Apologia da Audição Espiritual – Parte II: a Epístola de Abraão

Para Carlos Nejar e Vanessa Silva

Mostrei na primeira parte deste texto o que é a audição e a surdez espirituais. Nesta segunda, lembro-vos que a surdez espiritual anda acompanhada por uma busca extrabíblica por Deus: não poucos cristãos pensam erroneamente que, se Deus lhes falasse diretamente sua vida, seria mais espiritual ou melhor; e muitos pensam e esperam que sinais maravilhosos acontecem e só assim creem.

Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado outro sinal, senão o sinal do profeta Jonas; porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração. A rainha do sul se levantará no juízo com os homens desta geração, e os condenará; pois até dos confins da terra veio ouvir a sabedoria de Salomão; e eis aqui está quem é maior do que Salomão. Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; pois se converteram com a pregação de Jonas; e eis aqui está quem é maior do que Jonas” (Lucas 11.29-32).

Quando ataco assim os idólatras dos sinais, devo incluir no mesmo ataque os idólatras do saber, que têm um conhecimento farisaico da Voz escrita de Deus: é possível conhecer a Bíblia e ainda assim ser surdo para a Bíblia. Daí o meu elogio à audição espiritual: “Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11.28).

Os fariseus sabiam as escrituras, digo, suas letras, como os nossos exegetas atuais, mas desconheciam a Voz emitida por aquelas letras inspiradas. Não ouviam a Voz de Deus, porque não a guardavam. Quem ouve a Deus, guarda a palavra e, quem a guarda, ouve-a. Portanto, o que essa geração deve buscar é ouvir a Escritura, sem ela somos mal-aventurados (infelizes e mortos). Os homens de Nínive e a Rainha de Sabá não buscaram sinais, mas ouviram e creram a pregação da Palavra de Deus feita pelos profetas. Jesus quer não que busquemos experiências miraculosas, mas que nossa cristandade baseie-se tão somente na Sua Palavra (que é a Verdade – Jo. 17.40). As nossas vidas dos jovens expressam uma profunda estranheza à Vox Dei. Ouvimos todos e tudo, exceto a voz de Deus. Mas como e onde ouvir a Vox Dei? Vejamos a seguir.

Ouvir a Deus significa ouvir as Escrituras

O meu eixo neste aqui é o texto do Diálogo dos Mortos, i.e., a famosa história do Rico e do Lázaro (Lc 16.19-31), que, julgo, todos conhecem. A história narra que o homem rico, no inferno, pediu ao pai Abraão: “Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento” (vv.27-28). (Ou seja, pediu a validação do espiritismo, ou de teologia do espetáculo que aqui denunciamos.) Mas o pai de Isaque respondeu: “Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Mas o rico insistiu: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam”. E o Esposo de Sarai arrematou: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite”. (A essas respostas do Pai Abraão é que chamo Epístolas de Abraão.) É como se o Pai de Isaque tivesse dito: eles têm a Bíblia e ela basta. Ou ainda: o problema dos homens não é ausência de pregadores ou testemunhos fiéis da Verdade, mas presença da surdez espiritual: têm a verdade, mas não a escutam.

Ó amado jovem, não ore a tua alma: “fala comigo, Senhor”; mas que clame: “faze, Senhor, que eu escute a tua Voz na Palavra, que eu tenha ouvido dum discípulo e obtenha a audição espiritual”. O nosso problema não é ausência da Vox Dei, mas sim a presença arraigada e forte da surdez espiritual expressa pela indisposição de ouvir a voz de Deus na Escrituras e a busca consequente de outras revelações espetaculares. Fugimos da Bíblia porque queremos que Deus diga-nos outra coisa, outra coisa diferente da que diz a Bíblia, outra coisa mais palatável para o paladar exigente do coração rebelde e medíocre que muito comumente caracteriza hoje a juventude evangélica e seus líderes. Deus recusa falar novamente a não ser pela Escritura, e foge do barulho idolátrico dos nossos cultos descolados e juvenis e alegres só porque tocamos e cantamos músicas tolas e vazias com melodias medíocres e sentimentais. Que cesse o barulho, cale-se toda a igreja e escutemos a voz do Senhor que brada das Sagradas Letras.

Vê só o homem rico. Ele escolheu a riqueza, desprezou a voz de Deus. O inferno foi o fruto de sua surdez espiritual. Ele pediu que haja outra revelação de Deus além da Escrituras (a impiedade sempre quer outra revelação que não a Bíblia!). A resposta de Abraão, ecoando a de Jesus, foi forte e religiosamente incorreta: não precisamos que voltem os mortos à terra para pregar, precisamos de e basta-nos Moisés e os Profetas. Que resposta! Agrada-me ouvi-la, pois, como quem devolve ao mar uma baleia, lança-me às Escrituras e não ao espiritismo nem ao meu ego. Precisamos da verdade escriturística, da Voz Escrita de Deus, não de relatos extrabíblicos de gente que supostamente foi ao inferno ou céu e viu coisas que far-nos-iam crer. Normalmente, esses relatos são falsos. Abraão rejeita essa tolice e faz apologia da suficiência da revelação canônica como fonte da vida, da fé e da salvação ecoando assim o que São Paulo belamente formulou em Romanos 10.17: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”. A Bíblia é suficiente para nós, não os sonhos, nem os milagres, nem os sentimentalismos, nem visões mirabolantes porque a fé não vem de nenhuma dessas coisas.

A recusa de Jesus e de Abraão louva ao que Paulo diz aos Romanos, a fé é produto exclusivo da palavra de Deus, e honra o que Jesus diz em Lc 11, a bem-aventurança é para os que ouvem e guardam a Palavra de Deus, assim como honra a verdade maior e fundamental que Moisés pregou em Dt 32.47: “Porque esta palavra não vos é vã, antes é a vossa vida; e por esta mesma palavra prolongareis os dias na terra a qual ides”… (Jesus repetiu a mesma palavra: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida.” (Jo. 6.63). Deus fala de maneiras variadas, toda a verdade é verdade de Deus, eu sei como sei que Deus fez e faz milagres no mundo, mas nada na Bíblia foi chamada de nossa vida a não ser as Palavras de Deus. Portanto, se queres ouvir a voz Deus, o lugar onde procurá-lo é a Bíblia. E é por isso que o meu amor pela Bíblia não é idolatria da letra, mas consciente apego eterno pela Vida Eterna.

Como disse J. C. Ryle,

Os grandes milagres não têm qualquer efeito nos corações dos homens, se não creem na Palavra de Deus. (…) Os mortos, se ressuscitassem para instruir-nos, não poderiam dizer-nos nada que a Bíblia não tem dito. Logo após desvanecer-se a novidade de seu testemunho, não mais nos interessaríamos por suas palavras, assim como não nos interessaríamos pela palavra de qualquer outra pessoa. (…) A fé simples nas Escrituras, que já possuímos, é a primeira coisa necessária à salvação. O homem que possui a Bíblia pode lê-la e, se apesar disso, espera receber mais evidências para se tornar um crente resoluto, esse homem está enganando a si mesmo. A menos que desperte dessa ilusão, morrerá em seus pecados”.

No tempo e no espaço, não existe nem existirá Vox Dei mais convincente que a bíblica revelação de Deus, nem mais útil, mais eficaz, nem mais completa, nem mais nova, nem mais bela, nem mais maravilhosa, nem mais proveitosa, nem mais divina. Por isso amo e grito o Sola Scriptura com os nossos pais reformadores. E este é o mesmo brado de Abraão, Moisés e Jesus. Somos filhos da Escritura e não de milagres espetaculares, nem de fábulas caducadas e nem de sonhos e achismos.

Já mostrei porque a Vox Dei que devemos ouvir é a palavra de deus: a Bíblia. Mas como?

Meditação bíblica

Uma forma bíblica, antiga e divina de ouvir a voz de Deus, a meditação significa ler a Bíblia com a mente e coração concentrados nela é ler em estado de oração, ler com tudo que somos, ler pensando no que lemos, enquanto o espírito e menos o ambiente está em estado de silêncio. Josué recebeu esta lei num momento barulhento de sua vida (sim, meditar na Palavra do Senhor é uma Lei imutável, assim como a vida eterna): “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.” Em outras palavras, não pare de ouvir a Deus, não pare de viver, viva diariamente.

O seu desafio era ouvir sensivelmente o que Deus lhe dizia por meio da Torá, no meio de mil vozes do povo que estava a liderar, povo que em grande parte era-lhe adversário. Seu contexto não era muito diferente, as distrações não eram poucas, e a exigência divina para a vida não era fraca: Meditar no livro. Meditar é mais do que ler, embora o inclua. Meditar é o ruminar a Palavra de Deus, o ler com inteligência, com integridade (mente e coração), com a verdade interior que acusa a necessidade de confissão diante do texto sagrado, com o espírito que entende o texto não apenas como mero jogo gramático-histórico, mas como a viva e dinâmica Verdade Divina em nossas mãos e, o que é maravilhoso, em nossa língua.

Com a meditação ganhamos intimidade com a Palavra de Deus e simultaneamente ajuda-nos a responder à Vox Dei – que é obedecer e obedecer é amar. A intimidade com a Escritura, i.e., a Vox Dei, é mais que alimento, nossa proteção contra as vozes apócrifas dos falsos mestres que pululam pelo mundo. Lemos: “as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10.3-5).

Meditar é que nos familiariza com a Voz de Jesus, para isso a memorização dos textos bíblicos é fundamental e a paciência. A rapidez de nosso tempo e a pressa de nossas vidas são inimigas da meditação e mentem quanto à obra da Palavra em nós: ela é devagar, exige que entremos em outro ritmo espiritual, incomum à nossa cultura fastfood e barulhenta; exige o ritmo do espírito, mais lento, mais silencioso, mais consciente, mais real.

“Deus não se curvou à nossa pressa nervosa, nem adotou os métodos de nossa era mecânica. O homem que deseja conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo” (A. W. Tozer), tempo em que em silêncio a alma rumina, pensa, repensa, sente, destrincha a Palavra, confessa, lamenta, chora, ri e se cala enquanto o Espírito de Deus toca e guia a alma à Verdade. Seguir ao nosso Mestre é sempre resultado direto da audição espiritual da Vox Dei, mas igualmente o é o não seguir a voz mestres apócrifos. E não podemos encontrar isso sem a leitura orante, consciente, humilde, calma, desapressada e fiel, sem tempo e silêncio. A poetisa Adélia Prado, em versos como sempre estupendamente bem conseguidos disse:

“Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.”

Se unirmos Tozer e Prado, temos perfeito resultado: gastar e doar tempo em e para Deus e esforçarmo-nos em conquistar silêncios para que seja-nos audível a Vox Dei.

O barulho e a pressa espirituais são invenções da queda e visam, ao lado da nossa endêmica preguiça espiritual e intelectual, a distrair e ensurdecer-nos. Escutar espiritualmente a Deus é obra menos dos ouvidos e mais da mente e do espírito. Deus é espírito e importa que seja ouvido em espírito e em verdade. À carne é impossível a voz do Senhor, é coisa espiritual, pois adoração é. Medite na palavra do Senhor, jovem, como uma criança que ardentemente desejo o leite, e ouvirás a Voz divina. A Meditação é também um discipulado dos nossos ouvidos espirituais.

Ouvir a voz de Deus na oração

Orando ao Senhor, ideias ocorrem à nossa mente. Sem dúvida, o próprio Senhor fala conosco na oração, pois é um diálogo, tanto é que muitos defendem que oremos a Escrituras, para que possamos orar o que Deus quer: os Salmos são um clássico de oração, assim como a oração do Senhor e as orações de Apocalipse. E de facto, a meditação e a prática da Escritura fazem com que a Vox Dei domine-nos e isso molda a nossa oração. Deus pode falar e fala conosco na oração, fala a nossa mente e coração de maneira convincente, por exemplo, sobre os nossos pecados, Ele pode trazer-nos à memória nomes de pessoas por quem interceder e mesmo o que dizer na oração, e pode dar respostas ao nosso coração e mente sobre outras coisas específicas de nossas vidas, etc.

Mas a nossa mente ou consciência nunca é juiz final de nada, portanto, tudo que pensamos que ouvimos na oração deve ser levada a consideração da Bíblia, porque Deus não se contradiz. (Escrevo esta parte com temor, porque sei que somos enganados facilmente por nossos sentimentos e pensamentos, criamos verdades e tentamos acreditar nelas como vindas de Deus, mas logo se revelam falsas porque nunca vieram de Deus). A nossa mente, se renovada, ouvirá a voz de Deus na oração, mas isso não significa que a carne e o diabo não possam também falar-nos; na verdade, fazem isso sempre. Portanto, todo o cuidado é pouco nesta área. Mas o perigo não pode proibir-nos de falar a verdade: Deus fala conosco através da oração, por isso é importante na oração não falar muito, mas também calar-se bastante. Essa é a ideia do pedido do salmista: “Sonda-me, ó Deus”. Interessante é a conexão entre a meditação e a oração, ambos devem ser atividades incessantes. Se acima eu disse que meditação é leitura orante, agora digo: oração é a expressão reverente e consciente do que meditamos ou com base no que meditamos: esta molda aquela e vice-versa.

Ouvir a voz de Deus no sermão

O fato de sermos filhos da Escritura, dos profetas e apóstolos e dos reformadores torna-nos, em teoria e lógica, ouvintes da palavra de Deus pregada ou lida por outros, mas sabemos que essa não é realidade. E se há uma coisa que conquistou o nosso desprezo hoje é a pregação. Os jovens não queremos mais ouvir sermões, por causa disso, não poucos líderes estão fazendo até o que não devem para atrair o interessa dos cristãos ao sermão. Entre o que fazem, figura-se a redução do tempo da pregação, a inclusão de técnicas de marketing e psicologia no sermão, as piadas, a opção por simulações de sermões (aqueles em que o pregador lê um texto, mas fala de qualquer outra coisa), etc. Ambos, ouvintes e pregadores, sabotagem do púlpito, que deveria ser porta-voz de Deus e alvo de nosso amor e reverência. Eu exorto-vos, jovens, a clamar ao Senhor que dê-vos novo amor pela pregação, nova paixão pela escuta de sermões nos cultos solenes de vossas igrejas locais, assim como oro para que dê-vos também Deus pregadores verdadeiros que preguem a Sua Palavra.

Parte da nossa cristandade é cada um ouvir a Vox Dei ao ler meditativamente a palavra de Deus, mas outra parte é ouvir a mesma Vox Dei através da ministração de profetas, digo, pastores-evangelistas. Quando Abraão respondeu ao rico, disse que os vivos têm a Moisés e aos Profetas. Jesus disse que daria ao mundo Profetas e Apóstolos. Embora essa linguagem se refira obviamente aos seus livros sagrados, é notável que os chamem pelos nomes. E como eles estão mortos, fica claro que tanto Jesus quanto Abraão queriam que ouvíssemos as palavras de Moisés e dos Profetas e Apóstolos através de outros homens, os nossos mestres.

A necessidade da pregação é defendida pelo Novo Testamento inteiro, sendo Jesus e os Apóstolos pregadores incansáveis, o que dá mostra de que a pregação é fundamental na cristandade. Paulo alerta-nos a não desprezar as profecias, as palavras divinas, mas comanda também que examinemos, que julguemos todas as palavras. Portanto, devemos ser como os bereianos, eles não desprezaram a Pregação, mas escutam a pregação e julgam-na pela Escritura. Como lemos: “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.” (At 17.11). Como a pregação é a explicação da Escritura que todos possuímos, podemos saber se o pregador fala ou não a verdade conferindo tudo.

Escutar sermões na igreja transforma e nos desafia. O tempo todo estamos falando para mostrar nosso controle, saber, etc., mas, no templo, ficamos em silêncio e escutamos a voz de nosso irmão enquanto lutamos pela concentração e audição espirituais. Sou humilhado e abençoado pelo silêncio, outra pessoa dirige-me a voz de Deus e sou desafiado a crer que é Deus quem fala por ele. Escutar é difícil, principalmente porque somos digitais (logo, dispersos) demais e destreinados na audição. Supomos saber ouvir naturalmente, mas isso é falso. Portanto, amados irmãos, devemos aprender a ouvir inteligentemente e amar ouvir sermões (há livros sobre isso!). E até devemos nos preparar no sábado para ouvir no domingo.

Quando meditamos, somos nós a guiar a experiência, mas quando ouvimos um sermão na igreja, é outra pessoa, o nosso ego é encostado e somos desafiados a escutar outra pessoa servir-nos com atenção que gostaríamos de ter se fossemos nós a pregar ou a falar (e aqui se revela nosso orgulho: nossa atenção e escuta espirituais caem várias vezes, viajamos durante o sermão várias vezes e se paramos de lutar para ouvir, perdemos tudo). É uma experiência extraordinária e louca e radicalmente difícil. (Eu ainda estou a aperfeiçoar a arte de ouvir sermões). Por isso devemos conscientemente praticar a audição. E, à medida que crescemos, os sermões curtos nos decepcionarão pela sua duração e os sermões longos não mais nos cansarão. É a este nível que quero que cheguemos, irmãos. Jesus ensinava diariamente no Templo, e todo o povo ia ter com ele lá, de manhã cedo, “para o ouvir” (Lc 20.3). Ele continua ainda a ensinar nas nossas igrejas, através de homens como nós. (Ouvir sermões na igreja é só o principal, mas podemos ouvir também na rua, no estádio e mesmo na internet, desde que não abandonemos a Igreja. A experiência de ouvir sozinho pode ser proveitoso, mas não supera a de ouvir na comunidade. Podemos ouvir também ao escutar a leitura bíblica feita por outros (a Bíblia em áudio valeria desde que usada para treinar a audição e não como substituto da leitura propriamente dita).

Ouvir a voz de Deus através dos irmãos

Deus fala conosco de variadas maneiras. Os nossos pais foram escolhidos por Deus para ser nossos primeiros pastores, e como tais são vozes de Deus para nós. Em Provérbios escutamos o clamor dos pais: “Filho meu, ouve a instrução de teu pai, e não deixes o ensinamento de tua mãe” (Pv 1.8) e todo o livro, posso dizer, é um conjunto de conselho de um pai ao seu filho. Minha mãe educou-me com base também em Provérbios, portanto é um livro com que tenho comunhão profunda. Os pais, contudo, portam a Vox Dei quando o que nos ensinam e aconselham são bíblicos, originam-se na Escritura. Fora dela, o que dizem é questionável e mesmo pode ser negado. E mesmo que esses pais sejam ímpios, o que nos dizem não deve ser descartado sem análise bíblica.

Mas não são somente os pais que portam a Vox Dei, todos os cristãos genuínos são portadores da Vox Dei e nossas vidas são impactadas pela forma como Deus usa a vida dos irmãos para moldar a nossa. Sim, os nossos irmãos, também são bocas de Deus e precisamos ouvir espiritualmente o que dizem para saber se falam o que é correto ou não. Tudo tem de ser julgado pela Bíblia, não desprezado. Esse princípio de aconselhamento entre irmãos só será possível se os irmãos foram ouvintes da palavra de Deus, quem não ouve a Deus, não pode falar por/de Deus. Vejamos o que Paulo ensina-nos: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração” (Cl 3.16). A Bíblia então é o tribunal do que nos dizem os irmãos, e também do que expressam as músicas.

Deus pode usar todos esses meios secundários para fazer sua Voz chegar aos nossos corações, mesmo assim, temos a obrigação de distinguir o que é divino e o que é não. E isso será impossível se Josué 1.8 não for realidade em nós. Pelo mesmo juízo devem passar os livros que lemos, teológicos ou literários. O que ouvimos nesses livros será comunicação de Deus para nós se condizer com a Santa Escritura. Em todos estes diferentes lugares ou formas de ouvir a Deus, é importante que notemos a importância da Bíblia, como a base, o esqueleto e o tribunal de todas as vozes que ouvimos, inclusive aquelas que ouvimos dos nossos irmãos cristãos.

Por fim, eu não tenho nenhuma razão biblicamente clara e convincente de que Deus não pode falar audível e diretamente aos homens hoje ainda, como fez com Paulo, no caminho de Damasco. Não duvido. Contudo, não ensino isso porque é perigoso. Você leu a resposta de Jesus aos que pediam sinais? Leu a resposta de Abraão ao rico no inferno? Todos eles repetem a mesma coisa: a Palavra de Deus é suficiente para nós e nada mais precisamos. Em outras palavras: Sola Scriptura. Eu alerto-vos, irmãos, de que esses que se acham apóstolos e tentam acrescentar a Bíblia usando sua autoridade de milagreiro ou escrevem experiências miraculosos de ida ao inferno ou de ouvir Deus direta e audivelmente, não só são antibíblicas por fazer isso, mas normalmente são apócrifos os seus escritos e discursos. Eu oro para que possamos ouvir com todo o nosso ser a voz de Deus na sua Santa Palavra, na Sua Igreja e através de seus santos, segundo a própria Escritura. Qualquer comunicação extrabíblica com Deus é incerta, perigosa e normalmente falsa. Que Deus ressuscite os nossos ouvidos espirituais e assim desperte os nossos espíritos. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Lc 14.35) a Voz Escrita do nosso Grandioso Deus.

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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