Apologia da audição espiritual – I

Parte 1

Revolução da tagarelice egotista. Todos querem hoje expressar publicamente o que sentem e o que não sentem e as chamadas redes sociais favorecem e incentivam com grandes investimentos e marketings este afã escravagista de expressão que temos e que intoxica, atrofia e nos sufoca, mas nem percebemos por causa da ilusão de prazer que as redes dão. São mostras desse fenômeno os excessos de depoimentos pessoais nas redes sociais, que mais são uma socialização dos egos e uma mundialização da tagarelice. E não mostra sinais de paragem. Os cristãos estão no meio dessa revolução da tagarelice nas redes sociais e tem sido difícil para nós usá-las de modo cristão, com discrição, sem cairmos na autossuficiência, autopromoção, fofocas, maledicências, difamações, indiretas, etc. Também falamos de tudo, também queremos uma voz no meio do barulho do mundo, este mundo que é um caldeirão de “pseudovozes”. Um mundo que é uma cidade em que a audição, de que tanto necessitamos como meio de que o Céu dispõe para introdução de vida e espírito para dentro de nós, foi interditada, desterrada.

As psicologias pouco ou mais avisadas já sabem e dizem, inclusive nas redes sociais, que é difícil e impossível, hoje, ouvirmos uns aos outros por causa das tecnologias e sua superlotação de informações – de vozes: é a morte da audição horizontal, o que denuncia, se quisermos ver bem, em paralelo, o assassinato da audição vertical (pois esta implica aquela). Ironia: a audição morre não só por falta, mas também por excesso de vozes, do barulho. E nisto, além da audição, a palavra e a voz também aderem à morte. Tem voz hoje o nosso homem? Nem ele se escuta! Tem palavra a falação do nosso homem hoje? Nem ele mesmo sabe o que diz! Ao lado do excesso de informação ou de tagarelice cibernética, temos a óbvia poluição sonora das cidades cujos danos para a nossa vida são reais e grandes. Não os enfoco aqui, mas parto desse fato para falar deste: o barulho ou poluição sonora espiritual também é vivo e real e suas consequências também. E em nós como igrejas ocorre o mesmo. Falamos demais, esquecemos o bendito lugar do silêncio em nossas vidas. É impossível uma camaradagem entre a audição com profundidade e qualidade e a poluição sonora, seja ela externa ou interna. É inverdade que o excesso de peregrinos desviados das santas sendas das Escrituras advém do maior fruto desta poluição sonora espiritual – a surdez espiritual?

Parte 2

O que chamo surdez espiritual é o não ouvir em espírito e em verdade a Voz de Deus que fala diariamente a nós pelos profetas e por Jesus Cristo (Hb 1:1-2). E é claro que esse não-ouvir manifesta-se igualmente como ouvir e não praticar o ouvido (Tg 1:22-25). Posso dizer que “a boa terra” na parábola do semeador (Mt 13) represente o ouvinte espiritual, que contrário do surdo espiritual, que pode ser figurado pelo caminho, pedras e espinhos da mesma famosa parábola. Adiciono: é a natureza da audição carnal, o que Tiago chama de “ouvido negligente”. A surdez espiritual é ouvir sem intelecto, sem inteligência e sem sentimento a Palavra de Deus; é não ouvir com corpo e alma a voz de Deus – não permitir a pessoalidade total participar da auscultação daquilo que “o Espírito diz às igrejas”. É não ouvir a voz de Deus, mas não significa que é um não-ouvir perfeito, pelo contrário, significa estar ouvindo a outra voz ou vozes – o ego, o mundo e o diabo. Esses três elementos participam da poluição espiritual que ensurdece nossas almas. A surdez espiritual é João 8:37-38. Essa surdez foi a causa da pergunta talvez a mais perturbante que já a Igreja de Deus ouviu, depois de “Adão, onde estás?”: “Senhor, quem ouviu a nossa Pregação?” (Isaías).
Sobre a audição espiritual basta dizer que já o defini no meu texto bipartido sobre o avivamento ou reforma de Josias. E se posso dizer agora algo mais seria apenas Lucas 11:28: “bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a observam.” Vê-se aqui o quão oposto é a surdez espiritual e o que significa: ausência de bem-aventurança, extrema tristeza, queda, e até morte espiritual.

A origem da surdez espiritual encontra-se obviamente no Éden: ali o homem deu ouvidos a uma voz estranha, que não era a do seu amigo e pastor, e o resultado foi a queda. Eu diria, no espírito e escopo deste artigo, que o fruto do pecado original é uma espécie de surdez ou poluição sonora espiritual, a surdez de que falo aqui. Os salvos, portanto, são os que, por pura Graça divina, tiveram a auscultação ressuscitada, despertada, os que passaram a ouvir a Deus novamente, que perderam a surdez espiritual e que foram salvos justamente para a santificação e a proclamação das glórias de Deus (as cartas de Pedro dizem isso!), mas tudo isso é impossível sem uma contínua audição espiritual da voz do Crucificado, sem a qual todos nós caímos e morremos e hibernamos espiritualmente.

O mandamento da Transfiguração é taxativo: escutai a voz de Jesus Cristo. A Transfiguração conta-nos das três respostas do homem diante da revelação de Deus: silêncio (ou calar-se), audição (ouvir a Sua Voz) e assombro (espanto ou maravilhamento).

Os três apóstolos que viram a Santa reunião de Jesus com Moisés e Elias (Lc 9:28-36), que ouviram a voz de Deus ficaram com assombro, essa pérola que se perdeu hoje entre nós, que falamos e ouvimos das coisas de Deus sem maravilhamento como se de coisas de somenos importância se tratassem. Toda a famosa, popular e bem quista falta de temor do Senhor e consequentemente de sabedoria e conhecimentos espirituais entre nós são resultados directos, não duvido, da perda da auscultação espiritual da Vox Dei, essa faculdade espiritual fundamental na vivência ou participação do nosso Aba.

A terceirização da vida religiosa, ou seja, do relacionamento canônico, pessoal e exclusivo com Deus está em estágio avançado em muitas vidas cristãs e supostamente crentes, nestes dias, e é alvo de aplausos, incentivos e investimentos pesados assim pela igreja como pelo mundo. Os jovens somos tratados como incapazes de perceber e conhecer a Deus diretamente e ouvir a sua Voz retumbante é abundante na Bíblia e no Mundo e precisamos de líderes que fiquem entre nós e o Divino e que se acham no direito e dever de domesticar a Deus para o nosso paladar infantil: e assim somos alvos de extrema infantilização que soa estranho e maléfico até mesmo para as próprias crianças. Isso é feito com o excessivo e carnal barulho do ativismo a que nos submetem com a desculpa de que jovens são alegres e brincalhões enquanto a exposição bíblica é séria, adulta demais é chata, com a desculpa de que os jovens precisam de diversões e programas mais leves que a seriedade do cristianismo especialmente no que toca a orar e a ouvir sermões sãos e longos. A tristeza maior que me frequenta assiduamente não é nem a ilusão dos líderes juvenis, mas a multidão dos jovens que sucumbem a essa infantilização e enganação, ao barulho ensurdecedor de suas fracas músicas e gritos vazios de euforia aleijada. Jovens que terminam se tornando surdos espirituais, poluídos sonoramente e não mais conseguem escutar a Deus, de tanto que escutam o ego que os programas juvenis divertidos inflamam, que auscultam o mundo que eles querem e não param de imitar e de tentar em vão impressionar, e o Diabo, que se esconde atrás de tudo isso e continua servindo aos nossos ouvidos a mesma infernal sopa edênica: “series igual a Deus”. Traduzindo: tu podes, tu sabes, tu és. Não surpreende que o “eu acho” seja popular hoje no meio cristão. Cadê o profético “assim diz o Senhor”? Cadê o apostólico “está escrito”? Estão em extinção porque fugiu de nossa realidade a glória da humilde auscultação da Voz de Deus.

Parte 3

A Escritura que serve de inspiração e ossatura ao presente texto é o que a Santa Transfiguração do nosso Senhor legou-nos em Lucas 9:34-35: “Enquanto ele ainda falava, veio uma nuvem que os cobriu; e se atemorizaram ao entrarem na nuvem. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi.” (O mesmo diz Mateus 17:5 e Marcos 9:7: “Em seguida, surgiu uma nuvem que os envolveu, e dela soou uma voz, que declarou: “Este é o Meu Filho amado, a Ele dai ouvidos!”.”). A Escritura que serve de inspiração e ossatura ao presente texto é o que a Santa Transfiguração do nosso Senhor legou-nos em Lucas 9:34-35: “Enquanto ele ainda falava, veio uma nuvem que os cobriu; e se atemorizaram ao entrarem na nuvem. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi.” (O mesmo diz Mateus 17:5 e Marcos 9:7: “Em seguida, surgiu uma nuvem que os envolveu, e dela soou uma voz, que declarou: “Este é o Meu Filho amado, a Ele dai ouvidos!”.”).  Nessa história incrível de tão maravilhosa, vemos que três discípulos ouviram esse mandamento antigo da audição espiritual directamente do próprio Deus, a Voz do interior das nuvens. Pedro estava falando disparates sugerindo fixação em tendas de Jesus e seus visitantes quando de súbito as nuvens os arrebataram, os embrulharam, os silenciaram, com assombro para que participassem da Transfiguração. O irmão Lucas diz-nos que o Pedro não sabia o que dizia, então, falava por quê? Salomão nos ensinou que falar demais produz o tolo, da tolice de que sou representante excelente muitas vezes. É verdade. Mas o Pedro não falou somente porque surpreso com o que viu, ele falou porque é filho de Adão e porque somos propensos a falar mais que a calar e esperar que sejamos apenas receptores dos sentidos das coisas e da Palavra de Deus.

Pedro falou porque há dentro de nós uma vontade enorme de expor nossas opiniões sobre tudo e inclusive ou principalmente sobre o divino, sobre o religioso, sobre Deus, uma vontade desenfreada de expressão de nossa visão, de nossa hermenêutica pessoal sobre os acontecimentos e quase sempre isso é acompanhado de recomendações sobre o que fazer. Ativismo é nossa sedução constante. Se alguém me dissesse que é assim porque nos dá algum sentimento de importância na existência, eu não ousaria desacreditar. Mas Deus, ele mesmo é não somente a Fonte Primária da mensagem e nem somente a Mensagem, mas também o hermeneuta de sua própria Palavra e ação. E para Deus, a transfiguração é sobre o Reino de Deus que chegou e a nossa participação nele é audição ao Rei do Reino, o Deus Filho. O apóstolo Pedro, amado irmão e pastor, ao falar indevidamente sobre a fixação dos três no monte em tabernáculos ou barracas, parecia querer fixar ali a experiência da Transfiguração e o Reino que ela introduzia ou representava. É o mesmo que Deus deseja para ele, mas por modo inverso: silêncio e audição em vez de falação e tagarelice. Marcos o coloca assim: “Este é o meu filho amado, a Ele dai ouvidos”. Dar, oferecer, entregar a Deus não palavras, mas ouvidos: pois nós é que necessitamos de enchimento do Altíssimo. O lugar de Jesus (o Evangelho), de Moisés (a Lei) e de Elias (os Profetas) não é num alto monte nem na sua fixidez rochosa e mono-geográfica, mas no coração humano. E como Jesus é a essência dos três (ouvir Jesus é ouvir a Moisés e os Profetas e vice-versa – Lc. 16:29, 24:44; Jo. 5:39, 14:25-26, 16:12-14), basta-nos ouvi-lo “em espírito e em verdade”. Digo de outra forma: na Transfiguração e no Reino de Deus, a nossa parte é ouvir e não falar, é ouvir o que o Cristo diz à Igreja. E o que ele diz é lhano: Moisés e os Profetas, ou seja, a Bíblia toda.

É importante notar que Lucas 9:36 registra que “Ao soar esta voz, Jesus foi achado sozinho; e eles calaram-se, e por aqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.”. Os discípulos esconderam no silêncio a sua voz e retrocederam a sua tagarelice diante da Voz de Deus entre as nuvens: diante da Voz de Deus cale-se toda a Igreja (não é isso que imitamos durante a audição dos sermões?) e toda a terra. A vida espiritual sadia, canônica e avivada (ou reformada) de um cristão é proporcional à sua exposição total à Voz de Deus, sim, à sua auscultação espiritual e silente “de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Deuteronômio). Ouvir a Voz de Deus é a gênese do temor do Senhor, e o homem que teme a Deus, ouve a Deus com a totalidade de seu ser. Graças a Deus os nossos pais, os apóstolos, calaram-se no monte. E diante da revelação do Senhor, o que é próprio aos humanos não é o silêncio justamente? E o que é este silêncio cristão senão uma humildade e uma espera, ou  um tempo em que o homem deixa a Vox Dei verdadeiramente acessar e assentar-se no seu íntimo, tempo de acomodação do Maravilhoso na sua mente, de penetração, fecundação do Celestial em sua alma, sem precipitação de sair falando?

Falar de Deus tem o seu lugar, mas em todos os casos só é verdadeiro quando fruto e nunca semente, resultado e nunca causa, de uma audição espiritual pessoal, verdadeira: o padrão é Moisés, o que Isaías 50:4-5 pinta da maneira mais bela que já vi, e que Lucas 9:35 celebra.  Irmãos amados, nós precisamos, necessitamos hoje de ouvir a voz de Deus. E quando Deus diz aos três pilares do colégio dos apóstolos a lei da audição (ouvi-O) ele está sendo coerente, consequente porque o seu filho não é nada menos nem mais que que A Palavra, e nas minhas palavras, a encarnação da própria Vox Dei, o que João chamou Verbo, Palavra de Deus. O Jesus de João 8:47 diz-nos: “Aquele que é de Deus, ouve as palavras de Deus. Entretanto, vós não ouvis; porque não sois de Deus.” (Comento: Quem é de Deus ouve (ouvir é buscar, ler, meditar, amar, crer e praticar) a palavra de Deus. Não outra coisa, não a palavra dos homens, nem dos demônios, nem dos anjos, mas somente as de Deus. Ouvir a palavra de Deus é ouvir a Deus, pois ela é a voz de Deus).

Lembremos, quando formos tentados pelo ativismo religioso, da Maria de Lucas 10:39 e de como o Senhor classificou a sua audição espiritual ou cristã em relação ao ativismo da sua irmã Marta: “a boa parte”, ou seja, a melhor parte: sentar aos pés de Jesus e ouvir os seus ensinamentos. Obviamente, não advogo a preguiça cristã, que já grassa com grosseria as nossas igrejas, sou crente de que todo cristão é um santo e um missionário e deve de viver como tais diariamente, mas simplesmente não confundo as coisas, ainda que ame e faça ambas: o melhor é receber de Deus do que oferecer a Deus. Repito, ainda que servir a Deus seja fundamental, embora eu para isso tenha sido criado e eleito (Efésios 2), o essencial mesmo é a base do fundamental – ouvir a Deus, encher-me dele. Pois é possível fazer coisas aparentemente religiosas para Deus e mesmo assim ter no coração um vazio Eterno que se chama ausência de Deus.

Mas é impossível ouvir espiritualmente a Deus e não ter em ações concretas de serviço cristão as manifestações dessa audição canônica e exclusiva e exclusivista, “Pois não podemos deixar de falar de tudo quanto vimos e ouvimos!”  (At 4:20) e ainda: “o que vimos e ouvimos, isso vos proclamamos…” (1 Jo 1:3). Nós sabemos que é o Espírito Santo que fala em nós quando falamos de Deus, é isso possível apenas se Ele habita o nosso ser. E ele habita principalmente para que falemos de Deus aos outros, para que se cumpra Lucas 10:16: “Quem vos ouve, a mim me ouve”. Sem dúvida, aqui devemos escolher entre Marta (serviço) e Maria (audição espiritual). Mas, se quiseres, e para que não haja briga linguística, posso dizer: o maior serviço que podemos oferecer a Deus é uma audição total de sua Palavra. E escolher a audição espiritual como Maria é sempre a melhor parte para nós porque também a audição espiritual por si é aceitação de Gênesis 1:1 e, consequentemente, uma aceitação de que “No princípio era a Palavra…” e que esta palavra não era humana, nem angélica, nem animalesca, nem demoníaca e nem vegetal, mas divina, que esta “Palavra estava com Deus” e “com Deus estava no princípio”. Deus inicia tudo, e ele já estava a falar desde o princípio, nossa parte é ouvir a palavra que é a fonte do princípio. Nós não somos o princípio como a tagarelice de Pedro no monte da transfiguração e nossa de cada dia, com ilusão sem semelho, sugere. Nós apenas respondemos a Deus, com silêncio cristão e audição espiritual. Porque é a auscultação de Deus que introduz a Palavra para dentro de nós (Jo 8:37). Porque dela dependem todas as outras “boas obras”. Porque desta passividade humilhante que é a natureza da audição depende toda a atividade que vale a pena, e porque  Ouvir é o mandamento base no AT e não deixou no NT. Sobre a audição espiritual se assenta o Decálogo de Jesus (Lc. 10:27). Assim, o amor cristão é filho da audição espiritual que Deus ordenou e espera de nós. Amarão a Deus e os homens os que estiveram e estão continuamente no monte com Deus (quero dizer, na audição da Vox Dei).

A audição assim também prova que Deus nos amou primeiro. Calar-se é humildade, o silêncio cristão é humilde, esvazia o ego e dá espaço para que a audição aconteça e encha de Voz Deis o coração de um Adão.  No monte da Transfiguração, o Shemá dos antigos é renovado na presença de Moisés e Elias (dois maiorais da audição espiritual) nos termos dos evangelistas sinópticos. Assim, vemos em retrospectiva que quando o nosso Elohim disse o Deteronômio 6:4 ele estava na verdade dizendo Lucas 9:35. O problema da nossa Cristandade atual não é exatamente a surdez espiritual? O corte da comunicação com o Deus, da audição vertical? A nossa separação com a Vox Dei? A raridade da dependência na Voz Divina é a fonte do fracasso da audição espiritual. O inverso é verdadeiro, e o círculo fecha-se: um gera o outro, e vice-versa.

Parte 3.1

Pela forma como um homem fala podemos saber a quem e de quem ele ouve. Pela maneira como um cristão fala de Deus podemos saber de quem tem ele ouvido sobre Jeová, com muita, pouca ou nenhuma facilidade, mas sempre é possível: porque sempre falamos o que temos ouvido, o mar se enche do que os rios o oferecem ou vice-versa, e a boca fala o que o coração ouviu, do que o coração está cheio. Eu sei que a universalidade de Deus anda de mãos dadas com a catolicidade do testemunho sobre Deus, logo, todos os cristãos podem e devem de falar sobre Deus (e isso é fundamental – e ainda escreverei sobre isto no corrente ano, se Deus quiser)! Contudo, tendo observado, principalmente as redes sociais, muitos mostram saber coisas de Deus e o falam abertamente no mundo virtual, pelo menos, mas também no real (o que cada vez mais difícil de ver). Mas, pelo excesso de “pseudovozes” nas ruas, nas escolas, nas igrejas, na internet, etc., quero lembrar-vos que precisamos subir ao monte da Transfiguração, necessitamos urgentemente de ouvir a Jesus e voltar à vida de ouvintes “tiaguistas” da Vox Dei.

Creio que a Bíblia quer que ouçamos mais do que falemos (Tiago), que Deus quer que nos calemos mais do que falemos, que escutemos mais do que pregamos. Mas Ouvimos a Deus mais do que falamos dele? Se crêssemos que o próprio Deus é quem fala de si mesmo em nós, mais importante não nos seria ouvir a Deus do que falar dele? Mais importante não nos seria encher nosso espírito de sua Verdade e nosso coração de sua voz que tentar articular sua Scriptura aos povos? (Eu prefiro mil vezes ouvir sermões a pregar!) Não é esse o padrão profético: ser menos boca de Deus que receptáculo dos oráculos divinos? Não está nisso o outro padrão eclesial em termos poucos profetas oficiais e a maioria na igreja ser composta de ouvintes oficiais? Ser menos arauto que ouvinte de Deus? Não é esse, por semelho incrível, o padrão apostólico: dar o que recebemos? Ter Deus antes de doá-lo aos outros? Comer a Palavra com toda a sua doçura e amargor e só depois de comido lançá-la para a alimentação dos outros? Não é iswo que diz Deteronômio 6:4,6-7? Não vemos esse mesmo padrão nos doze ou no amado João, o apocalíptico e ainda no inesquecível Paulo, o evangelista? (Usar isso para não evangelizar é hipocrisia!)

Irmãos, precisamos ressuscitar a nossa audição espiritual, é o único caminho de reavivar nosso coração. A própria reforma nasceu disso: da audição espiritual da Scriptura. Na audição, o próprio Jesus é o nosso modelo: ele veio falar as verdades que ouviu do Pai, e nisso, louvado seja Deus, João 8:26 não me deixa mentir. Precisamos imitar o nosso Senhor em ouvir a Deus.

Parte 3.2 

A audição espiritual exige comunicação, ligação, relacionamento, que, no caso cristão, é um casamento, aliança com Deus e, em especial, tem como condição sine qua non uma espécie de face a face com Deus, como no monte da transfiguração; rejeita toda e qualquer terceirização. A audição espiritual anula o ego e todo o seu ativismo, seu orgulho, põe o homem em seu respectivo sítio enquanto permite a visão correta de Deus como aquele que Fala ao seu povo desde antiguidade até hoje, pelos profetas e por Cristo (Hb. 1:1-2), justamente os três que estavam no evento único da transfiguração, o que Jesus chamou de o advento do filho do homem no seu reino (Mt. 17:28). Acrescento: se Deus tem falado desde a antiguidade até nossos dias, ele espera a mesma reação da igreja antiga e moderna: audição verdadeira, inteligente, completa e exclusiva – que chamo de espiritual.

A auscultação espiritual exige regarmos o ser de um silêncio profundo, um calar ou esvaziamento da alma e não somente da boca de todas as falações ainda que boas sejam, contudo é um silêncio ou esvaziar cuja justificação é o fato de que Deus é Deus e toda a terra deve e carece de se calar diante dele. Não falar porque ele é quem fala, mas também há outro motivo: calar e escutar para que ao falar falemos as palavras de Deus, para que tenhamos o sentimento e a mente de Cristo, e para que façamos as obras de Cristo. A audição espiritual é fundamental justamente porque temos o chamamento universal como igreja: falar sobre Deus, mais especificamente, falar do amor de Deus ao mundo inteiro. Com falar incluo todos os seus primos tais como proclamar, debater, arrazoar, anunciar, etc.

O que desejo ver nesses dias na mocidade cristã de Pernambuco e deste país é uma ressureição da auscultou espiritual da Voz de Deus, de forma que venhamos a vencer a letargia e a preguiça espirituais para com o serviço cristão de proclamar as glórias do Altíssimo, de contar as suas maravilhas do nosso Soberano. Em uma palavra, escrevo isto para que encarnemos o texto do profeta e poeta Isaías (50:4-5):

“É, pois, o Eterno, Yahweh, que concedeu-me a língua dos instruídos para que eu saiba o que dizer ao que está cansado; ele me acorda todas as manhãs; desperta-me o ouvido para que eu possa escutar como discípulo. O SENHOR, Yahweh, abriu-me os ouvidos e eu não fui rebelde, nem me afastei.”

Oro para que encorpemos Lucas 9:35.

Deixe uma resposta