Por que uma liturgia?

Revisão: Vanessa Lima

Há uma dupla razão por que o Senhor, ao condenar e proibir toda espécie de culto ilusório, exige que obedeçamos apenas à sua voz. Primeira, a tendência dominante de estabelecer sua autoridade, para que não sigamos nosso próprio prazer, mas dependamos inteiramente da sua soberania, e, segunda, a nossa insensatez é tanta que, quando somos deixados livres, tudo quanto podemos fazer é nos transviar. E depois, uma vez desviados da reta vereda, não há fim para nossos extravios até acabarmos soterrados debaixo de uma multidão de superstições. É de modo merecido, portanto, que o Senhor, com o propósito de vindicar seu direito e domínio plenos, prescreve com todo rigor o que desejar que façamos, e rejeita de pronto, todo artifício humano em desarmonia com seu mandamento. É de modo merecido, também, que ele define os nossos limites com termos explícitos para que, pela invenção de formas errôneas de adoração, não provoquemos contra nós, a sua ira.[1]

Depois de mais de 500 anos, o que pode ser percebido é que quando falamos em liturgia, há um completo estranhamento do que significa isso ou quando há algum tipo de referência, o que vem a mente é o culto romanista ou anglicano (NEdS, p. 14, §1). Essa mentalidade é alimentada pela compreensão de que o culto na igreja do século XXI, de alguma forma, deve ser vivenciado ou praticado com um certo tom de inovação ou liberdade. Há por exemplo, quem faça uma interpretação abrupta do texto que (… procurar texto), diz que, “onde o Espírito está, ali há liberdade. Em primeiro lugar, o texto não está falando sobre o culto, mas de que fomos libertos pelo Espírito Santo do jugo do pecado. Em segundo lugar, a liberdade que se advoga fere diretamente o princípio bíblico de culto.

Quando olhamos para as páginas da Escritura, procurando perceber como acontecia o culto ao SENHOR, nos deparamos com uma informação aterradora: o povo não era independente ou livre para adorar ao SENHOR como desejasse. Após a instituição da Lei e reafirmação do pacto, a partir do texto 22.16 do livro de Exôdo, vemos que são promulgadas diversas leis que abrangem o culto: apenas uma tribo que deveria ser responsável por oficiar e auxiliar todo o resto a cultuar ao SENHOR; as vestes que estes usariam; todos os utensílios do tabernáculo; como o próprio tabernáculo seria disposto, quanto mediria; como funcionaria o rito de culto; o material das peças; o dia em que se sucederia o culto; enfim, todos os detalhes que envolviam o culto a YHWH estavam determinados e bem estabelecidos.

O povo hebreu, recém-saído do Egito, conviveu no meio de um povo que adorava outros deuses, o qual tinha uma forma de culto determinada pelos homens, diferentemente do que agora deveria ser feito no meio do povo de Israel. Enquanto que os pagãos ofereciam seus cultos aos deuses da forma como entendiam que deveriam ser adorados, e para tal era válido toda e qualquer justificativa, Israel tinha uma clara noção de como o único e verdadeiro Deus deveria ser reverenciado, uma vez que o próprio Rei do universo havia instituído o culto ao seu santíssimo nome.

Uma das tônicas mais evidentes na instituição das leis relacionadas ao culto é quanto a excelência do mesmo. Na determinação do sábado judaico, em Ex. 20, o SENHOR Deus é enfático em declarar que nesse dia “não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tua portas para dentro” (Ex 20.10), e quando é exposto a razão, é dito que tendo realizado toda a obra da criação, nesse dia “o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (Ex 20.11).

O culto ao SENHOR é a atividade mais importante para o cristão. Nas palavras do Dr. Payne: Ao se reunirem para adorar a Deus no Dia do Senhor, os cristãos tomam parte da atividade mais significativa, importante e maravilhosa que possa existir.[2] Quando observamos o que diz o Breve Catecismo de Westminster em sua primeira pergunta, é perceptível a coerência dessa afirmativa: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.[3] Empregar essa compreensão ao nosso sentimento e visão do culto a Deus é mais que apropriado, tendo em vista que não há outra atividade que cumpra de melhor maneira esse propósito do que o culto ao SENHOR.

Se isto é verdade, e o culto é a atividade mais importante na vida cristã, e que a palavra de Deus prescreve como ele deve ser realizado, pressupõe-se que existe um modo para fazê-lo, um método, ou no mínimo uma organização de todos os itens determinados na Escritura para tal. A isto chamamos liturgia.

O reformador João Calvino, 450 anos atrás, já combatia a deturpação do princípio bíblico que regula o culto. Como na citação inicial deste artigo, o reformador de Genebra além de demonstrar altíssimo apreço pelo culto, via a necessidade de que todo o serviço deste fosse norteado pela percepção daquilo que Deus havia determinado para que acontecesse no culto ao Seu nome. João Calvino disserta sobre a tendência humana de se desviar dos padrões escriturísticos, e seria um enorme engano achar que nós, no século XXI, estaríamos de alguma forma isentos ou livres de cairmos nesses erros, principalmente se levarmos em consideração os argumentos usados para que o culto seja alterado.

Com o pós-modernismo e seu apelo a satisfação pessoal, denominações inteiras tem mudado seu conceito de culto, observando e questionando qual é de fato a participação dos membros no mesmo. O pastor e teólogo John MacArthur, analisando um fato que mostra a perspectiva atual do que é tido por “culto” em muitas igrejas, relata:

Um artigo escrito no The wall Street Journal descreveu a proposta de uma conhecida igreja no sentido de “reanimar a assistência aos cultos dominicais noturnos”, a igreja “exibiu uma luta livre entre seus empregados. Tendo em vista a preparação para o evento, dez funcionários foram instruídos por Tugboat Taylor, um ex-lutador profissional, em puxar os cabelos, chutar os queixos dos outros e arremessar seus corpos ao chão sem lhes causar qualquer dano.

[…] uma grande igreja do sudoeste do Estados Unidos acaba de instalar um sistema de efeitos especiais, que custou meio milhão de dólares, capaz de produzir fumaça, fogo, faíscas e luzes de laser no auditório. A igreja enviou alguns de seus membros para estudar, ao vivo, os efeitos especiais do Bally’s Casino, em Las Vegas. O pastor terminou um dos cultos sendo elevado ao “céu” por meio de fios invisíveis que o tiraram da vista do auditório, enquanto o coral e a orquestra adicionavam um toque musical à fumaça, ao fogo e ao jogo de luzes.[4]

Se Calvino estava preocupado e protestava contra as aberrações que haviam em seu tempo que feriam os princípios estabelecidos pela Escritura para o culto, ficaria pasmo com o que aconteceu dentro da igreja do século XXI, principalmente no Brasil.

A liturgia é o meio pelo qual as igrejas podem, em primeiro lugar buscar uma ordem para o culto público, baseando-se no que é prescrito pela Lei de Deus para o mesmo. A partir disso então, é organizado uma sequência de momentos que, norteados por esses princípios, darão fluxo ao culto. A grande questão não é o uso de uma liturgia, ou, o uso de uma liturgia pré-estabelecida e publicada para acompanhamento de todos os presentes no mesmo, pois “toda igreja tem uma liturgia, não importa se seus membros se considerem litúrgicos ou não”.[5]

O que definirá uma liturgia como sadia é os princípios que estão por trás de sua elaboração. Se algum elemento do culto foi omitido ou alterado, incorre-se em um grave erro na adoração cristã. O culto foi comprometido e corrompido. Observando os elementos ordinários do culto, a Confissão de Fé de Westminster afirma que:

A leitura das Escrituras com o temor divino, a sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência; o cantar salmos com graças no coração, bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo – são partes[6] do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso.[7]

A implicação de uma alteração no modo como Deus deve ser adorado, como dito antes, é a corrupção do mesmo, o que pode tornar o ato de culto, (a depender das intenções por trás da alteração) um culto idólatra. Como afirma Willian Perkins: “quando os homens prescrevem uma adoração inventada, também prescrevem um Deus inventado”.[8]

Tratando sobre o zelo de Deus para o culto, Thomas Watson assevera:

Deus é muito ciumento dessa adoração divina; ela é a menina dos seus olhos, é a pérola de sua coroa, a qual ele guarda – como fez com a Árvore da Vida – com querubins e uma espada flamejante, afim de que ninguém se aproxime para profana-la; a adoração divina precisa ser exatamente como o próprio Deus determinou, se não, é oferecer fogo estranho (Lv 10.2). O Senhor fez Moisés construir o tabernáculo “conforme o modelo […] mostrado no monte” (Êx. 25.40); ele não deve deixar fora nem acrescentar nada ao que está no modelo. Se deus foi tão preciso e específico quanto ao local do culto, quanto mais preciso será quanto à questão de sua adoração! Com certeza aqui tudo deve ser de acordo com o modelo prescrito em sua Palavra.[9]

Ter uma liturgia conforme os padrões postos pela Escritura, garante ao crente que sua igreja, domingo após domingo, adorará de fato ao SENHOR Deus Triuno, e isso recai numa maior consideração pelo culto. Se o Deus todo-poderoso prescreveu uma maneira pela qual deve ser adorado e se a seguimos, o sentimento de reverência é estimulado com muito mais eficácia, pois os elementos constitutivos no culto e o seu desenrolar não foram postos ali por fruto da criatividade humana, pois se assim fosse, nada mais haveria de reverente no culto, senão uma louca e perdida corrida pela satisfação dos próprios anseios, como vemos em diversas igrejas na atualidade.

O culto deve ser visto com o mais alto e afinco apreço, pois é a atividade solene que reúne os santos salvos e alcançados pela graça de Deus em seu Filho Jesus Cristo, e que por sua vez, recebem a aplicação da obra redentora do Filho através do operar magnífico do Espírito Santo, fortalecendo-nos pela pregação fiel da sua palavra e administração dos sacramentos. Tudo isso por meio de uma liturgia que proporcione a percepção de que os elementos daquele culto de fato são aqueles prescritos pela Escritura, proporcionando a igreja convicção e segurança no momento de louvor ao Deus todo-poderoso.

Cristo triunfa!


REFERÊNCIAS

[1] CALVINO, João em, The Necessity of Reforming The Church, apud PAYNE, Jon D. – No esplendor da santidade: Redescobrindo a beleza da adoração reformada para o século XXI – Recife, Editora Os Puritanos, 2015., p. 12, 13.

[2] PAYNE, Jon D. –  No esplendor da santidade: Redescobrindo a beleza da adoração reformada para o século XXI – Recife, Editora Os Puritanos, 2015., p. 11.

[3] O Breve Catecismo de Westminster – 2. ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 7.

[4] MACARTHUR, John – Com vergonha do evangelho: quando a igreja se torna como o mundo – São José dos Campos – SP, Editora Fiel, 2014., p. 75, 76, 77.

[5] HART, D. G. em Recorvering Mother Kink: The Case for Liturgy in the Reformed Tradition, 70, apud PAYNE, Jon D. – No Esplendor da Santidade No esplendor da santidade: Redescobrindo a beleza da adoração reformada para o século XXI – Recife, Editora Os Puritanos, 2015., p. 14.

[6] Também sendo um elemento a oração, conforme exposto no parágrafo III

[7] Confissão de Fé de Westminster – 17ª ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2008. p. 173.

[8] PARKINS, William  em Warning against idolatry, em: Teologia Puritana: doutrina para a vida – São Paulo: Vida Nova, 2016., p. 939.

[9] WATSON, Thomas em A body of divinity, em: Teologia Puritana: doutrina para a vida – São Paulo: Vida Nova, 2016., p. 939.

 

22 anos, cristão, escritor, blogueiro. Estudante de teologia. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, Recife – Pernambuco.

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