Uma reflexão sobre o jejum

É comum entre os recém reformados o abandono de diversas práticas, oriundas do meio eclesiástico que viviam, entendendo que não estão relacionadas com os ensinos dos apóstolos. Automaticamente, criam uma certa aversão a tudo que tenham aprendido, principalmente quando se trata do meio pentecostal ou neopentecostal. Mas, apesar das motivações dessas práticas serem baseadas numa teologia errônea, é certo que não podemos descartar aquilo que é bom, como a paixão pela evangelização, a oração incessante e a prática do jejum. Neste texto discorreremos sobre este último, pois percebo que pouco se discute a respeito desse tema tão importante, e que muitos têm-se deixado levar pelo liberalismo.

O jejum é a abstinência de alimentos por um certo tempo, com razões espirituais. Sabemos que muitas pessoas nas igrejas brasileiras buscam alcançar objetivos diversos e fúteis, mediante o jejum, crendo no poder de suas obras para isso. O jejum não é uma forma de barganha com Deus, e não deve ser feito por qualquer motivo. O jejum também não deve ser feito para a exibição de uma aparente boa espiritualidade que, na verdade, exalta o homem e sua carnalidade. Vamos ver mais adiante como Cristo tratou esse aspecto com os fariseus, mas, primeiramente, é importante saber como a prática do jejum surgiu nas Escrituras.

“E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós. Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor.” Lv 16.29-30

 “Mas aos dez dias desse sétimo mês será o dia da expiação; tereis santa convocação, e afligireis as vossas almas; e oferecereis oferta queimada ao Senhor.” Lv 23.27

Podemos ver a ordenança de Deus para o povo de Israel, no Antigo Testamento, de que jejuassem uma vez ao ano (Dia da Expiação), a fim de se purificarem diante de Deus. A expressão utilizada “afligireis as vossas almas” se refere ao jejum. No transcorrer das Escrituras há outras passagens, tratando o jejum de forma semelhante:

“Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho.” Isaías 58.3

“Mas, quanto a mim, quando estavam enfermos, as minhas vestes eram o saco; humilhava a minha alma com o jejum, e a minha oração voltava para o meu seio.” Sl 35.13

Em Atos 27.9, menciona que em tal momento o jejum já havia passado, se referindo ao Dia da Expiação: “E, passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, pois, também o jejum já tinha passado, Paulo os admoestava”. Além dessa obrigação da Lei Mosaica, estatuto perpétuo, as pessoas do povo de Israel podiam jejuar individualmente ou coletivamente de forma voluntária (1 Rs 21.2, 2 Sm 1.11-12, Jl 1.14).

A partir da Nova Aliança, por causa de Cristo, não estamos mais sob o jugo da lei. Logo, não temos mais o Dia da Expiação, porém, a prática do jejum permanece. Então, por qual motivo o jejum pode ser feito? Em toda a Bíblia vemos a prática do jejum relacionada à períodos de grande dificuldade, momentos de aflição, problemas com a nação, calamidade, sentimento de arrependimento e tristeza. E o objetivo do jejum deve ser sempre dedicar um momento para buscar a Deus, estando em oração e espírito humilde. Não há nas Escrituras a prática do jejum separada da oração.

O jejum é apenas para abstenção de alimentos ou posso fazer jejum de alguma coisa que eu goste muito?

Quando a Bíblia mostra a prática do jejum, é para a abstenção apenas de alimentos. Hoje em dia, muitos se abstêm, por exemplo, de tecnologias afim de ter mais tempo para investir na comunhão com Deus, e chamam isso de jejum. Já vi pessoas sem tomar refrigerante por um tempo, afirmando que isso era seu jejum pessoal. Confesso que eu já fiz, há um tempo, algo parecido por não entender bem essa questão. Embora não seja errado abrir mão de algo em nossa rotina que gostamos muito para orar mais e se dedicar ao estudo das Escrituras, não podemos chamar qualquer tipo de abstinência de jejum. E também, o jejum não deve ser feito como forma de penitência. Outra questão que já ouvi falar é o “jejum” de relações sexuais na vida conjugal. Essa prática, também, não é orientada na Palavra. O que Paulo fala em 1 Coríntios 7.5 é a abstinência do sexo com a finalidade do marido e da esposa se dedicarem na oração: “Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência”. Adiante, veremos um pouco mais sobre a prática do jejum no Novo Testamento.

Qual deve ser o período do jejum?

 A Bíblia mostra jejuns de 40 dias, como foi o de Elias ou o de Moisés (1 Rs 19. 5-8, Ex 34.28), jejuns de alguns dias, como o de Ester e o de Davi (Et 4.14-17, 2 Sm 12.15-23), por exemplo. O período exato não é orientado na Escritura, isso vai variar de acordo com as circunstâncias e o discernimento do Espírito. É certo que não podemos ficar sem comer por longos períodos e prejudicar nossa saúde. Hoje é comum fazer jejum de algumas horas do dia. Deus não requer de nós sacrifícios. Ele quer a nossa obediência.

Mas, qual a finalidade de deixar de comer? Isso influencia na oração?

Quando sentimos fome, lembramos que precisamos de alimento, que dependemos dele. O jejum serve para nos fazer refletir o que a nossa alma anseia. Temos fome de Deus, necessitamos do seu mantimento, sem Ele estamos caídos, desnutridos, mortos. O jejum nos mostra que dependemos completamente do Senhor do universo; nos lembra que Ele tem o controle sobre nossa vida e, assim, nos humilhamos e rendemos glórias a Ele. Jejuar é humilhar-se diante do Senhor, confiando na sua vontade. Dessa maneira, o crente se fortalece espiritualmente. Então, por qual motivo um cristão não jejuaria?

O jejum no Novo Testamento

Muitos podem afirmar que o jejum não é mais necessário, partindo para o liberalismo teológico com seus argumentos tolos.  Mas, o fato é que a igreja hoje pode e deve jejuar, de acordo com o que a Bíblia nos mostra. Além do que já vimos no Antigo Testamento, vamos analisar alguns aspectos do Novo em relação ao jejum.

– Jesus jejuava e nos deu o exemplo a ser seguido. Esse, por si só, já é um argumento que deve nos motivar à prática do jejum. Cristo, sendo Deus, viveu humildemente, passando por uma série de aflições e de tentações de Satanás. Mas, sempre confiando no plano do Pai e nos ensinando a ter um espírito humilde, jejuava e orava.

 “Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome.” Mt 4. 1-2

– Jesus nos ensinou a motivação correta para o jejum. Tudo o que nós fizermos, inclusive o jejum, deve ser orientado por uma motivação que glorifique a Deus, pois Ele sonda nosso íntimo e requer de nós humildade e não autoglorificação. Os fariseus, no entanto, se gabavam das suas orações, das suas ofertas, e faziam questão de mostrar para todos que estavam jejuando, desfigurando o rosto. A motivação deles era a atenção das pessoas para a sua aparência de piedade. Não passavam de homens tolos e hipócritas, que só deixavam mais visíveis sua perversidade.

 “E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto, Para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.” Mt 6.16-18

– Em Mateus 9, ao ser questionado pelos discípulos de João, Jesus confirma que o jejum é lícito para ser feito em momentos pesarosos da vida e na sua ausência haveria necessidade de jejuar.

“Então, chegaram ao pé dele os discípulos de João, dizendo: Por que jejuamos nós e os fariseus [muitas vezes], e teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem acaso estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” Mt 9.14-15

– A oração e o jejum nos capacita. Segundo Hernandes Dias Lopes: “O jejum nos esvazia de nós mesmos e nos reveste com o poder do alto. Quando jejuamos, estamos dizendo que dependemos totalmente dos recursos de Deus”[1].

“E disse-lhes: Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum.” Mc 9.29

– Vemos a prática do jejum presente na igreja primitiva, isto é, um jejum coletivo. Paulo e Barnabé estavam sendo enviados para sua primeira viagem missionária. Com isso, a igreja da Antioquia orou e jejuou para tomar a importante decisão de enviá-los.

“E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram.” At 13.2-3

 O apóstolo Paulo citou que jejuava em meio à suas aflições e perseguições por causa do santo nome de Cristo.

“Nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns.” (2 Co 6.5)

“Em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez.” (2 Co 11.27)

Contudo, aprendemos que o jejum é a abstenção de alimentos com razões espirituais, que pode ser feito de forma individual ou coletiva (a igreja). O objetivo do jejum é a dedicação à oração, com espírito de humildade e está sempre relacionado com períodos de dificuldades, aflição, arrependimento, tomadas de decisão, etc. O jejum está presente tanto no Antigo Testamento, quanto no Novo, e deve ser praticado com a motivação correta, sem hipocrisia. O jejum, assim, nos capacita, produz corações confiantes e dependentes de Deus.

Em relação a isso, é importante pensarmos, e gostaria de chamar atenção ao contexto em que vivemos, que nos causa indignação quando olhamos para a situação do nosso país, os valores de Deus sendo deturpados pelo povo, a violência e a corrupção escancaradas, a promiscuidade sendo ensinada para crianças dentro das escolas e entre tantas coisas. O que nos impede de clamarmos a Deus por misericórdia e justiça, jejuando em igreja ou individualmente? Quão precioso é quando os crentes se dedicam em jejum e oração, declarando que são governados pelo Senhor! Oh, Deus, venha o teu Reino!

Soli Deo Gloria


REFERÊNCIA

[1] LOPES, H. D. Três tipos de espiritualidade. Disponível em: <http://hernandesdiaslopes.com.br/portal/tres-tipos-de-espiritualidade/>.

 

Recifense, estudante de Serviço Social, porém, conservadora. Serve na Congregação Batista da Graça em Recife, amante de livros e principalmente das Escrituras Sagradas. Salva pela graça e para o louvor da glória de Deus.

2 comentários em “Uma reflexão sobre o jejum

    1. Obrigada, Maeli! Fico feliz que tenha gostado e espero que tenha sido edificada. Esse assunto é muito mal compreendido pelas pessoas. Precisamos nos debruçar nas Escrituras e buscar a verdade. Que o Espírito guie você, jovem! Deus abençoe.

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