A criança e o pecado

Revisado por: Laísa Caroline

O tema que venho recorrer sobre é de grande importância, porém não ensinado no meio cristão com a frequência necessária. Proponho, então, de forma fiel à palavra de Deus, expor o que a Bíblia nos fala sobre o assunto de forma simples e objetiva.

Desde já digo que esse texto parte do pressuposto de que a criança não é culpada apenas pelo pecado herdado (Rm 5:18), mas também pelo pecado praticado (Ez 18:4). Ambos os aspectos serão abordados no texto que está dividido em três pontos: no primeiro, vou apresentar alguns argumentos daqueles que dizem que as crianças não têm pecado e mostrar o porquê acredito que estão errados; depois, mostrarei o que a Palavra de Deus de fato nos ensina sobre a relação de pecado e infância; e, por último, apontarei os males da não compreensão dessa doutrina básica pode trazer tanto à criança quanto à sua família, principalmente se essa é uma família cristã.

Começarei contra-argumentando as questões colocadas pelos que defendem que as crianças não pecam. O que a Bíblia não nos diz?

Há um pensamento secularizado de que pecado e criança é uma combinação que não existe; ou, pelo menos, não existe até certa idade, a qual é chamada de “idade da consciência”. Alguns que defendem esse argumento concordam em dizer que a idade da consciência começa aos sete anos, com base na história do Rei Joás (2 Rs 11:21) que é o Rei mais novo citado pela bíblia. Não é preciso fazer grande análise do texto para ver que esse argumento é totalmente falho, levando em consideração que a bíblia não diz que Joás foi declarado rei de Jerusalém por causa de sua idade ou por poder discernir o bem e o mal a partir dos sete anos; na verdade, nenhuma questão de consciência é citada no texto referido. Em contrapartida, encontramos nas escrituras que uma criança no governo de um povo está mais para castigo (Is 3:4).

Outro ponto muito usado pelos defensores da impecabilidade das crianças é a inocência e pureza dessas, citando a famosa passagem: “Mas Jesus chamou a si as crianças e disse: ‘Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele'”. (Lc 18:16-17)

De modo nenhum estou a negar a inocência da criança, quando observada em termos humanos, porém ela não é inocente diante de Deus, como nenhum homem é (Rm 3:10).

Sabemos que a criança representa uma inocência advinda da inexperiência de vida, mas também apresenta vulnerabilidade, dependência. O texto acima não pode simplesmente significar que as crianças não pecam, pois a bíblia nos fala que o Reino de Deus também pertence aos humildes (Lc 6:20), aos que abnegam suas vidas (Lc 18:29-30), aos atribulados (At 14:22) e a todos os demais Santos na face da terra, sejam eles adultos ou não (2 Ts 1:5; Mc 4:11; Tg 2:5), os quais também sabemos que estão sujeitos a pecar.

A bíblia também nos mostra que existem pecados que são cometidos por ignorância e que eles não deixam de ser pecado (Lv 4:27, 5:15-19). Aqui então podemos ver que o fato de uma criança ser intelectualmente ou conscientemente menos desenvolvida do que um adulto, não torna o pecado que ela comete (como colocar o dedo na tomada na ausência dos pais, mesmo já tendo sido alertada quanto a isso, em outras palavras, desobedecer) mais bonitinho ou aceitável diante de Deus só porque ela é criança. Mas então alguém pode dizer: “Mas a bíblia não diz que Deus não leva em conta o tempo da ignorância?” (At 17:30). A bíblia também nos diz que os homens que mataram Jesus o fizeram por ignorância (At 3:17), você diria então que Deus não considerou como pecado o que fizeram com Cristo? Aí está a questão. O real significado do que o Ap. Paulo quis dizer nessa passagem de At 17:30 é qu,e com a vinda de Cristo, Deus ofereceu misericórdia exigindo de todos os homens o arrependimento sem levar em consideração os seus muito pecados. Deus em Cristo oferece graça aos que se arrependem, sem levar em conta os pecados que cometeram. Esse versículo não diz que se uma pessoa comete pecado ignorantemente é considerada inocente diante de Deus. Ninguém o é (Rm 3:10-11).

O salmista Davi admite culpa dos pecados cometidos que nem mesmo vieram ao seu conhecimento. “Quem pode discernir os próprios erros? Absolve-me dos que desconheço!” (Sl 19:12) A palavra “erro” no versículo, tem o significado de erro moral; em outras palavras, pecado.

Vemos então que nenhum pecador, até mesmo se “bem intencionado”, é inocente diante de Deus quando peca.

“Se alguém pecar fazendo o que é proibido em qualquer dos mandamentos do SENHOR, ainda que não tenha plena consciência disso, será culpado e incorrerá nas devidas penas à sua iniquidade […] Esse é um sacrifício de reparação e essa pessoa é, sem dúvida, responsável por seu pecado diante do SENHOR!” (Lv 5:17,19)

Ditas essas coisas, vamos ver agora o que de fato a bíblia nos diz a respeito do assunto.

“…pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23) .

É isso que a Bíblia nos fala a respeito da condição de toda raça humana. Alegar que a inocência das crianças fazem com que elas sejam pessoas que não pecam é a raiz da negação de ensinamentos indispensáveis da fé cristã; em última análise, por exemplo, dizer que as crianças não têm pecado é negar a doutrina da depravação total, assim também como a doutrina da suficiência e mediação única de Cristo. Só há um caminho para a salvação, este caminho é Cristo. Ele é o único mediador entre Deus e os homens, não há outro nome pelo qual devamos ser salvos. Entretanto, também é verdade que Cristo é salvador de pecadores.

“Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior.” (1 Tm 1:15).

Jesus também disse: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores.” (Mc 2:17).

Aí está a primeira condição para que um homem seja salvo, ele precisa ser declarado pecador. Isso é o que a palavra de Deus, digna de toda aceitação e confiança, fala a respeito da raça humana. Mas, talvez, não pareça ainda tão claro para você que esses textos se apliquem às crianças – por mais que não possamos negar que crianças fazem parte da raça humana. Então, vejamos o que a bíblia nos fala de forma mais específica sobre o mal que habita no coração de um infante:

“A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela.” (Pv 22:15)
“Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, pois o seu coração é inteiramente inclinado para o mal desde a infância.” (Gn 8:21)

Desde pequenos essa é nossa situação. Carentes, necessitados de ajuda contra o pecado que a cada dia nos rodeia. Precisamos entender que, todo aquele que não foi considerado justo por meio de Cristo, é considerado culpado e ímpio diante de Deus, mesmo sendo filho de pais piedosos e tementes ao Senhor, pois sua condição é: “Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras.” (Sl 58:3)

Quais são os males reais causados pela negação dessa verdade Bíblica?

Dizer que a criança não peca é dizer também que ela não precisa de um salvador, que ela não precisa de arrependimento, que ela é boa o suficiente para satisfazer a Deus pois têm um coração puro. E você já pode imaginar agora que terrível coisa é amaciar um pequeno coração cheio de ego e orgulho próprio. Se você nega que a criança tem pecado, você simplesmente não pode falar da graça para ela. Você não pode dizer que um dia, o Filho de Deus se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e verdade para nos oferecer salvação nos reconciliando com o Pai, por meio de um sacrifício perfeito, feito por intermédio do seu próprio corpo dado como oferta pelos nossos pecados.
Afinal de contas, o que é graça para ela? Que diferença faz Cristo ter vindo cheio de verdade se na criança não há mentira? De que ela precisa ser salva? Qual a necessidade da reconciliação para quem não tem inimizade? Por que precisaria ela de uma oferta por pecados, se não peca? O evangelho de Cristo não será pregado a criança se não reconhecermos que ela é necessitada disso.

Podemos contar a história de Cristo como uma história empolgante e depois ensinar várias regras para que eles cresçam como “bons meninos”. Podemos repetir coisas do tipo: “Não faça isso, Jesus vai chorar”  ou “Seu coração vai ficar sujinho” etc. E que transformação traria aos corações dos pequenos uma instrução de como se tornar um pequeno legalista? Eu mesma já presenciei argumentos como esses usados por pais cristãos na tentativa de convencer seus filhos a não pecarem.

As crianças não precisam de uma história bonita como outra qualquer. Precisam da única verdadeira história do justo morrendo pelos injustos.

Quem nega que neles há pecado, também se recusa a aplicar a disciplina. Quando uma criança, por exemplo, traz a borracha colorida do colega da escola para casa, em vez de correção e instrução na justiça, ensinando o que é roubo, o que é cobiça, o que é desonra a Deus, os pais que acham que seu filho é um “bom menino”, apenas convencerão a si mesmos de que ele trouxe porque achou bonitinho. O pecado será tratado e Cristo não será pregado. Todos os demais pecados serão ignorados e não encarados com a seriedade que o pecado deve ser encarado. Se a disciplina não acontece, a ordenança bíblica mais uma vez é ignorada.

“A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela.” (Pv 22:15)
“As maldades do ímpio o prendem; ele se torna prisioneiro das cordas do seu pecado. Certamente morrerá por falta de disciplina.” (Pv 5:22-23a)
“Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo.” (Pv 13:24)

Finalizo encorajando os irmãos a olharem para as crianças como almas necessitadas de Cristo, desesperadas pelo evangelho que pode ajudá-las a viver uma vida agradável diante de Deus. Temos a responsabilidade de não sermos pedras de tropeço na vida dos nossos pequenos irmãos que lutam contra o pecado em seus corações tanto quanto nós o fazemos, dizendo a eles ou convencendo a nós mesmos que são autossuficientes; mas devemos mostrá-los onde erraram e depois encorajá-los falando do sacrifício e vida de Cristo, de como devemos desejar ansiosamente ser transformados à imagem dele, chamá-los ao arrependimento e, então, deixar ir a Deus os pequeninos, como Cristo nos ensinou.

Que Deus nos ajude nesta grande missão!

23 anos, casada, membro na Congregação  Batista da Graça em Recife; amante da boa teologia. Meu coração deseja a eternidade, Cristo em mim é a esperança da Glória.

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