Elogio da Subida

Revisado por: Nathália Soares

In memorian John Charles Ryle

Quem subirá ao monte do Senhor?
Quem há de permanecer no seu santo lugar? (Salmos 24.3)

A vida está muito rasteira por aqui. O ser humano parece encarnar a serpente, e, em tudo que faz, a nossa sociedade parece rastejante e imersa na dieta do pó. A mediocridade impera em todas as coisas: o barulho e a tagarelice ocupam todo o espaço urbano e a vida do homem definha sem cultivo, sem amor, sem a vida e a liberdade que somente a Palavra nos dá. A vida está muito terrestre, muito baixa em estatura espiritual. Infantilizados demais, estamos construindo na terra a nossa morte a cada dia com esta dedicação à baderna e danação da alma que o próprio Estado (pagão, porque antropocêntrico; humanista) organiza, financia e protege, transformando as nossas vidas em antros de desespero e hedonismo. E o hedonismo e o barulho andam sempre juntos.

Os bezerros de ouro multiplicam-se, a busca pelo paraíso na terra domina; inclusive, pessoas que deveriam desprezar essas coisas, que os pagãos procuram, em relação a  sua dedicação à busca do reino de Deus. Em seu afã luciferino de desbancar Deus e assumir o seu lugar, o homem pós-moderno tem se sepultado sem saber em amontoados de enganações cujos resultados são e serão desastrosos. Qual a saída para este tempo e sociedade? Continua a mesma: a subida ao céu. O homem necessita subir ao monte do Senhor, precisa ascender acima da terra, acima das hordas barulhentas e sua fúria demoníaca, precisa subir acima da mediocridade das redes sociais e acima da infantilidade religiosa as quais infestam o cristianismo local.

O Salmo 24 trata desta subida. Resumo-o. Abre falando da criação: todos os homens e todas as partes da terra e tudo que há nela são possessão do nosso Jeová. Segue dizendo que, apesar disso, há um lugar especial que não é somente propriedade do Senhor, mas também sua morada: o monte do Senhor, o lugar santo. A este lugar os homens não podem ir, por serem pecadores. Só lá entram os que buscam a face do Senhor, ou seja, os filhos de Jacó, o homem que Bunyan chamou de peregrino. Por fim, o salmista conta que mesmo esses que não entram por prerrogativa sanguínea ou tradicionalista, mas pela santidade, não podem entrar no céu sem a ajuda e a vitória do Soberano: o Rei da glória, que entrou no céu e se fez nosso caminho, nossa porta – mostra antecipada do nosso Senhor Jesus Cristo.

O monte do Senhor é o monte Sião, lugar em que Davi vivia e em que Salomão viria a construir o Templo. E eu ainda acrescento: o monte é o Paraíso, a Terra prometida, o que Jesus chama de a casa de meu pai. É o lugar do encontro da alma com Deus, é a terra santa que as sandálias de Moisés reverenciaram, é também a presença de Deus. Subir ao monte do Eu-sou é o nosso espírito, em verdade, entrar na presença dele para louvação e audição. Devemos ascender às alturas de Deus, todavia, através e segundo o Jesus por quem os portões do templo terreno se abrem e os príncipes se curvam, por quem os portões celestes também se abrem e os anjos se curvam. Subir no poder de Jesus, para estar e permanecer com Elohim. Subir ao monte é benção que Deus concede aos que buscam a face e o reino – aqui representado pela bela imagem de um monte – do Deus de Jacó, que vence-nos com a benção; que ama o enganador e transforma-o em príncipe seu.

O Deus de Jacó justificou a Jacó e deu-lhe o novo nascimento, um novo nome, enquanto encenava sua busca do eterno, teatralizada pelo seu combate com Deus, tamanho o seu desejo do Eterno e a sua consciência da necessidade dele. O sonho de Jacó era um sonho de ascensão, de  subida à morada de Deus – o desejo mais verdadeiro. No sonho (Gn 28.10-22), viu uma escada posta sobre a terra “cujo topo chegava ao céu; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela e no seu cume estava o Senhor”. O sonho da escada ou da subida mostra claramente que Deus e a terra não estão eternamente separados, mas que o Senhor tem o seu caminho para vir até o homem e elevá-lo a ele. A subida é impossível para os homens, mas não para Deus. Interessante que o Jacó chamou o lugar em que o sonho lhe visitara de Betel – casa de Deus e, em seguida, refere-se a Betel como “a porta dos céus”, epíteto que também, de certa forma, aplica-se à Igreja.

Subir ao monte do Jeová é o destino do homem. E, por ser um destino, a subida é uma missão e um chamamento divino ao homem. O Senhor Jesus era um homem do monte: convidava sempre os discípulos a subir com ele o monte para orar, descansar, retirar-se, ouvir Deus. Deu-lhes o Ide num monte, morreu num monte e o seu sermão mais famoso, pregou-o num monte.  Moisés também era um homem do monte e num monte recebeu o Decálogo. De fato, os santos são gente do monte, das alturas, como Spurgeon diz, são os “nascidos para o céu”. E é isso que torna as suas vidas especiais  na terra; luzes chocantes demais para a mediocridade, danação e escuridão (paganismo) com que o deus deste século cega as massas. Os homens do alto, como Davi e Jesus, são provas de que a terra é lugar apenas para os homens que estiveram no monte do Senhor, que subiram ao alto e viram o que só os ascendidos veem – a glória do Rei e Senhor do universo: Cristo.

O alto lugar nos permite ver o que os lugares baixos tolhem. Quem está embaixo vê curto e raso. Quem está acima vê mais além e mais profundo. E esta visão de que o universo pertence ao Senhor é alta demais para nós tanto que é preciso o impossível para crer-se nela, e o impossível de que falo é subir ao monte do Senhor – obra que só Cristo pode realizar, e nós, nEle. Em Cristo vemos que o mundo é de Deus; o mundo é do Senhor: é campo para cultivarmos o Reino de Deus com a sua teologia, pedagogia, filosofia, cultura, entre outras coisas, em amor. O subir ao monte nos separa do mundo, porque significa amizade com Deus. Mas a separação santa não é absoluta, pois, como os montes, nossos pés formosos continuam na terra a marchar pelo venha o teu reino, apenas os nossos olhos, janelas da alma, é que estão plantados no céu, quero dizer, veem o mundo como Deus. (O monte está próximo do céu e no céu, mas não seria monte se suas raízes não estivessem plantadas na terra. O monte só se faz palco do encontro, da comunhão da terra com o céu, do homem com Deus. A igreja é o monte santo do Senhor – o palco do Encontro de Deus com seu povo.)

Buscar a face de Deus – alcunha da subida ao monte – é o chamamento universal a todos os habitantes da terra que pertencem ao Senhor. Logo, ser pagão ou ter filiação abraâmica não diz muito aqui; ser israelita de sangue não é nada sem a santidade – a única marca dos membros da família do céu, daí a pergunta do v. 3. Subir ao monte é tarefa difícil, impossível, embora muitos tentem, não são aceitos os que não subirem pela escada de Jacó – o Cristo ressuscitado. E Deus chama-nos a fazer a subida (ser santo) porque ele mesmo nos ajudará, como ajudou aos santos no passado, como assistiu-os na sua fraqueza e impotência, porque, como disse ao pai Jacó, ele é o Senhor. Sim, é mais fácil firmamo-nos em coisas como a filiação, a tradição, o conhecimento, a riqueza, etc. quando se trata de religiosidade. Mas Davi alerta neste salmo que subir ao monte ou ser e permanecer santo é que importa e é “algo totalmente sem efeito fazer-se uma confissão de fé meramente exterior, a menos que ela fosse, ao mesmo tempo, verídica no íntimo do homem” (Calvino).

Ascensão: subir ao monte tem o intento puro e belo de abrir nossa visão para que vejamos a existência com os olhos divinos, com a mundivisão bíblica. E esta visão é que “de Jeová é a terra e tudo o que nela há” e nenhum espaço mais resta para a posse do diabo ou de nenhum homem e, por consequência, é o Senhor quem sustenta “o mundo e aqueles que nele habitam”, não ficando ele restrito a Israel, mas estendendo os braços da sua graça comum e especial a toda a terra e a todas as áreas ou esferas da vida terrena. Assim, a visão (e a mundivisão) do Salmo 24 escapa aos que não sobem e não habitam ou mesmo sobem, mas dormem no monte do Senhor. Pois seu desvelo é acessível somente aos que buscam ao dono do universo e não o universo; ao Senhor e não a sua criação, como os humanistas, ou melhor, os pagãos, na sua idolatria (religiosidade falsa e cultura rebelde e mórbida).

Os que não subiram ou não sobem ao monte do Adonai, desceram ou descem ao abismo da perdição, da falsidade, da nulidade, da morte total. São os que sujam suas mãos com a impiedade, que sujam o coração com pensamentos e emoções vãos, antibíblicos; são os que “entregam sua alma à falsidade, à vaidade; os que juram enganosamente, os mentirosos; os que desprezam o Eclesiastes e negligenciam os Salmos com desconhecimento ou sentimentalismo. Os que não ascendem ao Sião perdem de vista a eternidade da alma e não desejam “a eternidade firme e imutável” de que fala o Bispo Agostinho. E a alma foi criada para os eternos lugares altos, para a comunhão com Deus, sua vida. Em seus conselhos aos jovens, o reverendo J. C. Ryle diz:

Não se esqueça que nada é tão importante quanto a sua alma. Sua alma é eterna; viverá para sempre.

O mundo e tudo que possui são passageiros, mas a alma, jamais, daí ser ela o templo de Elohim, receptáculo de seu Sopro.

Por isso, é com a alma atada à santidade que se sobe ao monte do Senhor. E é para ter alma santa que se sobe ao monte, uma vez que um homem ter a alma farisaica, hipócrita é o mesmo que não tê-la, pois o farisaísmo evidencia a falta de alma. E o pastor Ryle complementa sua exortação aos jovens:

Eu lhe peço, procure compreender que a sua alma é o que há de mais importante. É a parte da sua vida que deve sempre ser considerada em primeiro lugar. Nenhum lugar ou emprego será bom, se lhe trouxer prejuízo para a alma. Não merece a sua confiança qualquer amigo ou companheiro que considera uma coisa sem importância a preocupação que você tem com a sua alma. O homem que causa danos ao seu corpo, aos seus bens e à sua reputação traz prejuízos apenas temporários. O verdadeiro inimigo é o que procura sempre prejudicar a sua alma.

A alma foi feita para ascender ao monte do Senhor, bem como permanecer, como diz a Bíblia Almeida 1848, no “lugar da sua santidade.

Subir ao monte do Senhor é o exercício da busca da face de Deus que nos purifica e santifica, é a vivência do que Calvino chamou de “cultivo da santidade”. A santidade sem a qual ninguém verá a Deus, a santidade que é a identificação dos filhos de Deus. Essa santidade Deus requer de nós em mãos (fazeres, obras) e coração (pensamento, imaginação) na nossa existência terrena. Subir ao monte (ser santo, ver e crer como Deus ordena) é o que distingue os pagãos dos crentes. Ao colocar santidade de mãos e coração,  Davi “compreende toda a religião”(Calvino). Logo, não é somente questão de práxis ou ativismo e nem somente piedade ou intelectualidade. Mas o coração deve guiar as mãos às boas obras que crê e sente e entende, e as mãos devem externar o que o coração compreende e crê.

Calvino ainda diz que:

A verdadeira pureza, indubitavelmente, tem sua sede no coração, todavia manifesta seus frutos nas obras das mãos. O salmista, pois, mui apropriadamente associa ao coração puro a pureza da vida toda; porquanto a pessoa que se vangloria de ter um coração íntegro age de forma ridícula, se porventura não demonstrar através dos frutos que a raiz é sadia. Por outro lado, de nada adiantará modelar as mãos, os pés e os olhos segundo a norma da justiça, a menos que a pureza de coração preceda a continência externa. Se alguém imaginar o absurdo de que se deve dar o primeiro lugar às mãos, respondemos sem qualquer hesitação, dizendo que os efeitos às vezes são nomeados antes de sua causa, não que a precedam em ordem, mas porque às vezes é vantajoso começar com coisas que são melhor conhecidas. Davi, pois, queria que os judeus entrassem na presença de Deus com mãos puras, e estas juntamente com um coração sem dolo.

É o conjúgio da ortodoxia e da ortopraxia. E essa sinergia também é fruto da visitação da presença de Deus – que também corresponde a esta subida.

Praticamente, realizamos esta subida pela meditação na palavra e pela oração, pelo culto solene e pelo estudo das criações, pela apreciação do universo criado por Deus ou por homens usando sua criatividade, etc. Essas disciplinas da graça de fato são muito fáceis de descartar como Naamã quis descartar as águas do rio Jordão, porém descartá-las é perder os degraus da escada que nos permitem a subida, é perder a ascensão e transformarmo-nos em hordas do presente mundo, tabuleiros em que ideólogos com seus objetivos pagãos e clara ou obscuramente anticristãos jogam e dançam. (Se Deus quiser, continuando a escrever sobre coisas óbvias, um dia escreverei uma apologia do culto dominical na igreja local, com o mesmo fim: defender estes degraus ou meios de graça que o Senhor nos concedeu para subir a ele, encontrá-lo sempre.)

Não é inverdade que o mundo todo é de Deus, mas também não é mentira que Ele escolheu um monte para si onde só entram os que especialmente têm com Ele um pacto eterno. Não é engano que todos os homens pertencem a Deus, mas também não o é que somente a geração de Jacó, ou seja, os filhos do pacto abraâmico – os israelitas – é que lhe são especialmente filhos. Acerca disso, Calvino propõem que “O resto da humanidade, é verdade, uma vez que foi criado por ele, pertence ao seu domínio; mas aquele que ocupa um lugar na Igreja está muito mais intimamente relacionado com ele. Portanto, todos aqueles a quem Deus recebe em seu rebanho, ele convoca à santidade e os põe sob a obrigação de segui-la por meio de sua adoção.”

Há recompensa para os que sobem ao monte: “Este receberá do Senhor uma bênção, e a justiça do Deus da sua salvação” (Sl 24.5). Diz Calvino:

Os participantes da bênção prometida não são aqueles que se gloriam de ser servos de Deus, conservando apenas seu nome, mas aqueles que respondem ao seu chamamento de todo o coração e sem qualquer hipocrisia. [E, com isso, Davi] tenciona mostrar, de um lado, que não se pode esperar que o fruto ou recompensa da justiça seja concedida aos que injustamente profanam o sacro culto divino; e, do outro, que é impossível que Deus decepcione a seus verdadeiros adoradores; pois seu ofício peculiar é apresentar evidência de sua justiça, fazendo-lhes o bem.

Como disse acima, subir com nossas pernas é uma impossibilidade absoluta. Afinal, quem subiu senão aquele que desceu (Ef 4.10)? Somente Cristo subiu, e nEle nós subiremos. Se as portas por Cristo se abrem, por nós também se abrirão, pois é ao Raboni que seguimos. Daí a exaltação final do Salmo 24: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. Quem é o Rei da Glória? O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha. Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. Quem é esse Rei da Glória? O Senhor dos exércitos; ele é o Rei da Glória” (Sl 24.7-10). Onde Cristo entrou, nós entraremos, para estar com ele para sempre. Spurgeon vê esta parte como “a subida do verdadeiro Redentor, que abriu as portas do céu para a entrada de seus eleitos”.

O Senhor revelado aqui adiciona informações sobre a mundivisão que os que sobem ao monte devem de ter. Ele é o Rei da Glória, nem o papa, nem o pastor, nem homem algum, nem diabo algum é o rei no mundo que pertence a Deus. O Senhor, dono do universo, é forte e poderoso na guerra. Isso significa que na nossa estada no mundo que pertence ao Senhor inevitavelmente há uma guerra contra o Senhor, em que nos engajamos em todas as esferas e em toda a extensão do planeta, por causa da queda. Mas o Senhor é guerreiro em prol de si mesmo; nós só o seguimos nesta batalha pela sua glória e pelo seu reino. Ele é o Senhor dos exércitos; ele é o Rei da glória.

O antídoto para a vida rasteira é a vida altaneira, a vida segundo o Salmo 24.

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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