Adorando com o coração e a mente: A doutrina da preparação e concentração no culto público [Parte 1]

INTRODUÇÃO

O Puritanismo foi um movimento de reforma calvinista no período da Reforma Protestante do século XVI-XVII, atuante, especialmente, nas Ilhas Britânicas. Possuía o forte desejo de reforma completa[1] da Igreja da Inglaterra que, embora tivesse se divorciado da Igreja Romana por questões políticas, não se reformou em sua teologia e prática.

Como afirma Martyn Lloyd-Jones: “O puritanismo começou com este interesse por uma Reforma completa”[2], foi um “movimento espiritual apaixonadamente preocupado com Deus e com a piedade cristã”[3]. Seu objetivo principal era uma Igreja Pura, uma Igreja verdadeiramente Reformada[4]. Tal reforma se estendia em todas as áreas de existência humana[5] e isso também se aplicava ao culto. O desejo ardente deles era retornar à simplicidade cúltica neotestamentária[6], baseada estritamente no que Deus ordena. Tal reforma cúltica está na essência do puritanismo – afirma Peter Lewis[7].

Há três aspectos do conceito puritano de culto que podem ser destacados aqui: (1) O Princípio Regulador do Culto; (2) O culto como encontro do povo de Deus com o Deus do povo; (3) A totalidade do homem envolvido no serviço. O entendimento de tais conceitos estabelece a base para a compreensão da doutrina da preparação para o culto público.

Sob influência de João Calvino,[8] os puritanos abraçaram o que é chamado de Princípio Regulador do Culto. O conceito puritano de culto está intimamente ligado a este Princípio. Ele ensina que o culto deve ser bíblico, no sentido de “o que não for diretamente ensinado nas Escrituras ou necessariamente inferido do seu ensino, é proibido no culto”[9]. Essa era a mentalidade puritana[10].

Além do princípio regulador, outro conceito puritano importante quanto ao culto é: o culto enquanto um encontro do povo de Deus com o Deus deste povo (Êx 29.42). Conforme afirma Jeremiah Burroughs: na adoração, o crente se aproxima de Deus[11], ou seja, “quando adoram a Deus, homens e mulheres chegam-se a Ele”[12]. Com isto, afinam-se o puritano presbiteriano Stephen Charnock: “na adoração, Deus se aproxima do homem”;[13] e John Owen: “as atividades do culto […] são meios pelos quais os crentes experimentam realmente a presença de Deus”[14].  Em outras palavras, o culto é um diálogo entre Deus e seu povo redimido[15] e isto está fundamentado no Pacto dEle com este povo.

Por último, o culto é um serviço prestado a Deus que envolve todo o homem. Não é algo somente externo, mas também envolve o seu coração. Se o Princípio Regulador do Culto estabelece os elementos e aspectos externos do culto, o aspecto da totalidade do homem no culto envolve o coração e interior do homem. Conforme o puritano George Swinnock afirmou: “Toda a reverência e todo o respeito interiores, e toda a obediência e serviço externos para Deus, que a Palavra nos impõe, estão embutidos nesta palavra: adoração”[16].

Tal entendimento puritano procura fugir da justa reprovação do Senhor contra o Reino do Sul em sua adoração nos dias do profeta Isaías[17].  É nesse contexto e sob tais conceitos que se desenvolve a doutrina puritana da preparação para o culto público ao Senhor[18].

 ADORAÇÃO (EXTERNA VS. INTERNA) E A PREPARAÇÃO PARA ADORAÇÃO

Alguns, por causa do Princípio Regulador do Culto, tendem a achar que o “culto puritano” é frio, formalista e cerimonial. Tal raciocínio não reflete, nem de longe, a mentalidade puritana. Aliás, era exatamente o contrário. Os puritanos entendiam o equilíbrio entre os caráteres externos e internos da vida cristã[19].  Eles não enfatizavam um em detrimento do outro. Sua ênfase estava no que as Escrituras enfatizavam: tanto o externo (os elementos de culto) quanto o interno (o coração do adorador) são importantes.

Os puritanos faziam severas advertências e reprovações àqueles que se apresentavam à adoração com formalismo. Esse era o contexto do Anglicanismo que eles combatiam, como dito por Lloyd-Jones: “O puritano dá ênfase à espiritualidade do culto; o anglicano, ao aspecto formal do culto, e se interessa mais pela mecânica do culto”[20]. Um excelente exemplo desta oposição puritana ao formalismo e cerimonialismo encontra-se em Jeremiah Burrouhgs. Ele adverte:

Quanto àqueles que adoram a Deus de maneira formal, essa mesma adoração se mostrará tediosa para eles, pois executam os deveres, mas não encontram a Deus nesses deveres assim como acontece com os santos, que o encontram espiritualmente. Se, por alguma razão, eles pensam que se encontram com Deus, tudo não passa de imaginação, não é nenhum encontro real com Deus. […] sabemos por experiência que todos os que professam a religião e adoram a Deus com hipocrisia e formalidade têm sido amaldiçoados em suas qualidades e dons habituais. […] Aos que adoram de maneira formal e com coração impuro, declaro: isso depõe contra a boa reputação de Deus[21]. (grifos do autor).

Leland Ryken observa bem ao dizer que o culto puritano, quando “comparado aos cultos católico-anglicanos, poderia com exatidão chamar-se anticerimonial”[22]. A simplicidade era a marca do culto puritano – em todos os aspectos, tanto litúrgicos quanto ornamentais. Exatamente por causa desta característica, os puritanos davam muita ênfase em não somente adorar a Deus da maneira correta, conforme prescrita em sua Palavra, mas adorar a Deus com o coração correto. E a preparação para o culto público era o meio para esse “coração correto” diante de Deus nos santos exercícios.

A preparação para o culto público, em muitos aspectos, confunde-se com a preparação para o Dia do Senhor, pois o culto público-congregacional ocupava o lugar central no Dia do Senhor[23]. Muitos puritanos fizeram essa fusão. Thomas Vincent, por exemplo, comentando a exposição do quarto mandamento no Breve Catecismo de Westminster, aborda e discorre sobre a preparação para o culto público[24].

Os Padrões de Westminster, documentos confessionais que refletem a doutrina e a mentalidade puritana, expressam essa doutrina ao dizer no capítulo XXI, seção VIII:

Este sábado é santificado ao Senhor quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia[25]. (grifo do autor)

Observa-se o grifo do autor: tendo devidamente preparado os seus corações […] ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto. No Catecismo Maior de Westminster, (pergunta 117) esta doutrina também pode ser vista da seguinte forma:

O Sábado, ou Dia do Senhor (=Domingo), deve ser santificado por meio de um santo descanso por todo aquele dia, […] nos exercícios públicos e particulares do culto de Deus. Para este fim havemos de preparar os nossos corações, e, com toda previsão, diligência e moderação, dispor e convenientemente arranjar os nossos negócios seculares, para que sejamos mais livres e mais prontos para os deveres desse dia[26].

Observa-se novamente o grifo do autor: para este fim havemos de preparar os nossos corações. A pergunta é: qual o fim? O fim de santificar o dia “nos exercícios públicos e particulares do culto à Deus”. O mesmo pode ser visto nas perguntas 121 (ainda tratando sobre o Dia do Senhor), 160 (a preparação para ouvir a Palavra Pregada), 171-172, 175 (a preparação para receber a Santa Ceia) e 181 (a preparação para orar). Todas as perguntas tratam dos elementos de culto e do preparo para participar deles.

Está claro que a doutrina da preparação estava intimamente ligada à doutrina do culto público e do Dia do Senhor. Ela é uma obra necessária: “Antes que adoremos a Deus precisamos preparar-nos adequadamente. […] É preciso haver preparação para adorar a Deus” – diz Burroughs[27]. Igualmente, Owen: “Precisamos preparar-nos antes de vir ao culto”[28]. Mas, por que ou por quais motivos a preparação para o culto público é necessária?

MOTIVOS PARA A PREPARAÇÃO PARA O CULTO PÚBLICO

Jeremiah Burroughs, em sua obra Adoração Evangélica [Gospel Worship – Or The Right Manner of Sanctifying the Name of God in General], destaca quatro motivos para defender a necessidade de preparação[29]. (1) O primeiro é a grandiosidade do Deus adorado. Ele é “um Deus grande e glorioso”. Se estamos lidando com a infinita, gloriosa e temível Majestade de Deus, devemos, então, nos preparar para isso. (2) Segundo, pelo que o culto é: um encontro com Deus. Deus virá até o crente e o coração do crente irá até Deus; por isso, para este encontro tão majestoso, deve-se ter preparação. “Se ao menos os homens compreendessem a grandeza das atividades relacionadas à adoração a Deus, veriam a necessidade de se prepararem para elas”. (3) O terceiro motivo da necessidade da preparação reside na natureza do adorador. Seu coração é extremamente despreparado para toda boa obra. Mesmo, em Cristo, “é preciso haver preparação [do coração], então, pelo fato de sermos assim tão inadequados para chegar à sua presença”. (4) O quarto motivo está nos grandes impedimentos que existem para adorar a Deus, tais como: confusão, tentação do diabo, desconforto físico, etc. “É preciso haver preparação porque no caminho [até o culto] existe muita coisa que atrapalha”. Alguém pode julgar que tais coisas tiram a sinceridade do coração. Contudo, é exatamente o contrário. O argumento de Burroughs, em favor disto, é:

Vemos que as Escrituras[30] consideram a sinceridade do coração como sendo a preparação para a adoração, e consideram a falsidade do coração como sendo a não preparação por parte da pessoa. […] As Escrituras consideram a retidão do coração como a preparação para os deveres, e a falsidade do coração do homem como o seguinte: ele não se esforça para preparar o próprio coração para Deus e sua adoração[31].

 O preparo para o culto (em especial, a Ceia), ilustra Thomas Watson, é semelhante ao afinar dos instrumentos por um músico (o adorador), antes de tocá-lo (culto)[32].


REFERÊNCIAS

[1]  LLOYD-JONES, Martyn. Os puritanos: suas origens e seus sucessores. São Paulo: PES, 2016. p. 283. JACKER, J. I. Entre os Gigantes de Deus. São Paulo: Fiel, 2016. p. 37..

[2]  Ibid., p. 301

[3] JACKER, J. I. Op. Cit., p. 36

[4] Ibid., p. 301.

[5] WALKER, W. História da Igreja Cristã. (Vol. 2). São Paulo: ASTE, 1997. p. 94. JACKER, J. I. Op. Cit., p. 37, 39.

[6] LLOYD-JONES, Martyn. Op. Cit., p. 285.

[7] LEWIS apud BEEKE, Joel. PEDERSON, Rendall. Paixão pela Pureza. São Paulo: PES, 2010. p. 37

[8] HULSE, Errol. Quem foram os puritanos: e o que eles ensinaram? São Paulo: PES, 2000. p. 42-43. BEEKE, Joel. PEDERSON, Randall. Op. Cit., p. 61.

[9] ANGLADA, Paulo. O princípio regulador do culto. São Paulo: PES, 1997. p. 12.

[10] John Owen afirma: “A apostasia do culto evangélico aconteceu de duas maneiras: ou por negligência e recusa de observar o que Cristo determinou, ou por acréscimo de maneiras de adoração que nós inventamos” (OWEN, John. Apostasia do Evangelho. São Paulo: Os Puritanos, 2002. p. 175. Jeremiah Burroughs: “qualquer coisa que inserimos na adoração a Deus precisa ter autorização da Palavra de Deus. […] precisamos basear-nos naquilo que Ele ordena” (BURROUGHS, Jeremiah. Adoração Evangélica. Recife: Os Puritanos, 2015. p. 22). Thomas Watson: “A adoração divina deve ser da maneira como Deus mesmo a designou ou, então, será o oferecimento de um fogo estranho (Lv 10.1). […] Certamente, nesse particular, tudo deve ser de acordo com o padrão prescrito em Sua Palavra” (WATSON, Thomas. A Fé Cristã: estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 23). Portanto, está claro que este era o princípio puritano de culto.

[11] BURROUGHS, Jeremiah. Adoração Evangélica. Recife: Os Puritanos, 2015. p. 21.

[12] Ibid., p. 48.

[13] CHARNOCK apud PACKER, J. I. Entre os Gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã. São Paulo: Fiel, 2016. p. 418.

[14] OWEN, John. Pensando Espiritualmente. São Paulo: PES, 2005. p. 71.

[15] HYDE, Daniel R. O que é um culto reformado: por que em uma igreja reformada o culto é tão diferente da maioria das outras igrejas? Recife: Os Puritanos, 2012. p. 31. PAYNE, Jon D. No esplendor da santidade: redescobrindo a beleza da Adoração Reformada para o século XXI. Recife: Os Puritanos, 2015. p. 23.

[16] SWINNOCK apud PACKER, J. I. Op. Cit., p. 412.

[17] “O Senhor diz: ‘Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. A adoração que me prestam só é feita de regras ensinadas por homens’” (Isaías 29.13, NVI).

[18] Está pressuposto em todo o artigo que a preparação é para aqueles que estão em Cristo, unidos a Ele e que se achegam a Deus por meio de Cristo. A doutrina da preparação é o meio para se achegar a Deus. Mas, uma orientação pastoral para um culto agradável a Deus nos aspectos internos do homem.

[19] JACKER, J. I. Op. Cit., p. 38-39.

[20] LLOYD-JONES, Martyn. Op. Cit., p. 301.

[21] BURROUGHS, Jeremiah. Op. Cit., p. 171, 185.

[22] RYKEN, Leland. Santos no Mundo: os puritanos como realmente eram. São Paulo: Fiel, 2013. p. 209.

[23] PACKER, J. I. Entre os Gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã. São Paulo: Fiel, 2016. p. 399.

[24] VINCENT, Thomas. The Shorter Catechism of the Westminster Assembly Explained and Proved from Scripture. Disponível em: < http://www.shortercatechism.com/resources/vincent/wsc_vi_060.html >. Acesso: 04 ago 2017

[25] Confissão de Fé de Westminster. Disponível em:<http://www. monergismo.com/textos/credos/cfw.htm >. Acesso em: 04 ago 2017.

[26] Catecismo Maior de Westminster. Disponível em <http://www. monergismo.com/textos/catecismos/ catecismomaior_westminster.htm >. Acesso em: 04 ago 2017.

[27] BURROUGHS, Jeremiah. Op. Cit., p. 73, 75.

[28] OWEN, John. Op. Cit., p. 70.

[29] BURROUGHS, Jeremiah. Op. Cit., p. 75-82.

[30] Os dois exemplos que Burroughs cita encontram-se no mesmo personagem: o rei Josafá. Um está em 2 Crônicas 12.14, quando ele é reprovado por não preparar e dispor o coração para buscar a Deus. O outro, em 2 Crônicas 19.3, quando ele é aprovado por ter se preparado para buscar a Deus

[31] Ibid., p. 79.

[32] WATSON, Thomas. A Ceia do Senhor. Recife: Os Puritanos, 2015. p. 47

 

Casado com Narah Vicente. Bacharel em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Bacharelando em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN). Pós-graduado em Teologia Pastoral pelo SPN. Especializando-se em pregação expositiva pela Organização Pregue a Palavra. Membros da Igreja Presbiteriana Marinas Praia Sul (Natal-RN) e, atualmente, congrega, como seminarista, na Igreja Presbiteriana da Aliança (Recife-PE). “Cristo é meu e eu sou dEle, por Sua Aliança” (Joseph Alleine).

Deixe uma resposta