Por que os cristãos deveriam adotar mais filhos?

Revisão: Nathália Soares

Vivemos no mundo da modernidade, no dito universo avançado em todos os sentidos, onde ter filhos é opcional, mas não é algo tão importante assim, nem mesmo é  necessário que você os deseje, muito pelo contrário: evite-os até que você queira muito – de verdade – encará-los como uma bênção bem-vinda. Ter filhos pode ser uma boa escolha se você é solitário ou se procura alguma coisa para finalmente dar sentido ou mais alegria a sua vida, mas, se você achar por bem, pode trocar o papel de pai de humano e simplesmente criar um animal de estimação; vai dar quase no mesmo.

Essa é a visão da sociedade de hoje a respeito de geração e criação de filhos. Os verdadeiros cristãos têm se colocado contra a onda do mundo de dizer que filhos são grandes problemas e até mesmo precisam ser bem planejados; nos esforçamos para, tão logo quanto conhecemos o desejo de Deus para o casamento, nos dispor a recebermos do Senhor a dádiva de gerar e criar crianças. Um filho gerado dentro do casamento cumpre o segundo requisito do propósito do casamento estabelecido por Deus: a propagação da humanidade por uma descendência legítima (CFB 1689, cap. 25 § 2). Mas o que falar, então, de adoção?

A verdade é que a grande maioria de pais cristãos sequer deixa passar pelas suas mentes a possibilidade de adotar filhos. A triste realidade é que enquanto nós, cristãos, abandonamos essa tarefa e deixamos de nos conscientizar a respeito do assunto, os ímpios lutam para terem garantidos os seus direitos de adotar órfãos e oferecer a eles, desde o que acham a educação mais adequada, formação estudantil e profissional, até bens materiais.

O impacto da adoção na sociedade

Olhando para o aspecto social, como cristãos, já é possível ver o perigo de nos envolvermos tão pouco com essa obra de misericórdia. A bíblia constantemente nos mostra que nós temos um papel social importantíssimo (Mt 25.31-45). Por causa dos nossos preceitos bíblicos, somos capacitados pelo Espírito de Deus a fazermos escolhas governamentais segundo a sua vontade, praticamos nossa cidadania pela prática do bem (Gl 6.10), honestidade (Sl 112.5), verdade (Cl 3.9), integridade (2 Co 8.21), generosidade (Pv 11.25), serviço (2Ts 3.10-12) e disposição (1Ts 4.11-12).

A bíblia nos dá as diretrizes de um cidadão perfeito (Sl 15.1-3). Imagine agora um mundo onde todas as pessoas seguissem à risca os mandamentos do Senhor para uma sociedade bem estabelecida. Um mundo perfeito, não? Bem, com certeza não somos essas pessoas, mas estamos buscando com avidez sermos mais parecidos com Cristo e somos nós, filhos de Deus, que fazemos com que não haja o verdadeiro caos social.

Nós somos responsáveis pela educação de filhos que exercerão suas cidadanias para a Glória de Deus e o bem do próximo. O que dizer sobre a criação do ímpio? Não podemos negar que muitos descrentes criam seus filhos com instruções para serem “cidadãos de bem”, mas toda boa dádiva vem de Deus (Tg 1.17) e todos os bons preceitos para vivermos uma vida em paz fluem da Lei do Senhor. Como, então, o ímpio pode ensinar aos seus filhos a praticarem suas cidadanias com a motivação correta? Simplesmente não podem. Seus ensinos estão fundamentados em sentimentos de justiça própria e autoglorificação. Eles fazem tudo por eles e para eles.

Os cristãos deveriam tomar para si a responsabilidade de criar mais pessoas conhecedoras do evangelho a fim de praticá-lo neste mundo caído. Não deveríamos, em hipótese alguma, aceitar que réprobos estejam ensinando suas devassidões a órfãos mais do que nós estamos ensinando a eles o evangelho. Com isso não digo que filhos adotados por crentes necessariamente serão justos e eleitos do Senhor, mas, com certeza, receberão no mínimo o privilégio de conhecerem a Santa Lei e a motivação correta para cumprirem seus papéis sociais.

A adoção de filhos reflete a bondade de Deus e o Santo Evangelho

Para mim, esse é o maior motivo para que desejemos e incentivemos uns aos outros a adotarmos filhos. Creio que a adoção reflete de várias formas o Evangelho do Senhor Jesus:

1. A Graça

Órfãos são pessoas sem nenhuma perspectiva de vida. Elas estão ali por razões diversas, seja por pais em situação de vício, por vezes abandono, morte e muitas nem mesmo conheceram seus pais. A verdade é que todas elas estão distantes de qualquer realidade futura que possamos chamar de boa. Elas têm traumas, sentimentos de rejeição e necessidade de misericórdia. Essas características te lembram alguém? Sim, esses somos nós antes de sermos chamados e escolhidos por Deus. Nós éramos como elas: sem perspectiva de vida, sem capacidade de salvação, carentes de alguém que usasse de misericórdia para conosco, não éramos desejáveis, não tínhamos nada para oferecer em troca de sermos simplesmente aceitos. Então, o Senhor nos chamou e nos fez participantes e herdeiros de todas as coisas boas por intermédio de Cristo.

Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos” (Ef 2.3-5).

 

2. A adoção por meio de Cristo

A palavra de Deus, por diversas vezes, faz questão de nos dizer que somos filhos por adoção.

Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os torna filhos por adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai’” (Rm 8.15).

“Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher,  nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4.4-5).

E tenho certeza de que, assim como nada na escritura é em vão, o fato de sermos filhos adotivos também não é. Os Judeus valorizavam muito os filhos legítimos de sangue,  os órfãos eram sempre órfãos, apesar de [os judeus] terem obrigação de ajudá-los materialmente por estarem no grupo de vulnerabilidade (Zc 7.9-10; Is 58.6-7) , adotar um órfão era quase nunca uma opção. Entretanto, na Nova Aliança, Deus faz com que essa prática apareça como algo louvável e comum. Ela começa nos dando o exemplo do próprio Jesus Cristo como filho adotivo de José (Mt 1.18-25) e nos prova a legitimidade da adoção quando mostra Cristo na genealogia de José (Mt 1.16).

De igual modo, a Bíblia nos apresenta como filhos adotivos do próprio Deus (Ef 1.5; Rm 9.8).

 

3. A participação na herança

Alguém pode pensar que pode adotar uma criança mandando suprimentos e presentes mensalmente e visitando de vez em quando, mas isso não é adoção de fato. Podemos sim usar de generosidade para com as pessoas mais necessitadas, ajudando-as materialmente, mas a adoção que reflete a nossa adoção espiritual também envolve verdadeiro compromisso e responsabilidade. Deus se fez responsável por nós a tal ponto que promete não nos abandonar e não deixar de ser nosso Pai (Rm 8.32,37-39). Ele não nos ofereceu apenas alguns privilégios mensais, mas nos fez participantes diretos da herança de Cristo (Gl 3.29), que partilha conosco todos os bens que conquistou na cruz; por isso a adoção de pessoas deve refletir esse mesmo caráter de Deus.

“Se somos filhos, então somos herdeiros; somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória.” (Rm 8.17)

Ele o fez a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos seus herdeiros, tendo a esperança da vida eterna” (Tt 3.7).

Não devemos romantizar a adoção

Algumas pessoas acreditam que pensar de forma bíblica a respeito de adoção é romantizar uma “coisa tão difícil”, mas não é isso que está acontecendo. Uma mulher cristã que se dispõe a ser mãe nos dias de hoje não está romantizando a maternidade; um homem cristão que se dispõe a casar nos dias de hoje não está romantizando o casamento. Tanto a maternidade quanto o casamento têm as suas dificuldades e o mesmo acontece com a adoção. Entretanto, eu pergunto, conhecendo a vontade de Deus, um homem cristão deixaria de se casar para viver abrasado por causa das dificuldades do casamento? E a mulher cristã, deixaria de ser geradora de filhos para ser “mãe” de animais de estimação por causa das dificuldades da maternidade? A resposta piedosa para ambas as perguntas deve ser “não”, pois as dificuldades que podemos enfrentar no desempenhar dos papéis que Deus nos deu não podem ser o motivo para que nós não obedeçamos ao Senhor com inteireza de coração. E o mesmo é aplicado à adoção: as dificuldades não devem ser encaradas como ponto crucial para que não abracemos essa prática.

Acredito que nos falta fé no Senhor e na sua providência. Ao dispormos os nossos corações para esse serviço de misericórdia, devemos sempre lembrar do trato de Deus para conosco. Éramos filhos de Adão, herdamos uma personalidade pecaminosa, repugnante para Deus, mas Ele foi e é longânimo para conosco, Ele tem nos mostrado amor dia após dia, nos conformando à imagem do seu Filho amado.

“… Éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos… Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês… Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras…” (Trecho de Ef 2.3-10)

“Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam.” (1Pe 2.9-10)

O cristão deve fazer o mesmo com seus filhos adotados: dia após dia tentar conformá-los à imagem de um filho perfeito, independente de seus antigos pais. Tratá-los com paciência, amor e disciplina, assim como Deus faz conosco, e lembrando sempre da capacidade do Senhor de amar o desprezível.

Ore para adotar filhos

É verdade que temos muito o que nos preparar no quesito de adoção, mas nossa preparação fundamental deve ser a espiritual. Devemos orar ao Senhor para que ele nos ensine a sermos pais tão bondosos e pacientes como ele é para nós; que ele nos ajude a ver em sua palavra todos os principais atributos da sua perfeita paternidade, e, acima de tudo, acredito que devemos orar para que o Senhor confie as nossas mãos seus pequenos eleitos. Ou você não acha que o Senhor tem também seus eleitos no meio dos órfãos?

Ouçam, meus amados irmãos: Não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam?” (‭‭Tg‬ ‭2.5)

Devemos orar para que esses irmãos sejam confiados a nós, para que ensinemos a eles o caminho da Santidade Cristã e do amor a Deus, a fim de livrá-los o quanto antes de experimentarem o mundo.

Ele decretou estatutos para Jacó, e em Israel estabeleceu a lei, e ordenou aos nossos antepassados que a ensinassem aos seus filhos, de modo que a geração seguinte a conhecesse, e também os filhos que ainda nasceriam, e eles, por sua vez, contassem aos seus próprios filhos. Então eles porão a confiança em Deus; não esquecerão os seus feitos e obedecerão aos seus mandamentos.” (Sl 78.5-7)

Agradeço a Deus pela oportunidade de compartilhar com os Santos um assunto que considero muitíssimo importante. Minha oração é para que o Senhor desperte seus eleitos para um maior compromisso moral e social e para a correta compreensão da adoção de filhos de ímpios pelos filhos de Deus. Amém.

23 anos, casada, membro na Congregação  Batista da Graça em Recife; amante da boa teologia. Meu coração deseja a eternidade, Cristo em mim é a esperança da Glória.

2 comentários em “Por que os cristãos deveriam adotar mais filhos?

  1. Olá! Belo texto, parabéns. Gostaria de saber sua opinião sobre um solteiro ou solteira adotar uma criança. Tipo, alguém que não teve a chance de casar, que é cristão, e gostaria de adotar. O que você acha?

    1. Irmã, considero que esta é uma resposta difícil de ser respondida de forma categórica, por isso, exporei alguns aspectos importantes a serem observados. Antes de tudo, devemos entender que o Senhor criou uma estrutura familiar bem definida: Pai, mãe e prole. Uma criança para ter facilitado seu crescimento social, emocional e espiritual, de acordo com a palavra de Deus, deve crescer em um lar cristão que possua essas características citadas. Isso porque, no pai ela tem o exemplo observável de autoridade, protetor, provedor, etc.; na mãe ela verá a misericórdia, o serviço, o cuidado, a submissão, etc.
      Como uma jovem solteira disposta a adotar uma criança, os aspectos citados acima não serão respeitados de forma total.
      Entretanto, talvez possamos encarar a possível adoção como um “mal menor”, visto que a criança a ser acolhida já vive sem referências (materna e paterna) e em condições sociais e emocionais delicadas.

      Desta forma, aconselharia que os seguintes pontos fossem vistos com atenção:
      1. A mulher solteira que irá adotar a criança dispõe de tempo em casa para educá-la? Provavelmente como mulher solteira, esta necessite trabalhar na maior parte do tempo para prover o próprio sustento. Isso impossibilitaria em muitos sentidos uma criação saudável de um filho.

      2. A mulher solteira que irá adotar, conta com a ajuda de algum homem para ser referência masculina à esta criança? Seja este homem o pai, irmão ou até mesmo um líder de sua igreja, é necessário certificar-se de que essa referência de autoridade estará presente na criação. Ao consultar um pastor e teólogo sobre o assunto, fui ensinada de que na igreja primitiva, uma das funções dos diáconos nas visitas às casas das viúvas era garantir que essas estariam sendo sempre assistidas por uma referência masculina, caso não tivessem filhos adultos. Isso também poderia ser aplicado nos dias atuais para uma mulher solteira que cria um filho sozinha.

      3. A mulher solteira que irá adotar sente-se emocionalmente capaz de educar à criança de acordo com os moldes bíblicos sem auxílio de um marido? Educação social, disciplina, culto doméstico, todas essas coisas são necessárias na criação cristã de uma criança.

      4. Ela poderia contar com a ajuda de familiares próximos? Em caso de uma possível doença ou uma viagem, enfim… em qualquer situação contingente, ela teria a quem confiar a criança?

      Caso depois de analisar esses pontos, a solteira fique convencida de que tem possibilidade de cumprir todas essas obrigações, debaixo da Graça do Senhor, ela poderia se propor a este desafio que é a adoção.
      Em amor, Thamyris.

Deixe uma resposta