Da felicidade em Agostinho

Revisado por: Laísa Caroline

Para Agostinho de Hipona, meu Magistro

e para o Ewtanamme, meu filho. 

“Quando te procuro, meu Deus, procuro a felicidade” (Santo Agostinho, in Confissões, 10, XX).

A busca magna da humanidade é pelo que o santo Agostinho de Hipona (333-350) chamou em Diálogo sobre a Felicidade de “a região da felicidade” ou “terra da felicidade” e de “magnífica pátria”. Sim, a Felicidade é o mais desejado Éden dos homens. A sua procura tem sentido e necessidade num mundo inteiramente desolado como o nosso? E qual é significado e consequências desta terra desejada e, como sentimos, prometida? Como é a busca desta pátria excelente? É sobre isso que versa esse ensaio que componho pensando com Santo Agostinho, cuja morte completa neste mês, no dia 28, 1588 anos. Descobri no Bispo de Hipona um “investigador ardoroso da vida feliz” (Confissões, livro 6) e isso é um incentivo para mim e para todos: a Felicidade é a única que interessa buscarmos nesta vida. Todos dizemos que dinheiro não é felicidade, mas faltamos muito em buscar a Felicidade fora dos limites do dinheiro, do amor ao dinheiro e do seu primogênito – o consumismo. O santo Agostinho é um pastor da felicidade para nós, guiamento inteligente, bíblico e profundo companheiro no caminho da felicidade com quem podemos aprender bastante e, principalmente, debater muito, enquanto caminhamos. É isso que também ensaio aqui.

1. O espírito humano procura a felicidade

Quando o Doctor Gratiae perguntou no seu Diálogo: “Todos queremos ser felizes?”, a “voz da unanimidade” dos que participavam do diálogo deu assentimento. De facto, todos querem ser feliz. É possível encontrares alguém que diga que não quer a felicidade, mas a infelicidade. Contudo, mesmo neste filho de Caim, há busca de felicidade, ele apenas considera infelicidade felicidade. De fato, o que a maioria dos homens chama felicidade, se bem analisada, no fundo, de feliz nada tem senão falsas sombras da felicidade. Mas, seguindo o Bispo, todos os homens buscamos a felicidade e ela em todas as nossas ações, inclusive naquelas ações não práticas, como pensar e sentir, etc. Em Agostinho, a felicidade é um caminho, um mar, uma terra a cujo porto chegamos por meio de uma navegação repleta de obstáculos. O nosso alvo último é a felicidade. O homem trabalha, ganha dinheiro, sonha e batalha apenas para encontrar na terra a felicidade.

O fato de todos buscarem a felicidade não significa necessariamente que logram conquistá-la. Na verdade, pela forma como se vive aqui, não duvido de que a maioria das pessoas desencontra a felicidade. Todos procuram, querem e carecem a felicidade, todavia, só isso não implica que acham-na. A felicidade é como é o céu, não se conquista por quem é mais gigante, por quem mais alto salta, por quem tem maior e mais rápido e resistente tecnologia, não, mas apenas por aquele a que o próprio Céu visitar e capturar para si. Todos buscamos, no caso da felicidade, o que não podemos encontrar pelo mérito das nossas obras, senão pelo mérito da própria Felicidade, que, como diz o Bispo, é uma pessoa.

No princípio, o Éden foi por Deus construído como uma alegoria da felicidade, na terra, e no seu seio plantou o homem, que fizera em dois: Adão e Eva. Entretanto, com a queda destes pais nossos, o homem perdeu a terra santa da felicidade: caiu, dos altos da felicidade, nos antros infelicidade, depravado inteiramente, morto espiritualmente (que significa: escravo de delitos e pecados) – morte que, verdade seja escrita, a sua carne também encena, agencia, para a festa das traças. Se, por um viés, é justo dizer que o homem está morto, por outro, é outrossim válido lembrarmos que a sua busca da felicidade não foi eliminada pelo pecado, ela apenas foi anulada, depravada, sim, apenas perdeu santidade, o Alvo, veracidade, amor e eternidade (o irmão Jonas Madureira diria, como em A Inteligência Humilhada, que essa busca perdeu direcionalidade). O homem busca a felicidade; a espada flamejante, posta pelo Senhor, na entrança do Éden, é testemunha indireta disso: “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3:22-24).

Antes da queda, o homem tinha acesso direto à Felicidade, era feliz e gozava, mas, na pós-queda, foi destituído da natureza gloriosa da Felicidade e a ela não pode regressar. Mas o inato senso de felicidade (o Calvino epiteta isso de sensus divinitatis) continua nele e pulsa dentro dele como que rememorando-o para o que foi criado e de onde caiu e qual é o seu Alvo. É por isso que o homem não pára de tentar regressar ao Éden, onde com a Felicidade habitava, busca-a e essa busca apresenta-se na sua adoração: alguém disse, se bem lembro, que o homem é um animal religioso ou adorativo.

Subjacente à busca da felicidade, arde sem parar o fogo da infelicidade, queimando os homens por dentro, propendendo-os a buscar de todo modo a felicidade; ferve dentro deles, por causa disso, o que o Bispo, no Diálogo, chama de “a fome das almas” – vícios e mais vícios que prometem mas não dão a desejada felicidade; dança neles com coreografia macabra uma gigante ausência e ânsia torta de preenchimento, com ídolos, do vazio do espírito que a felicidade deixou nele: ele é infeliz profundamente: o que é o mesmo que dizer que o homem está morto. As suas festas diárias, sua extravagância nos rituais quotidianos da iniquidade, a sua inclinação cada vez mais irrefreável a todo tipo de coisa que prometa prazer, seu orgulho advindo das riquezas, do poder e do estatuto social, o seu amor ao dinheiro, a sua idolatria e carnavais são provas dessa infelicidade ululante, patente e, embora não saiba, eterna. Nas redes sociais, por exemplo, o homem do nosso tempo tenta mostrar que é feliz exibindo sorrisos e bens de todo tipo para caiar o vazio e a podridão de seu espírito, enganando e engando-se que é feliz. O homem, longe da magnífica pátria da felicidade, vive na adoração de falsos deuses e vivência de falsas felicidades. Mas a sua infelicidade só é acentuada por estes malabarismos. Mônica, mãe de Agostinho, disse: “Se quer bens e os tem, é feliz; se, por outro lado, quer coisas más, ainda que as tenha é infeliz”. Ou seja, não podemos querer e fazer coisas más, mesmo que contra nós mesmos, e colocar a etiqueta de felicidade sobre elas. Não há felicidade nas coisas ilícitas, nos delitos e pecados. Contudo, os homens inventam a felicidade e, de acordo com suas caídas imaginações, definem-na. Vejo-os, leio-os, escuto-os: buscam a felicidade como que tateando, cegos para ela, embora existindo nela mesma, ela vê-lhes e eles não lhe veem.

O Sermão da Felicidade registado por São Mateus é a resposta na busca do homem por Felicidade, pelo caminho para acharmos a Felicidade e para ajudarmos outros a encontrá-la também. Nele, o Raboni diz que os “Bem-aventurados” são “os pobres de espírito”, “os que choram”, “os mansos”, os esfomeados e sedentos de justiça, “os misericordiosos”, “os limpos de coração”, “os pacificadores”, os perseguidos “por causa da justiça”, os injuriados por causa dele (Mt 5). Este é uma parcela do famoso e mais longo registado sermão do nosso Senhor, sobre o qual o pastor Martin Lloyd-Jones, em seu Estudos do Sermão do Monte, diz: “Alguém já sugeriu que poderíamos exprimir essa questão como segue: ssse é o tipo de homem que deveria ser congratulado, esse tipo de homem a ser imitado, pois somente ele é o homem verdadeiramente feliz.”

Todos os homens buscam a Felicidade. Todos os homens foram criados e existem para a Felicidade. É isso que o Santo Agostinho crê como o décimo livro de Confissões diz: “Mas não será justamente a felicidade que todos querem, sem exceção? (…) Mal ouvimos esta palavra [a felicidade], e todos confessamos que desejamos a mesma coisa (…).” É por isso que adverte-nos o irmão Martin Lloyd-Jones, no mesmo livro, que o Sermão da Felicidade não é para algumas pessoas, nem somente para os notáveis homens da nossa religião, mas para todos os cristãos independentemente. Na verdade, Lloyd-Jones também diz o mesmo que Agostinho em palavras que, porque resumem o meu argumento, cito:

“O grande alvo da humanidade é a busca da felicidade. O mundo inteiro anela obter a felicidade, e quão trágico é observar como as pessoas a estão procurando. A vasta maioria, infelizmente, buscava de tal modo que essa busca só produz o infortúnio. Qualquer coisa que, mediante a evasão das dificuldades, meramente torne as pessoas felizes por curto prazo, em última análise só tende por intensificar a miséria e os problemas que elas enfrentam. É aí que entra o carácter totalmente enganador do pecado – sempre oferecendo felicidade, mas sempre conduzindo à infelicidade e ao infortúnio e à condenação finais. O Sermão do Monte, entretanto, diz que se alguém quer ser feliz, aí está o caminho certo. Realmente, somente os bem-aventurados é que são felizes. Essas são as pessoas que deveriam ser congratuladas”.

2. É Deus a essência da felicidade

Estabelecido o fato básico de que todos os homens buscamos a felicidade; é pertinente respondermos brevemente à questão: o que é a felicidade? As respostas variam e excluem-se, mas, antes de enfocar a essência da felicidade, é mister que eu diga: em verdade, em verdade, a pergunta também está errada e autoanula-se. É impossível que algo seja a felicidade, ela não é uma coisa, coisa/algo pode ser meio dela, mas não pode ser ela própria. Entretanto, validez tem a seguinte pergunta: quem é a felicidade? Válida e mais bíblica: os salmistas e os profetas, por exemplo, inquirem ‘quem’ iguala Adonai na obra de ser o sustentáculo último da realidade da beata vita. Eu reconheço que essa diferenciação que fiz não é grande coisa para mentes minimamente sóbrias, salomônicas, mas fi-lo porque os pagãos propendem normalmente a definir a felicidade como coisas, por causa do seu surdo materialismo. E a felicidade é um fenômeno que foge a materialidade como conhecemos, como prega Agostinho, em seu livreto Sermão do Monte, a felicidade no cristianismo é uma coisa interior. E o próprio Sermão da Felicidade, em Mateus 6:31-32, explica o que a felicidade não é: “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram.” (Mt 6:31,32).

O santo Agostinho, no décimo livro de Confissões, afirma que Deus é a felicidade e é ela que buscamos quando a Deus procuramos: “Quando te procuro, meu Deus, estou a procura da felicidade”. Onde encontrarmos a felicidade ali está Deus, se encontrarmos a felicidade isso significa que estamos em posse de Deus, pois são dois nomes do mesma pessoa. Logo, ser feliz, é ter Deus em nós, é ser atingido por Deus como por uma chuva. O que o Hiponense está fazendo é isto: do mesmo modo, por exemplo, que o Discípulo Amado denomina Deus por verdade e amor, ele chama-o de Felicidade. Em Solilóquios, no introito, assim ora o Magistro de Hipona: “Eu te invoco, Deus Verdade, em quem, por quem e mediante quem é verdadeiro tudo o que é verdadeiro. (…) Deus Felicidade, em quem, por quem e mediante quem são felizes todos os seres que gozam de felicidade. Deus Bondade e Beleza, em quem, por quem e mediante quem é bom e belo tudo o que tem bondade e beleza” (pp.16-7). E ainda no livro quarto de Confissões, ele argumenta que é infeliz o homem que detém verdadeiros conhecimentos da filosofia, astronomia e da matemática (das ciências, digo), mas ignora a Deus, do mesmo modo que é feliz quem conhece a Deus, mas ignora as ciências do mundo, porque é Deus a felicidade e quem felicita-nos e não a ciência, como o Bispo africano diz, no mesmo livro: “Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa do seu saber, mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, te glorifica como Deus, e te dá graças, e não se desvanece em seus pensamentos.”

Os Salmos dizem que a lei e a presença do Senhor são a felicidade (Salmos 1 e 16 são exemplos). E o amado Westminster, com propriedade salmista e teológica, confessa que a felicidade é o “deleitar-se Nele para sempre”. No Sermão da Felicidade, há um sentido da felicidade que a mim muito me toca: o “Reino de Deus” – o reino de que, como disse acima, o Éden era alegoria, imagem. Esse reino é que nos é ordenado buscar no mesmo Mateus 6 e que Mateus 5 nos apresenta em termos inconfundíveis e paradoxais. Caídos da felicidade, como Adão, os homens buscaremos nas vestimentas, nas comidas e nas bebidas (outras palavras para riquezas deste mundo, iscas e altares-templos de Mamom) a nossa felicidade ausente (o John Milton chama-a de Paraíso Perdido). Mas o Sermão da Felicidade promete levar-nos à terra santa da felicidade – o Reino de Deus, se buscarmos a felicidade e não as falsas imagens dela que este mundo oferece e promete. Aos que buscam essa falsa felicidade, o Hiponense chama e repreende, no livro quarto de Confissões: “Voltai, pecadores, ao coração, e ligai-vos àquele que é vosso criador. Firmai-vos nele, e estareis firmes; descansai nele, e estareis descansados. Para onde ides por esses ásperos caminhos? Para onde ides? O bem que amais, dele procede, mas só é bom e suave quando se dirige a ele; porém, será justamente amargo se, abandonando a Deus, amardes injustamente o que dele procede. Por que continuai por caminhos difíceis e trabalhosos? O descanso não está onde o buscais. Buscais a vida feliz na região das trevas: não está lá. Como achar a vida bem-aventurada onde nem sequer há vida?” Deus, em última estância, é a terra original da felicidade e adquiri-la é adquirir aquele Vinho e Pão que Isaías nos convida na sua poesia profética a comprar sem dinheiro e a comer e beber, sim, e beber aquela água viva que mata a sede primordial e espiritual que o nosso Jesus ofertou a Samaria em forma de mulher, na cidade de Sicar. Água de que o próprio poço de Jacob era prenúncio precoce e frágil. Em palavras planas: ter a felicidade significa que Deus no-la concedeu como uma graça, um dom. Isso vai também como o Hiponense diz, sobre a felicidade, na entrança do seu Diálogo: “não vejo que mais mereça ser considerado um dom de Deus”.

Deus é a felicidade e somos felizes se estamos em e somos de Deus, o que significa, como aprendemos com o alegre irmão John Piper, quando alegramos e satisfazemo-nos em Deus. O Agostinho, no livro 10 do Confissões, põe isso assim: “A felicidade é uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: tu és essa alegria! Alegrar-se de ti, em ti e por ti: isso é felicidade. E não há outra. Os que imaginam outra felicidade, apegam-se a uma alegria que não é a verdadeira”. A Felicidade, portanto, é, além de Deus, alegria, e Deus é que a alegria. A Felicidade está na alegria, mas não em qualquer espécie de alegria. Agostinho: “Longe de mim, longe do coração de teu servo, Senhor, que a ti se confessa, a ideia de encontrar a felicidade não importa em que alegria!”. A alegria é que é felicidade e sua fonte é a alegria de Deus. Salmos: “Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei. Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (16:8-11). A alegria que é o “o gozo do teu Senhor” é esta alegria somente que sinonimiza a felicidade. Seguem este Salmo as seguintes palavras do Bispo de Hipona, no décimo livro do Confissões: “É que a felicidade é a alegria que provém da verdade. E essa alegria é a que nasce de ti, que és a própria Verdade, ó meu Deus, minha luz, saúde de meu rosto! Todos querem essa vida, a única feliz, essa alegria que se origina na verdade.”

Agostinho buscava e vivia a felicidade da verdade, a felicidade verdadeira, que é o Deus e a alegria e a verdade em e de Deus. Buscar a Deus, por isso, era sinônimo de procurar a felicidade, o que é impossível sem um amor radical pela verdade. Várias e falsas felicidades virão e apresentar-se-ão diante de nós, prometendo-nos cada uma ser a verdadeira felicidade, a própria. Sem o conhecimento e a vivência da verdade, o engano é inevitável. A verdade, só ela liberta, e quem não é libertado pela Pessoa da verdade pode ser feliz com alguma gota de verdadeira felicidade? E o que chamo Verdade, também poderia cognominar Sabedoria, outra definição da felicidade na óptica do Hipenense, todavia, não é o que 1 Coríntios 2:6 epiteta “a sabedoria deste mundo”, pois como disse-me João 1:10, a Sabedoria “estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu”. Como disse o Hiponense, já nos confins do Diálogo sobre a felicidade: “Ora bem, acabamos de o provar: ser feliz consiste em não ser indigente, ou seja, em ser sábio. (…) Quando a alma, tendo encontrado a sabedoria, a contempla de facto, para recorrer à expressão que o menino empregou, a ela se fixa e não ao engano das aparências, cujo envolvimento a leva a afastar-se de Deus e a afundar-se, e não se deixa alterar, agitada pelas coisas vãs, então a alma não receia nem a falta de moderação nem a indigência, nem a infelicidade. Deste modo, quem é feliz possui a sua medida, isto é, a sabedoria”. Mas também o que é a sabedoria? Aqui o Bispo advoga, contrariando os filósofos, mas seguindo e imitando Paulo e João, que a sabedoria é o nosso Senhor Jesus Cristo. Como lemos:

“Mas a que é que devemos chamar sabedoria, senão à sabedoria de Deus? Aceitamos por divina autoridade que o Filho de Deus é a sabedoria de Deus e o Filho de Deus é seguramente Deus. Portanto, quem é feliz possui Deus (…). Mas, na vossa opinião, que é a sabedoria senão a verdade? De facto, isso também já foi dito: «Eu sou a verdade». A verdade que existe deste modo é devida a uma suprema medida, da qual procede e com a qual coincide inteiramente. E nenhuma outra medida é superior àquela suprema medida: portanto, se a medida suprema é a medida em virtude da suprema medida, é em si mesma uma medida. Mas também é necessário que a suprema medida seja uma verdadeira medida. Como, portanto, a verdade é originada pela medida, assim também se conhece a medida pela verdade. Por conseguinte, nunca existiu a verdade sem medida, nem a medida sem a verdade. Quem é o Filho de Deus? Já foi dito: «é a verdade». Quem é que não tem pai? Quem senão a suprema medida? Quem, portanto, chegar à suprema medida pela verdade, é feliz. Isto é que significa para a alma possuir Deus, ou seja, gozar de Deus(25). As restantes coisas, ainda que Deus as possua, não o possuem.”

Mas, se todos querem a felicidade e ela é água que transborda da fonte chamada Verdade, por que todos odeiam a verdade? Isso é um paradoxo. Agostinho notou que ninguém queria ser enganado e nem optaria por alegria mentirosa, conscientemente. Lemos:

“Visto que não querem ser enganados, também amam a verdade, e desde que amam a felicidade, que nada mais é que a alegria proveniente da verdade, certamente também amam a verdade; e não a amariam se não retivessem dela, na sua memória, alguma noção. Por que, então, não se alegram com ela? Por que não são felizes? Porque se empolgam demais com outras coisas, que os tornam mais infelizes do que a verdade, de que se recordam fracamente, e que os faria felizes”.

Mas se amam e querem a felicidade e não aceitam a mentira quando são eles os alvos, porque a verdade desagrada tanto e gera ódio? Agostinho responde:

“Por que os homens olham como inimigo aquele que a prega em teu nome, uma vez que amam a felicidade, que mais não é que a alegria nascida da verdade? Talvez por amarem a verdade de tal modo que tudo de diferente que amam, querem que seja verdade; e, não admitindo ser enganados, também não querem ser convencidos de seu erro. Desse modo, detestam a verdade por amarem aquilo que tomam pela verdade. Amam-na quando ela brilha, mas odeiam-na quando os repreende; e, como não querem ser enganados, mas enganar, eles a amam quando ela se manifesta, mas a odeiam quando ela os denuncia. Porém ela os castiga; não querem ser descobertos pela verdade, mas esta os denuncia, sem que por isso se manifeste a eles”.

Sem uma exposição radical à Verdade, não há como sermos felizes, ainda que a Felicidade rodeie-nos, por ser divina e presente no mundo como Deus está presente. Todos querem a felicidade, mas nem todos a verdade, porque ela denuncia as caiaduras dos sepulcros, condena as raças de víboras, chicoteia os mercadores da oração, acusa as lavaduras apenas externas dos pratos e dos copos do moralismo e do legalismo. Em linguagem mais chã, a verdade arrasa a pose, a fake news, a fake fé, a fake oração, a fake tolerância etc. Ela chumba toda essa “boa imagem” que fazemos de nós mesmos como os mais santos de toda a história humana. A verdade é o único caminho para a felicidade, para a alegria, a quem o homem não chegará jamais se não passar pela porta estreita da verdade. Do contrário, permanecerá na infelicidade em que Adão e Eva vomitaram-nos. Sobre isso, Agostinho ainda diz: “Contudo, apesar de tão infeliz, prefere encontrar alegrias na verdade que no erro. Será, portanto, feliz quando, livre de perturbações, se alegrar somente na Verdade, origem de tudo o que é verdadeiro”.

Para ser feliz, o homem precisa de buscar e encontrar o Eterno, nas palavras do Bispo, no Diálogo sobre a Felicidade, deve de possuir “algo sempre permanente, não dependendo das incertezas da fortuna, nem sujeito às circunstâncias. Porque o que é mortal e caduco não pode ser por nós possuído quando queremos ou durante tanto tempo quanto queremos”. Essa eternidade da felicidade do homem inexiste no mundo, pois só Deus é permanente, eterno, enquanto tudo e todos passam ou nem sempre existiram. Depois do assentimento unânime quanto a esse ponto, o Agostinho avança para estabelecê-lo mais claramente, e eu cito esta parte do Diálogo pela bela e convincente forma como foi expressa:

“– E Deus? Parece-vos que Ele é eterno e sempre permanente? – perguntei. – Isso é uma coisa tão certa que, de facto, nem é preciso perguntares – disse Licêncio. Todos os outros, com perfeita piedade, concordaram em harmonia. – Portanto – disse eu –, quem possui Deus é feliz. Tal afirmação foi aceite com agrado e regozijo.”

Quem está com Deus, quem possui, como diz o Bispo, “este grande bem da alma”, só ele é feliz. O que está aqui a ser dito é, portanto, que Deus é quem é a felicidade e somente o homem que detém o conhecimento de Deus, através de Cristo é feliz, “bem-aventurado”. O Agostinho, no livro quarto do Confissões: “Feliz o que vos ama…”. E isso vai também, no mesmo diapasão, com o que exclamou a Mônica, mãe do Bispo, nos finais do Diálogo, em resposta alegre ao seu filho quando esse disse, sobre Deus e Jesus – fonte e substância da nossa felicidade, que “a plena saciedade das almas, a vida feliz, consiste em conhecer perfeita piedade quem nos guia para a verdade, que verdade fruir, e através de quê nos unimos com a suprema medida”. Ela disse, ainda: “É esta, sem qualquer dúvida, a vida feliz, que é a vida perfeita, para a qual podemos ser conduzidos se nos desembaraçarmos, munindo-nos previamente com uma sólida fé, uma vida esperançosa e uma ardente caridade”. Assim, a mãe de Agostinho nos assenta no próprio Salmos 1.

Deus é a felicidade de Agostinho.

Nota: Esta é a parte primeira do ensaio, a segunda versará sobre o dever de buscarmos a felicidade, como obter a felicidade, quem é o homem feliz e a felicidade na vida prática do cristão.

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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