Como podemos glorificar a Deus?

 

Revisado por: Vanessa Lima

Quando nós começamos a ler as confissões de fé e catecismos reformados, inevitavelmente nos deparamos com a primeira pergunta do Breve Catecismo de Westminster: “Qual o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Pela quantidade de vezes que a ouvimos é muito difícil não decorá-la, inclusive. Devemos ter cuidado, no entanto, para não transformarmos esse conhecimento em uma espécie de mantra que repetimos supersticiosamente e não sabemos seu real significado. Então, o que significa glorificar a Deus? E como podemos gozá-lo para sempre? Hoje, com a graça de Deus, enfrentaremos a primeira dessas questões.

A palavra glorificar pode ser usada para significar “tornar algo ou alguém glorioso ou declarar que algo ou alguém é glorioso” [1]. A Bíblia nos ensina que a glória de Deus representa a suma de todos seus atributos[2], de maneira que todos os atributos de Deus juntos (como por exemplo, sua sabedoria, justiça, bondade e verdade) espelham o “Deus da glória” (At 7.2). A glória de Deus representa “o cintilar de sua Divindade” [3]. Em outras palavras, nós não podemos tornar Deus mais glorioso do que Ele já é. Mas, nós podemos – e devemos – declarar que Deus é glorioso. E, ao declararmos sua glória, nós estamos O glorificando.

Notemos que o ato de glorificar a Deus é um “poder-dever” (um mandamento) direcionado a toda criação, especialmente aos seres humanos. O salmista afirma que os céus declaram a glória de Deus; e o firmamento anuncia a obra de suas mãos (Sl 19.1). Ou seja, todas as coisas criadas – os céus, a terra, os animais e os seres humanos – servem como “espelhos”, os quais refletem a glória do Criador[4]. Ora, por terem sido criados segundo a imagem e semelhança de Deus, os seres humanos – mais do que as demais criaturas – são chamados a “espelhar” a glória de Deus de uma maneira especial em suas vidas.

Nesse ponto, faz-se necessário destacar que nosso dever de glorificar a Deus deve ser direcionado a todas as pessoas da Trindade. Assim, devemos glorificar Deus Pai, que nos deu a vida; glorificar Deus Filho, que deu sua vida por nós; glorificar Deus Espírito Santo, que produz nova vida em nós. [5] Contudo, nós contemplamos a glória de Deus na pessoa de Jesus Cristo (2 Co 3.18; 4.6), não apenas nessa vida mas também na vindoura. Em Cristo, nós podemos não apenas glorificar o Pai, como também ver sua glória. De fato, Jesus Cristo precisa ser glorificado por aqueles por quem ele morreu. Sobre o assunto, Mark Jones escreve que:

Como a frase cunhada por John Piper: ‘Deus é mais glorificado em nós quando nós estamos mais satisfeitos nEle’. Eu gostaria de adicionar (por meio de complemento) que ‘Deus é mais satisfeito nEle mesmo quando Cristo é mais glorificado em nós’. Em outras palavras, de acordo com o propósito de Deus para Seu Filho, o mundo e seu povo, Deus é ‘mais satisfeito’ quando nós, como seus filhos, damos toda a glória ao Filho.[6]

Salienta-se, ainda, que nós espelhamos e declaramos a glória de Deus por meio de nossa apreciação, adoração, afeição e sujeição a Ele.[7] E todos esses atos devem ser executados de todo coração, lábio e vida. Isso significa que ao apreciarmos e adorarmos a Deus, devemos fazê-lo de todo coração (o que envolve nossas vontades e afeições), com nosso lábio expressando nosso deleite e admiração, sujeitando toda nossa vida a Ele.

Um bom livro da Bíblia para começarmos a aprender e exercitar nossa apreciação a Deus é o livro dos Salmos. Nele, encontramos incontáveis vezes o salmista expressando sua admiração por Deus e por seus atributos (como seu poder, glória, sabedoria, justiça, bondade e verdade). Ao lermos salmos como “Mas tu, Senhor, é Altíssimo para sempre” (Sl 92.8) ou “Pois tu, Senhor, és o mais alto sobre toda a terra; tu és muito mais exaltado do que todos os deuses” (Sl 97.9), nós percebemos que o salmista se deleitava em admirar a Deus com seu coração, lábio, sujeitando-lhe toda sua vida. Quantas vezes o Salmista não sente conforto durante as tribulações da vida após parar para apreciar a beleza, as obras e os demais atributos de Deus? Inúmeras! Você tem o costume de apreciar Deus no seu dia a dia? Como? Só por pensamentos ou o deleite é tão grande que envolve seu coração, flui para seus lábios e transborda para sua vida?

Glorificar a Deus também envolve adorá-lo e cultuá-lo. Nas palavras do salmista cultuar ao Senhor significa dar a Ele a glória devida ao seu nome, adorá-lo na beleza de sua santidade (Sl 29.2). A adoração ou o culto a Deus é nossa tarefa principal como cristãos e deve envolver todo nosso coração, lábio e vida. Alguns acham erroneamente que o objetivo principal das igrejas e do cristão é o evangelismo e missões, pois o Senhor Jesus nos mandou fazer discípulos na grande comissão em Mateus 28.19-20. É claro que o evangelismo é importante, mas não é – e nem deve ser – o centro das atenções da igreja ou do cristão. Nosso objetivo principal é adorar e cultuar a Deus, uma vez que chegará um dia, quando Jesus Cristo retornar, em que nós não mais evangelizaremos e faremos discípulos, mas nunca chegará um dia em que não daremos toda a glória devida ao nome do Senhor, na beleza de sua santidade. Nesse ponto, faz-se importante destacar duas coisas: o culto a Deus deve ser feito da maneira que Ele prescreve em sua Palavra e devemos observar o Dia do Senhor. Esse assunto é tão importante que é tratado exaustivamente por toda a Bíblia.

No Antigo Testamento, por exemplo, após a idolatria, não prestar o culto da maneira prescrita pelo Senhor no Dia por Ele apontado é o segundo tema mais tratado pelos profetas[8]. Diante disso, como você tem adorado e cultuado ao Senhor? Do seu próprio jeito, nos dias que lhe aprouver, ou como o Senhor prescreve, no Dia por Ele apontado? Você tem ido à igreja no Dia do Senhor com o coração, lábio e vida separados e preparados para cultuá-lo ou você tem ido sem qualquer preparação?

Nós glorificamos a Deus quando o apreciamos e o adoramos com afeição. Deus é glorificado quando é amado “de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” (Dt 6.5) [9]. Isso significa que devemos apreciar e adorar a Deus com nossas vontades e afeições amando-o, alegrando-nos e nos deleitando nEle acima de qualquer outra coisa[10]. Isso acontece quando nosso coração, lábio e vida estão direcionados a Deus e tem nEle seu maior tesouro. Esse amor que nós damos a Deus deve ser superlativo, intenso e ardente[11]. Você tem amado a Deus de todo o teu coração, e de toda a sua alma, e de todas as tuas forças? Ele é seu maior tesouro?

A apreciação e a adoração a Deus devem ser feita com afeição e com sujeição. Sujeitar-nos a Deus é quando nós obedecemos a sua Palavra e O servimos diligentemente. Ora, uma vida de obediência e santidade é pré-requisito para a adoração a Deus. É como nós espelhamos a glória do Senhor como luzes brilhantes para o mundo cego em que vivemos. O pecado, ao contrário, escurece a glória de Deus refletida em nós[12]. Nós também nos sujeitamos a Deus quando nos dedicamos ao seu serviço, nosso coração bate por Ele, nossos lábios anseiam falar dEle e nossas vidas são testemunhas vivas do poder transformador do Espírito Santo. Como nos ensina Thomas Watson: “nós não devemos apenas dobrar nossos joelhos e cultuar a Deus, mas trazer [a Ele] presentes de obediência preciosa” [13]. Você tem sujeitado toda sua vida a Deus? Você tem obedecido a Sua Palavra? Você tem servido a Deus diligentemente em sua igreja local? E em sua família, escola ou faculdade?

Que nossas vidas possam espelhar e declarar a glória de Deus por meio de nossa apreciação, adoração, afeição e sujeição diárias. Para que, “no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” (1 Pe 4.2), de maneira que “quer comamos quer bebamos, ou façamos outra qualquer coisa, fazemos tudo para glória de Deus” (1 Co 10.31).


REFERÊNCIAS

[1] Boston, Thomas. The Complete Work of Thomas Boston (Volume 1-12) (Kindle Locations 96-97). E4 Group. Kindle Edition.

[2] Jones, Mark. God Is: A Devotional Guide to the Attributes of God (p. 103-104). Crossway. Kindle Edition.

[3] Watson, Thomas. A Body of Divinity (Kindle Location 280). Kindle Edition.

[4] Williamson, G. I. The Westminster Shorter Catechism for Study Classes (Kindle Locations 36-37). Kindle Edition.

[5] Watson, A Body, 275-278.

[6] Jones, God Is, 106.

[7] Essa divisão é usada por Thomas Watson, contudo nós não a seguiremos inteiramente. A ela incorporaremos alguns elementos do comentário de Thomas Boston sobre essa pergunta do Catecismo. Para mais informações conferir as obras acima citadas.

[8] A necessidade de manter o Dia do Senhor na nova criação é o tema principal dos capítulos 56-66 do livro do profeta Isaías. Leia-os em oração e com um bom comentário do lado e você verá como esse tema é essencial para o cristão.

[9] Watson, A Body, 308-309.

[10] Boston, The Complete Work, 109-110.

[11] Watson, A Body, 315.

[12] Boston, The Complete Work,  109-110.

[13] Watson, A Body,  319.

Cristão, reformado, presbiteriano, diácono da Igreja Presbiteriana do Brasil, casado com Daniele Leite, advogado, atualmente cursando o Master of Divinity no Greenville Presbyterian Theological Seminary. É também membro da Igreja Presbiteriana Memorial em Salvador – BA e da Fellowship Presbyterian Church (PCA) em Greer, South Carolina, onde atua como seminarista.

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