O antídoto para o culto anêmico – Albert Mohler

Revisado por Nathália Soares

Cristãos evangélicos têm dado atenção especial ao culto nos últimos anos, provocando um renascimento do pensamento e discussão sobre o que o culto realmente é e como deve ser realizado. Mesmo que esse interesse renovado infelizmente tenha resultado no que podemos chamar de “guerra do culto” em algumas igrejas, parece que o que A. W. Tozer chamou de “joia desaparecida” do culto evangélico está sendo redescoberto.

Contudo, se a maioria dos evangélicos concordasse que o culto é central para a vida da igreja, não haveria dúvida sobre uma questão inevitável: O que é central para o culto cristão? Historicamente, as igrejas mais litúrgicas argumentam que os sacramentos ou ordenanças são o coração do culto cristão. Essas igrejas alegam que os elementos da ceia do SENHOR e a água do batismo demonstram mais poderosamente o evangelho. Entre evangélicos, alguns veem o evangelismo como o coração da adoração e por isso, planejam todas as “facetas” do serviço – músicas, orações, o sermão –, tendo o convite evangelístico em mente.

Embora a maioria dos evangélicos mencione a pregação da Palavra como sendo necessária ou costumeira parte do culto, o prevalecente modelo de culto em igrejas evangélicas é cada vez mais definido pela música, juntamente com inovações como teatro e apresentações de vídeo. Quando a pregação da Palavra é retirada, uma série de inovações divertidas tomam o seu lugar.

Normas tradicionais de culto estão agora subordinadas à demanda por relevância e criatividade. Uma cultura de imagens baseada em mídia substituiu a cultura centrada na Palavra, que deu origem às igrejas reformadas. Em certo sentido, a cultura baseada em imagens do evangelicalismo moderno, abraça muitas práticas rejeitadas pelos reformadores em sua busca pela verdadeira adoração bíblica.

A música ocupa o maior espaço no culto evangélico, e muitas delas vêm sob a forma de coros contemporâneos, marcados por uma escassez de conteúdo teológico. Além da popularidade dos coros como forma musical, muitas igrejas evangélicas parecem intensamente preocupadas em replicar apresentações musicais com qualidade de estúdio.

Em termos de estilo musical, as igrejas mais tradicionais apresentam enormes coros – frequentemente com orquestras – e podem até cantar hinos correspondentes à fé. Muitos profissionais e um exército de voluntários passam a maior parte da semana em ensaios ou sessões de treinamento.

Tudo isto não está aquém da congregação. Alguns cristãos “compram” igrejas que oferecem um estilo de culto e a experiência que atendem a suas expectativas. Aqueles insatisfeitos com o que encontram numa igreja, podem procurar outras, algumas vezes usando a “sensação de liberdade” [1] para explicar que a nova igreja “atende a nossas necessidades” ou “nos permite adorar”.

Uma preocupação com o culto verdadeiramente bíblico foi o coração da Reforma. Mas Martinho Lutero, que escreveu hinos e exigiu que os pregadores fossem treinados na música, não reconhecia essa moderna preocupação com a música acima de tudo como legítima ou saudável. Por quê? Porque os reformadores estavam convencidos de que o coração do verdadeiro culto bíblico é a pregação da Palavra de Deus.

Graças a Deus, o evangelismo ocorre no culto cristão. Confrontados pela apresentação do evangelho de Cristo e pela pregação da Palavra, pecadores são atraídos para Cristo pela fé, e a oferta da salvação é dirigida para todos. Da mesma forma, a ceia do SENHOR e o batismo são honrados como ordenanças do próprio Deus, e cada um encontra seu lugar no culto. Mas a música não é o ato central do culto cristão, e tampouco o evangelismo ou as ordenanças [2]. O coração do culto cristão é a autêntica pregação da Palavra de Deus.

A pregação expositiva é central, irredutível e inegociável para a missão bíblica de um autêntico culto que agrada a Deus.

A centralidade da pregação é o tema dos dois testamentos da Escritura. Em Neemias 8, nós encontramos pessoas que exigem que Esdras, o escriba, exponha o Livro da Lei para a assembleia. Curiosamente, o texto mostra que Esdras e os que o assistiam “leram no livro, na lei de Deus; e declarando, e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse.” (Ne 8.8). Este notável texto é o retrato da pregação expositiva. Um texto é lido e cuidadosamente explicado para a congregação. Esdras não realizou um evento ou orquestrou um espetáculo, ele simples e cuidadosamente proclamou a Palavra de Deus.

Este texto é uma sóbria acusação contra grande parte do cristianismo contemporâneo. De acordo com o texto, uma procura por pregações bíblicas explodiu no coração das pessoas. Eles se reuniram como congregação e convocaram o pregador. Isso é o reflexo de uma intensa fome e sede pela pregação da Palavra de Deus. Onde esse desejo é evidente entre os evangélicos de hoje?

Em muitas igrejas, a Bíblia está quase em silêncio. A leitura pública das Escrituras foi retirada de muitos cultos e o sermão foi posto de lado, reduzido a um breve devocional anexado à música. Muitos pregadores aceitaram isso como uma concessão necessária numa era de entretenimento. Alguns esperam colocar uma breve mensagem de encorajamento ou exortação antes da conclusão do culto.

A anemia do culto evangélico – toda a música e energia – pode ser diretamente atribuída à ausência de uma pregação expositiva legítima. Tal pregação deve confrontar a congregação com nada menos do que a viva e ativa Palavra de Deus. Esse confronto moldará a igreja enquanto o Espírito Santo orienta a pregação, abre os olhos e aplica a Palavra nos corações dos homens.


NOTAS

[1] O termo usado em inglês é “self-expression”, porém traduzimos assim com vistas a uma melhor compreensão tendo em vista nosso contexto.

[2] Nossa perspectiva compreende que as ordenanças (Ceia do Senhor e Batismo) fazem parte do culto. Quando traduzimos este artigo, compreendemos que nesta fala o autor está se referindo à centralidade do culto, que de fato é a pregação da Palavra do SENHOR. Logo, não é uma questão de menosprezo às ordenanças ou sacramentos, apenas de apresentação do lugar da pregação fiel das Escrituras no culto.

22 anos, cristão, escritor, blogueiro. Estudante de teologia. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, Recife – Pernambuco.

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