aquisição de conhecimento, assim como estudamos qualquer outra disciplina. Recorremos à Bíblia sempre “com nossas botas”, como diz Paul Washer, sempre em busca de pesquisas para construir pensamentos, elaborar trabalhos, cumprir metas (mesmo que seja de devocionais!), mas nunca trazendo primeiramente para nosso coração e às necessidades de nossa própria alma. A leitura torna-se mecânica, obrigatória.
Essa atitude comumente é motivada quando o temor dos homens ganha espaço em nosso coração, sendo alimentado com o próprio ego. O auto-reconhecimento brama em nosso interior sempre pedindo por mais e, nesse meio tempo, seus resultados atingem todos os quanto estão envolvidos. Semelhantemente aos fariseus, podemos praticar obras com o fim de serem vistos dos homens. Nisto nos sobrevém a reprovação de Cristo.

2. A negligência da busca pela comunhão com o intérprete da Palavra.

Talvez pelo exagero observado quanto aos “momentos de orações extravagantes” ou “busca de novas revelações” de alguns, talvez por confiar em nossa própria sabedoria (mesmo que “inconscientemente”) acabamos correndo a extremos, nos tornando autossuficientes quanto às nossas regras de interpretação, normas de exegese, comentários sistemáticos. Esquecendo-se do único que pode desvendar nossos olhos às suas verdades (Sl 119.18).
Estribarmos de nosso próprio conhecimento é uma tendência que ocorre sutilmente em nós, que nos enche de orgulho e nos priva do alimento que o Senhor traz aos humildes.

3. A “obesidade intelectual”.

Quando não prezamos pelo compartilhamento do que estudamos, podemos nos tornar “obesos intelectuais”. Estamos lendo, estudando, trazendo para nosso coração, nos confrontando, mas paramos por aí. Facilmente deixamos de atentar à importância “envolver-se” no Reino. O fato é que nos mostramos não muito sensíveis aos que estão ao nosso redor, perecendo pela carência do que temos em abastança. Esquecemos que Deus semeia em nós para que os frutos que se sucederem alimentem nossos irmãos, para a edificação deles.

São erros comuns que frequentemente corremos risco de cair.
Mas examinemo-nos mediante o seguinte texto.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.
Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele corta; e todo que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda.
Vós já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado; permaneçam em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.”
João 15:1-5

Em primeiro lugar, podemos lembrar que, se há alguma virtude em nós, esta é provinda de Deus. Ele é quem nos dá o entendimento e pelo seu divino poder, nos concede todas as coisas que conduzem à vida e à piedade (2 Pe 1.3). Ser sábio aos nossos próprios olhos não passaria de uma atitude tola.

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida de fé que Deus repartiu a cada um.” Rm 12.3

Segundo, precisamos “tirar nossas botas” ao correr à Palavra. Nosso empenho em estuda-la não deve vir meramente à “algum trabalho”. Como videira, por meio dEle nos é dado em Sua Palavra o que é essencial para nos vivificar, nutrir e nos manter. O fato de estar nEle deve ser o nosso pensamento (João 15.5b). Confrontar a nós mesmos com sua Palavra e nos examinarmos se verdadeiramente estamos nEle (2 Co 13.5), irá nos fazer aptos para estimularmos o nosso próximo. Do contrário, como vamos edificar, estando arruinados? Como vamos guiar, estando nós cegos?

Terceiro, tal conhecimento desvendado por Ele mesmo, além de nos estimular à fé nos impulsiona e capacita à edificação de nossos irmãos. Temos responsabilidade para os que estão ao nosso redor. Deus no instrui também para que ensinemos acerca de seus preceitos. O amor que vem pelo entendimento de Sua Palavra faz com que partilhemos o conhecimento para o crescimento do Reino.

Minha oração é que o Senhor prepare o solo de nosso coração para o conhecimento que vem dEle e nos conceda sabedoria para aplicá-lo, para nosso crescimento e edificação de nossos irmãos nEle!

“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” 2 Tm 3.17

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