O sofrimento como vocação

Revisado por: Laísa Caroline

Para R. C. Sproul (in memoriam)
Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos (Sl 116.15).

As tribulações, a perseguição, a angústia, a fome, a nudez, o perigo, a morte (Rm 8.35). Todas essas facetas do sofrimento humano são regiões que, não importa em que ordem ou simultaneidade, nós frequentaremos ao longo da nossa jornada como filhos e amigos de Deus.

Sabemos que o sofrimento entrou na experiência e condição humana através da fruta de Adão, a queda. E, desde Adão, a humanidade está sujeita a sofrer. Mas, desde Adão também, o sofrimento, como fruto do pecado, se dividiu em duas castas. Uma é maligna, sem Deus (o de Caim). Outra, é benigna, coram Deo – perante a face de Deus (como de Abel). E esta última casta é uma promessa de Deus a seu povo desde Eva, desde Abraão até sempre.

Nós fomos chamados para o sofrimento, cujo paroxismo é a morte.

O sofrimento não nos separa de Deus; não consegue. Mas nos separa da terra, de nós mesmos, de nossa igreja, de nossa família e amigos. Normalmente, une-nos a Deus, talvez bem mais que a sua ausência, como disse um raro salmista: “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” (Sl 119.71).

Que o sofrimento não pode nos separa de Deus e que nos revela o seu conhecimento e presença, misericórdia e graça, fidelidade e amor (Sl 23) da melhor forma é certeza bíblico-teológica fulcral para nossa cristandade pessoal e coletiva. Contudo, é verdade que essa certeza, embora verdadeira e divina, não impede e nem apaga e nem evita a dor e as lágrimas. Também é verdade que a certeza pode ungir, amparar, dar sentido e destino sagrado às lágrimas, fazendo com que reguem a verdade na alma, que estrumem a convicção da fé.

O chamamento é natural e central na nossa Religião Cristã. A salvação é o primeiro e o maior, mas dentro dela há vários outros chamamentos, cada um impossível sem o primeiro, mas todos submissos a uma bela interdependência. O chamamento ao padecimento é um dos chamamentos do cristão. O Adonai – o único Deus verdadeiro! – chama-nos a sofrer de maneira cristã: para comungar com Cristo nos seus sofrimentos, para revelar sua glória em nós e para nos transladar da terra para “a casa de meu pai”.

A tese do sofrimento como vocação, eu a encontrei pela primeira vez em R. C. Sproul (que morreu dezembro passado), intitula um de seus livros. Para o professor Sproul, a morte, a maior de nossas aflições, “é parte do propósito de Deus para nossas vidas. Deus chama cada pessoa à morte” (p.13 [1]). Essa realidade é filha da soberania do Jeová sobre e em todas as coisas neste mundo, que pertence-lhe inteiramente.

O Senhor Jesus Cristo – louvado seja o seu nome! Amém! – não ludibria nem engana a ninguém com promessas falsas de uma vida sossegadas e próspera, cheia de bonança e saúde, vida calma e rica na terra. O seu chamamento é sempre claro: “tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9.23); “no mundo tereis aflições” (Jo 16.33); “se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós” (Jo 15.20); “tu, pois, sofre as aflições” (2 Tm 2.3); “sofre as aflições” (2 Tm. 4.5) “muitas são as aflições do justo” (Sl 34.19). Ele nos alertou que o mundo jaz no maligno.

O sofrimento santo, na nossa santa Religião, é uma benção e promessa do próprio Nazareno: Mt 5.6-10-12. Lemos com o saudoso Sproul:

“Temos vocações diferentes quanto ao trabalho e às tarefas que Deus nos dá nesta vida. Mas todos partilhamos da vocação para a morte. Todos somos chamados a morrer. Essa vocação é um chamado de Deus tanto quanto o é um ‘chamado’ para o ministério de Cristo” (p.14 [1]).

Esse chamado vem de Deus, não do diabo – esse não detém as chaves da morte, ninguém as detém senão o Crucificado (Ap 1.17-18). É Deus que mata-nos, pois é ele quem chama-nos para o seu Paraíso. Foi Deus quem matou o Sproul. Foi Deus quem matou a minha Avó em Janeiro. E foi Deus quem, ainda em março, matou um dos meus heróis e favorito evangelista (Billy Graham). Isso é importante afirmar para que o coração reconheça a soberania de Deus, como Sproul fazia: “Acima de todo sofrimento e morte está o Senhor crucificado e ressurreto” (p.16 [1]).

Esse chamado a padecimento vem de Deus mesmo. Tão de Deus quanto qualquer outro chamado. Assim falou o Sproul: “Quando Deus nos lança uma chamada, é sempre uma chamada santa. A vocação para a morte é uma vocação sagrada” (p.17 [1]). Precisamos crer e saber dessa verdade.

No livro Surpreendido pelo Sofrimento, com pessoalidade e verdade, o Sproul mostra que ele era um homem que sabia que vivia no mundo como peregrino hóspede em terra estrangeira. E a sua fé na soberania de Deus incluía a certeza do sofrimento e da morte como ministração a Deus, como vocação.

É somente com base na sua soberania e vitória sobre a morte é que Jesus pode nos chamar a sofrer, a morrer, a doar a nossa vida a Ele, levar-nos ao “vale da sombra da morte”, a “dar a nossa vida pelos irmãos”, a dar a outra face, a aceitar o sofrimento enquanto imitamos a sua mansidão.

Ele nos chama a morrer, mas este chamado é um chamado a obedecer a última transição da vida. Por causa de Cristo a morte não é final. É uma passagem deste mundo para o próximo.

Essa concepção da morte como passagem para o paraíso é marca de Sproul, creu nela até o fim.

Deus se agrada da morte dos justos. É verdade. E vou além: das suas dores e tribulações. Porque é a fornalha onde eles são forjados para ser parecidos com Jesus. Não é que Deus seja mau, mas ele simplesmente nem sempre “deseja curar” (p. 16 [1]), mesmo assim, isso não é licença para descrença em sua cura nas nossas doenças e dores do corpo e da alma.

Devemos evitar isso. Devemos evitar também a crença nem um pouco cristã de que, nessa vida, Deus deseja sempre e somente curar-nos de toda a dor que toda a dor vem do diabo. Isso contradiz o seu próprio chamado ao sofrer, que está enraizado no chamado à salvação e à evangelização, à adoração e à oração, ao amor fraternal e matrimonial. Isso contrariaria a Bíblia e suas galerias de sofredores santos, dentre os quais o Senhor Jesus figura como o maior, como caracterizou Isaías: “homem de dores, que sabe o que é padecer” (Is 53.3).

A vida completa do nosso Senhor Jesus Cristo é o script, o roteiro mesmo da história do nosso sagrado sofrimento. Seu itinerário de paixão é inevitavelmente a nossa. Com ele sofreremos, morreremos, mas também ressuscitaremos e também ascenderemos ao céu e também reinaremos com ele. A imitação de Jesus é isso. O A. W. Tozer o chama de Vida Crucificada. O Apóstolo chama-a de “viver da maneira digna do Senhor, para o seu inteiro agrado” (Cl 1.10).

A vocação para a morte é santa, divina, portanto, como vontade de Deus, é boa, perfeita e agradável. Sofrer e morrer nesse mundo contribuirão como remos a nos levar para o nosso porto: o Bem. Cooperarão segundo a promessa e o plano do Senhor. Precisamos crer e saber dessa verdade – porque isto é que reflete o cerne do Cristianismo, religião da Vida, mas da vida que advém da morte da cruz. Munirmo-nos dessa verdade dar-nos-á imunidade espiritual contra ataques satânicos estrondosos ou subtis, mas, em todo caso, nocivos, desafiando a nossa fé e esperança e amor em Deus nas horas de angústia e dor, de luto e doença. E isso também nos dá força para sermos capazes ou maduros para lidar com dificuldades da vida. Creio piamente que essa verdade serviu ao Sproul na sua doença e momentos derradeiros.

O chamamento ao sofrimento chega ao seu ápice com a morte. Saber que Deus nos matará um dia é importante. Tudo que podemos fazer com respeito à morte deve estar nisso: prepararmos para morrer a qualquer momento – “Jesus se preparou para a cruz” (p.32 [1]).

Entender a morte como vocação ajuda-nos a crer em Deus quando ele envia o anjo da morte para recolher os nossos amados e heróis na fé. A necessária educação sobre como morrer de modo cristão assenta-se decerto sobre e é filha desta doutrina da morte como vocação. Precisamos dessa educação para não temer a morte e entender porque não devemos temer a morte, mas enfrentá-la à sombra da vitória eterna do Nazareno sobre ela.

Se entendermos que é uma vocação o sofrimento e sua ápice – a morte – então não teremos medo de completar a missão, ainda que nos exija ir aos abismos mais sombrios da existência. Como diz Sproul, “Quando Deus nos manda a vocação para morrer, ele nos envia numa missão. Realmente entramos numa corrida” (p.21 [1]).

Essa jornada passa necessariamente por dificuldades da vale da sombra da morte, habitação dos perigos e das tribulações da vida cristã, mas também um vale onde podemos ouvir o eco das vozes de vários gigantes da fé – pessoas santas que são nuvens de testemunha a pairar sobre nós na nossa caminhada. Isso nos diz que podemos passar pelo vale, se Davi, se Jó, se Paulo, se Pedro, se José, se Israel, se Jeremias, e se o próprio Jesus passou pelo vale da sombra da morte, eu também posso passar. Não sou habitante do vale, mas passageiro, forasteiro.

Se entendermos o sofrimento como vocação, entenderemos a convicção do Salmo 23 no que à presença perpétua de Deus se refere. Ele diz “tu estás comigo”. Aleluia! Aleluia! Aleluia! A presença de Deus é melhor que tudo, que toda bonança. Com a presença de Deus podemos enfrentar qualquer problema e vale. Na sombra, ela é luz; no deserto, é mapa, guia e bússola, sombra e oásis. Na confusão psicológica suicida, a presença de Deus é a voz e a afirmação do valor da vida. Na depressão, é o grito da alegria se mostrando diante dos olhos do sofredor.

Para Sproul,

A presença de Deus é nosso refúgio e fortaleza nas horas de tribulação. Sua promessa no é apenas de atravessar o vale conosco. Mais importante que isto é sua promessa sobre o que existe do outro lado do vale. O vale da sombra da morte não é um cânion fechado. É aberto. É uma passagem para um país melhor. O vale conduz a vida – vida muito mais abundante do que qualquer que possamos imaginar. O objetivo de nossa vocação é o céu. Mas não há nenhum caminho para o céu senão através do vale” (p.23 [1]).

Irmãos amados, a mocidade é o tempo perfeito para nos prepararmos para morte, para vivermos como quem vai morrer, quero dizer, viver “da maneira digna do Senhor, para o seu inteiro agrado”, gastando as nossas vidas em seu serviço de evangelização e adoração, de misericórdia e louvor, gastando nossas vidas como Timóteo no exemplo do Apóstolo. Sim, porque “A igreja foi chamada a imitar a Cristo. É chamada para trilhar a via dolorosa” (p.30 [1]). A vida confortável nesta cidade e país é somente distração para nosso propósito de vida. Por isso, usemos esses confortos sem que nos usem e mudem de nossos propósitos, usemos tudo para alimentar nossa disposição de gastar nossas vidas em Deus por Cristo, prontos para morrer por/em Jesus, de câncer ou na frente de batalha, como os mártires.

Em última escala, não sabemos o porquê de Deus nos chamar a padecer e nos treinar na “fornalha da aflição”, não sabemos. O irmão Jó buscou esta resposta última, mas o Soberano não respondeu como queria, apresentou-lhe apenas a sua Presença. E Jó achou-a suficiente porque em vez de reclamar, cantou e orou. Louvado seja Deus! Eu me limito a afirmar para mim, seguindo Jesus, que sofremos para a glorificação de Deus em nossas vidas, e, seguindo o salmista, para conhecer a Deus melhor e de verdade, o que envolve também nosso autoconhecimento, como consequência, fruto; creio que sofremos também para o benefício dos outros de alguma forma e da igreja.

O que sei, com certeza, é que o sofrimento não me afastará do Senhor e nunca do Céu; tenho a certeza absoluta que a morte só me transportará para Deus.

A morte é uma escada para o céu. Um caminho, uma barca para o paraíso. Ela não tem poder de nos separar do céu, senão de nos transportar para lá.

Não precisamos temer esse chamamento cruel e belo, santo e doloroso, penoso e divino. Não, não precisamos, porque é bom, perfeito e agradável. E porque une-nos a Deus, no final. Jesus nos chamou a carregar a cruz. Ora, nós conhecemos o roteiro, o caminho da Cruz, é a via dolorosa. E carregá-la quer dizer que nós padeceremos como Jesus, mas quer dizer mais: nós também ressuscitaremos e subiremos ao céu como ele. Eis a esperança. A morte não é o fim, nem é um fim, mas um meio. O fim da igreja é a Glória, o Paraíso.

E eu sei que essas verdades não são penosas e nem danosas para as almas cristãs – que vivem e desejam o céu, que vivem como Colossenses 3 prega: buscando “as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus”, pensando “nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra”, ciente de que “a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3.1-3).

Que Deus nos ajude!


REFERÊNCIA

[1] SPROUL, R. C. Surpreendido pelo Sofrimento. São Paulo: Cultura Cristã. 1998.

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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