Como nos alegramos em Deus?

Revisão: Vanessa Lima

No artigo anterior, aprendemos que nós glorificamos a Deus ao espelharmos e declararmos Sua glória por meio de nossa apreciação, adoração, afeição e sujeição a Ele. Rogando a Deus sabedoria, nós devemos passar à próxima pergunta: como nos alegramos em Deus?

Nós somos criaturas que buscam a felicidade. Esse desejo de ser feliz é algo inerente ao ser humano, como respirar, e não é algo ruim.[1] Quando Deus criou o homem e a mulher, Ele os colocou em um lugar perfeito onde tudo era perfeito e eles seriam completamente felizes ao desfrutar da natureza criada e ao viver em comunhão com o Criador. A felicidade, portanto, desde a criação nunca foi algo que o ser humano poderia encontrar dentro dele mesmo. A queda e o pecado fizeram com que o homem e a mulher fossem expulsos do Jardim do Éden e perdessem a comunhão com Deus. As pessoas, assim, continuaram sua busca pela felicidade se entregando aos mais diversos vícios e prazeres mundanos – tentando, com isso, aplacar o desejo inerente que pulsava em suas artérias. Com o passar do tempo, a degradação moral dos indivíduos se tornou tamanha que Deus profere um pesado julgamento ao ser humano entregando-lhes aos desejos de seus corações. E, até hoje, a humanidade continua nessa saga pela felicidade, afundada no pecado, sempre buscando algo para fazê-la feliz, porém, não encontrando.

Pelo fato do ser humano ter sido criado para viver eternamente e sempre possuir esse desejo em seu coração, ele nunca poderá encontrar satisfação verdadeira nas coisas desse mundo, que não são eternas.[2] Essa é a conclusão que o Pregador chegou ao escrever no livro de Eclesiastes que tudo é vaidade debaixo do sol.[3] Desde a criação, passando por Eclesiastes e chegando à carta de Paulo aos Filipenses, Deus sempre deixou claro que somente Ele, um ser infinito, eterno e imutável pode saciar esse desejo da alma imortal do ser humano; por isso, Paulo ordena aos cristãos de Filipos: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos” (Filipenses 4.4). Em outras palavras, não existe felicidade verdadeira sem ser “no Senhor”. Thomas Watson, confirmando essa tese, chegou à conclusão de que: “Deus é um bem superlativo. Ele é melhor que qualquer coisa que você possa colocar em competição com Ele; Ele é melhor que saúde, riquezas ou honra. Outras coisas mantêm a vida, Ele dá vida”.[4]

A primeira questão do Breve Catecismo de Westminster, no entanto, ensina-nos que existe uma ordem: primeiro nós devemos glorificar a Deus para depois podermos nos alegrar nEle para sempre. O autor do livro de Hebreus coloca essa verdade da seguinte maneira: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14). Ou seja, nossa felicidade eterna está diretamente atrelada a uma vida de paz com a criação e santificação na terra, o que implica comunhão com Deus por meio da apreciação, adoração, afeição e sujeição a Ele. Concluímos, assim, que a pessoa que não glorifica a Deus aqui na terra, não irá alegrar-se nEle na vida por vir. Por isso, Thomas Boston escreveu que:

“Nenhuma pessoa que não tem nenhuma consideração pela glória e honra de Deus nesse mundo, sonhe que irá ser coroado com glória, honra, imortalidade e vida eterna nas mansões celestiais. Não! O puro de coração e somente aqueles que glorificam a Deus agora, irão ver a Deus e ter infinita felicidade no céu”.[5]

Ademais, nós precisamos ter em mente que nós só glorificamos a Deus e nos alegramos nEle se estivermos “em Cristo”. Essa união entre Jesus Cristo e o crente é tão íntima que eles são como um só espírito, um só corpo místico. Todo o ser humano, pelo poder do Espírito, é unido a Cristo, que como mediador, une-nos ao Pai. Nossa união com Cristo é o fundamento de toda nossa alegria seja na terra ou no céu.

Ora, a Bíblia descreve a existência de dois tipos de alegria: uma imperfeita, que nós desfrutamos na terra, e outra perfeita, que nós iremos desfrutar no céu.[6]

Dito isso, a alegria imperfeita, aquela que temos na terra, pode ser desfrutada de várias maneiras. Toda vez que apreciamos, adoramos, afeiçoamo-nos e nos sujeitamos a Deus em todas as áreas de nossa vida, podemos sentir o gosto da alegria que flui de nosso relacionamento com Deus Pai, em Cristo. Contudo, a Bíblia nos ensina que nós podemos desfrutar de maneira especial da alegria que nos aguarda no céu através dos meios de graça, a saber: oração, leitura e pregação da Palavra, louvor, a comunhão dos santos e, sobretudo, os Sacramentos da Santa Ceia e do Batismo. As Sagradas Escrituras nos ensinam que o próprio Cristo está presente e nos abençoa espiritualmente quando nós participamos fielmente dos Sacramentos. O cristão deve, portanto, não apenas buscar os meios de graça, mas desfrutar da presença de Deus nas suas ordenanças.

Imagine a alegria do salmista ao exclamar: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória.” (Salmos 63.1-2). Nós devemos anelar a mesma alegria que o salmista tinha, buscando não apenas usar os meios de graça e participar dos Sacramentos, mas perceber o Espírito Santo trabalhando em nós, destilando graça em nossos corações, ao ponto de exclamarmos como os discípulos: “por ventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (Lucas 24.32).[7] As doces comunicações do Espírito de Deus por meio dos Sacramentos e dos meios de graça são os primeiros frutos da glória porvir, é a entrada da refeição principal que desfrutaremos na glória! Será que o seu coração, leitor, tem ardido quando você lê a Bíblia ou ouve as Escrituras sendo expostas, quando você ora, quando você toma do vinho e come do Pão da Mesa do Senhor, ou quando você participa de um batismo? Se o seu coração não é inflamado e aquecido através dos meios de graça, rogue a Deus para que o Espírito Santo trabalhe o seu coração para que um dia você possa alegremente dizer como o salmista: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmos 42.2) e, assim, sentir-se saciado pelas palavras de Jesus: “o que crê em mim jamais terá sede.” (João 6.35b).

Existe, também, uma alegria perfeita a ser desfrutada no céu. Essa alegria celestial consiste na vida eterna na presença de Deus na glória. Lá, poderemos desfrutar da comunhão com o Pai, em Cristo, e O apreciarmos, O adorarmos com nossas afeições e nos sujeitarmos perfeitamente à Sua vontade. Como o salmista descreve de maneira tão vívida: “na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”! (Salmos 16.11) Você já se imaginou cantando eternamente junto a todos os eleitos: “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos”? (Apocalipse 5.13) Segundo Thomas Boston: “Eles [os eleitos] devem nadar para sempre em um oceano de alegria e todo objeto que eles virem deve enchê-los com a maior alegria, o que deverá ser sempre fresco e novo para eles, por toda a eternidade”.[8] Cristão, a certeza da vida eterna e da alegria eterna têm moldado como você vive sua vida, ou essa verdade se encontra distante de você? Se não, peça que o Espírito Santo trabalhe esse aspecto tão importante da espiritualidade cristã em sua vida.[9]

Nós devemos ter um vívido senso da alegria perfeita que nos espera na glória. Um homem em letargia, apesar de estar vivo, é tão ruim quanto um morto, porque ele não é sensível, nem tem qualquer prazer em sua vida. Contudo, nós devemos sempre ter em mente os prazeres e as alegrias infinitas que surgem da nossa alegria no Senhor. Nós devemos saber que, em Cristo, nós somos felizes. Nós devemos refletir essa felicidade para o mundo. Nós devemos provar toda doçura que flui de nossa união com Cristo, seja no presente seja na glória.[10]

A alegria que flui da união com Cristo é uma verdade confortadora para todos nós – cristãos que vivem em um mundo cheio de misérias.[11] Ora, naqueles dias difíceis, onde nós não conseguimos encontrar sequer forças para nos alegrarmos, naquelas noites difíceis de pegar no sono, naquelas tardes em que não conseguimos perceber a providência e o conforto de Deus em cada milésimo de segundo de nossas vidas; devemos voltar nossos olhos para Jesus Cristo, lembrando-nos que dEle flui todas as alegrias dessa vida, mesmo que imperfeita agora, será perfeita nas regiões celestiais, onde não existirá mais misérias, só alegrias sem fim na presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

 


REFERÊNCIAS

 

[1] Piper, John. Desiring God: Meditations of a Christian Hedonist, Multnomah Books: Oregon, p. 23

[2] “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.” (Eclesiastes 3.11).

[3] “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?” (Eclesiastes 1.1-2).

[4] Watson, Thomas. A Body of Divinity (Kindle Locations 615-616). Kindle Edition.

[5] Boston, Thomas. The Complete Work of Thomas Boston (Volume 1-12) (Kindle Locations 221-222). Kindle Edition.

[6] Cf.: Boston, Thomas. The Complete Work, 191-192; e Watson, Thomas. A Body, 557-558.

[7] Watson, Thomas. A Body, 558-559.

[8] Boston, Thomas. The Complete Work, 211-213.

[9] Falando sobre “O homem como um Líder do lar”, João Vitor Fernandes Cortial conclui que: “Nosso lar deve visar essa eternidade, e todas as decisões como um líder também, tendo a plena noção que as coisas deste mundo são passageiras, a glória é vaidade e o prazer do pecado é efêmero em comparação ao sofrimento eterno que ele pode nos trazer na morte. Temos que nos preparar como jovens para assumir essas responsabilidades de trazer santidade a nossa família, santidade sem a qual ninguém verá a Deus (Hb 12.14)”, cf.: https://drive.google.com/file/d/1oJ5tnbZJejSvl1fayNGCe0Wcx8LUwmQZ/view. Em outras palavras, o homem cristão deve viver e guiar seu lar com vistas à eternidade.

[10] Watson, Thomas. A Body, 631-634.

[11] Watson, Thomas. A Body, 654-657.

Cristão, reformado, presbiteriano, diácono da Igreja Presbiteriana do Brasil, casado com Daniele Leite, advogado, atualmente cursando o Master of Divinity no Greenville Presbyterian Theological Seminary. É também membro da Igreja Presbiteriana Memorial em Salvador – BA e da Fellowship Presbyterian Church (PCA) em Greer, South Carolina, onde atua como seminarista.

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