Cantemos salmos!

Revisão: Nathália Soares

O livro dos Salmos, que encontramos na Bíblia, muitas vezes usado por nós num momento devocional, era utilizado no Antigo Testamento pelo povo de Israel, solenemente, no louvor e adoração a Deus. Enquanto prestavam culto, os israelitas cantavam as músicas do saltério, isto é, o hinário com os salmos inspirados por Deus. Agora me permita fazer alguns questionamentos: o cântico dos salmos era apenas para os que viviam na Antiga Aliança e, dessa forma, não precisamos mais cantar os salmos? Então, por que os cristãos hoje, em sua maioria, não costumam cantar os salmos em igreja? O que mudou?

Sabemos que a maioria das igrejas utiliza músicas contemporâneas, chamadas “gospel”, nos cultos, e as igrejas mais tradicionais podem até cantar também alguns cânticos antigos não inspirados. Muitas músicas são completamente fracas em relação ao conteúdo bíblico (e até o contradizem), ou que parecem ter apenas duas frases que repetem sem parar, apelam para o emocionalismo e na grande e terrível maioria das vezes, são antropocêntricas, isto é, colocam o homem no centro. Ao invés de os crentes voltarem para casa refletindo na sua condição humana e dependente de Deus, por exemplo, eles voltam do culto achando que são merecedores de algo, afinal, cantaram que são uma “raridade”. Com isso, pastores estão permitindo que essas músicas doutrinem as igrejas, ensinando uma péssima teologia no lugar de fortalecer os crentes na fé dos apóstolos e, principalmente, estão desagradando ao Senhor. Ao invés disso, porque não confiar nas Escrituras, a santa revelação de Deus, para mostrar como Deus gosta de ser adorado? Se há algo que mudou a minha percepção sobre o louvor e uma vida de adoração foi o cântico dos salmos, e é sobre isso que eu gostaria de tratar e encorajar os crentes com esse texto.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” 2 Tm 3.16-17

Uma pessoa pode usar como argumento que determinada música é muito linda, emocionante e até que manifesta verdades bíblicas, e, por isso, não vê o porquê de não ser cantada no culto. Mas a questão que quero levantar é esta: o que é mais belo, emocionante e verdadeiro do que uma composição do santo espírito de Deus? Não há nada criado pelo homem que se compare. Os salmos são inspiração divina, pois toda escritura é inspirada por Deus (2 Tm 3.16). E, por mais que toda Escritura seja inspirada, não vemos claramente nela outro registro musical que seja específico para o louvor no culto como os salmos são.

O nome “saltério” vem do título grego do Livro dos Salmos (Psalmoi), o qual muitas vezes é traduzido como “Louvores”. Um saltério métrico é uma tradução do Livro dos Salmos apropriada para o canto. Deus pretendia que Israel cantasse Salmos, especialmente no culto público. […] É verdade que os Salmos também podem ser usados como orações, e que são ricos recursos de doutrina e instrução prática. Mas as palavras hebraicas para cantar e cântico aparecem mais de 180 vezes nos Salmos. Os Salmos pedem para serem cantados.” (Joel Beeke)

Além disso, o cântico dos salmos foi ordenado por Deus para os crentes de todas as épocas e em todos os lugares, não apenas para os que viviam na Antiga Aliança. Vemos a existência do cântico dos salmos no Novo Testamento e também os próprios salmos exclamando para todos os povos louvarem ao Senhor (Sl 66.4; 98.4; 117.1). Isto é, o exercício do canto dos salmos não era apenas para o povo de Israel, devendo, assim, serem cantados tanto na adoração individual quanto, e principalmente, no culto.

“Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação.” 1 Co 14.26

“Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores [original: Psalm].” Tiago 5.13

“A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.” Cl 3.16

Um argumento contra a salmodia é que nessa passagem na carta de Paulo aos colossenses, o apóstolo diz que além de cantar os salmos, deve-se cantar hinos e cânticos espirituais. Logo, Paulo está afirmando para cantarmos músicas além do saltério. Mas como podemos definir, então, o que são “hinos” e “cânticos espirituais”? Bem, com certeza o apóstolo Paulo não estava recomendando que cantemos hinos não inspirados de determinado hinário e muito menos os cânticos gospel. Sabemos que o que era comum ao apóstolo Paulo era o saltério. Ao estudar sobre esse assunto, pude entender que o saltério é composto por salmos, hinos e cânticos. Vejamos alguns exemplos e você pode conferir agora mesmo na sua Bíblia as epígrafes dos salmos: o salmo 50 é um Salmo de Asafe, o salmo 58 é um Hino de Davi, o salmo 7 é um Canto de Davi, entre outros. Se observarmos, podemos encontrar as palavras “hinos” e “cânticos” por todo o saltério.

“E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no Senhor.” Sl 40.3

“Cantai para Ele, entoai-lhe hinos, considerai todas as suas maravilhas!” Sl 105.2 (na versão ACF diz “cantai-lhe salmos”)

“Entoai-lhe um novo cântico, tangei com arte e com júbilo.” Sl 33.3

 Isso quer dizer que o apóstolo Paulo diz aos colossenses, e também aos efésios (Ef 5.19), que cantem os SALMOS, que ensinem e admoestem com eles. Isso também não torna esse jeito de falar do apóstolo estranho, pois é comum encontrarmos na Bíblia essa forma de se expressar. Você nunca se deparou com os termos sinônimos de Mateus 22.37: “E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento”? Ou de Deuteronômio 5.31: “Tu, porém, fica-te aqui comigo, para que eu a ti te diga todos os mandamentos, e estatutos, e juízos, que tu lhes hás de ensinar, para que cumpram na terra que eu lhes darei para possuí-la”? Logo, meus irmãos, cantem salmos, salmos, salmos! Por que não cantar?

Que fique claro que não é minha intenção causar uma discussão entre pessoas que defendem a salmodia exclusiva (que o louvor no culto deve ser apenas com salmos) e pessoas que preferem a salmodia inclusiva (que o louvor no culto pode ser com salmos e outros hinos), mas sim evidenciar que os salmos existem, principalmente, para serem cantados pela igreja!, mostrar a maravilha de se cantar os salmos no culto ao Senhor e tornar a salmodia conhecida.

 “Bom é louvar ao SENHOR, e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo” Sl 92.1

Para mim particularmente, se as igrejas aderirem aos salmos de forma inclusiva, já seria de bom proveito e edificação. Quando olhamos para o contexto eclesiástico do Brasil… Bom seria que as igrejas, pastores e líderes conhecessem o cântico dos salmos! Infelizmente, tenho notado até alguns irmãos de fé reformada com uma repulsa pelo cântico dos salmos, movidos por suas preferências pessoais e, talvez, por medo de parecerem “ultraconservadores”. É preciso entender que cantar os salmos proporciona muitos benefícios espirituais para a igreja, contribuindo para que a palavra do Senhor esteja em nosso coração. Observe algumas preciosas doutrinas que podemos encontrar no saltério:

  • Com o salmo 2, podemos cantar que Cristo é soberano e tem poder sobre as nações;
  • Com o salmo 103, cantar alegremente que o Senhor afasta de nós as nossas transgressões;
  • Com o salmo 24, exultar aquele que é limpo de mãos e puro de coração, isto é, Jesus Cristo;
  • Com o salmo 22, lembrarmos do sofrimento de Cristo e refletirmos o quão imerecedores somos;
  • Podemos exaltar o Deus criador e a sua fidelidade com o salmo 146;
  • Louvamos a sabedoria de Deus com o salmo 139;
  • Com o salmo 128, meditamos em como é abençoado o homem que teme ao Senhor com sua família;
  • Com o salmo 140, pedimos ao Senhor que nos guarde dos ímpios e rogamos pela sua justiça.

Os salmos proclamam o Deus verdadeiro; falam do seu amor, misericórdia, justiça, ira, santidade, sabedoria, entre outros atributos de Deus. Os salmos exaltam Cristo, podemos cantar sobre Ele com os salmos de forma clara e consciente. Inclusive, até Cristo cantou os salmos (Mt 26.30).

Segundo Beeke, Lutero escreveu em seu prefácio aos Salmos em 1531:

Sim, o Saltério deve ser precioso para nós e devemos amá-lo, mesmo que a única razão fosse a clara promessa que ele traz a respeito da morte e ressurreição de Cristo, e a prefiguração do seu reino e toda a natureza e sistema do cristianismo, tanto que pode muito bem ser chamado de Pequena Bíblia, onde tudo o que se encontra na Bíblia está bela e brevemente contido, compactado numa espécie de manual.

Cantar os salmos com reverência e santo temor, promove uma solenidade ao culto público. Podemos cantar que o Senhor é o nosso refúgio e fortaleza (Sl 91.2), como os irmãos em outras épocas, seja na Antiga Aliança, na igreja primitiva ou nos primórdios da reforma protestante. O cântico dos salmos também pode estar no nosso dia a dia e no culto doméstico, nos fortalecendo contra as tentações da nossa carne e do mundo e nos preparando para o Dia do Senhor.

Se você deseja conhecer mais sobre a salmodia e apresentar para a sua igreja, gostaria de indicar o livro do Joel Beeke “Porque devemos cantar os salmos”, também os materiais que foram disponibilizados pelo Os Puritanos (como um CD com os salmos, os salmos cifrados pela CBS — Comissão Brasileira de Salmodia -, e também prontos para exibição com projetor), além de vários salmos gravados que você pode encontrar na internet.

“Louvai ao SENHOR, porque é bom e amável cantar louvores ao nosso Deus; fica-lhe bem o cântico de louvor.” Sl 147.1


REFERÊNCIAS

Porque devemos cantar os salmos – Joel R. Beeke

Martinho Lutero, Standard Edition of Luther’s Works, ed. John N. Lenker (Sunbury, Pa.: Lutherans in All Lands, 1903), 1:9-10.

Os Puritanos: https://www.os-puritanos.com/

 

Recifense, estudante de Serviço Social, porém, conservadora. Serve na Congregação Batista da Graça em Recife, amante de livros e principalmente das Escrituras Sagradas. Salva pela graça e para o louvor da glória de Deus.

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