A memorização dos Salmos: sua importância e modo – parte I

Revisado por: Laísa Caroline

É com imensurável satisfação que estreio na página do Jovem Reformado falando daquilo que tem enchido o meu coração de alegria em Deus. A memorização dos Salmos tem sido incomparavelmente mais do que um mero procedimento mecânico de aquisição de conhecimento. Na verdade, vem sendo para mim um processo orgânico e vívido de fascinação e deleite na palavra de Deus e no Deus da palavra, à medida em que a memorizo, amando-a, e a amo, memorizando-a. Encontrar-me nesse processo equivale a, sob a graça de Deus, estar revigorado copiosamente na caminhada de comunhão e obediência ao Santo de Israel, bem como a crescer em contentamento e consolação nos mais diversos ensejos sob a Providência. A riqueza e a sublimidade da memorização do Saltério estão indissoluvelmente jungidas à riqueza e sublimidade do Saltério da memorização.

O escopo, portanto, destes breves textos que, se assim o SENHOR quiser, virão à baila, consiste em trazer à consciência dos irmãos a bênção de possuir a revelação verbal e escrita de Deus em memória (atenho-me por ora aos Salmos), no desejo principal de que, sob a misteriosa e eficaz operação do Espírito Santo, a palavra de Deus habite ricamente em nossos corações, a fim de prosseguirmos em santificação, louvores e regozijo em Deus.
Entretanto, dada a vastidão do Cânon Bíblico, gostaria de me ater ao Saltério, e assim fazê-lo pressupondo objetivamente a sua relevância, pois, caso me concentrasse em explicar a importância especial dos Salmos em si e em relação ao Cânon como um todo, fugiria ao tema pretendido, o qual consiste na importância e no modo de sua decoração. Não obstante, sirvo-me de trazer à baila, sumária e topicamente, algumas das qualidades e peculiaridades que justificam a razão da ênfase no Saltério: especialmente, em virtude de sua praticidade; por ser o Livro dos Cânticos e de Oração do povo da aliança em sua devoção e culto a Deus; por condensar de modo peculiar os aspectos da Criação-Queda-Redenção-Consumação e por seu caráter poético. Endossando tais qualidades, Lutero define o Saltério como “Uma mini-Bíblia e sumário do Velho testamento”; Melanchthon expressa que é “A mais elegante obra existente no mundo”; Calvino o conceitua como “Uma Anatomia de todas as partes da alma”; Basílio de Cesareia o chama de “Um compêndio de toda a teologia”; por fim, Atanásio o denomina como “Uma epítome de todas as Escrituras”.

Pelo fato de me prestar a fazer um recorte com ênfase objetiva e especial no Livro dos Louvores, é válido salientar, todavia, que no decorrer da argumentação sobre a importância e o modo de memorização do Saltério, o que lhe é aplicado, também é válido no concernente à Escritura como um todo, salvo naquilo em que fica evidente a particularidade do Saltério em termos de aplicabilidade do argumento.

Valho-me, pois, a fim de fundamentar a validade e importância de tal prática, de uma argumentação que toma por base a Escritura Sagrada e como essa fomentou aquela na história milenar do povo de Deus, evidenciando que isso não é algo novo debaixo do sol, bem como reafirmá-la como parte de nossa herança cristã em todos os tempos, havendo, então, a necessidade de pleitearmos por isso na geração hodierna, seguindo o próprio Servo Sofredor em seu exemplo Divino-Humano.
Após discorrer acerca da plausibilidade da memorização, concentrar-me-ei em explanar quanto à maneira pela qual tenho desenvolvido a memorização dos Salmos quotidianamente.

Argumentos acerca da importância da memorização do saltério

O ponto de partida para avaliarmos a importância da memorização tem de ser a Escritura. A experiência pode demonstrar a plausibilidade disso, mas ela não pode ser a base de nossa fé e prática. O lugar da experiência floresce no esteio da Escritura. É porque a Escritura é verdadeira que a experiência, sob essa premissa básica, é verdadeira, não o contrário. Destarte, é imprescindível começar por Deus e sua revelação verbal e escrita.
Pois bem, há algo na Escritura que fundamente a sua memorização?

É digno de nota que o fundamento para a memorização encontrado no Livro de Deus não se restringe ao Saltério, mas, tomando em um sentido amplo, alcança todos os livros da Bíblia e, por conseguinte, os Salmos.
O primeiro texto do qual me sirvo para fomentar a memorização da Escritura, dentre outros que, porventura, servissem para esse mesmo fim, é o que se encontra em Dt. 6.1-9. Assim, pois, está escrito:

Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir; para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o SENHOR, Deus de teus pais. Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas.

O texto supracitado se desenvolve no segundo discurso de Moisés e tem como dois antecedentes narrativos que se encontram no 5º capítulo a recordação da santa convocação do povo de Israel para ouvirem as palavras do SENHOR e a manifestação do SENHOR no Monte Sinai, falando as palavras do Decálogo, bem como a reação aterrorizada do povo ao ouvir a sua voz, em face do que Moisés é colocado como mediador entre o SENHOR e o povo, a fim de que esse não morresse ao ouvir a palavra de Deus. No capítulo 6, portanto, Moisés, movido por Deus, após trazer à memória da comunidade o ocorrido no Sinai, passa a recordá-los do dever que eles tinham de guardar a lei do SENHOR e transmiti-la aos seus descendentes e a fim de que eles entrassem na terra e lá fossem bem-sucedidos de um modo que a lei e a promessa andavam juntas para a prosperidade da raça eleita, do povo de propriedade exclusiva do SENHOR. A resposta que caberia ao povo da aliança frente à gama dos poderosos feitos de Jeová, de suas preciosas promessas e do que Ele lhes tinha prescrito, era uma resposta de amor e obediência exclusiva e completa, a qual se evidenciava, dentre outros aspectos enunciados no texto, no fato do povo da aliança inculcar as palavras e os mandamentos que o SENHOR lhes havia ordenado e delas falar em todo o tempo e ocasião. O termo inculcar aqui não é colocado de um modo que os pais poderiam ou não fazê-lo, se assim o quisessem, mas era antes um mandamento, uma ordem, um imperativo sob o qual submissamente, em amor e fidelidade ao Deus da aliança, tinham de observar e praticar.

Conforme explica o Rev. Paulo Brasil, de acordo com o texto original, esse verbo tem como significado (a) recitar, (b) repetir os mandamentos e (c) imprimir uma ação que estimule a memória. Destarte, o SENHOR ordena que a sua revelação seja repetida, recitada e incutida de um modo que a memória dos filhos da aliança ande de mãos dadas com o Seu discurso redentivo, para a Sua glória e a prosperidade de Israel.

Em virtude disso, visto que é um mandamento de Deus para o seu povo que os pais inculquem as sagradas palavras aos seus filhos, por qual motivo estulto pensaríamos que a revelação bíblica não deveria estar inculcada neles mesmos? Consequentemente, todo o membro da aliança deve perseguir um modo de vida que se adeque à vontade revelada de Deus e, portanto, inculcar a si mesmo essa preciosa revelação familiar e pactual.

O segundo texto sagrado do qual me sirvo para atestar a plausibilidade da memorização das Escrituras em geral, a partir da qual, especificamente, enfatizo o Saltério, se encontra em 2Tm. 3.14-17. Assim pois, está escrito:

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

No texto mencionado supra, o Apóstolo Paulo exorta Timóteo a, diferentemente dos falsos mestres e a despeito das perseguições, própria dos últimos dias, permanecer na doutrina apostólica em unidade com o Antigo Testamento. Em relação a isso, o Apóstolo louva o jovem pastor pelo fato de, desde a tenra idade, saber as sagradas letras.
Em unidade com texto veterotestamentário abordado anteriormente, Timóteo quando criança, foi educado religiosamente para saber as Escrituras. É importante ressaltar que Timóteo era filho de uma judia, Eunice e neto de Loide, as quais abraçaram a fé cristã (At. 16.1; 2Tm. 1.5). E, conquanto não haja uma data específica para delimitar bem a data da conversão delas, fica pressuposta a razão pela qual o jovem pastor desde sua meninice aprendeu as sagradas letras, a qual consiste no dever pactual de inculcar a revelação bíblica aos filhos.

Diante disso, o ponto em questão é: se Timóteo, o jovem pastor, é exortado pelo Apóstolo Paulo para ser o padrão dos fiéis na palavra (1Tm.4.12), e, na passagem em destaque, ele é louvado pelo Apóstolo, (e, por inferência, por Deus no Apóstolo), não devemos nós, os fiéis, observarmos e perseguirmos esse mesmo louvor, seja como leigos, para nos conformarmos a esse padrão, a esse modelo, ou, como oficiais do rebanho de Deus, como o próprio modelo para as ovelhas observarem e a ele se conformarem? Logo, à semelhança do jovem pastor, devemos aprender as sagradas letras, a fim de nos conformarmos ao seu bom e louvado exemplo.

O terceiro ponto de argumentação à luz da Bíblia quanto à plausibilidade de sua decoração, com uma ênfase própria no Livro dos Louvores, se encontra em Ef. 5.18-21 (especialmente o v. 19) e Cl. 3.16. Respectivamente, assim nos diz a Palavra:

E não vos embriagueis com o vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito,
falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.
Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão em vosso coração.

À luz desses textos torna-se preclaro o desejo do Apóstolo Paulo de que a Igreja fosse cheia do Espírito Santo e permeada pela Palavra. Tanto em uma passagem como em outra, salmodiar a Deus é parte integrante para a consecução do fim exortado pelo Apóstolo. Por mais que não haja nada estritamente falando acerca da memorização do Saltério nos textos mencionados acima, e, por isso, poderíamos inferir que, para fazer o que é ordenado, não seria imprescindível a sua memorização, não obstante, ela é como um meio para viabilizar e promover ainda mais tal prática. A sua relação, portanto, não é de imprescindibilidade, mas de instrumentalidade.

Logo, se a decoração do Saltério se torna em mais um instrumento que temos para salmodiar constantemente a Deus e, conseguintemente, fazermos algo que está intimamente ligado a ser cheio do Espírito da Palavra e da Palavra do Espírito, por que razão ignoraríamos tão portentoso recurso para o nosso crescimento em nossa comunhão com Deus e com o seu povo? Negligenciar os meios significa negligenciar os fins.

No tocante à história do povo de Deus, Dietrich Bonhoeffer (2010, p. 19) discorre que a jovem igreja neotestamentária no florescer dos seus primeiros séculos era marcada pela influência do Saltério em sua espiritualidade. Não era coisa inusitada na igreja antiga saber ao menos todos os salmos davídicos de cor. Quanto às igrejas orientais, tal ciência era conditio sine qua non para alguém ser ordenado em qualquer ofício eclesiástico. Jerônimo de Estridão, um dos pais da igreja, relata que, em sua época, era costumeiro ouvir o Saltério nos quintais e nas lavouras. Agostinho, em suas célebres Confissões, faz cerca de 500 citações dos Salmos, os quais os tinha em memória. Discorrendo sobre o período monástico, Mark A. Noll (2000, p. 96) afirma que nos antigos documentos os quais fazem referência ao monasticismo no Egito havia condições necessárias para que alguém ingressasse naquela ordem, entre as quais estava a memorização de vinte salmos no mínimo, duas epístolas ou alguma seção cuja extensão lhe fosse equivalente.


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Referências bibliográficas

AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. Confissões. Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda., 1987, 2011, p. 407.

BÍBLIA SAGRADA. Tradução em português por João Ferreira de Almeida. 2 ed. rev. e atual. Barueri: SBB, 1988, 1993.

BONHOEFFER, Dietrich. Orando com os Salmos. Curitiba, PR: Encontro, 2010, p. 19.

CALVINO, João, Comentário aos Salmos, Vol. I. São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2009, p. 13, 27.

NOLL, A. Mark. Momentos Decisivos na História do Cristianismo. São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 96.

Indigno servo de Cristo, presbiteriano e amante do Saltério. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, seminarista no Seminário Presbiteriano do Norte e Bacharel em Direito pela Universidade de Pernambuco.

6 comentários em “A memorização dos Salmos: sua importância e modo – parte I

  1. Parabéns, jovem valoroso!!! Que a graça do Senhor seja abundante em sua vida, capacitando-o em toda boa obra, para a glória do nosso Deus!

  2. Ótimo texto! Fomos contagiados aqui em casa e já demos início a essa prática, ansiosos pra colher os frutos. Deus te abençoe, Rodolfo. Espero que muitos sejam influenciados por esse exercicio maravilhoso e edificante.

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