Existem férias na praia na vida após a morte

Revisão: Alicia Catarina

Houve um dia, na minha vida após a morte, em que acordei cedo para arrumar a minha mala. Íamos viajar, eu e minha família. Passaríamos em torno de treze dias viajando, uma parte desse tempo na casa dos meus avós, em Maceió, e a maior parte restante na praia – imagina a quantidade de malas! De fato, o carro foi cheio. Além das malas, ainda levávamos presentes e outras coisas para alguns parentes próximos (Incrível como a troca de presentes é frequente na vida após a morte!). Saímos em torno de doze horas e, portanto, tratamos logo de almoçar por aqui. Paramos em um restaurante bem bacana, já na saída da cidade. Também é bom salientar que os pratos feitos na vida após a morte são ótimos, mesmo os feitos por pessoas mortas. Os dias passaram rápido. O sol brilhou durante todo o tempo e a praia estava como nunca!

O curioso é que, embora provavelmente esteja estranhando o vocabulário, existe a chance de você ter feito uma viagem assim em um passado próximo. Tais experiências são conhecidas e certamente já foram vividas por você, na vida após a morte. Talvez você não opte por usar esse vocabulário… e seja isso que esteja te causando estranheza. Aposto que semana passada você deve ter tomado um sorvete com outros vivos da vida após a morte, ou tenha tido um bom momento de comunhão com seus irmãos da igreja – coisa que só pode acontecer na vida após a morte – ou até gastou tempo sozinho com Aquele que te trouxe para a vida após a morte. Não sei se já deu para entender a verdade por trás das afirmações, mas tentei expandir a imagem gradualmente para que fique claro sobre o que estou falando.

O que se interpôs entre nós nos parágrafos anteriores não foi necessariamente uma realidade bizarra que eu criei na minha cabeça. Creio que o fato de que ainda não entendemos a realidade que nos é exposta nas Escrituras e a profundidade de suas afirmações. Lemos que o Filho se fez maldição em nosso lugar (Gl 3.13), mas muitas vezes não percebemos a carga de significado que Paulo traz nessa afirmação. Às vezes até amenizamos na nossa cabeça e não cremos que tenha sido algo tão escandalosos assim. Como diz Stott, comentando essa passagem, citando A.W. Blunt, “Paulo quis dizer cada palavra que proferiu”1 . Somos expostos a Efésios 2 e continuamos a adotar os termos “vida” e “morte” como nos são ensinados no cotidiano. Prova disso é a possível estranheza causada pelas minhas afirmações anteriores. Professamos crer, mas muitas vezes não levamos em conta que cada palavra, vírgula e expressão contidas nas Escrituras dizem a mais pura verdade. O Senhor quis dizer cada palavra que proferiu.

Surreal: Os mortos andam

É por desconfiar (claro, na maioria das vezes implicitamente) na plena inspiração das Escrituras e sua autoridade que vivemos nossas vidas como se as palavras ali escritas não viessem com toda a carga de significado a elas inerentes. Mas isso talvez seja tema para outro texto. O fato é que ela diz:

“Ele vos deu VIDA quando estáveis MORTOS pelos vossos delitos e pecados…” (Ef 2.1)

Será que Paulo errou na pena, querendo dizer algo como “Ele vos deu uma vida melhor, quando vós estáveis vivendo uma vida mais ou menos”? Creio que não. Certamente o apóstolo, inspirado pelo Espírito, quis usar as palavras vivos e mortos, na plenitude de seus significados. Ele quis dizer que antes estávamos mortos. Sem fôlego de vida. Sem capacidade de reação e, principalmente, sem a possibilidade de louvar ao Deus Trino, pois “os mortos não louvam o Senhor” (Sl 115). Paulo desenvolve o seu argumento, afirmando que os mortos são movidos pelo “espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2), mostrando que existe um certo espírito que move os mortos, os conduzindo e os levando, como falei anteriormente, a cozinhar pratos deliciosos. Esse é o propósito de tal espírito: levar as pessoas a agirem. Não é interessante para ele que os mortos permaneçam estáticos. Eles devem agir, e como nós sabemos, eles devem permanecer na prática do mal, para impedir o avanço do Reino de Cristo e da vida transbordante que o acompanha. Ao menos é isso que tal espírito tenta fazer. É por isso que os mortos falam, agem e pensam. Mas não devemos fugir à afirmação categórica do texto bíblico: eles estão mortos. Nas palavras de J.I. Packer,

“Na Bíblia, morte e vida não são conceitos primariamente fisiológicos. Antes, são conceitos espirituais e teológicos. A vida significa comunhão com Deus, na experiência de seu amor; a morte significa estar sem esse privilégio”2.

Sim, os mortos andam, falam e pensam. Que realidade surreal: os mortos andam e os escravos expressam suas vontades. Quem atua neles é um espírito: A prisão maligna de Satanás. Os vivos também são movidos por um Espírito… Mas quem são eles?

Uma boa notícia: Já estamos onde pensávamos não estar ainda

Por outro lado, é preciso crer que quando a bíblia diz que os que estão em Cristo são nova criatura (2 Co 5.17), que foram ressuscitados com Ele (Cl 3.1) e que estão vivos para Deus (Rm 6.11), ela quis dizer exatamente o que disse. Os demais estão mortos. Os em Cristo foram ressuscitados da morte. Eles são os verdadeiros seres humanos, como mesmo afirmou Lewis, referindo-se ao Cristo ressurreto: Pela primeira vez vimos um homem de verdade.3

É preciso resgatar (na prática) a verdade bíblica de que nós fazemos parte de uma nova criação. Embora não em plena glória e clareza, o Reino de Deus já foi estabelecido e está aumentando, a medida que novos cidadãos vão sendo incorporados à grande família dos ressuscitados. Tendo em vista que já entendemos o significado bíblico para morte (Packer nos ajudou anteriormente), podemos, através de um silogismo lógico, concluir que a ressurreição não trata primariamente de retomar o nosso corpo, após ter ele passado um tempo na sepultura, embora a ressurreição de Jesus seja a garantia eterna de que isso acontecerá conosco. A ressurreição está mais ligada a algo que acontece conosco ainda no caminho até Canaã. Não surpreende o fato de que as epístolas de Paulo estão repletas do termo ressurreição significando algo glorioso que acontece já aqui no mundo caído: a nova vida em Jesus. A vivificação do Espírito nos mortos que perambulavam em terra estranha. Paulo, em sua carta aos romanos, é claro ao estabelecer a conexão vital entre a morte e ressurreição de Jesus com nossa morte para o pecado e ressurreição para vida com Deus:

Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas quanto a viver, vive para Deus.

Aí o apóstolo estabelece com todas as letras a conexão desses fatos na vida de Jesus e a nossa vida:

Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.8-11).

Ele morreu, assim também nós morremos. Ele agora vive, também nós vivemos. É válido ressaltar o verso 6: “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus”. Aqui Paulo parece querer dizer: Querem uma boa razão para lutar contra o pecado? Saiba que você ganhou um novo nome. Estava morto, mas hoje vive. Para que viver como morto, estando vivo? Que estupidez!

Mark Jones é categórico em afirmar: “A ressurreição dos crentes na verdade já aconteceu, porque Cristo ressuscitou”4. Já somos parte da nova criação. Já estamos assentados nos lugares celestiais, pois nos fez ressuscitar com Ele (Ef 2.6). É claro que ainda esperamos nossa plena redenção. Somos novas criaturas mas ainda lutamos contra o velho homem que, segundo a providência de Deus, ainda não foi eliminado totalmente e, portanto, ainda sofre muitas influências do pecado, que hoje atua em “tática de guerrilha”5.

Por essa razão, nós, em Cristo, já estamos vivendo a vida após a morte. A ressurreição dos crentes já aconteceu na ressurreição de Cristo. Assim, N.T. Wright acerta dessa vez, ao afirmar que a ressurreição do corpo que terá lugar no futuro “é o segundo estágio da vida após a morte: vida após ‘vida após a morte’ (…) se Jesus ressuscitou, isso significa que o reino de Deus de fato chegou.”. E completa: “Alguma coisa aconteceu com Jesus e, em função disso, o mundo se tornou um lugar diferente, um lugar onde o céu e a terra se uniram para sempre. O futuro de Deus chegou até nós. Não mais ouvimos os ecos de uma voz; agora ouvimos a própria voz: uma voz que fala de resgate do mal e da morte, e, consequentemente, de nova criação.”6.

Conclusão: falar aos mortos é bíblico

Conhecer o nosso real estado  e o dos que nos cercam é fundamental para estabelecer uma visão de mundo bíblica e, a partir daí, traçar rumos bíblicos para a nossa vida , para o governo civil, para a igreja e para a missão cristã no mundo. Entender a assustadora, mas verdadeira realidade de que os que não estão em Cristo estão mortos – e não só debilitados ou alheios a uma simples bênção,- deve moldar a maneira como nos relacionamos com os que nos cercam, principalmente os incrédulos.

Não temos o poder de fazer cadáveres levantarem. Você pode agitá-los, gritar para eles ou até tentar pô-los de pé. Eles não andarão. Permanecerão neste estado; é o seu estado natural. Não há vida. Certamente não está na nossas mãos o poder para fazer cadáveres reagirem a alguma coisa. Mesmo assim devemos falar com eles. Por quê?

Porque aprouve a Deus salvar os homens pela loucura da pregação (1Co 1.21) dos ministros do evangelho, mas em amplo quadro de todos os comissionados (Mt 28.18-20). Precisamos falar. Precisamos falar aos ossos secos e, mesmo assim, ter a certeza de que quem sopra o Espírito é o Senhor. Isso nos humilha, pois somos postos diante de uma tarefa “às cegas”. Somos inclinados a nos alegrar pelos frutos do nosso braço. Crer que algo está fora da nossa gerência mas mesmo assim não nos é permitida a omissão é humilhante para a nossa natureza. Ao mesmo tempo, é de grande consolo para nós, criaturas. A missão já é vitoriosa. Que alegria é saber que nosso braço – fraco, omisso e mau – não nos dá garantia de bom desempenho! A igreja será vitoriosa na sua missão de falar aos ossos secos porque a história já está escrita. O que nos causa temor, então? Como diz o puritano Richard Sibbes: Qual covarde não pelejaria quando está certo da vitória?7

Agora, vivos, podemos nos maravilhar com a beleza da majestade de glória do nosso Deus. Podemos crer que o que Ele nos diz é verdade: a morte espiritual é algo mais profundo e sombrio do que podemos imaginar. Também podemos crer nas suas promessas e no poder do seu Espírito Vivificador que usa o pó para levantar, em minutos, um poderoso exército.

Uma última observação: as praias da vida após a vida após a morte

Em meio aos bons momentos da vida, às boas férias na praia e aos mais diversos prazeres da vida – família, churrasco e a comunhão na igreja – é fácil esquecer que estamos em um mundo caído. É fácil esquecer ou ignorar o fato de que Deus trará ainda mais restauração para o mundo que ele já começou a restaurar através da pregação do Evangelho da graça.

Os familiares morrem e adoecem, nós caímos em pecado, a carne fica cada dia mais cara e domingos acabam. Tudo isso para nos passar uma mensagem: já é tudo muito bom. Mas a plenitude da presença de Deus ainda não nos é conhecida, pois virá quando Ele restaurar todas as coisas. Nos é permitido provar um pouco dela para que a desejemos cada vez mais, e inclinemos o nosso coração a amar o Senhor e trabalhar para o seu Reino.

Devemos ansiar pela restauração da criação de Deus. Pela plenitude do seu Reino e pelo dia em que ouviremos do Senhor Jesus “vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25.34). O Evangelho será pregado até o último eleito de Deus ressuscitar. Então virá o fim. Ou o começo. Depende da perspectiva. Será ouvida a  sua voz: Eis que faço novas todas as coisas! (Ap 21.5). Os mortos passarão para o definitivo estado de morte – a morte eterna, pois assim aprouve a Deus.  Os vivos verão que a vida que tinham, embora boa e repleta de alegria, não era nem um pouco comparada à vida eterna ao lado de Cristo que apenas estará se iniciando, para nunca mais terminar, porque Deus odeia o divórcio. Lá haverá plenitude de alegria e delícias perpetuamente. E claro, as praias serão ainda mais bonitas.


REFERÊNCIAS

1. STOTT, John. A Cruz de Cristo. Número da edição. São Paulo-SP: Editora Vida
2. PACKER, James Innell. O vocábulo de Deus. São José dos Campos-SP: Editora Fiel
3. LEWIS, Clive Staples. Cristianismo Puro e simples. São Paulo-SP: Martins Fontes
4. JONES, Mark. Knowing Christ. Carlisle –PA (EUA): Banner of Truth
5. BRIDGES, Jerry. A busca da santidade. Brasília-DF: Editora Monergismo
6. WRIGHT, Nicholas Thomas. Simplesmente cristão. Viçosa-MG: Editora Ultimato
7. SIBBES, Richard. O caniço ferido. Brasília-DF: Editora Monergismo

 

21 anos, estudante de Direito na UFPE e membro da Igreja Presbiteriana da Aliança.

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