A Graça de Deus e um encorajamento à masculinidade bíblica

Revisado por: Vanessa Lima

“Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. […] Saberá toda esta multidão que o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos.” (1 Samuel 17.45,47)

 A ideia deste texto surgiu de forma um tanto quanto inusitada: passei pela sala de casa e a televisão estava ligada numa adaptação televisiva da história de Davi. Os experientes guerreiros do exército de Israel, que já haviam enfrentado duras batalhas e visto o Senhor conceder vitória ao Seu povo várias vezes, ouviam mais uma vez as afrontas do guerreiro filisteu chamado Golias, oriundo da cidade de Gate. Há quarenta dias, o mesmo desafio era lançado: que um homem viesse lutar contra ele; se o soldado israelita fosse derrotado, todo o povo de Israel seria servo dos filisteus, e o mesmo seria com os filisteus, caso Golias perdesse a luta.

Um detalhe acerca do qual eu nunca havia pensado capturou minha atenção: nenhum guerreiro de Israel havia se voluntariado para lutar contra Golias. Ao mesmo tempo em que é compreensível a hesitação e o medo de lutar, individualmente, contra um homem de seis côvados e um palmo de altura, cuja armadura parecia impenetrável, o fato de ninguém ter se disposto a fazê-lo evidencia três coisas, pelo menos: os corações dos homens israelitas não mais confiavam no Deus que havia feito aliança com sua nação, não tinham zelo pela glória dEle e, consequentemente, não viviam plenamente a masculinidade bíblica, como homens segundo o coração de Deus.

Isso não significa que eles não cuidavam bem de suas famílias ou não proviam bem para elas. Mas é inegável que seus corações não eram firmes e confiantes em Deus como deveriam. Ninguém se dispôs a lutar contra Golias; nenhum homem confiou que Deus poderia capacitá-lo e usar todo o treinamento e experiência que Ele mesmo havia lhe propiciado para que aquele gigante fosse derrotado. O pior: ninguém se irou de maneira santa contra as afrontas que o filisteu dirigia ao Deus de Israel ao ponto de se colocar nas mãos de Deus como instrumento para fazer justiça, derrotando Golias. Pelo contrário, “Todos os israelitas, vendo aquele homem, fugiam de diante dele, e temiam grandemente” (1 Samuel 17.24).

De fato, eram tempos de esfriamento espiritual na nação.

Passado o auge da liderança de Samuel, seus filhos haviam ficado em seu lugar como juízes; mas eles “se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito” (1 Samuel 8.3). Os anciãos do povo, então, vieram perante Samuel “e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (1 Samuel 8.5).

Apesar de as atitudes iníquas dos juízes terem sido razões legítimas para que se pedisse um outro líder sobre a nação, a verdade é que o povo de Israel desejava um rei porque queria ser como as outras nações e, assim, rejeitava o governo de Deus:

“Disse o SENHOR a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele. Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti.”  (1 Samuel 3.7-8)

Deus, em Sua soberania, apesar de tudo isso, atendeu ao pedido do povo, e Saul se tornou rei de Israel. Posteriormente, devido ao seu coração rebelde, que não amava nem temia a Deus verdadeiramente, foi rejeitado (1 Samuel 15). A cena descrita no começo deste texto se passa então neste cenário: o reinado de um rei que não era um homem segundo o coração de Deus, não liderava o povo para viver de forma obediente e temente ao Senhor; a maioria do povo não estava buscando amar ao Senhor de todo o coração; os guerreiros do exército, em geral, não tinham zelo suficiente pelo nome de Deus, nem confiança nEle. Tempos sombrios, vergonha para a nação, ao som da voz do gigante que mais uma vez ressoava:

 “Para que saís, formando-vos em linha de batalha? Não sou eu filisteu, e vós, servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que desça contra mim.Se ele puder pelejar comigo e me ferir, seremos vossos servos; porém, se eu o vencer e o ferir, então, sereis nossos servos e nos servireis.” (1 Samuel 17.8-9)

Entretanto, mesmo naqueles que parecem ser os piores tempos, o Senhor opera. Deus já vinha agindo em um jovem pastor de ovelhas, chamado Davi. Através de Sua graça, Deus operava em seu coração, de maneira que se agradou dEle e o escolheu para ser o próximo rei de Israel. O Senhor o capacitava a cuidar das ovelhas a cada dia e o fez matar um leão e um urso que tomaram cordeiros do rebanho de seu pai.

Diante das ofensas proferidas por Golias, Davi se irou de maneira santa:

“Que farão àquele homem que ferir a este filisteu e tirar a afronta de sobre Israel? Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?” (1 Samuel 17.26).

Assim, em seu zelo pela glória do Senhor, se dispôs a enfrentá-lo, não pela própria força, não por qualquer habilidade individual, mas por confiar no Senhor dos Exércitos, o Deus da Aliança, a quem servia. Mesmo quando o próprio rei o aconselhou a não ir, ele confiou em seu Deus, e por isso partiu para enfrentar o gigante:

“O teu servo matou tanto o leão como o urso; este incircunciso filisteu será como um deles, porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo. Disse mais Davi: O SENHOR me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu. Então, disse Saul a Davi: Vai-te, e o SENHOR seja contigo.” (1 Samuel 17.36-37)

O ponto deste texto não é exaltar qualidades de Davi, nem destacá-lo como um exemplo moral para nós, mesmo que, como homem salvo e santificado pelo Senhor, seja sim um exemplo. O objetivo deste texto é encorajar a todos nós, servos de Deus, especialmente os jovens leitores.

Vivemos numa época em que: a maioria das autoridades do governo civil não teme ao Senhor; muitos que se denominam cristãos têm acolhido em suas vidas o mundanismo, dando mau testemunho e trazendo vergonha para o Evangelho, de modo que a maior parte das igrejas denominadas evangélicas não tem zelo pelo nome do Senhor. A sociedade em que estamos odeia o nosso Senhor Jesus Cristo e a Sua Palavra, se rebela contra Sua Vontade para os homens e para as mulheres, de modo que se tem, ativamente, buscado acabar com a masculinidade e com a feminilidade segundo o coração de Deus, desconstruindo as essências masculina e feminina. Nosso contexto é não apenas desfavorável, mas verdadeiramente antagônico a uma masculinidade bíblica, firme confiante no Senhor.

Nestes tempos sombrios, contudo, a graça do Senhor já tem operado nos corações de nossos irmãos em Cristo, para conformá-los à imagem do nosso Salvador, assim como fez com Davi naqueles tempos. Nosso Deus está agindo para que cada rapaz aprenda amar a Deus de todo o seu coração, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças. Existe graça para cada jovem fazer coisas mais comuns do que derrotar um gigante filisteu, mas nem por isso fáceis ou menos extraordinárias: ser filho que honra os pais, estudante dedicado, trabalhador diligente, servo na Igreja; se relacionar com as irmãs em Cristo com pureza e amor genuínos; sob o direcionamento de Deus, escolher uma jovem piedosa para ser sua esposa; amá-la como Cristo amou a Igreja, ser pai, ser o provedor, protetor e pastor do seu lar.

A graça divina transformou Davi em quem Deus gostaria que ele se tornasse: um rei de Israel que aponta para Cristo. Os jovens podem depositar toda sua confiança na mesma graça eterna, que já está agindo e assim continuará, para torná-los em quem Deus quer que eles sejam: homens que temem e amam a Deus de todo o coração, que andam na Lei do Senhor, lideram seu lar, trabalham para a glória de Deus, provendo para suas famílias e impactando esta sociedade corrupta, sempre apontando para o modelo perfeito de masculinidade, nosso Senhor Jesus Cristo.

Durante toda sua vida aqui na Terra, Jesus viveu na dependência e confiança no poder do Senhor: foi um filho que honrou os pais, trabalhador diligente (tanto no ofício terreno no qual auxiliou José, quanto na Missão para a qual veio), servo sofredor, se relacionou com as irmãs com pureza e amor genuínos. Cristo morreu e ressuscitou para redimir para si Sua noiva, a Igreja, para a qual é provedor, protetor e pastor; Ele é o homem perfeito. Que cada jovem reformado possa viver em confiança e dependência em relação à Sua graça, que é melhor do que a vida e certamente santificará e transformará cada pecador remido em quem Deus quer que ele seja.

Colunista. 20 anos, pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Areias, em Recife e estudante de Direito. Uma sonhadora que permanece com os pés no chão graças à Palavra de Deus.

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