A Arma da Reforma

[Dedicado ao Salmos 119, meu amicus fidelis]

Em as comemorações de outubro, enquanto palestrava sobre a Reforma, uma verdade adentrou a minha atenção: o sucesso da reforma foi simplesmente através da Palavra de Deus, numa radical encarnação do Sola Scriptura – na minha visão a doutrina principal do movimento reformista, do Protestantismo, a mãe de todas as outras – e sem o uso das armas, da força, de bombas e explosões e exércitos. O que chamo de arma da reforma, o São Paulo deu o pseudônimo “espada do Espírito”, o Salomão alcunhou “Águas profundas” e “ribeiro transbordante” e São Pedro chamou de “genuíno leite espiritual”. (Falar da arma da reforma, para mim, é uma necessidade pessoal e uma paixão porque como diz Adélia Prado, “Com a boca decifro o mundo, proferindo palavras”, e o meu “espírito busca palavras” com o “espanto de escrever” e ler/ouvir.) Quero mostrar, portanto, que a Palavra de Deus foi a Luz de onde a Reforma Protestante recebeu gratuitamente a “luz do mundo”, que foi e ainda é, a fonte de água viva de onde o Protestantismo adquiriu gratuitamente a saciação da sua sede e as águas que dele tem transbordado desde o início até hoje. É disso que trata este discurso sobre a arma da reforma. (O que estou a tentar dizer com este discurso sobre a Arma da Reforma, os poetas já sabiam e sabem-no melhor, aliás, se o leitor quiser, em vez de ler este texto, poderia simplesmente ler todo o Salmos 119.)

Que a Palavra (as palavras) foi a arma da Reforma, as Noventa e Cinto Teses são evidências e todo o ministério de Lutero, prova. A Palavra de Deus foi quem realizou, das primeiras às últimas ondas, toda a Reforma, através das vias antigas, proféticas e apostólicas: ensino, pregação e escrita. (E esta mesma Palavra é ainda e será sempre a fonte de onde o cumprimento do Semper reformanda fluirá.) Como alguém pode defender-se das lanças espirituais da Palavra de Deus? E “quem poderia conter as palavras?” (Jó 4.2). As palavras da Palavra caem sobre as muralhas do pecado e do mal, do engano e da escravidão de almas, da cegueira espiritual e da idolatria, etc. como furacões selvagens e, como bombas, explodem tudo e “tudo se despedaça”, como disse Yeats; das muralhas do pecado não sobra “pedra sobre pedra”. Foi isso que a Reforma causou na Alemanha e no mundo, quando explodiu a Igreja Romana – apenas com a Palavra, somente com as palavras. Sem armas carnais.

A Arma da Reforma não foi invenção dos reformadores, mas é filha de Deus, assim como as formas variadas de encarnar essa arma, i.e., de usá-la. A arma da Reforma foi testada por Deus há séculos e mostrou-se eficaz nos profetas e nos apóstolos e nos missionários cristãos dos primeiros séculos até a Patrística. E na Reforma, em todas as suas ondas, mostrou-se eficaz e ainda hoje é eficiente e sempre será porque “Passará o céu e a terra, mas a minha Palavra não passará” (Marcos 13. 31). O Espírito Santo disse-me, pela boca santa de Efésios 6.17 que a arma da igreja é a Palavra de Deus, que a baptizou de “a Espada do Espírito”. O sucesso do Protestantismo e sua marca começou a ser esta Espada e continua sendo-a, para a glória do Senhor, cuja “misericórdia dura para sempre” (Sl 106.1). E Jesus mesmo é esta Arma (pois é a Palavra), e com ela é que o Pai realizou a invasão ao mundo com o nascimento de nosso Senhor Logos, através da Maria, quando ainda era virgem. Invasão esta que significa a victória irreversível de Deus sobre os reinos do mundo. A presença da Palavra (Jo 1.1) no mundo, só ela, é já victória do Reino do Céu sobre o mundo, cujo jazigo é o maligno. Matar a Palavra é tentar apagar um forno lançando mais lenha nele, pois só ajudou-O a cumprir a sua missão de mostrar a Imortalidade da Palavra e sua capacidade de doar eternidade aos homens que nela creem e vivem.

Enfrentar a então poderosa Igreja de Roma e os romanistas com armas e espadas materiais, com táticas carnais como a calúnia e a difamação é coisa de ímpio; enfrentar a Babilônia com armas americanas e brasileiras é coisa mais estúpidas e é coisa de pagãos: é dessaber e odiar o que a Palavra é e pode obrar. Os muçulmanos (lembras-te das Cruzadas?), loucos por poder e dominação mundial assim como Roma, lançaram-se em guerra com a Europa, dirigida por Roma, com armas carnais e nada conseguiram, Roma continuou firme e forte e ainda conseguiu cooptar os muçulmanos aos seus propósitos babilônicos globais. Mas a Igreja Romana, então império poderoso e imbatível, não resistiu e ruiu atacada que foi apenas pelas balas da Palavra de Deus (O seu erro fatal diante da Reforma foi submeter-se ao Papa e a tal suposta tradição e não a Palavra de Deus exclusivamente; aliás este sempre foi o erro principal de Roma e o é ainda). O Lutero, porque teólogo, pastor e cristão bíblico, escolheu (aceitou) a arma certa – a Palavra e o uso bíblico dela – e conseguiu derrubar Roma do ninho que plantou no alto do céu, e assim libertou a Igreja, o Evangelho do seu “cativeiro babilônico”, o que veio a transformar o mundo. Nada de grande fez senão apenas aquilo que o mundo odiou e ainda odeia: o kerigma e o didachê, a proclamação e o ensino da Palavra de Deus, através da pregação, do ensino, da escrita e do debate. Ele mesmo disse:

“Para resumir, eu pregarei (a Palavra), ensiná-la-ei, escrevê-la-ei, mas não constrangerei a ninguém por força, pois a Fé deve nascer livremente sem imposição. Tomai-me como exemplo: Eu me opus às indulgências e a todos os papistas, mas nunca pela força. Eu simplesmente ensinei, preguei, e escrevi a Palavra de Deus; fora disso, não fiz mais nada. E enquanto eu dormia (Mc 4:26-29), ou bebia a cerveja de Wittenberg com meus amigos Phillip e Amsdorf, a Palavra enfraqueceu grandemente o papado com perdas que nenhum príncipe ou imperador jamais havia causado. Eu não fiz nada, a Palavra fez tudo.”¹

E o pastor Alemão ainda diz:

“Se eu desejasse fomentar confusão, eu poderia trazer um grande derramamento de sangue sobre a Alemanha; na verdade, eu poderia ter começado um jogo tal que nem o imperador poderia ter corrido perigo. Mas o que isso teria sido senão mero jogo de tolos? Eu não fiz nada, eu deixei a Palavra fazer o Seu trabalho.”²

Na verdade, na verdade vos digo que não fomos chamados nada mais que isso que Lutero fez: pregar, ensinar e escrever. A Palavra é suficiente em si mesma, não precisa de empurrões, não precisa de ajudas de movimentos e associações com as trevas e seus métodos carnais para ter sucesso. A Palavra é autossuficiente. Como o próprio Javali Selvagem disse no mesmo sermão:

“O que pensais que Satanás pensa quando alguém tenta fazer isso através de brigas? Ele senta-se no inferno e pensa: Ó que jogo bom os pobres tolos estão dispostos a jogar agora! Mas quando nós somente proclamamos a Palavra e esperamos que Ela sozinha faça o trabalho, isso perturba o Diabo. Porque a Palavra é todo-poderosa, e toma os corações por cativos, e quando os corações são capturamos o trabalho flui por si só.”³

    Tamanha confiança e dependência na/da Palavra espanta quem não tem familiaridade com a Bíblia e com o coração do Protestantismo. Essa dependência da Palavra que embasa este famoso dito do singular e inesquecível Pastor Alemão: “Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias.” E ainda este também: “A menos que vocês provem para mim pela Escritura e pela razão que eu estou enganado, eu não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa à Palavra de Deus.” Esta escravidão da mente de Lutero a Palavra de Deus seguia a tradição dos apóstolos, nos quais vimos desde o início o uso da Espada do Espírito, a Palavra, através das palavras e nunca o uso da força para entrar onde quer que fosse, o Livro de Actos é um tratado do uso da arma do espírito contra o mundo e suas trevas, contra a idolatria e suas hostes. Quando Tessalônica, com boca de trovão, bradou “Estes que têm transtornado o mundo, chegaram também aqui” (Actos 17.6), qualquer um poderia pensar que, como naquele tempo invasões e guerras eram comuns assim como hoje, esses transtornadores ou terroristas marchavam e lutavam com as armas romanas, com espadas e lanças. Mas não, eles transtornavam o mundo, na moda do efeito dominó, apenas com a Palavra, somente usando as palavras. É isto exactamente o que a Reforma imitou e, ao usar a Palavra como arma única do movimento, os reformadores firmaram sobre a terra sólida que o Espírito Criou e nos revelou assim:

“Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo; (2 Co 10.3-5).

    A parte em que o Lutero credita todo o sucesso do movimento à Palavra não encontra justamente neste texto de 2 Coríntios um comentário-testemunho? O uso da arma da reforma se inspirou de facto em São Paulo, principalmente. E, mais uma vez, o nosso pai Lutero reafirma o não uso da força, mas da Palavra, encarnada pela pregação, proclamação, kerigma de Paulo. Vede:

“Certa vez, quando Paulo foi para Atenas (Atos 16), uma cidade poderosa, ele encontrou no templo muitos altares antigos, e foi olhando-os um por um, mas não derrubou um deles sequer com chutes. Pelo contrário, ficou de pé, no meio do mercado, e disse que eles não eram nada além de objetos de idolatria, e pediu que as pessoas os abandonassem; contudo, ele não destruiu nenhum deles pela força. Quando a Palavra  as tomou, capturou os seus corações, e elas mesmos os abandonaram por conta própria e, consequentemente, a coisa se resolveu por si.”⁴

Submetendo-se ao uso da Palavra como arma e a pregação como uso desta arma, Lutero sabe que isso significa que ele abriu mão de usurpar ao Espírito a tarefa divina de convencer aos homens. Portanto, diante dos que agem diferente do que é a nossa Fé, como os romanistas, o Pastor da Reforma diz:

“… eu teria pregado para eles e teria adverti-los. Se eles ouvirem a minha advertência, eu os teria ganhado; caso contrário, eu, inobstante isso, não os teria separado [do erro] puxando-os pelo cabelo e nem teria empregado força, mas simplesmente eu permitiria a Palavra agir e oraria por eles. Porque a Palavra criou o céu e a terra e todas as coisas; a Palavra deve de fazer isto, não nós, pobres pecadores”⁵

A Palavra é o Agente exclusivo aqui, não a força, porque “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6). O significado e importância (ou eterno e miraculoso peso) da Palavra na pregação profética de Ezequiel 37 é o mesmo na/para a Reforma: uma arma com poder sobrenatural de criar vida por si mesma. Sem ajuda de sínodos, assembleias, bulas, leis, politicagens, conluios, inquisições e torturas e assassinatos. A culpa do que a Reforma fez ao mundo não é dos reformadores, meros escravos da Palavra, mas a culpa é da Palavra de Deus. Culpe-a a ela, “Senhora soberana” (emprestando o dizer da Mayra Andrade), toda alma ou corpo ou esqueleto que quiser culpar a Reforma por alguma coisa: desde o desrespeito ao trono papal e o desbancar do Papa do seu pedestal blasfemo até a nova vida que a fonte reformada jorrou desde Alemanha até os confins da terra para onde correm hoje eruditos e leigos pregadores protestantes do Evangelho, que a Reforma libertou, resgatou, redescobriu, como Josias no templo, e abriu para o mundo inteiro. (Nossos tradutores entre indígenas do Brasil, ou Balantas e Bijagós da Guiné-Bissau, por exemplo, são continuadores dos labores dos reformadores, dos labores da Palavra; são “servos da Palavra”, como disse o poeta Carlos Nejar).

    O que eu digo com base em Ezequiel 37 é o mesmo que eu digo da Palavra na concepção gigantesca e poderosa de São Pedro em 1 Pedro 1.23-25, e de São Paulo em Hebreus 4.12, em 2 Timóteo 3.16-17 e 4.1-5 – e o que Paulo grita aos ouvidos filiais de Timóteo acompanhou totalmente a Reforma no seu uso da Palavra de Deus como arma de avivamento, de combate às trevas babilônicas. (Em verdade em verdade vos digo que estou a escrever este texto também porque acredito na contemporaneidade do contexto social-histórico e do significado da Reforma, que, a meu ver, aconteceu num contexto similar ao de 2 Tm 4.1-5, um mundo idólatra, pagão, com igreja pagã, sincretista, tenebroso, estadistas fracos e maus, um mundo que desconhece o Evangelho, etc. E diante dum contexto como esse, o 2 Timóteo 4.1-5 advoga o uso da Scriptura como arma contra um tempo dominado pelo corpo de Sodoma e Gomorra e alma do tempo de Noé, escravizado pela mente da pós-queda.)

O 2 Timóteo 4.1-5 é um aliado forte da Reforma em lembrar-nos da necessidade de contemporizar a Reforma e uso da Arma da Reforma nas nossas lutas aqui neste país. Tempos como o nosso são não só horríveis, mas enganadores, e hoje estamos sendo enganados a desprezar a arma da reforma para usar outros meios. A política está aí e conquista entre nós adeptos tantos, as marchas estão aí para os protestos sociais de pressão às autoridades, etc. Mas em épocas como a nossa, as armas são justamente horas de pregação da Palavra, de escrever livros e debater a Bíblia, de evangelizar e de comentar as escrituras, de traduzir a bíblia e de explicar ordenadamente a nossa religião. A arma da reforma é o antídoto exacto e único de tempos tenebrosos como este nosso. Não é a filosofia e nem cultura, não é a ideologia e nem a militância em prol do salvamento da civilização ocidental, pois tudo isso Deus derrubará, a única coisa que não passará é a Palavra de Deus e os servos da Palavra. Não devemos abandonar a obra da Palavra por nada neste mundo. A obra da Palavra é o “bom combate”, a carreira da Fé (2 Tm 4.7). (Enquanto escrevo isto lembro-me de Pedro e João dizendo Actos 6:2-4, e de facto o versículo 4 define com justeza e propriedade os reformadores protestantes mais do que qualquer outro talvez).

Denegarmos a arma da reforma para assumir outras é esquecer a natureza espiritual da nossa guerra. Abandonarmos a Palavra como arma no mundo não prejudica a Palavra, é 1 Pedro 1.25 quem o diz, mas desmonta-nos a nós, destrói-nos a nós, engana e aprisiona-nos alegre e satisfatoriamente às armas desautorizadas da carne (como as oba-obas, os cultos excitadíssimos de cai-cai e pula-pula, os milagrismos, as prosperidades, os sincretismos, etc.) “Porque esta palavra não é pra vós coisa vã, antes é a vossa vida e por esta mesma palavra prolongareis os dias na terra” (Dt 42.37). E porque, a semente da igreja é a Palavra (Mc 14.14) e não abraços, filmes, teatros, coreografias, danças, esmolas, etc. (embora essas coisas tenham seu respectivo espaço). A semente é a Palavra e é semeada com palavras, isto é, com conversação, com discurso, diálogo e debate, e não dominação, imagens de escultura e amuletos, obras e méritos, politicagens e bulas, mas a Palavra. Os reformadores disso tinham consciência. E assim semearam, com a Reforma, a Semente ela mesma.

A gigantesca confiança dos reformadores na Palavra causa muito que admirar neles, mas também muito que pensar sobre os nossos dias. Vivemos num mundo cada vez mais imagético, um tempo altamente digital, que progressiva e propositalmente se afasta da Palavra e das palavras, que não quer ler nem ouvir, mas ver. Estamos a fugir da Palavra e das palavras; estamos a sujeitarmo-nos, como o mundo, ao cativeiro das imagens, a pregação não é mais suportada se durar mais de meia hora, enquanto aguentamos filmes de mais de duas horas e séries televisivas de um ano ou dois ou mais de duração. Isso é muito visível na evangelização. O uso da Palavra e das palavras como vemos nos Apóstolos (Actos 20.20) e nos reformadores e missionários que vieram deles não é mais copiado. O que vejo é um abandono do uso da palavra e adopção de fórmulas como “pregue o evangelho, se for preciso, fale” e “faça amizade” e “abraço grátis” e cia. Esta fuga da fala, da voz, da proclamação, por mais bonita que pareça, não é cristã e é traiçoeira. Estamos a criar mecanismos de promoção da fé pela visão, que foge do modo proposicional de existir e viver no mundo de Deus e retoma vias como o sentimentalismo que as imagens reais e virtuais ajudam-no a gerar.

A nossa geração, por causa do seu amor doentio e ilegal à imagem, despreza a palavra. Este desprezo não se realiza através do silêncio somente, mas igualmente pela tagarelice, do ulular oco de vozes vazias e esvaziantes, i.e., do uso da palavra de maneira estúpida, frívola, descompromissada, mentirosa, preguiçosa, anti-verbal. O problema maior não é com a visão propriamente dita, que é uma benção divina e muitas vezes na Bíblia é sinônimo de ouvir e ler. O problema mesmo é que um mundo que prioriza o ver é um mundo que afasta-se da Fé, é um lugar que segue o São Tomé, no dia mais baixo de sua vida, disse quando fundou a mui popular teoria do ver-e-crer, que o nosso amado João 20:29 condenou peremptoriamente (Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram). Porque a Fé é do universo da Palavra, semente que brota e nasce no solo divinamente fértil da Palavra, e ela auscultada ou lida. A Fé é filha da Palavra e não da imagem. A fé não vem pelo ver, mas pelo ouvir e o ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10). Por causa disso, a Reforma adoptou a Palavra como Arma, obedecendo ao Evangelho, o que gerou a sua natureza: um movimento de avivamento espiritual.

Não poucos cristãos estão a refletir sobre o nosso tempo como povo e igreja. Mas eu discordo de quase todos os métodos e armas que sugerem, pois “minha consciência está cativa à Palavra de Deus” como Arma de Combate, como ensina-nos a 2 Timóteo 4; o meu coração é escravo do método apostólico de lutar contra o mundo, que foi o método patrístico e não foi o medieval (embora não em todo), mas veio a ser o método per excelence da Reforma Protestante: a proclamação da Palavra oral e escritamente, epistolar e debatidamente, do púlpito e nas mesas, na Igreja e nas ruas, na música e na oração, na poesia e nos escritos teológicos, na historiografia e na biografia.

Ouço rumores de ataques a terreiros de macumba e coisas parecidas, que evidenciam tentativa de recorrer ao uso de força para beneficiar o Evangelho. Isso tudo é obra do diabo, que quer sabotar a missão da Igreja. A Reforma Protestante enfrentou o inimigo mais horrível que a Igreja já viu, a Igreja Romana, mas não precisou de usar as forças físicas nem militares, apenas com a pregação da Palavra, a escrita e o debate fez todo o trabalho. Isso lembra o nosso Senhor diante do Pilatos: “o meu reino não é deste mundo”, ele disse ao romano. A reforma significa a mesma coisa para a Igreja Romana: o nosso reino não é deste mundo. Por isso não usamos armas deste mundo, mas usamos a arma do céu, a Sagrada Bíblia.

Os jovens temos de ser mais reformados, mais protestantes na nossa cristandade pessoal e colectiva. Com isso quero dizer que precisamos adoptar em todas as esferas em que estivermos envolvidos, a arma da reforma: a Palavra de Deus e as palavras em Deus, a Bíblia e os nossos discursos e debates. Oral e escritamente. A nossa época precisa de salvação espiritual e cultural, precisa ser salva da ditadura da imagem, da visibilidade, que a religião da tecnologia instalou no mundo. Isto é mais coerente com a nossa religião, com a nossa Fé e nossa tradição protestante: somos o povo da Palavra, o povo das palavras e da imprensa, da Escrituras e da escrita, da leitura e dos leitores, o que faz com que nosso falar, pregar, orar, cantar, escrever, debater e ler sejam, na verdade, assim como amar, casar e criar, obras da Palavra, que “opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2.13). Assim como nós, as nossas palavras são filhas, discípulas, amigas, servas e cartas da Palavra de Deus.

A imitação da Reforma. É ela o que advogo com este artigo. Usar a arma da reforma, a “Espada do Espírito”, como a nossa única arma hoje é, como foi para os reformadores, um entendimento e reconhecimento pístico e radical de que de facto nossa guerra ou combate neste mundo é essencialmente espiritual e não carnal, e que é uma batalha em que politicagens e culturas e ideologias para nada servem; é uma demonstração de aceitação da Scritpura que diz: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.12). (E isso não é um eco coerente da 2 Coríntios acima citada?)

Com a preferência de usar as palavras e a Palavra como arma do seu combate, o que a Reforma deixou-nos por herança é o serviço à/da Palavra. Ser protestante é ser “servo da Palavra”. Carregadores do Peso da Palavra: é isso que a Palavra obra em nós, é nisso que transforma-nos. E assim, a Palavra poderá dizer de nós que somos epístolas ambulantes de Cristo, ou assim: “Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” (2 Co 3.3). A Palavra quer que sejamos seus outdoors ambulantes, “para que a possa ler quem passa correndo” (Hc 2.2). Neste diapasão, ser reformado é ser uma carta, e-mail e post da Bíblia ao/no mundo, um cartaz do Logos para a cidade. Concordas agora comigo? Tu e eu somos outdoors sem imagem nem vídeo, mas com apenas letras e frases belas e radicais como João 1.1, 1.12, Ef 2.8, Gn 1.1, Rm 1.16, 6.23, etc. Somos cartas de Cristo, sim, missivas da Palavra neste mundo tenebroso e inimigo da palavra. O que a Palavra deseja e tem por missão é criar palavras, é escrever cartas e enviá-las ao mundo. E nós somos estas palavras, estas cartas. Achar outra arma que não a palavra na nossa vivência do “bom combate” é suicidar a nossa própria cabeça, pés, braços, coração, alma e história.


REFERÊNCIAS

¹. A tradução é minha, leitor. E tu podes consultar este sermão directamente aqui.

². Ibidem.

³. Ibidem.

⁴. Ibidem.

⁵. Ibidem.

Ps: Este sermão faz parte de um famoso conjunto de sermões chamado 8 sermões de Wittenberg.

 

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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