Contra a tradição

Revisado por: Vanessa Lima

Talvez o título deste artigo induza você a achar que trata-se de algo bom, afinal de contas, no período pós-moderno em que vivemos, tudo o que remonte a um passado distante e a uma mentalidade na qual usos e costumes eram regidos e guiados por um espírito que se encarregava de nos transportar ao que teria dito nossos pais e avós é algo tremendamente retrogrado e, consequentemente, deve ser posto de lado dando lugar e vasão ao novo e progressista. Porém, nossa intenção neste texto é demonstrar que existe um mal em nosso tempo, mal esse que consiste em rejeitar a tradição, e que nem sempre esta deve ser vista de modo ruim, muito pelo contrário.

A própria Escritura demonstra que havia uma noção de tradição muito arraigada ao modo como os cristãos deveriam pensar e agir. Um exemplo claro disso é o ensino da Palavra de Deus por Paulo ao jovem Timóteo, quando ele o lembrava das palavras que havia ouvido e aprendido com sua avó Loide e sua mãe, Eunice. O ensino repassado a Timóteo configurava uma interpretação das Escrituras, algo que, naquela situação, não era somente saudável, mas também o recomendado a ser lembrado e vivido.

Quando olhamos para a Bíblia, principalmente no Novo Testamento, nos deparamos com uma expressão muito peculiar do apóstolo Paulo: “Sã doutrina”. Este designativo refere-se ao ensino apostólico das Escrituras: o modo tanto como os apóstolos interpretavam a Palavra de Deus e aplicavam as igrejas, quanto como este deveria ser recebido.

Note que não estamos falando simplesmente da própria Palavra de Deus, a qual até este momento era apenas o Antigo Testamento, mas também ao que está sendo Escrito no período da Nova Aliança. Neste período, os apóstolos estavam dando continuidade a composição dos pilares do cristianismo sobre a base já lançada pelos antigos profetas. O próprio Cristo, em várias passagens, alegou que foi profetizado e teve registradas sua vinda e obra na Lei, nos Escritos, Salmos e nos Profetas. Concluímos, então, que a fluidez da narrativa bíblica, que parte desde os tempos dos patriarcas até os profetas, passando pelos reis e demais escritores do Antigo Testamento, perpassando o embasamento da tradição do Novo Testamento, continua falando sobre Cristo à luz do que antes foi escrito e vivido por todos.

Tendo observado e subscrito a tradição do Novo Testamento, toda a igreja cristã dos primeiros séculos manifesta sua compreensão do ensino bíblico através de credos e demais afirmações que apontam para o teor de sua fé, é o caso dos credos apostólico ou niceno-constantinopolitano. Obviamente, outros materiais são escritos nesse período, porém esses dois credos são recebidos catolicamente[1] pela igreja e representam sua afirmação de entendimento teológico com base no ensino das Escrituras.

A reforma protestante do século XVI nada mais foi do que a retomada da tradição cristã herdada dos apóstolos. Todo o esforço dos grandes reformadores foi para levar a igreja de volta a pureza do ensino profético-apostólico, registrado nas Escrituras Sagradas. O apreço e alta consideração pelo estudo da Bíblia, o desenvolvimento e sistematização de doutrinas, o labor da preparação de material teológico capaz de ensinar ao povo o verdadeiro ensino da Palavra de Deus, a pregação centrada na exposição do Texto Bíblico, tudo isso teve como força motriz o retorno à tradição de Cristo através de seus servos.

Nossa intenção através desse rápido recorte histórico é demonstrar que uma tradição sempre foi quista e abraçada pela igreja. Uma tradição que estivesse de acordo com a Palavra de Deus jamais foi ignorada ou vista como retrograda, mas, sim, como a régua delineadora que nos coloca dentro de uma mesma fé.

A liquidez do mundo moderno sugere que ter ou pertencer a alguma tradição é algo que por si só sugere que nossa mente é “fechada” e incapaz de aceitar convivermos com outras pessoas que pensem diferentes de nós. A pluralidade promovida pela atualidade, no afã de querer tornar novo o ideal, acaba tornando a construção de um pensamento que sobreviva ao passar dos tempos, algo quase, senão, impossível. A despeito disso, foi exatamente a análise e respeito que a igreja teve a sua tradição (isto sendo gerenciado por Deus, mantendo firme o ensino de sua Palavra através do tempo) que promoveu sua uniformidade. Nas palavras de Carl Trueman:

As implicações para os credos e as confissões são óbvias. Escolha a predileta: eles foram escritos por homens brancos, mortos, que se vestiam, de maneira diferente de nós, tinham diferentes atitudes com relação ao mundo, falam línguas diferentes, eram celibatários, não eram celibatários, nunca entenderam a tecnologia ou escutaram Elvis, nunca enfrentaram os avanços científicos dos últimos anos etc. Se nada nos liga a eles, ou se as diferenças entre nós e eles prevalecem sobre qualquer analogia existente entre ambos, então eles não têm nada relevante a nos dizer e é melhor ignorá-los. O mundo em que a natureza humana é apenas uma construção elaborada pelo indivíduo ou por uma comunidade específica, em que se encontra o indivíduo, é o mundo em que os documentos históricos, como os credos, não têm importância transcendente; estão condenados a se tornarem interessantes apenas em sentido muito restrito e específico.[2]

Se não podemos nos abraçar a tradição, se isso por si só é algo que deve ser irrefletidamente considerado algo ruim, estamos fadados a irrelevância.

Graças a essa mentalidade superficial de rejeitar qualquer coisa que seja chamada de tradicional, vivemos uma completa descaracterização da igreja.

Essa mentalidade não é particularidade apenas da igreja, como já dissemos antes, o mundo passou a pensar dessa forma. Um exemplo claro disso são as discussões quanto ao desenvolvimento nas áreas da educação. Pedagogos afirmam que o modo de ensino tradicional deve ser substituído pelo método construtivista, ou algo que dinamize o ensino em sala de aula. Porém, vivemos uma grave crise educacional em todo o mundo. Quando olhamos para a história, percebemos que os maiores gênios que a humanidade já viu, foram instruídos no sistema de ensino “tradicional”.

A tradição não é inimiga do cristão. Devemos levar em consideração toda a carga de tradição que remonta a períodos anteriores, todo o desenvolvimento do pensamento e expressão confessional da igreja que foram construídos por homens que professavam a mesma fé que nós. Nossa consideração quanto a tradição não se equivale ao pensamento romanista, pois, não colocamos a tradição ao lado das Escrituras. O que fazemos é desenvolver nossa tradição a partir das Escrituras, ela sempre será nossa única regra de fé e prática. Nossas confissões e credos, nada fazem a mais do que refletir o ensino bíblico.

Não devemos nos deixar enredar pelo pensamento mundano que liquidifica cada vez mais a sociedade por meio de valores e princípios que nos tornam voláteis e inimigos de nosso passado em termos de tradição, principalmente nós, que pertencemos ao corpo de Cristo. Temos uma tradição a zelar e a confessar.

Cristo triunfa!

 


REFERÊNCIAS

[1] O uso da expressão “catolicamente” aponta para a universalidade dos credos. De fato, poderíamos ter substituído o termo por seu correlato, porém, desejamos expor que, até esse período da história, não havia divisão entre católicos e protestante. Também é válido salientar que, a igreja, tida como protestante é aquela que se mantém fiel a tradição bíblica legada pelos apóstolos, sendo esta a herdeira do título “católica”. Aqui se encontra um pensamento que reflete nossa opinião quanto ao catolicidade da igreja protestante.

[2] TRUEMAN, Carl R. – O imperativo confessional – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2012., p. 45

22 anos, cristão, escritor, blogueiro. Estudante de teologia. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, Recife – Pernambuco.

Deixe uma resposta