A tristeza e o cristão

No contexto evangélico brasileiro, a tristeza é vista como falta de fé, insatisfação e algo que não deveria estar presente na vida de um crente. Particularmente, luto contra a tristeza e o abatimento há muito tempo. Ainda me lembro de, quando mais nova, passar horas e horas chorando.

Mas será que um crente realmente não pode sofrer e se entristecer?

Há um salmo que é tido como o mais mórbido da Bíblia: o salmo 88. Ele começa relatando a angústia do salmista e, diferente dos outros salmos, termina sem uma reviravolta positiva. Se trata de um tipo de desabafo do autor.

Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado. A tua ardente indignação sobre mim vai passando; os teus terrores me têm retalhado. Eles me rodeiam todo o dia como água; eles juntos me sitiam. Desviaste para longe de mim amigos e companheiros, e os meus conhecidos estão em trevas. (Salmo 88.15-18)

Dentre os escritos inspirados da Escritura, está esse salmo que é um tanto quanto sombrio. Além disso, temos na Bíblia exemplos de pessoas tomados de profunda tristeza como Elias quando deseja a morte e se isola em uma caverna (1 Re 19.4-14); ou Davi quando chora pela doença de seu filho fruto do seu pecado com Bate-Seba (2 Sm 12.16-17); além de quando os discípulos dormiram de tristeza no Getsêmani (Lc 22.45).  Nesses casos, a tristeza provém de formas diferentes e por motivos diferentes, no entanto, em todos os casos, crentes verdadeiros são tomados por esse sentimento.

Esses exemplos são importantes, mas são pouco reconfortantes para o coração sofredor. Saber que mais crentes passam pela “noite escura da alma” serve para que resistamos na fé (1 Pe 5.9), mas não responde nossas lamúrias. Paulo sofreu; Pedro sofreu; João sofreu; Davi sofreu; Asafe sofreu; Abraão – o pai da fé – sofreu. Está certo, mas sabemos que somos pecadores, que isto faz parte da nossa existência e que, de certo modo, merecemos sofrer aqui e no porvir por nossa própria natureza.

O caso verdadeiramente diferente é o do próprio Cristo. Ele é chamado de O Servo Sofredor. O Deus encarnado sofreu, e não apenas isso, sua identificação com a tristeza compõe sua natureza. Em Isaías 53, podemos ler que “foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento” (Is 53.3 – NVI). Não sei quanto a você, mas, para mim, isso faz toda a diferença. Deus veio à terra para sofrer e verdadeiramente sofreu. Ele chorou a perda de um amigo (Jo 11.35); ele sofreu a ponto de suar sangue (Lc 22.44); ele não tinha sequer onde reclinar a cabeça (Lc 9.58). Além disso tudo, ele foi traído, açoitado, crucificado, zombado.

Em Hebreus lemos que Jesus foi tentado em tudo , porém sem pecado, a fim de que ele pudesse se compadecer de nossas fraquezas (Hb 4.15). Ainda mais claro, lemos que:

Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados. (Hb 2.15-17)

Isso verdadeiramente nos conforta. O próprio Deus que é exaltado em tudo e todos sofreu. Quem somos nós para não sofrer? E melhor: porque ele sofreu, ele pode nos socorrer em cada necessidade. Nisso está toda o conforto que precisamos, porque Jesus se identifica conosco, conhece nos lamúrias e nos consola pessoalmente. Agora que fomos feitos povo de Deus, irmãos adotivos de Jesus, encontramos nele a verdadeira paz.

Sabendo disso, podemos voltar e entender o Salmo 88. O autor estava sofrendo, no entanto ele não procurou amparo em ídolos – cisternas rotas que nada podem fazer -, mas no verdadeiro Deus. Sabe por que esse texto não é uma murmuração? Porque ele começa e termina em Deus.

A lamentação é a exposição das vísceras que inutilmente tentamos esconder. (…) Ela é feia, melancólica, questionadora e às vezes chega a ser petulante. Mas não confunda lamentação com murmuração! (…) Na murmuração, não há amor nem fé; só ressentimento, ódio de Deus, ofensa barata e comparações gratuitas. [1]

Nos demais casos, vemos a solução vinda de Deus. O Senhor veio chamar Elias para fora da caverna (1 Re 19.9-12); Deus consolou Davi quando ele se arrependeu (Sl 51.17); o Pai enviou o anjo para fortalecer Jesus (Lc 22.43); Jesus, mesmo sofrendo, exortou seus discípulos (Lc 22.46).

Um crente pode sim se entristecer, pode sim chorar, pode sim sofrer. No entanto, em todos os momentos, o próprio Deus é quem o visita. Não estamos sozinhos. Não fomos abandonados por Deus nesse mundo de dores. Ao contrário: Deus veio para sofrer conosco.

Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó. (Sl 103.13,14)


REFERÊNCIA

[1] MADUREIRA, Jonas. Inteligência humilhada. 1 ed. São Paulo: Vida Nova, 2017.

23 anos, paulista semi-pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Areias, estudante de Engenharia Química e namorada de Fábio. Trazida, mantida e confirmada por Cristo.

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