A Reforma e a filosofia: influência de Santo Agostinho na reforma protestante

Revisado por: Laísa Caroline
  1. Introdução

Ao longo da História podemos observar o caráter da ação e Soberania divina de Deus durante o curso da existência do homem. Este preceito Soberano inclui a eficácia aplicação dos seus desígnios e seu querer durante cada detalhe ontológico, metafísico e cosmológico de tudo o quanto pode ser apreendido pela razão intelectiva. Este processo regulador de Deus que infere a sua soberania elucida a doutrina mui difundida na fé Reformada, sendo tal doutrina denominada de Providência . Toda a ação Divina na História é meticulosamente definida e expressa por um Deus, não havendo uma possibilidade de um mero contingente regido por um efeito de casualidade, Calvino nos expressa da seguinte forma:

“Para que melhor se patenteie esta diferença, deve-se ter em conta que a providência de Deus, como ensinada na Escritura, é o oposto de sorte e dos acontecimentos atribuídos ao acaso. Ora, uma vez que, em todos os tempos, geralmente se deu a crer, e ainda hoje a mesma opinião avassala a quase todos os mortais, a saber, que tudo acontece por obra do acaso, aquilo que se devera crer acerca da providência, certo é que não só é empanado por esta depravada opinião, mas inclusive é quase sepultado em trevas.”

Diante disso, devemos observar as maravilhas de Deus diante da sua articulação na história, como o seu “dedo escrevera” sobre a mais perfeita linha do destino, suscitando homens piedosos e capacitados por sua Graça para cumprirem o desígnio de sua vontade. Neste ano vigente comemorar-se-á 501 anos da Reforma Protestante, um marco em todo o pensamento cristão e como “herdeiros” desta Reforma devemos estabelecer e reconhecer a Soberania e ação de Deus na história, fazendo uma digressão histórico-crítico, observando os elementos que impulsionaram o monge agostiniano Martinho Lutero em 1517, a promover um retorno as Escrituras, passando dos Reformadores da primeira e segunda geração, transcorrendo os pré-reformadores e chegando àquele a quem é atribuído o título de Doutor da Graça, Agostinho de Hipona, ao qual tanto por Lutero como Calvino, são influenciados, sendo notório a influência do Bispo de Hipona e sua constante contribuição nos escritos em citações direta ou indireta da teologia e aplicações da cosmovisão da Fé Reformada.

2. Santo Agostinho e a Reforma

Aurelius Augustinus Hipponensis nasce em Tagaste em 13 de novembro de 354 e falece em 28 de agosto de 430 em Hipona. Conhecido por ser um dos maiores teóricos da filosofia e teologia cristã na patrística que compreende dos sete primeiros séculos . Agostinho antes de mais nada foi um grande teólogo e através do seu arcabouço intelectual, sua teologia atravessou todo a história, contribuindo direta ou indiretamente no cristianismo tal como o conhecemos hoje. É notório o amor do Hiponense em salvaguardar a Glória de Deus – pode-se notar aí uma semelhança ainda sorrateira do Soli Deo Gloria-, haja vista seus embates duros contra inimigos da fé que se levantaram ao longo de sua vida, onde podemos citar a seita gnóstica maniqueísta, os arianos, pelagianos e montanista. Sua arma sempre fora a Fé embasada nas Escrituras:“As constantes, e por vezes longas, citações bíblicas ou simples transcrições de textos escriturísticos devem-se ao fato de que os padres escreviam suas reflexões sempre com a bíblia numa das mãos.”

Agostinho e a Fé Reformada possuem divergências que podem ser delimitadas em tempos diferentes e progressão cultural adversas uma das outras,onde alguns autores tentam radicalizar tais diferenças, colocando Agostinho e a Reforma (principalmente o Reformador João Calvino da segunda geração) como teólogos totalmente opostos entre si, mas é notório e não pouca os símiles teológicas-filosóficas apresentada entre o Hiponense e a Reforma, aos quais devemos ressaltar.

Suas principais contribuições deve ser conhecida por todo aquele que professa uma fé cristã, bem como todo aquele que além de professar a fé cristã, professa uma fé cristã confessional baseada nas doutrinas dos reformadores, temas como o pecado original, a graça de Deus , a salvação e a predestinação. Esta similaridade bem delineada pelo Santo Doutor contribuiu para a incorporação do retorno para escritura conhecido como Reforma Protestante , diz uma citação indireta de Richard Balge ( Teólogo Luterano) : “Se Agostinho de Hipona tivesse vivido no tempo da Reforma, ele teria se juntado a Martinho Lutero”, bem como a citação de Timothy George (erudito Batista), descreve : “a linha principal da Reforma Protestante pode ser vista como uma aguda agostinianização do cristianismo.”

3. A herança de Agostinho em Lutero

Lutero recebeu uma grande e profunda herança teológica-filosófica de Agostinho, a própria formação de Lutero é totalmente influenciada pelos escritos do Hiponense.  Lutero ingressa na vida monástica entrando para a ordem dos Agostinianos, de Frankfurt, a 17 de julho de 1505. . A influencia de Agostinho dá-se por toda a vida de Lutero, em seu prefácio da Theologia Germânica, obra do século XV e republicada por ele em 1516, Lutero vê em Agostinho um débito impagável, colocando os escritos do Hiponense acima de quaisquer outros escritos de autores não inspirados , em uma citação biográfica referente a vida de Lutero em 1532, nos é posto: “No começo de minha carreira, como professor de teologia, eu não simplesmente lia Agostinho, mas devorava suas obras com voracidade”.

Em outro prefácio de seus Escritos Latinos, de 1545 – um ano antes de sua morte –  O Pai da Reforma Luterana, faz referência direta à Obra De Spiritu et litera  de Agostinho, e diz que há uma enorme similaridade entre seu entendimento sobre a perspectiva de Justiça de Deus. Em uma outra citação, dessa vez postulada pelo seu amigo reformador Melancthon, este postula da seguinte maneira :  “voz intercambiável com a de Agostinho; uma voz que renovava o ensino primitivo da igreja”. A semelhança entre o Hiponense e o Reformador da primeira geração não se aproxima apenas na perspectiva filosófica-teológica, mas também em um processo histórico, sendo ambos recebendo a nomenclatura de “Cisne” como nos apresenta John Piper:Aos 71 anos de idade, quatro anos antes de morrer no dia 28 de agosto de 430, Aurélio Agostinho passou ao seu assistente Eraclius os deveres administrativos da Igreja de Hipona, localizada na costa norte da África. Em sua época, Agostinho já era um gigante no mundo cristão. Na cerimônia, Eraclius levantou-se para pregar, tendo atrás de si o velho Agostinho assentado em seu trono de bispo. Tomado por um forte sentimento de inadequação na presença de Agostinho, Eraclius disse: “O grilo canta, o cisne está silencioso”. O cisne também cantou na voz de Martinho Lutero em mais de um sentido. No dia 6 de Julho de 1415, Hus foi queimado vivo junto com seus livros. Uma tradição reza que em sua cela, pouco antes de morrer, Hus escreveu: “Hoje, vocês irão queimar um ganso (o significado de “Hus” na língua tcheca); porém, daqui a cem anos, vocês irão escutar um cisne cantando. Vocês não irão queimá-lo, mas terão de ouvi-lo”.

4. A herança de Agostinho em Calvino

Mais do que qualquer outro escritor da segunda geração da Reforma Protestante, Calvino fora um profundo apreciador da Teologia e filosofia Agostiniana, fazendo entre 400 citações diretas de Agostinho na última Edição das Institutas da Fé Cristã de 1559. O Teólogo presbiteriano B. B. Warfield, aponta: “o sistema de doutrina ensinado por Calvino é somente o agostinianismo, conforme se vê em todos os demais reformadores. Pois, se a Reforma foi, do ponto de vista espiritual, um grande avivamento da religião, do ponto de vista teológico foi um grande reavivamento do agostinianismo”.

Uma das semelhanças aos quais podemos ver é sobre a questão da perspectiva da Provisão onde diz Agostinho: “Deus – providência, onisciência e onipotência-, criou tudo e tudo governa, de tal forma que nada acontece no universo por acaso”.

Calvino reitera: “E de fato Deus reivindica para si onipotência, e quer que reconheçamos que ela lhe é inerente, não como a imaginam os sofistas, indiferente, ociosa e semi-entorpecida; mas, ao contrário, vigorosa, eficaz, operosa e continuamente voltada à ação; tampouco uma onipotência que seja apenas um princípio geral de movimento indis- tinto, como se a um rio ordenasse que flua por leito uma vez preestabelecido; mas, antes, de modo que se ajuste a movimentos individuais e distintos. Por isso, pois, ele é tido por Onipotente, não porque de fato possa agir, contudo às vezes cesse e permaneça inativo; ou, por um impulso geral de continuidade ao curso da natureza que prefixou, mas porque, governando céu e terra por sua providência, a tudo regula de tal modo que nada ocorra senão por sua determinação. Pois, quando se diz no Salmo [115.3] que ‘Ele faz tudo quanto quer’, trata-se de uma vontade definida e liberada. Ora, seria insipiente interpretar estas palavras do Profeta à maneira dos filósofos, ou, seja, que Deus é o agente primário, visto ser o princípio e a causa de todo movimento, quando, antes, nas coisas adversas, os fiéis se confortam neste alento: que, já que estão debaixo de sua mão, nada sofrem senão pela ordenação e mandado de Deus. Pois, se o governo de Deus assim se estende a todas as suas obras, é pueril cavilação limitá-lo ao influxo da natureza.”

Outra Influência análoga ao Calvinismo é sobre a questão da depravação Total,onde Agostinho mostra em uma análise autobiográfica como este é falho e errante, onde somente pelo auxílio da Graça Divina é que o homem pode fazer o bem.

“Foi então que tuas perfeições invisíveis se manifestaram à minha inteligência por meio de tuas obras. Mas não pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o desejo do perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer”.

Sobre outro pilar do Calvinismo, a teologia de Agostinho já reverbera para tal mudança na história, mostrando um processo de chamada Eficaz:

“Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas comigo, e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.”

Sobre a questão do Livre Arbítrio e a utilização da Graça, mostra-nos Agostinho a depravação do homem e a incapacidade de fazer o bem, se não o for impelido pela Graça:“Que nos ordena Deus em primeiro lugar, e com mais insistência, senão que acreditemos nele? Ora, é precisamente esta graça que ele nos concede”.

Sobre a semelhança do Pecado Original diz Agostinho:

“Sei pois, que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Se se atende ao conhecimento que tem, está de acordo com a lei; se se olha o que faz, ele se rende ao pecado. E se alguém pergunta como se sabe que habita em sua carne, não o bem, mas o pecado, o que diremos senão que o sabe por causa da transmissão da mortalidade e da freqüência da vontade? O primeiro é castigo do pecado original; o segundo, adquirimos enquanto vivemos. Os dois, certamente, a natureza e o costume juntos, fazem muito forte e indomável a concupiscência que provoca a existência do pecado e diz que habita em sua carne, ou seja, que tem estabelecido como um certo poderio e reinado.”

A natureza do homem foi criada no princípio sem culpa e sem nenhum vício. Mas a atual natureza, com a qual todos vêm ao mundo como descendentes de Adão, têm agora a necessidade de médico devido a não gozar de saúde. O Sumo Deus é o Criador ao qual não cabe culpa alguma. Sua fonte é o pecado original que foi cometido por livre vontade do homem. Por isso, a natureza sujeita ao castigo atrai com justiça a condenação.

Bem similar ao que nos é dito pela Confissão de Fé no Capítulo VI, cujo título é : “DA QUEDA DO HOMEM, DO PECADO E DO SEU CASTIGO”

  1. Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma.
  2. Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais.

Ainda sobre a Confissão de Fé de Westminster ( Capítulo IX: Livre-Arbítrio) temos:

  1. Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza.
  2. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.
  3. O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso.

Portanto, não é a nosso intuição afirmar que Agostinho era adepto a toda uma teologia que posteriormente viria a se chamar de Teologia Reformada ou afirmar que ele foi o primeiro protestante, ou mesmo que suas doutrinas eram totalmente de acordo com a Reforma de 1517, isto seria um erro anacrônico, bem como uma mera especulação, pois é nítido perceber que Agostinho como homem de seu tempo, se debruçou e esforçou-se para o seu tempo e para a igreja de seu tempo, mas destarte isto não interfere que o Doutro da Graça através dos seus escritos não rompesse com tal barreira física,  corroborando para uma abertura do processo filosófico-teológico de outros homens que estariam a frente de seu tempo, homens estes que assim como Agostinho, marcariam gerações, contribuiriam para solidificar doutrinas, se levantariam como apologetas e enfrentariam controvérsias da sua fé.

Sendo assim é inegável o papel que Agostinho exerceu sobre o pensamento de Lutero e Calvino, sendo pelo radicalismo dos Reformadores no pensamento Agostiniano, ou a continuação do pensamento do Hiponense, o que torna-se irrefutável é o desdobramento dos escritos de Agostinho sobre a Reforma Protestante sendo um canal, uma instrumentalização de um Deus controlador e gerenciador da História, ao qual, diferentemente do que chama-se hoje de fatalismo, Deus utiliza-se de meios para chegar ao seu fim, sendo o Deus mantenedor do meio e do fim conforme lhe apraz (Rm 11:36)


REFERÊNCIAS
Cf. Instituta da Fé Cristã, I,XIV,2 ,pg 165 ; I,XVI,1-,pg.198-208; I,XVII,1-8;10-11;14, pg’s.211-220;22-223;227; I,XVIII,2,pg.231.
Instituas da Fé Cristã I,XVI,2.
Roger Olson. The Story of Christian Theology: Twenty Centuries of Tradition & Reform. Downers Grove, Ill. IVP Academic, 1999.
Para a maior compreensão do termo Patrística Cf. B Altaner; A.Stuiber, Patrologia, S. Paulo,Paulus,1988,pp.21-22.
Cf. B Altaner; A.Stuiber, Patrologia, S. Paulo,Paulus,1988,pp.21-22.
Richard D. Balge, Martin Luther, Agostinian (artigo publicado em http://www.wlsessays.net/files/BalgeAugustinian.pdf), acessado em 10 de outubro de 2016 às 22:55.
Timothy George. Teologia dos Reformadores (São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 2004), p.76.
Martinho Lutero. Luther Works, LI, xviii.
Peter Fraenkel, Testimonia Patrum: The Function of the Patristic Argument in the Theology of Philip Melanchthon (Genebra: Droz, 1961), p. 32.
PIPPER, John. O legado da alegria soberana. São Paulo: Editora Vida Nova.
Benjamin Breckinridge Warfield, John Calvin: the man and his work(The Methodist Review, Outubro de 1909).
Agostinho. Confissões. Nota de J. Oliveira Santos, apud, De Bono Perseverantiae: Quid vero nobis primitus et maxime Deus iubet, nisi ut credamus in Eum? Et hoc ergo ipse dat (São Paulo, SP: Nova Cultural, 1999), p. 286.
Los dos libros sobre diversas cuestiones a Simpliciano. p. 69-71.
A natureza e a graça. p. 114.

Cristão Reformado, membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, servo de Cristo, pecador por natureza e casado com a Rafaella Moreira. Bacharel em Teologia (FATIN), Licenciado em Filosofia (UFPE) e Mestrando em Filosofia (UFPE), estudante de Agostinho de Hipona.

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