Ordinariamente cósmico

Revisado por: Vanessa Lima

Dirigido por David L Cunningham, Os seis signos da luz certamente foi um filme que me deixou impressionado quando criança. Para os que não conhecem: trata-se de história de Will Santon, um sétimo filho de um sétimo filho, que acorda na manhã do seu aniversário e acaba por descobrir que a cidade (e o mundo, de um modo geral) em que mora está prestes a ser palco de uma batalha cósmica. Resumindo: alguns dos habitantes da cidade, conhecidos por ele, integram um conselho de anciões que é encarregado de lutar contra as forças das trevas, que estão se expandindo. Para o triunfo na grande batalha que se aproxima, Will – o mais novo escolhido membro do conselho de anciãos – deve achar os seis signos da luz. Bom, tudo isso para explicar a razão do meu espanto: o filme traz uma forte noção dualista e absoluta: um bem a ser defendido, um lado certo de se estar, desejável, harmonioso e comunitário, e um mal a ser enfrentado: as trevas que na maior parte do tempo é tão cósmica e catastrófica que fica difícil concebê-la mentalmente, mas que encarna em um simples médico, fiel da igreja local e filho dedicado, mais pra frente revelado como o cavaleiro que lidera a destruição que é planejada. O filme é cósmico e ao mesmo tempo tão tangível. Extraordinário, mas totalmente ordinário. De fato, impressionou-me. É de causar certa agonia a quem assiste a percepção do crescimento desse mal, que invade as vidas tranquilas com visíveis sombras (como esquecer o médico bobão cavalgando e espalhando as sombras no ambiente?!). A questão, ao fim, é: a luta é entre o bem e o mal. Não há meio termo. Não há anciãos maus. Eles representam o bem, e empenham para defende-lo. Igualmente, o cavaleiro e suas hostes não demonstram nenhum sinal de altruísmo. Eles são totalmente maus. Eles querem destruir. Eles não só devem ser evitados – até porque a guerra é real e o descanso implica em derrota – mas também resistidos e derrotados.

Os Reinos e o combate

            As Escrituras não deixam dúvidas quanto à existência de uma oposição e tensão cósmica entre dois lados completamente diferentes. Somos apresentados ao lado que devemos fazer parte – o Reino de Cristo, que, como revelado a Daniel,  jamais será destruído, não passará a outro povo, consumirá os outros reinos e subsistirá para sempre (Dn 2.44). O povo de Deus – os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus (Ap 14.12) – é inaugurado no sexto dia da criação do universo de Deus, sendo chamado de “a descendência da mulher”, que é posta em inimizade com a descendência da serpente pelo próprio Deus (Gn 3.15). Esse povo é numeroso como as estrelas do céu (Gn 15:5), incontável como os grãos de areia da praia (Jr 33.22) e majestosamente descrito como uma “grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7.9). Ele é comandado pelo Senhor dos Exércitos – que, como o nome já diz, é o comandante de legiões numerosas de guerreiros – , responsável por trazer terror às nações ímpias (Sl 9.20) e juízo aos impenitentes (Hb 10.26). Os rumores dos seus feitos grandiosos se espalham pela terra, e os seus adversários tremem diante dele. O Deus Eterno humilhou o império das trevas criando para si um povo que antes era cativo de Satanás. Ao contrário dos ídolos, ele não é sedento por sangue ou faminto de carne de touros, como descrito no Salmo 50. Ao contrário das divindades pagãs, seu prazer não está em consumir, mas em preencher – de fato, amou tanto o seu Filho, que tal amor transbordou, de modo que hoje os integrantes do seu povo são amados pelo Comandante com o amor transbordante que Ele tem pelo Filho[1]. O demônio Fitafuso não mente quando confessa que quer sugar os seres humanos, por ser vazio, mas que Deus é completo e transborda, desejando preencher os homens e povoar a Terra com pequenas cópias de si mesmo[2]. Essa é a razão pela qual entrar para esse lado vitorioso da batalha é muito mais do que tornar-se adepto de uma nova religião, ou associar-se fielmente a um clube. O amor de Deus é grande e transbordante, e é da sua natureza o anseio de criar, e criar e recriar tudo de novo. Assim, estar neste lugar é unir-se misticamente à própria Divindade. Isso é fantástico. Se Deus ama a vida, seu prazer está em doar a vida aos desertores do lado inimigo, que de ofensores passam a ser coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4). A nova criação de Deus está se erguendo. A vida após a morte já começou.

As Escrituras nos apresentam ao lado rebelde. Este lado já inicia suas atividades no mundo criado com uma sentença de derrota (Gn 3.15). Os que estão unidos a ele são pastoreados pela morte (Sl 49.14), rebeldes contra o Deus que se revela (Rm 1.19), inimigos de Deus (Rm 5.10), abominados e aborrecidos pelo Criador (Sal 5.5-6) e escravos (Rm 6.6). A verdade é que eles são odiados por Deus, e assim devem ser, pois se rebelam contra tudo que é bom, amam a morte a injustiça – opõem-se diretamente a Deus.  Se são rebeldes e não foram redimidos, a Palavra é clara ao categoriza-los como filhos da ira (Ef 2.3). A ira do Ungido é certa sobre eles (Sl 2). Quem os lidera rumo ao abismo? Certamente é a “antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo” (Ap 12.9). Esse ser celestial os mantém cativos e livres – sim, livres, e usarão sua liberdade para escolher sempre o mal, pois assim são. Ele, como a Feiticeira Branca, é capaz de “transformar as pessoas em pedra, e fazer mil coisas horríveis”.[3]  Ele é homicida desde o começo e persegue a descendência da mulher como leão pronto para devorar. Os que se filiam a ele são escravizados, esvaziados cada vez mais da Imago Dei e, assim, vão acumulando ira para o dia do juízo. Controlados por Satanás e a multidão de seus anjos, apenas encontram esperança no Comandante do outro lado que ama os que se arriscam a desertar.

Um combate imensurável e absolutamente mortal, cujas táticas e estratégias são curiosamente ordinárias. Em Os Seis Signos da Luz, o grande e temido cavaleiro das trevas manifesta-se nesse mundo como um médico frágil e dócil, membro da igreja local. Na história da Redenção, um dos ataques mais desesperadores do lado inimigo à descendência da mulher deu-se com a loucura da mãe de um rei ambicioso (relacione 2Reis 11 e Apocalipse 12:1-6!), e séculos de repetição da mesma promessa de Deus ao seu povo culminaram na simples assinatura de um decreto real. Que isso nos mostre que quando o cósmico encontra o ordinário, as coisas ganham uma majestade ainda maior e a guerra se torna cada vez mais perigosa, pois sabemos da facilidade que temos em desprezar o ordinário e negligenciar a diligência na carreira que nos está proposta. Dormir, então, torna-se ainda mais fácil. Não percebemos que dentro de uma sala de aula infantil encontra-se uma das maiores frentes de batalha do nosso tempo. Também nos esquecemos que uma das maiores frentes de batalha do nosso lado acontece da forma mais simples e inusitada possível – a ceia do Senhor, o sentar para comer pão e beber vinho -, por exemplo, como traz James K.A Smith: “com grande frequência buscamos o Espírito no extraordinário, enquanto Deus nos prometeu estar no ordinário. […] Insistimos em buscar a Deus nas novidades, como se a graça estivesse sempre relacionada à ‘próxima melhor coisa’, porém Jesus nos encorajou a buscar a Deus em uma refeição simples e comum.”[4]

A batalha é perdida pelos que desprezam o ordinário e vivem em busca de manifestações extraordinárias. Sinto lhe dizer, mas a chance de Satanás se apresentar na sua frente um dia e dar uma risada maléfica para te assustar é muito pequena. Teremos que ouvir o discurso, olhar atentamente ao redor e crer que ele ri. Como dizem – ri de nervoso – pois ao contrário dos que dormem, ele tem a consciência plena que o Livro diz a verdade: seus dias estão contados. Teremos que nos apegar ao ordinário para receber a graça que é comunicada aos combatentes: a Refeição, o discurso, o Livro, as súplicas e a união com os que dividem as trincheiras conosco.  Este último talvez um dos mais poderosos meios de graça.

            Sola Ecclesia

            Sola Ecclesia. É possível dizer que trata-se do “sexto sola” da reforma, criado pelos reformadores, muitas vezes esquecido, mas ressuscitado pelo digníssimo reverendo Joseph Pipa, reitor do Greenville Presbyterian Seminary. Para mim, um dos solas mais marcantes. Sem dúvida um dos mais tangíveis.[5] Pego as anotações que fiz neste sermão, que ele pregou na minha igreja, baseando-se no Salmo 87, e resumo sua tese: A igreja de Cristo é a instituição divina para a aplicação da redenção. Ela é o fundamento do Reino (versos 1-3); ela é a mãe dos eleitos (versos 4-6); ela é que nutre os filhos de Deus (verso 7). É através da igreja que Deus avançará com seu Reino na terra. Ela não é a Verdade, mas é o baluarte da verdade. A ela foi confiada a verdade, sendo, portanto, a embaixada de Cristo na terra.

Isso tem implicações extraordinárias. Gostaria de me ater a duas: a importância que damos à igreja de Cristo e o amor que nutrimos por ela.

Os ressuscitados de Romanos 6 e Efésios 2 não ficam em casa. Deus ordenou que eles congreguem, para adorá-lo e para triunfar na luta que recomeça com toda a força na segunda-feira. Qualquer exército que permanece desunido, inevitavelmente cai. Juntar-se à igreja é um dever de todo filho de Deus. Ela nos nutrirá com o genuíno leite espiritual, através da própria voz de Deus que só lá se faz ouvir de modo explícito e inconfundível, na pregação da Palavra (Vox Dei). Nela fazemos amizades profundas, vemos a sabedoria e o testemunho da Verdade e somos revigorados espiritualmente. Em seu seio somos firmados na verdade e fortalecidos para o combate. Que estupidez negligenciar tamanha importância e graça.

Se sabemos disso – que a igreja foi escolhida por Deus para avançar com o seu Reino – por que somos tão fracos na plantação de igrejas? Por que insistimos em fazer reformas suntuosas e eventos caríssimos, enquanto sabemos que existem localidades do nosso próprio estado que não possuem sequer uma igreja bíblica? Por que apoiamos organizações missionárias (que claro, têm a sua importância!), mas não olhamos para a igreja como sendo aquela que Deus escolheu para enviar os missionários?

Quanto ao amor que deve ser nutrido por ela, vale dizer que ele é espontâneo.  Se estamos sendo recriados à imagem de Deus –  e o Deus Trino não é um Deus solitário, mas que nutre a comunhão desde a eternidade – , logo, não fomos feitos para ficarmos sós. A intensa comunhão, os “entranháveis afetos”, são um desejo no coração dos que ressuscitaram para a nova criação. Deus ama a comunhão e habita no meio da comunhão cristã. Devemos amar a igreja – com suas imperfeições, erros, mágoas – pois Deus a ama intensamente. Com suas imperfeições e falhas, será usada pelo Espírito Santo para concluir o trabalho nesse mundo.

Neste sentido, devemos pensar: amamos verdadeiramente os nossos irmãos? Somos hospitaleiros? Nos deleitamos na comunhão e na adoração? Conseguimos enxergar a recriação de Deus naquele pequeno espaço da igreja local?

Sábia é a afirmação de Calvino: “Sabemos que Deus poderia levar os seus à perfeição num só momento; no entanto, Ele quer fazê-los crescer pouco a pouco, sob os cuidados da igreja.”[6] Os que dormem e permanecem isolados perderão o combate. Na verdade, é coerente perguntar se eles sequer desejam lutar.

 

 Uma nota final: o espírito e o Espírito

            Lewis não estava errado quando disse que Deus nos chama para uma grande operação de sabotagem. Quando Jesus nos envia, em Mateus 28, ele diz basicamente isso: “Sabe esse mundo mau, eu vou usar vocês para derrubá-lo com a minha luz. Ele já começou a ruir. Sejam meus infiltrados, para derrota-lo por dentro”. Para mim, sabotagem é um termo excelente. O combate é real. Sentimos ele no ônibus, na faculdade, no trabalho, em casa, quando estamos sós. Não há neutralidade. Já disse o Senhor Jesus: “Quem não está comigo, está contra mim” (Mt 12.30). A mesma frente de batalha que nos choca com atrocidades que vemos na televisão – como a da estudante indiana Jyoti, criação do Deus vivo, estuprada por um grupo de homens em um ônibus, no caminho de volta para casa, e depois jogada para fora do veículo na madrugada de Nova Déli – é o que nos oferece aquela mentira para escaparmos de uma situação embaraçosa. O espírito que agora atua nos filhos da desobediência. Em todos os filhos da desobediência. Já o Espirito que diariamente nos guia, trazendo-nos a memória as palavras do nosso Senhor e nos concedendo as pequenas vitórias diárias – cuja vibrante comemoração só faz sentido para aquele que realmente já experimentou a força da avassaladora influência do pecado – é o mesmo que levou Wesley a rodar a Inglaterra a cavalo para pregar o Evangelho, que fez John Huss morrer queimado louvando ao Cristo que o salvou e que fez Jó suportar as aflições. São dois lados. Assim como no filme Os Seis Signos da Luz, uma visão adequada mostrará que não existe neutralidade – existe os maus e os bons. E existe também a necessidade de enxergar e combater.

Que Deus nos dê visão. Que nossos olhos cegos pela incredulidade possam ver a graça que ele nos concede em seus meios de graça. Que possamos amar profundamente e verdadeiramente a igreja de Cristo, que busquemos o seu bem e que nunca esqueçamos de que lado devemos estar.


[1] Deleitando-se na trindade. Michael Reeves, editora Monergismo.

[2] Cartas de um diabo a seu aprendiz. C. S. Lewis, Martins Fontes

[3] Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa. C. S. Lewis, Martins Fontes

[4] Você é aquilo que ama. James K.A Smith, Vida Nova.

[5] Assista a pregação aqui: https://www.youtube.com/watch?v=7lKwiKO3Q_E

[6] Institutas. tomo 2. p. 465

21 anos, estudante de Direito na UFPE e membro da Igreja Presbiteriana da Aliança.

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