Meditações da casa do luto

Para a Luzia Pereira, minha avó [in memoriam]

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.”  (Rei Salomão)

“Somente os enlutados serão consolados.” (Paul Ricouer)

Em dezembro celebrei a vida, com a festa do nascimento do Mestre; em janeiro, celebrei a morte e sepultamento, com a travessia da minha amada avó deste mundo para o Paraíso. Fui “surpreendido pelo sofrimento”, como disse R. C. Sproul, a dor me arrebatou com suas garras como o falcão arrebata uma galinha no chão, sem piedade. A sombra brilhosa do natal ainda me assistia naquele 11 de janeiro, ainda alegre pela quadra festiva, a dor me invadiu como uma avalanche de neve, a tristeza me cobriu. Evitei olhar a mensagem como se isso falsificasse a notícia, mudasse a realidade que acabara de solapar a minha família, mas a realidade não perdoa: estava lá dentro de mim. Não chorei na hora, a tristeza se espalhava pelo meu ser. Mantive-me quieto e silente, e o luto já iniciara sua acomodação horripilante dentro de mim, minha face perdeu o brilho de sempre, meu espírito nublou-se. Foi à noite que comecei a chorar a minha incomensurável perda – a vovó Luzia. No dia seguinte, encontrei-me com dificuldades, as conversas com a minha família só pioraram meu estado e o mesmo no outro dia que se seguiu, o dia do funeral. O meu luto fez-se real para mim mais ainda no dia do funeral. A minha dor se agravou por causa da minha ausência da minha terra, o que me impossibilitou a derradeira despedida e, pior ainda, o cumprimento o desejo dela e minha promessa de ser eu a sepultá-la. A minha fé no Senhor, o meu amor pela vovó, a minha ausência do meu torrão natal, as minhas amizades, a minha oração a Deus para que se realizasse o desejo dela e meu de revermo-nos mais uma vez antes de sua partida não me protegeram deste sofrimento. Chorando a morte da vovó, vi-me desamparado, imigrante em terra alheia, vencido pela distância, sem os meus familiares, a dor se instalou como se eu fosse seu casulo. Ah, como eu odeio a morte! Mas ela me venceu de novo, ceifou a Vovó. Dela posso dizer com R. C. Sproul: “Colocou sua casa em ordem. Cuidou da sua família. Morreu com graça e dignidade.” Em finais de 2016 e início de 2017, estive em Guiné, e ela despediu-se de mim: “Oramos juntos. Choramos juntos. Rimos juntos.”

Ainda estou enlutado. Mas me movi desde o primeiro dia que soube da morte da avó a escrever o que me via à cabeça, porque escrever sempre me ajuda a entender a minha dor e me acomodar em Deus enquanto espero a Alegria. Este texto reúne as notas de minha meditação sobre o luto, por isso a numeração:

  • 1. Em momentos de luto, naturalmente sentimentos pesados nos colonizam e os nos perdemos dentro da alma, partidos, rachados. Sentimo-nos um arranha-céu a desmoronar. Em muitos, as lágrimas correm para fora, pintando o rosto com a cor monótona e cáustica da tristeza e do infortúnio. Quem controla a morte? Para vários outros, o silêncio é lhes a caverna onde escondem a dor, choram calados, sem acreditar no que lhes sobreveio. Quem pode deter a morte? Mas ambos são sofredores, e o luto não faz acepção de pessoas. Como a morte. Chorar por fora ou por dentro não elimina a realidade de que perdemos no tempo uma pessoa amada, uma criatura, filha de Eva, a matriarca. Quem convencer-me-á que esta morte da vovó não é um golpe, no último “pavimento da realidade”, que o próprio Deus me aplicou, um soco no estômago que o Soberano me ofertou, sim, o Deus que se regozija com a morte dos justos? Deus está comigo, Deus matou minha avó! Ai! Sproul: “A morte é uma ordenação divina. Ela é parte do propósito de Deus para nossas vidas. Deus chama cada pessoa à morte. Ele é soberano sobre toda a vida, inclusive sobre a experiência final da vida. (…) Quando Deus nos lança uma chamada, é sempre uma chamada santa. A vocação para a morte é uma vocação sagrada”. E mais: “Todos somos chamados a morrer. Esta vocação é um chamado de Deus tanto quanto o é um “chamado” para o ministério de Cristo. Às vezes o chamado vem repentinamente e sem aviso. Às vezes o chamado vem com uma notificação com antecedência. Mas vem para todos nós. E vem de Deus.” E a vovó foi chamada por Deus com avisos prévios desde 2016 com uma doença que ela venceu, mas apenas para dar tempo de eu ir lá e vê-la pela última vez em 2017. Eu sei de tudo isso e concordo com Sproul, mas isso não implica que o processo não é doloroso, tanto que a própria Bíblia nos estende, além do chamado à morte, um chamamento ao luto em Eclesiastes, um chamado ao choro, em Jesus.
  • 2. O Rei Salomão fez o sermão do Monte antes de tempo, Eclesiastes, não só no aspecto literário pelo uso de paradoxos, mas também pela própria mensagem, principalmente aqui: “Melhor é a boa fama do que o melhor unguento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria” (Ec 7:1-4). E eu comento: o dia da morte é melhor, pois é o ápice do dia nascimento. Nascemos para viver, vivemos para a Vida, i.e., para viver “da maneira digna do Senhor” (Cl 1:10), ou seja, viver bem. O dia morte tem primazia porque o que importa é se vivemos bem até o fim ou não; a morte e não o nascimento inaugura o destino da nossa alma. O fim das coisas é melhor que seu princípio (Ec 7:8). A morte carrega mais sentido de vida do que o nascimento, e o objecto ou alvo da morte é a Vida – a Vida é o canon da vida. Na casa do luto, portanto, a vida com a verdade e a vulnerabilidade que são-lhe próprias é-nos trazida à memória e somos desafiados a não consagrar a nossa vida a coisas fúteis como riquezas, comidas e bebidas, mas ao Reino de Deus e seu Cristo (Mt 6). O Derek Kidner põe assim: “… o dia da morte tem mais a nos ensinar do que o dia do nascimento; suas lições são mais concretas e, paradoxalmente, mais vitais. No nascimento (e, como falam os versículos seguintes, em todas as ocasiões alegres e festivas) o ambiente é de excitação e expansividade. Não é hora de se pensar na brevidade da vida ou nas limitações humanas: deixamos que nossas fantasias e esperanças subam alto na casa onde há luto, por outro lado, o ambiente é sério e a realidade é evidente. Se não pensamos nela, a culpa é nossa: não teremos outra oportunidade melhor de encará-la”.

O que importa para Salomão é a sabedoria, a verdade, o real conhecimento – a realidade pura. A casa da festa mente muito sobre a vida no mundo na medida em que fá-la parecer apenas uma festa e um poço de prazeres. A casa do luto revela melhor a realidade: a vida humana é bela tanto é que aqui estamos a chorar e lamentar a morta avó, mas além de bela, houve a intrusão da queda na humanidade e a morte é real; portanto, a vida humana precisa ser vivida perante Deus, no temor do Senhor, alimentada com a sabedoria verdadeira, porque um dia a morte virá sem avisar, e somente uma vida bem vivida valerá a pena. Na casa do luto, de um dos quartos escuto: “De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt. 16:26).  Nela, vemos os ricos irem à sepultura sem a sua riqueza, os poderosos, sem o seu poder, os sábios, sem o seu saber, os orgulhosos, sem o seu orgulho, os festeiros, sem a sua festa, etc. E somos forçados a reflectir: como eu estou a viver a minha vida? Num dos quartos, brada a voz do John Piper: “Don’t waste your life!” (Não desperdiça a tua vida!); em outro quarto, Paul Ricouer escuto: “Somente os enlutados serão consolados”; mas do Santo dos santos da casa do luto, vem-me uma voz apocalíptica: “Bem-aventurados os que choram”. A casa do luto é que é a verdadeira casa da alegria, da felicidade – da boa aventurança. Porque é a promessa, o solo e a semente da consolação: “Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados” (Mt. 5:4).  Vovó morreu cantando e dançando, e eu fiquei chorando. Cada um com sua vocação, ela para morrer, eu para chorar.

Não fujo da tristeza do luto, pois “a tristeza do rosto torna melhor o coração”. O pregador eclesiástico contradiz os hedonistas, um mundo que quer apenas alegria, que evita toda dor ou tristeza mesmo que isso implique o conhecimento de Deus; contradiz a esse mundo falso. É da tristeza que nasce a alegria, ela é a via-crúcis da alegria, como do esforço sofrido do oleiro nasce o vaso, ou do ferreiro, nasce o portão: a cruz é o maior emblema desta realidade. O Salmista versejou: “Antes de ser afligido, eu me extraviava; mas agora guardo a tua palavra.” (Sl 119:67). A tristeza mais do que qualquer coisa abre o coração para a verdade, logo, para a verdadeira alegria. A tristeza do luto que vem-nos com a morte de alguém, embora seja selvagem que tritura nossos corações impiedosamente, é criadora. O Kaiser Jr. põe: “há uma lição a ser aprendida com a tristeza, e um trabalho a ser realizado por ela, na vida daqueles que temem a Deus.” O luto está numa missão cuja finalidade é criar algo em nós que, para Salomão, é a sabedoria para o bem viver, cujos edificadores são o “coração dos sábios”, habitantes naturais da casa do luto. Na casa do luto, sempre teremos companhias – os sábios, ou seja, os santos. Tanto vivos quanto mortos, assim ouvindo-os como lendo-os. (Onde se lê coração é importante que se entenda mente, pensamentos, memórias, compreensão.) É o Kaiser Jr. ainda: “Algumas pessoas não têm nem a capacidade de encarar a morte, pois fogem dela e tentam abafar os pensamentos sobre ela com o álcool ou qualquer outra coisa, menos com uma reflexão sóbria.” A casa da alegria, mansão de Epicuro que é, quer apagar com superficialidades o senso de morte. A casa do luto existe para nos ensinar a não temer a morte, mas a nos equipar de aprendizagens que nos ajudem a viver preparados para morrer – morrer com perfeição, morrer como deve ser.

  • 3. Os lutos naturalmente se diferem em crente e ímpio. Enquanto aquele é bíblico e eclesiástico, este não tem escolaridade, não tem habilitação santa ou instrução sã, mas é cheio de depressão, dor, desespero e fugas. O Kaiser Jr. explica: “A aflição e a tristeza produzem um amadurecimento em alguns, enquanto em outros a tendência é endurecê-los e deixá-los mais amargos. Estar diante da enfermidade ou da morte tende a nos trazer rapidamente para as questões realmente cruciais da vida” O que quero dizer aqui? A Anne M. Lindberg fala melhor: “Não acredito que o sofrimento, puro e simples, ensine. Se o sofrimento por si só ensinasse, o mundo inteiro seria sábio, uma vez que todos sofrem. Ao sofrimento devem-se acrescentar o profundo pesar, a compreensão, a paciência, o amor, a receptividade e a disposição para permanecer vulnerável ao próprio sofrimento.” (Citado por Philip Yancey)

O pregador Salomão nos chama a entrar na casa do luto justamente para vivenciar em outras palavras o que Lindberg advoga. E o meu agostinianismo diria: para conhecermos a Deus e a alma humana.  Com que fim subo à casa do luto? Salmos 90 responde com voz de trovão em choro: vou à casa do luto para “a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”.

  • 4. É doloroso e desestruturador carregar o luto. É profundamente dilacerante para o ser vestir as “roupas de luto” (2 Sm 14:2). O que mais prejudica nisso tudo é a memória, lembrar o ente falecido, lembrar de como ele viu e vivia a vida, inclusive de como cantava e dança a existência. O mundo para os enlutados não fica mais o mesmo depois que parte um ente amado porque a maneira como este fazia o mundo ser na nossa companhia é única e vai-se com ele para o túmulo. De repente, vi-me confrontado com a necessidade de reestruturar a minha vida para viver num mundo sem avó. Necessidade, porque não posso viver fingindo que uma grande pedra vinda do céu não caiu sobre mim e despedaçou-me, nem posso fingir que, pelo luto, não estou dando-me o tempo e a palavra de reconstrução da minha existência. Porque, na verdade, a morte cria um novo mundo para nós, e é justamente o luto quem introduz e ensina-nos a dura arte de viver neste novo mundo. No meu caso, é o estranho e escuro mundo sem avó.
  • 5. Sabemos, em geral, sabemos conviver com as presenças, mas ainda não dominamos a divina arte de viver com as ausências. Por isso, muitos, na ânsia de conviver com os ausentes que a morte atravessou para o além, concorrem para os arraiais do Espiritismo e do Animismo. Mas esses campos são traições da convivência com os mortos, traições do verdadeiro diálogo com os mortos, porque são simplesmente fugas, abandonos da Casa do Luto. É compreensível? Claro que sim! Não suportamos viver e reviver a dor na casa do luto, pois ela não somente é escola, mas também é labirinto da saudade, da memória, da tristeza, e do choro, o que é pesadíssimo para a alma. Na casa do luto, somos obrigados a sofrer a dor, carregar mesmo a dor, aguentar os seus golpes, sem tirar os olhos da Luz do luto e daquilo que ela vai desvelando através da cruz da memória, que cumpre o seu papel apocalíptico embora não evite o choro. Querer usar os médiuns para conversar com os mortos é a coisa mais fácil, difícil é conversar com os mortos sem que nos respondam, sem que os vejamos; difícil é conversar com eles pelos “pavimentos da memória” e na linguagem da fé, subindo e descendo cada degrau da lembrança, percorrendo e revirando cada ângulo da realidade vivida no tempo com o ente partido. Difícil, mas verdadeiro. Nem todos conseguem, ou se desesperam ou caem no desespero espírita. Permanecer na casa do luto exige, portanto, fé radical, fé de Jacob, que fundamente um luto divino, em que o lamento é dor mas não desespero, triste mas não ímpio, um luto que é uma elegia apenas, um salmo de lamentação mas também de celebração da esperança da ressurreição. E o Senhor do alto do monte, lançou a conversa sublime: “Bem-aventurados os que choram”! E o Paul Ricouer aqui em baixo responde-lhe: “Somente enlutados serão consolados”! Se o consolo é para os que habitam “a casa do Luto”, os que choram, não temos opção a não ser obedecer a ordem dada as mulheres na via-crúcis: “chorem pelos vossos filhos”. A morte de Lázaro prova está lei. Os que choraram o morto, foram consolados com a ressurreição do irmão Lázaro. Jesus entre eles. Deus é Deus dos enlutados, dos que choram. É a consolação não pode ser nada menos do que vida, ser, existência, nova, outra, mas ela mesma. O luto significa que esperamos rever o que morreu, esperamos a ressurreição dos mortos. O luto é semelhante a ficar sentado num entroncamento à espera de um filho pródigo com a certeza da fé de que voltará para casa um dia, como o Pai pródigo. Digo estas coisas com o grande Agostinho, que, falando sobre os nossos piedosos deveres fúnebres para com os mortos são precisos para a Providência “demonstrarem a fé na ressurreição”.

E empresto do Agostinho de Hipona para definir o luto: “É consolo para os vivos, uma forma de testemunhar sua ternura para com os familiares desaparecidos” e, assim como cavamos e erigimos as sepulturas dos mortos, também entramos na casa do luto “para que as pessoas continuem a se lembrar deles, para que não aconteça de, tendo sido retirados da presença dos vivos, também sejam retirados do coração pelo esquecimento.”

Definitivamente, como Agostinho assevera e Paul Ricouer confirma, o luto é para os vivos e não para os mortos. E é essa a grande verdade de Eclesiastes 7, antes daqueles: “e os vivos o aplicam ao seu coração” (7:2). E, pensando na morte da minha avó, que é cristã genuína, serva de Deus, não posso evitar este pensamento: o luto é para os vivos, e se assenta na certeza de que os nossos mortos, em última instância não morreram, mas venceram a Morte ao com a sua morte e estão, neste exacto momento, vivos diante de Deus, lamentá-los é chorar pelos vivos. O luto pelos vivos? É tão real que a vovó está viva quanto que ela faleceu no dia 11 deste mês, mas como posso evitar o choro, como escapar da tristeza de perdê-la mesmo sabendo que não a perdi? Eu não sei resolver isso ainda, mas confio nas lágrimas de Jesus, que mesmo sabendo que Lázaro saltaria à vida depois de 4 dias morto, acharam que era digno saltarem para fora dos olhos de Jesus e nadaram a sua face divina. Meu luto é luto pelos mortos e ao mesmo tempo pelos vivos? O que posso fazer? O choro e a lamentação são leis. O luto é, com suas meditações, lamentações e lágrimas, uma maneira de eu participar na travessia dos meus amados que desapareceram, sua viagem para o Eterno? Talvez.  O luto é um protesto contra a morte, um protesto contra o que ela é e implica no cotidiano da nossa vida, saudade e sofrimento? É. O luto é o testamento da nossa crença em que a vida humana não foi criada para morrer, não foi feita para a deterioração e ausência que a morte é e gera? Sim, é.

  • 6. Toda a morte nos leva directamente ao Gênesis. Toda a morte é um ataque não somente ao corpo que do barro Deus formou, mas principalmente ao Sopro que das suas narinas o Criador inspirou ao homem. Quero dizer que toda a morte é um soco que o mal dá em Deus. O luto é coisa de Deus também, o cadáver é coisa de Deus também, o próprio choro e lamento são coisas de Deus, tanto que há um livro em ouvimos o Espírito Santo a chorar por Israel com gemidos exprimíveis – Lamentações de Jeremias. Eu não tenho direito somente ao choro neste mundo jazido no maligno, mas tenho o dever de enlutar-me neste vale de sombra e lágrima.

Como Jesus chorou, sabemos que chorar não é pecado, não significa idolatrar as pessoas, mas é santidade, humanidade, e lamentar e sepultar os nossos mortos expressa o nosso amor, humanidade e santidade. Se a vida humana tem valor e se a falecida é importante, o rito fúnebre e o luto são as formas de dizermos que nos importamos com a sua derrota para a morte, por mais temporária que seja. Na Bíblia, em diversas partes, lemos esta verdade.

O rei David, poeta de Israel, foi um homem que podemos definir como Labirinto de Choro e Casa do Luto, de tanto que sofreu. Quando soube da morte de Saul e Jônatas e seus irmãos israelitas, chorou, enlutou-se. A morte de um homem, mesmo de um inimigo, é um mal sempre. Lemos: Então apanhou Davi as suas vestes, e as rasgou; assim fizeram todos os homens que estavam com ele. E prantearam, e choraram, e jejuaram até à tarde por Saul, e por Jônatas, seu filho, e pelo povo do Senhor, e pela casa de Israel, porque tinham caído à espada (2 Sm 1:11-12). O guerreiro de Israel continuou o seu luto pelos grandes de Israel. E, como a casa de luto é uma escola para Salomão, foi para ele musa, inspirando-lhe uma das elegias mais tocantes e conhecidos no mundo todo: e talvez este poema é uma consolação: “Como caíram os poderosos” (2 Sm 1:19-27). O luto é grande filósofo em Salomão, mas em David é a maior musa. E entendemos mais que tudo: devemos chorar os nossos mortos, carregar o luto por eles e permitir que a escola do luto nos revela a importância das suas vidas para nós, e a importância da própria existência, e sua finalidade: glorificar a Deus.

Um dos maiores artistas do luto, dos homens que sabem o que é sofrer, dos heróis da lamentação é Job. Quando perdeu os sete filhos, rasgou as vestes em expressão da sua dor, jejuou, mas fez algo singular, nos revelou o luto como uma casa da oração, um palácio da adoração (Jó 1:18-22). Não sabemos o tempo do luto de Job, mas acho que não há um padrão temporal, em uns dura uma vida inteira, em outros, meses ou anos. O que é certo é que a casa do luto é habitação perene nesta vida, sempre a alojaremos, até o Dia Absoluto. O que é certo, antes de tudo, é que, não importando o tempo que choramos e lamentamos e meditamos a morte de uma avó ou pai ou mãe ou irmão ou amigo, façamos isso como Job, com lamentação e adoração, e como David, com choro e salmo, choro e poesia. É possível chorar em cânticos – isso é quando a fé e a arte, na casa do luto, nos ajudam, ao perenizar com estátuas verbais os nossos amados, vencer a morte, em parte, como preparação para a sua definitiva derrota que a ressurreição é e trará. Entrar a Casa do Luto é chamamento cuja finalidade é o recebimento da revelação da sabedoria, do conhecimento verdadeiro, como Eclesiastes ensina, mas também, como Job e David ensinam, para adoração. E, como ambos nos ensinam, para chorar, lamentar.

Os israelitas carregaram o luto por Moisés por um mês (Dt 34:5-8). Bem antes deles, Abraão chorou a sua esposa Sara (Gn 23:1-4).

 Jacob entrou também na casa do luto pela morte de José, morte encenada, mas que para ele era real. E a expressão do seu amor e sofrimento nada tinham de fictício, adoptou o luto como estilo do resto de sua vida. Lemos: E conheceu-a, e disse: É a túnica de meu filho; uma fera o comeu; certamente José foi despedaçado. Então Jacó rasgou as suas vestes, pôs saco sobre os seus lombos e lamentou a seu filho muitos dias. E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; recusou porém ser consolado, e disse: Porquanto com choro hei de descer ao meu filho até à sepultura. Assim o chorou seu pai (Gn 37: 33-35). Chorar o seu filho morto é o caminho por que sua vida caminha para o seu encontro. O luto é o que ergue a esperança do encontro dos nossos amados. Encontro que a morte realizará, é verdade, mas encontro mesmo assim. Aliás, que a morte iniciará, mas que somente a ressurreição realizará de verdade. No luto de Jacob, apesar da depressão profunda, não se encobriu a esperança de rever o morto, numa vitória sobre o labirinto do choro e da lamentação. Quando descobriu que José estava vivo, “E o seu coração desmaiou, porque não os acreditava.” (Gn 45:26) mas, como alguém que o aguardava há anos, “reviveu o espírito de Jacó” (Gn 45:27), ou seja, Jacob saltou para fora da casa do luto como um Lázaro antecipado e disse ao luto e sua tristeza, com voz de príncipe de Deus: “Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra.” (Gn 45:28).

Um luto longuíssimo inteiramente expresso num único versículo. O luto prova que a morte não é o fim, como nos mostra Apocalipse. O choro prova isso: e eu choro a saudade, a falta, a ausência da vovó que não sei mais quantos anos passarão sem que nos vejamos novamente no Eterno. Por isso, esquecer os mortos é uma traição a esta verdade: A vida não acaba na morte, ela é imortal. A vida não cessa com a morte, é eternal. (Este dístico alexandrino faz parte dum poema longo que ainda estou a escrever, chamado a princípio A Luz de Luzia). Sproul arremata: “Acima de todo sofrimento e morte está o Senhor crucificado e ressurreto. Ele venceu o inimigo final da vida. Ele conquistou o poder da morte. Ele nos chama a morrer, mas este chamado é um chamado a obedecer a última transição da vida. Por causa de Cristo, a morte não é final. É uma passagem deste mundo para o próximo.”

  • 7. A morte vem levar de nós os nossos amados, o luto é que faz com que a morte desconsiga a totalidade da sua vontade e missão ao mantê-los presentes e vivos entre nós – por mais pesado e doloroso que seja carregarmos os nossos mortos entre os vivos – numa antecipação do que a ressurreição será e trará ao palco da realidade como um grand finale da existência. A morte desafia o nosso amor pelos mortos e a nossa humanidade, quer mostrar que não os amamos; e se não amarmos os mortos, os vivos muito fraca ou nulamente amaremos, pois a vida humana é superficial com os óculos do luto. Daí o esfriado amor do nosso tempo pelos vivos e pelos não nascidos, ele não ama os mortos. É preciso amar aqueles que estão presentes, e os que estão ausentes, mas isso só é possível se os esperamos regressar a nós ou se esperamos ir até eles no além. O Amor e a Espera andam junto, segundo Coríntios. Mas ambos são nada sem a fé de que os que esperamos e amamos de facto voltarão a nós ressurgindo da morte. É na casa do luto que a espera e o amor aos mortos acontecem bem como a fé na sua ressurreição. O luto é esperança, amor e, como põe Santo Agostinho, “o testemunho claro dessa mesma fé.”

Este mundo é um mundo de mortes. Não temo a morte dos homens, odeio-a; o único medo que eu tenho é da morte do luto. Assusta mais quando percebemos que o luto é o que Agostinho chama de “o dever de humanidade”. Portanto, se o luto desaparecer dentre os homens, o que perderemos é a humanidade: o mundo será insuportavelmente perigoso, a vida humana nada valerá e a morte humana será vista como algo normal. E na verdade é isso que hoje acontece em escala crescente na sociedade ocidental. Se pararmos de chorar e lamentar os nossos mortos, naturalmente não os amaremos nem serviremos durante a vida. Eu gosto de dizer que sou o pastor e tutor de meu irmão, mas aqui forço a linguagem a dizer: eu sou o chorador do meu irmão, o luto do meu próximo. E isso é forma de amá-lo como amo a mim mesmo, e eu amo-me até na morte e depois dela. Se pudesse chorar e lamentar a própria morte, sabendo que a morte é seu pior mal e melhor inimigo, a minha avó teria feito isso, mas isso foi-lhe impossível, portanto, o meu luto por ela cumpre também papel de amor ao próximo, como se ela chorasse a sua própria morte em minhas lágrimas (A morte do luto não causará nenhum mal aos mortos porque vivem em outra galáxia, outra órbita. Mas causará danos terríveis aos vivos, à nossa caridade, à nossa compaixão, à nossa valorização da vida).

  • 8. É santidade saber sofrer, saber chorar, é isso que Lamentações significa, e é isso que Eclesiastes 7 nos chama a viver. A dor não me põe dúvidas nenhumas sobre a existência e a bondade de Deus, pois no meu pescoço carrego um colar de cruz para lembrar-me de que Deus sofreu. Para mim, a teodiceia verdadeira é o facto de que Deus é bom e matou o próprio filho em sacrifício e ao mesmo tempo chamou isso de amor ao Filho e aos filhos que com a morte comprou à sua família eterna. Eu amo a Deus e sei da sua bondade e severidade, do seu peso leve mas também pesado, e de como ele vê a realidade e a história. Eu carrego luto, portanto, dentro do meu ser que está dentro de Deus, sim, eu sofro com Deus e ele aguenta a dor comigo. Isso não alivia muitas vezes a dor nem a cessa sempre, mas significa que Deus sofre comigo, acompanha-me no meu luto: a sua presença é melhor que a vida. Avança o Philip Yancey: “O fato de Jesus ter vindo à terra, sofrido e morrido não exclui a dor de nossas vidas. Nem nos garante que nos sentiremos sempre confortados. Mas isso não demonstra que Deus se tenha sentado ao acaso, assistindo-nos sofrer sozinhos. Ele se juntou a nós e, durante a sua passagem pela terra, suportou uma dor muito maior do que qualquer grande dor que a maioria de nós pode suportar. Com isso, Ele conquistou uma vitória capaz de tornar possível a existência de um mundo futuro sem dor” (O Amor não necessariamente afasta a dor, muita vez a dor é um de seus anjos ou caminhos, como nos lembra João 3:16 e 1 João 3:16).

O luto ensina e inculca-me a realidade da presença terrivelmente suave e selvagemente santa de Deus, quando entro nos meus “vales de sombra e morte”. Deus está presente na minha dor e essa presença é prova de seu amor; o Deus espera que eu olhe a dor sempre perante a Sua luz e que eu consiga, vendo a dor, ver além da dor, amá-lo no meio do choro, perceber que há um lugar chamado Santo dos santos na própria casa do luto e que ali devo habitar. Como diz o Frederick Buechner: “Ser absolutamente obrigado a amar a Deus, no meio do deserto, é como ser obrigado a estar bem quando se está doente, a cantar de alegria quando se está morrendo de sede, a correr quando se tem as pernas quebradas. Todavia, esse é o primeiro e grande mandamento. Mesmo no meio do deserto – e especialmente no meio do deserto – devemos amá-lo” (Citado por Philip Yancey). E de facto, Israel recebeu o Shema e o Decálogo quando estava física e espiritualmente num deserto.

De tanto sofrimento que vejo e vivo no mundo, tenho estudado a dor durante anos e pretendo fazer isso a vida inteira. Não busco evitar a dor, nem busco me fazer sofrer, eu sei que Deus não me poupará das dores que ele sabe que me levarão para mais perto dele, que me revelarão a sua grandeza e beleza e amor e bondade, que porque me ama não deixará de me negar imunidade à dor; eu apenas desejo, peço e busco a vida verdadeira e conhecer a Deus e a mim mesmo, agostiniamente. E fazer isso, eu sei, envolve inevitavelmente a dor: a cruz é isso. Reflectindo sobre ela, não tem como não reconhecer que a dor é um professor, uma fonte de sabedoria e de beleza, um grande servo da Verdade, da Vida e do Caminho. Entrar na casa do luto não é problema para mim, o meu foco é o que lá se me revelará, o que lá aprenderá a minha fé e como o meu amor será lá instruído e amadurecido, e como o meu choro será lá aperfeiçoado e santificado. Caminho pelos cômodos da casa do luto, portanto, sem medo da dor, por mais que choro e lamente as perdas dos meus amados, “Pois tenho para mim que as aflições do tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há-de ser revelada. Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus.” (Rm 8.18-19). Eu choro e lamento os meus mortos com Deus, e porque morreram, mas também porque os verei novamente fora da terra.

Uma coisa boa e estranha que me aconteceu foi que Deus esperou até janeiro para matar a minha avó, justamente o período em que ele me guiava pelas linhas selvagens, poéticas e douradas do Apocalipse. Terminei o último capítulo ainda morando na Casa do luto. E a certeza do Paraíso e da derrota da morte só me alegraram. E o que matou vovó será morto e lançado no inferno, Deus me prometeu. A casa do luto será extinta, derribada, e o choro cessará para sempre. E eu verei a vovó novamente, vestida de linho branco e com palmas nas mãos, dançando e louvando a Deus como gostava de fazer na terra. E isso me conforta e alegra, em meio as lágrimas. “Alguns cristãos expressam que Deus se lhes revelou de forma particularmente real em seus momentos de dor. Ele é capaz de proporcionar um misterioso conforto que nos ajuda a suportar a dor por que estamos passando” (Philip Yancey). Na casa do luto, Deus encontra-se comigo e passeamos entre os escombros como ele passeava com Adão no Éden. É ele que na casa do luto é-me Rabino, guiamento, pastor, e me ensina aí a ser “homem de dores e que sabe o que é sofrer” (Is. 53:3). Um luto me prepara para o próximo luto. E me revela o preço da Alegria e sua veracidade, para os hedonistas não me enganarem.

Referências

Derek Kidner. A Mensagem de Eclesiastes. Yolanda Mirdsa Krievin [trad.]. São Paulo: ABU. 1989

Walter C. Kaiser Jr. Comentários do AT: Eclesiastes. Paulo S. Gomes [trad.]. São Paulo: Cultura Cristã. 2015.

Santo Agostinho. O Cuidado devido aos mortos, editora Paulus, Carlos M. Nabeto [trad.]

Philip Yancey, Quando a Vida nos Machuca: compreendendo o lugar de Deus em sua dor, Editora United Press, 2003.

Paul Ricouer. Vivo até a morte. São Paulo: Wmf Martins Fontes. 2012.

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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