Onde estão os jovens reformados?

Essa é uma pergunta que eu faço desde o meu primeiro período na universidade. Eu havia acabado de conhecer a fé reformada e estava assustada com o que iria encontrar no meu curso. Lembro-me de ter questionado um amigo a respeito, ansiando por encontrar pessoas que buscam a Deus e que testemunham a palavra da verdade nesse meio tão conturbado que é a academia. Fui respondida com um simples: não sei. Depois de algum tempo, encontrei alguns aqui e ali. Percebi que a quantidade de jovens cristãos de fé reformada nos grupos de internet é muito grande, mas que o campo missionário (a universidade em que estudo) está sedento por trabalhadores. Onde eles estão?

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14)

Você que está lendo esse texto, provavelmente já conhece o evangelho de Cristo. O que eu desejo, então, é compartilhar do que tenho aprendido sobre evangelismo. Pude tomar conhecimento da existência de vários intervalos bíblicos, e isso é bom! Também vi no campus universitário algumas manifestações artísticas de pessoas que professam serem cristãs – e não tenho nada contra isso -, mas não é evangelismo, não é a explicação do plano salvífico. Mais adiante irei tratar um pouco sobre isso.

Essa palavra, evangelismo, está sempre na nossa boca quando estamos na igreja, naquele lugar agradável em que todos pensam parecido. Estudamos o “ide, fazei discípulos”, mas a dificuldade de parar e conversar com uma pessoa sobre a fé que professamos é muito grande. Eu sei que existem vários fatores envolvidos, afinal, já analisei todos, procurando uma desculpa para não falar com algum indivíduo sobre Cristo. Sim, temos compromissos e prazos – que é importante honrá-los -, horários apertados, vergonha, medo, necessidades físicas, conhecimento limitado para possíveis perguntas que talvez não conseguimos responder, etc. Somos falhos!

Recentemente passei por esse momento de “análise”. Avistei uma pessoa conhecida, acenei e continuei andando em direção à sala de informática do centro acadêmico que estudo. Ainda enquanto estava acenando, me envergonhei e rapidamente olhei para baixo, sabendo que ela é uma alma que precisa ouvir o evangelho e eu não parei para falar. Eu pensei num trabalho que tinha de fazer e que não tinha tempo de ficar conversando com aquela pessoa. Mas uma pergunta martelou na minha cabeça: o que é mais importante do que uma alma que precisa conhecer o evangelho? Confesso que me senti incomodada, mas continuei andando. E foi fácil convencer a mim mesma com outro argumento que pensei. Coloquei a desculpa na minha falta de capacidade intelectual em conversar com tal pessoa (geralmente essa é a desculpa que eu costumo usar). Fui em direção à sala de informática, estava fechada e eu teria que passar pela pessoa novamente. Não teve jeito, sentei e conversei com ela.

Essas coisas acontecem o tempo todo. A nossa mente pode pensar em mil desculpas, mas se estamos em Cristo a nossa tendência deve ser confiar na sua palavra, amá-la mais do que tudo, tê-la como a verdade absoluta e desejar que outros a conheçam. Pela graça de Deus, hoje faço parte de um núcleo bíblico que realiza estudos e evangelismo pessoal e que me tem feito refletir sobre a necessidade da pregação do evangelho verdadeiro.

Mas o que é evangelismo?

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (2 Co 2.2-5)

O contexto atual de muitas igrejas evangélicas manifesta o entendimento de evangelismo como uma ação ou um evento para atrair as pessoas ao cristianismo, seja com entretenimento, testemunhos de vitória ou alguma atividade de caridade, entendendo que dessa forma o evangelho é transmitido e, assim, as pessoas podem desejar seguir a Cristo. Quando falo entretenimento, se trata das peças teatrais, das danças, do flash mob, dos “abraços grátis”, etc. Infelizmente, a doutrina da suficiência das escrituras é inexistente para muitas igrejas e os jovens amam realizar “eventos evangelísticos” sem a pregação da palavra, mas a substituem por essas manifestações artísticas. Pensam que não tem nada de mais, mas estão negando o poder da Palavra de Deus (Rm 1.16; Jo 5.39). A fé vem pelo ouvir a explicação do evangelho (Rm 10.17), e não pelo movimento de uma moça rodopiando, ou de uma peça teatral que mostra pessoas drogadas virando crentes e prósperas. Pensemos no exemplo dos apóstolos. Parece até ridículo imaginar o apóstolo Paulo fazendo uma peça de teatro para falar de Jesus, ou o apóstolo Pedro distribuindo “abraços grátis” para que as pessoas sintam o amor de Cristo. E a ação social, não é importante? Claro que sim, é um ato de misericórdia e é bom se preocupar com os necessitados, mas também não é evangelismo. É preciso, então, explicar que existe um Deus irado com o pecado da humanidade, expor a Lei, falar da graça redentora de Cristo e da necessidade de arrependimento para ser salvo. Isso é pregar o evangelho!

“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.” (Mt 28.18-20)

A ordenança que Cristo faz aos crentes é clara, e deve ser obedecida. Não como um fardo, mas como um privilégio de ter sido iluminado pelo Espírito, uma graça que pertence aos eleitos do Senhor. Portanto, devemos ter um coração grato por essa manifestação tão profunda de amor, que é a eleição, sendo instrumentos para salvação de outras vidas. Claro que isso deve ser aplicado em todo nosso cotidiano, com as pessoas a nossa volta. Aprendemos muito com o viver dos puritanos, preocupados em testemunhar e glorificar à Deus em todos os aspectos da vida. Mas não podemos desprezar a quantidade de pessoas reunidas numa universidade, que estão expostas à tantas teorias e que cada vez mais mergulham nas trevas. Principalmente quando se trata da educação brasileira, dos professores que formam pessoas revoltadas com a religião, distorcendo padrões morais, doutrinando os alunos há décadas político-ideologicamente. Logo, é muito precioso quando cristãos realizam evangelismo pessoal ou pregam para multidões nesse meio tão escravizado pelo pecado. Precisamos sair do nosso conforto, ir além dos encontros nos intervalos bíblicos e falar com quem está fora.

Jovem, anime-se! Sei que o trabalho é difícil e pode não dar tantos frutos quanto desejamos. Nosso consolo é saber que somos apenas instrumentos nas mãos do Deus soberano, e nada acontece fora de seu decreto eterno. É o Espírito Santo quem convence o pecador de sua maldade e não nós. Precisamos fortalecer nosso coração e perseverar nessa esperança. Não sou uma super evangelista (pelo menos, ainda não), e tenho muita vergonha e medo, mas sou uma jovem que tem sido motivada com a Palavra. Yago Martins escreveu o seguinte em seu livro “Você não precisa de um chamado missionário”: “Quer ficar assombrado diante de tanta beleza, a ponto de não aguentar ficar sem compartilhar essa maravilha aos outros? Conheça a Deus!” (MARTINS, 2015, p.40) É importante buscar a sabedoria do alto, isto é, buscando ao Senhor em oração, estudando a Escritura e encucando-a na mente. Ela mesma diz isso:

“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.” (Tg 1.5-6)

“Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. Com todo o meu coração te busquei; não me deixes desviar dos teus mandamentos. Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti.” (Sl 119.9-11)

“Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas.” (Dt 6.5-9)

Os jovens reformados normalmente têm acesso a muito conteúdo teológico. Mas por que ainda há o medo? Nessas últimas semanas aprendi que o que nos deixa muitas vezes amedrontados em abrir nossa boca para falar da Verdade é que somos apegados demais à nossa vida aqui na terra. Valorizamos nossa imagem, queremos que as pessoas gostem de nós, não queremos ser os crentes chatos, não queremos sofrimento ou perseguição, temos medo de perguntas e de fazer papel de tolos. Bem, em Mateus 5.10-16, nosso Mestre orienta os discípulos que a perseguição e as injúrias fazem parte da vida do cristão. E que, apesar disso, é preciso se manter firme, sendo sal e luz no mundo e para que Deus seja glorificado! Espero que os jovens reflitam sobre o enorme campo missionário que existe à nossa disposição nas universidades/faculdades, e que sejam incomodados pelo Espírito à agir diante desse trabalho. Jovens, quão alegres são os pés daqueles que anunciam o evangelho de paz (Rm 10.15)!

Soli Deo Gloria!

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