Esperança no governo?

Revisado por: Vanessa Lima

“No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo.” (Isaías 6.1)

Em busca de esperança em meio às aflições

Viver em um mundo caído significa encarar cotidianamente as consequências do pecado. Lidar com o pecado em nós mesmos, com os pecados cometidos pelos outros contra nós, com o amor que cada vez mais se esfria, com o ódio e egoísmo, com o amor ao dinheiro, que leva as pessoas a cometerem atrocidades, assim como o amor ao poder, pode nos deixar desesperançados e angustiados. Às vezes, assistir ao noticiário na televisão resulta até em certo mal-estar… Nos deixando, acredito eu, frequentemente preocupados com o rumo que este mundo está tomando e, especialmente, com o futuro do nosso país, o Brasil.

Nossos corações anseiam por um lugar de segurança, de esperança, onde possamos descansar e nos alegrar. Graças a Deus, por intermédio do sacrifício de Cristo, temos esse lugar, que é no próprio Deus. Porém, ainda estamos no mundo, vivendo nessa realidade cheia de dor, sofrimento, asseverando, o que em sua oração sacerdotal, o Senhor Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal.” (João 17.15). Ele também nos disse: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16.33).

Mas, diante de tantas angústias e provações em nossas vidas pessoais, dos sofrimentos dos que amamos, e, ainda mais, de uma nação que cada vez mais se seculariza, rejeitando Deus e louvando o que Ele odeia, das incertezas quanto à economia, da agressividade, ódio e da idolatria na política, das incertezas do futuro e das tragédias com as quais nos deparamos, a pergunta sincera que muitas vezes surge em nossos corações é: Como ter bom ânimo em meio a isso tudo? Como ter paz em Cristo? A resposta de que precisamos não está em outro lugar senão na Palavra de Deus.

O Rei assentado no trono

O profeta Isaías teve uma visão da glória e da majestade do Senhor no ano em que morreu o rei Uzias. Para entendermos um dentre os muitos ensinos que esse trecho pode nos transmitir, é preciso saber quem foi o rei Uzias.

Também chamado de Azarias, Uzias foi filho de Amazias. Seu pai, que reinou em Judá do ano de 796 a.C. até 767 a.C, tem um relato de sua vida que descreve fidelidade e infidelidade, alianças com estrangeiros, uma reação de desobediência em face da advertência profética e idolatria. O autor de 2 Crônicas afirma que “Depois que Amazias deixou de seguir ao SENHOR, conspiraram contra ele em Jerusalém, e ele fugiu para Laquis; porém enviaram após ele homens até Laquis e o mataram ali” (2 Cr 25.27).

Depois dessa morte por traição, ato pecaminoso dos conspiradores, mas, ao mesmo tempo, permitido por Deus em Sua soberania, como juízo sobre a vida de Amazias, o cronista relata que o povo de Judá tomou a Uzias, na época com apenas dezesseis anos, e o constituiu rei no lugar de seu pai (2 Cr 26.1). Ele foi, portanto, alguém que todo povo desejou ter como rei, tanto que a Bíblia ressalta que o tomaram e o constituíram como o governante de Judá.

O capítulo 26 de 2 Crônicas descreve seus atos, destacando vitórias em conflitos com outras nações (v. 6-8), êxito nas questões internas de Judá (v. 9-10), força militar significativa (v. 11-15), tudo isso, claro, por causa da bênção do Senhor sobre ele: “nos dias em que buscou ao SENHOR, Deus o fez prosperar” (v.5b) e “porque foi maravilhosamente ajudado, até que se tornou forte” (v. 15b).

O final de sua história, no entanto, é triste. Porque “exaltou-se o seu coração para a sua própria ruína” (v.16), ele cometeu transgressões contra Deus: entrou no templo para queimar incenso no altar, tarefa designada por Deus para os sacerdotes. Mesmo em face da resistência destes, ele prosseguiu em seu intento, até que o Senhor o castigou com lepra. Assim ficou ele até o dia de sua morte, morando em uma casa separada, excluído da casa do SENHOR, enquanto seu filho Jotão “tinha a seu cargo a casa do rei, julgando o povo da terra” (v. 21b).

Apesar do orgulho que se apoderou de seu coração, vê-se pelo relato em 2 Reis 15.3 que ele não foi como os reis de Israel, nem como alguns de Judá, que o autor explicitamente afirma terem sido maus aos olhos do Senhor, pois dele se diz: “Ele fez o que era reto perante o SENHOR” (v. 3b). Foi um rei querido pelo povo, próspero durante considerável parte de seu reinado, que foi bastante longo – “e cinquenta e dois anos reinou em Jerusalém” (v. 3a). Assim, é possível imaginar a sensação de medo, incerteza e insegurança em Judá quando ele morreu (provavelmente em 740 ou 739 a.C.).

No ano de sua morte, no entanto, o Senhor apareceu para o profeta Isaías. Majestoso, poderoso, glorioso, “assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo” (Is 6.1). Apesar do provável rebuliço e comoção nacional, uma coisa era certa: o Senhor continuava reinando sobre o universo; nada havia fugido ao Seu controle.

Deus é o mesmo, e sempre o será, pois é eterno, imutável. Ele continua reinando, é o Senhor da História. Nada foge ao Seu controle, nem no passado, nem no presente, nem no futuro. É essa certeza que precisamos ter em nossos corações, durante toda a vida, sobre todos os assuntos, dos mais corriqueiros até aqueles cruciais, que mudam os rumos de nossas existências. É esta a esperança que deve nos sustentar quando pensamos sobre o futuro do país e os rumos da política: o que Daniel disse que o rei Nabucodonosor, o homem mais poderoso dentre as nações na época, aprenderia através do juízo de Deus em sua vida:

“Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; e far-te-ão comer ervas como os bois, e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” (Dn 4.32)

Soberania, bondade e sabedoria

O nosso Deus soberano “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Podemos nos alegrar ainda mais porque essa vontade é “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2b). A partir de textos bíblicos como esse, dentre inúmeros outros, conhecemos o caráter do Senhor de maneira mais profunda, e aprendemos que Deus é ao mesmo tempo justo, soberano e bondoso. Assim, mesmo quando o povo de Deus passa por sofrimentos, dificuldades e incertezas quanto à política, é possível ter a certeza de que tudo está debaixo do controle do Deus santo, justo e bondoso. Mesmo que não entendamos as circunstâncias, com base no Seu caráter revelado na Escritura “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8.28). Ele não abandona aqueles com quem estabeleceu uma Aliança, e tem permanente disposição em lhes fazer o bem. Esse bem de que trata o versículo é nós sermos “conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (v.29b).

Além disso, nosso Senhor é sábio. O apóstolo Paulo, fascinado com esse atributo de Deus, profere louvor a Ele em Rm 11.33-36:

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”

 É nesse Rei eterno, perfeito, santo, bondoso e sábio que precisamos descansar.

Esperança

Uma ressalva importante: a soberania de Deus de forma alguma exime os seres humanos da responsabilidade por seus atos. Logo, nós, enquanto cristãos, precisamos confiar no Senhor quanto ao futuro do nosso país, e ao mesmo tempo votar de maneira sábia, em conformidade com a cosmovisão cristã. Todos aqueles em posição de autoridade serão também cobrados por Deus pela maneira como exerceram suas funções.

Assim, o conhecimento da soberania de Deus sobre a política de modo algum nos acomoda ou nos torna fatalistas, mas retira nossa esperança da política, dos governos, e a direciona para o lugar certo – para o Soberano dos reis da terra (Ap. 1.5). Nos faz dizer como o salmista: “Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança. Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei jamais abalado.” (Sl 62.5-6). Nos faz orar como o rei Josafá, quando se deparou com uma coalizão vindo à peleja contra Judá:

Ah! SENHOR, Deus de nossos pais, porventura, não és tu Deus nos céus? Não és tu que dominas sobre todos os reinos dos povos? Na tua mão, está a força e o poder, e não há quem te possa resistir. […] Ah! Nosso Deus, acaso, não executarás tu o teu julgamento contra eles? Porque em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti.

            Esperança no governo? Somente no governo do Príncipe da paz, cujo reinado jamais terá fim! E em face de todas as incertezas e dificuldades neste país, lembremos das sábias palavras do maravilhoso poema de William Cowper, God moves in a misterious way:

“Não julgues o Senhor por fraco senso, mas confia nele por sua graça. Por trás de uma providência carrancuda, esconde-se um rosto sorridente”.

22 anos, pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Boa Viagem, em Recife e estudante de Direito. Uma sonhadora que permanece com os pés no chão graças à Palavra de Deus.

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