A memorização dos Salmos: sua importância e modo – parte II

Revisado por: Laísa Caroline

Essa é a segunda parte do texto em que discorro acerca da memorização dos Salmos, em termos de sua importância e modo. Caso não tenhas lido a primeira parte, clica neste link.

No texto anterior, terminei apontando o exemplo e o testemunho de alguns dos pais da igreja, bem como a ênfase da memorização do Saltério no âmbito da Igreja Oriental e do monasticismo de modo geral. Por mais que considere suficientes esses e outros argumentos já desenvolvidos no primeiro texto, penso que ainda há mais boas razões a serem enfatizadas em prol do que foi proposto. Jerry Bridges (2008, p. 49) discorre que o processo contínuo de exercício na piedade se encontra jungido ao que ele denomina de método de Ingestão da Palavra. Esse método consiste em 5 partes unidas em torno das Escrituras, as quais são (a) ouvir, (b) ler, (c) estudar, (d) memorizar e (e) meditar.

Atendo-se especialmente à memorização no processo de absorção da Palavra, o Bridges (2008, p. 54,55) aponta o Sl. 119.11, o qual diz: “Guardo no coração as tuas palavras para não pecar contra ti”, como um dos textos clássicos para a memorização das Escrituras. O verbo traduzido por guardar, no hebraico teria mais proximidade descritiva com o verbo armazenar. No versículo, portanto, guardar, armazenar, conservar e entesourar a Palavra de Deus era o meio pelo qual a própria Palavra de Deus guardaria o salmista da tentação e do dia mau, gerando positivamente o crescimento do novo homem em todas as suas áreas, especialmente em sua devoção e progresso na vida de semelhança a Deus.

No tocante ao exemplo Divino-Humano de Cristo com relação aos Salmos, é notório que Cristo, como o padrão perfeito de humanidade, apascenta os seus discípulos rumo ao crescimento em proximidade e semelhança a Ele.

Recorrentemente, somos ensinados que não é o servo maior que o seu senhor, que devemos seguir o seu exemplo de servo, que aquele que professa estar em Cristo e ser de Cristo deve andar como Ele andou, que devemos ser imitadores de Deus como filhos amados e que devemos ser imitadores dos Apóstolos como eles são de nosso Senhor e Mestre, bem como todas as coisas cooperam para o bem dos eleitos de Deus, que, no sentido último é serem conformados à imagem de Cristo.

Sob o imperativo de tais premissas, faz-se necessário expressar como Cristo, a Quem devemos imitar, em seu exemplo, nos conduz à decoração das Escrituras, e, no caso ora especificado, dos Salmos. Não pretendo citar todas as vezes nas quais Cristo menciona direta ou indiretamente o Saltério, mas partirei objetivamente desse fato. Com isso, não poucas vezes O vemos citando direta ou indiretamente os Salmos no Sermão do Monte, nas parábolas, nas questões levantadas frente aos líderes religiosos dos mais variados e em seus diálogos junto aos discípulos. Dentre os diálogos com os seus discípulos, destaco o ocorrido a caminho de Emaús, no qual Cristo mostra que tudo o que lhe acontecera era o cumprimento cabal da Lei, dos Profetas e dos Salmos. É simplesmente admirável ver a Palavra encarnada revelando aquilo de que seu coração transbordava, isto é, da Palavra revelada, da Escritura! Como um todo, não só o Saltério estava em seus lábios e coração, mas a Lei e os Profetas, os quais, como um mar de redenção, saíam da Sua boca sagrada a fim de arrebanhar aqueles que n’Ele são nova criação.

O ponto que procuro destacar mais especificamente agora, diz respeito às duas das sete palavras de Cristo na paixão da cruz, momento de inenarrável humilhação e glorificação do Deus-Homem, nosso Salvador. Tanto a oração de Cristo do Sl. 22.1 (“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”), quanto à do Sl. 31.5a (“Nas tuas mãos entrego o meu espírito”), por metonímia, em que se destaca a parte pelo todo, o expõem como o Deus-Homem que ora os Salmos a Deus, seu Pai. No momento de maior suplício, como cumprimento das profecias, era a oração dos Salmos que enchia o coração do Messias sob o flagelo de Deus!

Portanto, perante esse fato central no coração da História de Deus, sob o exemplo Divino-Humano de Cristo, não seguiria eu, no processo de imitação de Cristo, seus passos santos? Se o Deus-Homem orava os Salmos na paixão da morte, como não o faria por toda a minha vida? Como não perseguiria a Sabedoria encarnada no desejo de ter a revelação bíblica na mente e, precipuamente, no coração? Se a Palavra eterna, o Deus-Homem, ora os Salmos, como eu, seu discípulo não me conformaria a padrão tão digno e excelente? Far-me-ia, presunçosa e estultamente, um padrão mais digno de ser observado do que exemplo do Criador que se fez carne?

Ainda discorrendo a respeito do exemplo de Cristo, sirvo-me da passagem da tentação no deserto para aplicar algo que, por vezes, é ignorado, não obstante não seja algo tão central nessa passagem, visto que o seu escopo é mostrar como nosso Senhor Jesus Cristo, diferente de Adão e do povo de Israel, vence a tentação de Satanás, mostrando que Ele é o segundo Adão, o verdadeiro Israel e o Messias que haveria de vir, ratificando o testemunho do Pai acerca de Si como Filho dileto e aprovado.

Cristo vence a tentação nos seus três momentos com a Palavra de Deus. Em uma dessas tentações, o diabo cita a Escrituras para fins escusos e com uma interpretação deturpada. O fato é que tanto Jesus como o diabo tinham a Palavra de Deus no intelecto, mas só o Servo Fiel a possuía no coração de modo que não se viu nele culpa ou dolo algum. Sob uma ótica hermenêutica, seria preclaro observar que não basta citar o texto sagrado, é mister interpretá-lo de modo correto à luz de toda a Escritura a fim de não incorrer em desvios, heresias e blasfêmias contra o nosso santíssimo Deus.

O ponto que me presto a destacar referente à memorização das Escrituras e, por conseguinte, do Livro de Louvores, é que tanto o Deus-Homem como Satanás sabiam as Escrituras. Logo, se nem o diabo é tão negligente quanto a saber as Escrituras a despeito das suas finalidades e interpretações miseráveis, por qual razão o seríamos, nós, que somos os beneficiários das bênçãos do segundo Adão e do verdadeiro Israel, segundo as Escrituras? Não é por falharmos no fim de estarmos imbuídos de todo o conselho de Deus nos âmbitos da mente, do coração e da interpretação que temos desonrado o nome de Deus, cedendo à tentação do diabo? Que SENHOR tenha misericórdia de nós, pecadores!

O próximo argumento de que me valho é mais lógico, mas ainda sob o esteio da Escritura em nossas ações. A reflexão simples e objetiva gira em torno da seguinte questão: O que é melhor: ter a Escritura (no caso em destaque, o Saltério) de cor, ou não tê-la? Se tê-la de cor é melhor, por que não cultivarmos a memorização como meio para esse fim superior? Em virtude disso, é digno de nota que nem sempre as nossas ponderações são simplesmente entre o bem e o mal em si. Por vezes, a questão será entre o bom e o melhor. Se negligenciarmos o melhor em nome do bom, pecamos por omissão de sorte que não só o que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado, mas também o sabe fazer o que é melhor e não o faz.

Por fim, trago à tona uma questão mais comparativa. Conhecemos que em religiões como o Islamismo e o Judaísmo há todo um processo de preparação e condicionamento dos filhos desde a tenra idade à decoração de seus textos sagrados. Crianças quando chegam a certa idade possuem o dever de saber ipsis literis grandes porções de seus escritos sagrados a fim de honrar a família e, como um rito de passagem, ser tido como alguém de maior maturidade em sua sociedade e religião. O questionamento, sob constrangimento, que faço é este: Se esses, que estão no erro, e irão para o inferno se não se converterem a Cristo, são tão zelosos pela mentira como se fosse verdade, por que nós, que cremos ter recebido os oráculos de Deus, a revelação especial e verbal do Deus triúno, somos tão pouco zelosos pela verdade revelada como se fosse mentira? Que Deus converta o nosso coração a um zelo maior por sua revelação verbal e escrita de modo proporcional à dignidade dessa verdade revelada!


Leia o texto completo! Parte IParte II – Parte III


Referências bibliográficas
BRIDGES, Jerry. Exercita-te na Piedade. Brasília, DF: Monergismo, 2008, p. 49,54,55.
BÍBLIA SAGRADA. Tradução em português por João Ferreira de Almeida. 2 ed. rev. e atual. Barueri: SBB, 1988, 1993.

Indigno servo de Cristo, presbiteriano e amante do Saltério. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, seminarista no Seminário Presbiteriano do Norte e Bacharel em Direito pela Universidade de Pernambuco.

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