A prática bíblico-puritana do autoexame

 

Esse texto é o resumo do artigo completo.

“Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13.5)

 A prática do autoexame é de grande importância na caminhada cristã. Assim como seria insano um piloto de avião que não se certificasse da feitura da revisão de todas as partes da aeronave, antes de levantar voo, assim também, insensato é o cristão que trilha a caminhada cristã sem a contínua prática do autoexame. Essa prática é bíblica e muito valorizada no cristianismo reformado experimental, a saber, no puritanismo. “Os puritanos levavam a sério o pecado e o autoexame”.[1] “As consequências de se omitir da meditação são sérias. Conduz ao endurecimento do coração”.[2]

O autoexame é, como mencionado, uma autossuspeita; é uma atitude de humildade do coração do crente que, suspeitando de si mesmo, inquire sua própria consciência acerca de suas motivações, desejos, ações e reações. O autoexame é um ato reflexivo;[3] é, no poder do Espírito, tendo a Palavra como Lâmpada em uma mão e espada em outra, perseguir o pecado em cada esconderijo escuro e sombrio de meu coração.  Uma expressão bíblica comumente utilizada para autoexame é o “sondar o coração”.[4]

Autoexame: Sua existência e possibilidade

O autoexame existe? Ele é, realmente, possível de ser feito? Porventura, não é o meu coração enganoso; como posso, então, examiná-lo?”– são perguntas que alguém pode fazer. A Escritura mostra a existência e possibilidade do autoexame. Isso pode ser visto de duas formas: primeira, em textos bíblicos, nos quais encontrarmos o crente inquirindo a sua própria alma e consciência acerca de seu estado (Sl 13.2; 42. 5, 11).

A segunda forma encontra-se na própria existência da consciência. Na Escritura, a consciência é tida como uma testemunha, ao lado do Espírito Santo (cf. Jo 8.9, Rm 2.15, 9.1; 2 Co 1.12). Ela também testemunha quando é questionada e sondada a respeito de alguma coisa. Portanto, o autoexame tanto existe quanto é possível. Sua existência e possibilidade são vistas em prática na Escritura Sagrada.

Autoexame: sua necessidade, importância e obstáculos

O autoexame é necessário e indispensável para uma vida espiritualmente saudável e frutífera. A natureza pecaminosa, corrompida e enganosa do homem é, ao mesmo tempo, a razão e o obstáculo para a necessidade do autoexame. O pecado ainda presente nos crentes torna o autoexame uma prática necessária. Tão logo o pecado parar de existir, tão logo também o autoexame será desnecessário. Visto que o pecado e a sua corrupção ainda atuam no crente, o autoexame se faz fundamental para a percepção dessa atuação, sendo o primeiro passo para a sua anulação. A Escritura diz que o coração é enganoso (Jr 17.9). Portanto, por causa da natureza enganosa do coração, o autoexame é indispensável para abortar toda tentativa do pecado de nos enganar e nos conduzir à queda. Eis a importância do autoexame.[1] Outro ponto que mostra a necessidade do autoexame são os pecados secretos. Em Sl 139.23, 24, Davi reconhece que há pecados desconhecidos. Essa realidade também evidencia a importância do autoexame.[2]

Contudo, a mesma verdade que fundamenta a necessidade também fundamenta o obstáculo do pecado. Pois, se o pecado é enganoso, desesperadamente enganoso, ainda é possível que tente se esquivar do autoexame. A partir disso, brilha a promessa que emana da ordenança do autoexame, a saber, o auxílio divino; e a evidência da necessidade de dependência de Deus.

Autoexame: Sua ordenança e seu fundamento

O autoexame não é uma prática religiosa inventada pelos homens e sim uma ordenança do Senhor, tendo seu fundamento nEle. A ordenança diz: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo” (1 Co 11.28a; 2 Co 13.5; Gl 6.4-5). O autoexame “é um dever necessário, pertencente a todos na igreja, e requer muita diligência na realização dele”.[1] A primeira vez que o autoexame foi, na prática, ordenado e sua necessidade exemplificada foi em Gn 3.9-13; 4.6. O fundamento do autoexame reside no ser de Deus, a saber, em Sua onisciência. Porque Ele é o único que sonda completa e perfeitamente os corações (cf. 1 Cr 28.9, 29.17; Sl 139.1; Jr 17.10; Rm 8.27; 1 Co 2.10; Ap 2.5, 23; 3.3). Primeiro, se Deus sonda o coração completa e perfeitamente, tendo a correta interpretação do estado deste, então, somente Deus pode capacitar o homem a ter algum bom fruto de seu autoexame. Sendo assim, somente em Deus há a possibilidade de o autoexame ter algum sucesso. Segundo, se Deus conhece tudo o que se passa em nossos corações, deveríamos atentar contra hipocrisia e fazer uso do autoexame para fugir.[2]

Autoexame: Os meios de executá-lo

Após entendermos a possibilidade, a necessidade e a importância do autoexame, o próximo passo é investigarmos os meios para executá-lo. Como operarmos o autoexame?

Oração: A oração é o primeiro passo para um autoexame que agrade a Deus e que traga algum bom fruto. Por meio da oração, nós nos apresentamos em atitude humilde e dependente dAquele que sonda e conhece o nosso coração mais do que nós mesmos. Ele conhece cada lugar; o mais sombrio, o mais escondido, Ele o conhece (Sl 139.23, 24; Sl 26.2). Essa oração é a de um filho dependente que não consegue entender a si mesmo e clama por ajuda. Fazer isso é reconhecer que Cristo é nosso profeta: “Ele nos ensina a ver dentro de nossos próprios corações”.[3]

Conhecimento da Palavra: O segundo meio para executarmos o autoexame é buscarmos um conhecimento da Palavra de Deus, mais especificamente, de Sua Santa Lei – que revela a Santidade de Deus. A Palavra do Senhor diz que “Os preceitos do Senhor são justos, e dão alegria ao coração. Os mandamentos do Senhor são límpidos, e trazem luz aos olhos” (Sl 19.8) e que “também por eles [os mandamentos] é admoestado o teu servo; [e] em guardá-los [há] grande recompensa”. É se contrastando com a Palavra que podemos efetuar o verdadeiro e proveitoso exame de nossos corações. A falta de conhecimento é comparável à cegueira – não enxerga nem o mundo nem a si mesmo corretamente.[1]

Meditação: perguntas feitas a si mesmo: Como exposto no início do estudo, o autoexame pode ser percebido nas Escrituras e pode ser praticado por meio de perguntas à consciência, assim como fez Davi (Sl 42.5). Do mesmo modo que a melhor maneira de extrair uma confissão de um culpado é a inquirição, assim também, a melhor maneira de extrair o estado de nossa alma é por meio de perguntas diretivas a ela. Tais perguntas visam encontrar a motivação por trás da ação; o sentimento por trás de uma reação; o objetivo (pecaminoso) por trás dos meios empregados; um ídolo por trás de um falso culto. Exercitar-se nessas perguntas nos possibilitará cumprir o que Jesus orienta em Mt 7.3-5. É esforçar-se, em obediência a Cristo, por “lembrar-se de onde caiu” (Ap 2.5).

Comunhão dos santos: A comunhão dos santos é necessária para o autoexame. Pode parecer um contrassenso, visto que este trabalho piedoso é um ato reflexivo (em si mesmo, não em outros ou feito por outros). Entretanto, é no ambiente da comunhão dos santos que surgem ocasiões de autoexame. Dentre diversas coisas que podem ser destacadas, encontra-se (1) a contribuição dos santos em fornecer material para seu autoexame por meio da consideração do que os outros podem dizer sobre você[2] e (2) as situações de convívio.

Diários Espirituais: Os diários espirituais, nos quais se registram orações, confissões e reflexões são meios muito práticos no auxílio do autoexame. Os puritanos mantinham registros pessoais ou diários espirituais como forma promover a piedade.[3] Eles realmente “creditavam que escrever diários poderia ajudá-los na meditação, na oração, na recordação das obras e da fidelidade do Senhor, do monitoramento de seus próprios objetivos e prioridades e na manutenção de outras disciplinas espirituais”.[4]

Olhando para Cristo: O autoexame tem por referência a Palavra de Deus (Lei Moral). Mas, ao se comparar com a Lei, o crente – justa e devidamente – é assolado pelo peso dos seus pecados que são ressaltados por ela. Por isso, o autoexame deve ser praticado sempre olhando para Cristo, em quem o crente encontrar perdão, força para obedecer e consolo. “Para cada vez que você olha a si mesmo, dê dez olhadas a Cristo, pois só Cristo pode ser o objeto da fé verdadeira”.[1]

Autoexame: Seu propósito

O autoexame possui um propósito piedoso, a saber: visualizar “nossos pecados para que sejam mortificados; nossas carências, para que sejam supridas; nossas dignidades, para que sejam consolidadas”.[2] Pelo autoexame sincero, constante e diligente, o crente evidencia que deseja identificar o inimigo para que se possa lutar contra ele. E tudo isso é para que Deus seja glorificado na vida santa de Seu povo.

Autoexame: Exortações finais

Portanto, segue algumas exortações finais (encorajamentos) para o autoexame: (1) “Tenha o cuidado de suprimir todo pecado no primeiro movimento”.[3] (2) “Examine-se a si mesmo para o seu próprio crescimento na graça”.[4] (3) Em todas as coisas, antes de praticá-las, sonde a si mesmo e considere a finalidade que você deseja para que o pecado, como um parasita, não infecte ações santas com motivações pecaminosas. (4) “Empenhe-se, diariamente, em enxergar cada vez mais a sua miséria através da sua incredulidade, do seu amor-próprio e das suas voluntárias infrações das leis de Deus”.[5] (5) Não pare no autoexame e no lamento, mas aplique a mortificação do pecado percebido.[6] (6) Acima de tudo, faça o autoexame não confiando em sua justiça ou – conseguindo executá-lo com regularidade – confiando e se vangloriando do cumprimento desse dever.[7] Que o Senhor ouça a oração do seu povo: “Sonda-me, ó meu Sumo-Sacerdote, e vê se há em mim algum caminho mal. E eu sei que há, por isso, mostra-me meus pecados, ó meu Profeta; e destrói-os, pois, são meus e teus inimigos, ó meu Rei”. E nos fortaleça para a Sua glória.

*Bacharel em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Bacharelando em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN). Pós-graduando em Teologia Pastoral pelo SPN. Especializando-se em Pregação Expositiva pela Associação Bíblica Pregue a Palavra. Presbítero em disponibilidade na Igreja Presbiteriana do Brasil.


Christopher Vicente

Bacharel em História pela UFRN. Bacharelando em Teologia pelo SPN e pós-graduando em Teologia Pastoral no SPN.


REFERÊNCIAS

[1] BEEKE, Joel. JONES, Mark. Teologia Puritana: doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 834.

[2] BEEKE, Joel. Espiritualidade Reformada. São Paulo: Fiel, 2014, p. 141.

[3] WATSON, Thomas. A Ceia do Senhor. Recife: Os Puritanos, 2015, p. 48.

BROOKS, Thomas. Resista ao Diabo: um estudo da batalha espiritual dos crentes contra Satanás. São Paulo: PES, 2014.

[4] CHARNOCK, Stephen. A discourse of self-examination. Disponível em: < https://www.the-highway.com/articleJuly00.html >. Acesso 07 out. 2017.

[5] ______. Sondando sua Consciência. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/sermoes/sondando_consciencia_edwards.htm >. Acesso 04 out. 2017.

[6] Idem, Ibidem.

[7] CHARNOCK, Stephen. A discourse of self-examination. Disponível em: < https://www.the-highway.com/articleJuly00.html >. Acesso 07 out. 2017.

[8] Idem, Ibidem, p. 78.

[9] WATSON, Thomas. A Ceia do Senhor. Recife: Os Puritanos, 2015, p. 201.

[10] ______. Sondando sua Consciência. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/sermoes/sondando_consciencia_edwards.htm >. Acesso 04 out. 2017.; VINCENT, Nathaniel. A conversão de um pecador. Os puritanos e a conversão. São Paulo: PES, 1993, p. 88.

[11] ______. Sondando sua Consciência. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/sermoes/sondando_consciencia_edwards.htm >. Acesso 04 out. 2017

[12] BEEKE, Joel. JONES, Mark. Teologia Puritana: doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1199 – 1200.

[13] Idem, Ibidem, p. 1027 – 1208.

[14] Idem, Ibidem, p. 1296.

[15] WATSON, Thomas. A Ceia do Senhor. Recife: Os Puritanos, 2015, p. 49.

[16] BAYLY, Lewis. A prática da piedade. São Paulo: PES, 2010, p. 181.

[17] BEEKE, Joel. JONES, Mark. Teologia Puritana: doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1271.

[18] BAYLY, Lewis. A prática da piedade. São Paulo: PES, 2010, p. 182.

[19] EDWARDS, Jonathan. Sondando sua Consciência. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/sermoes/sondando_consciencia_edwards.htm >. Acesso 04 out. 2017, p. 46.

[20] WATSON, Thomas. A Ceia do Senhor. Recife: Os Puritanos, 2015, p. 63.

PACKER, J. I. Entre os Gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã. São Paulo: Fiel, 2016.

EDWARDS, Jonathan. A genuína experiência espiritual. São Paulo: PES, 1993.

______. Resoluções de Jonathan Edwards (1722-1723). Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/vida_piedosa/70resolucoes_edwards.htm >. Acesos em 04 out. 2017.

______. A Fé Cristã: estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

______. Como Ler a Bíblia (Locais do Kindle 346-358). KDP. Edição do Kindle.

Como pode o jovem manter pura a sua conduta? Vivendo de acordo com a tua palavra. (Salmos 119:9)

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