A memorização dos Salmos: sua importância e modo – parte III

Revisão: Nathália Soares

Essa é a terceira parte do texto em que discorro acerca da memorização dos Salmos, em termos de sua importância e modo. Caso não tenhas lido a primeira parte, clica neste link; para ler a segunda parte, clica neste link.

O modo de memorização dos Salmos

Feitas as considerações sobre a importância da memorização dos Salmos (fim), é oportuno e necessário discorrer sobre como realizar tal memorização (meio). Seria como, qual Moisés, ver a beleza da terra prometida sem, contudo, possuí-la.

Desde já, o que será tratado nessa seção do texto de forma alguma é o método, mas é aquele por meio do qual tenho sido aperfeiçoado no caminho rumo à memorização integral dos Salmos e desejo que possa servir àqueles que pretendem trilhar o frutífero e abençoado caminho da memorização do Livro de Oração e Louvores do povo do pacto.

Nesse processo, destaco dois provérbios latinos que norteiam principiologicamente o que será feito.

O primeiro provérbio latino é o “Repetitio est mater studiorum”, traduzido, por vezes, como “A repetição é a mãe de todo o conhecimento”, ou “A repetição é a mãe do estudo”, ou ainda “A repetição é a mãe do saber”. Por esse provérbio, depreende-se que a repetição é fundamental e fundamentalmente necessária e eficaz no processo de aprendizado. Concernente à memorização dos Salmos, a repetição, tanto nas disciplinas a curto prazo quanto a longo prazo, será imprescindível para alcançarmos o almejado objetivo.

O segundo provérbio latino é o “Festina lente!”, cuja tradução seria “Apressa-te devagar!”. Seu significado consiste em fazer um esforço vagaroso, porém progressivo e persistente, em direção ao fim pretendido. No caso, na memorização dos Salmos, por exemplo, é melhor memorizar o Salmo 119 em 176 dias, memorizando um versículo por dia, do que em um único dia, desmedidamente, memorizar 70 versículos do Salmo 119, mas, pela exaustão e falta de constância, não chegar a decorar o referido Salmo e tampouco manter o que foi conseguido.

Feitas essas considerações proverbiais e principiológicas, passo a falar da maneira como venho desenvolvendo a memorização dos Salmos. O método consiste em uma unidade que se desdobra em duas disciplinas, uma a longo prazo e outra a curto. É fundamental para o bom andamento da memorização que as duas andem ligadas. Talvez, uma boa analogia seria que a disciplina a longo prazo cultiva a terra, ao passo que a disciplina a curto prazo colhe os frutos dessa terra cultivada.

A disciplina a longo prazo tem a finalidade, de forma continuada, de ambientar, de tornar o memorizante familiarizado com o Salmo pretendido e preparar o caminho a ser trilhado a fim de efetivamente memorizá-lo. Recomendo, especialmente para os que estão começando, que criem o hábito de lerem repetidas vezes durante o dia o Salmo a ser decorado, sublinhando que, via de regra, na medida do razoável e oportuno, a leitura seja feita de modo audível para que o memorizante seja estimulado visual e auditivamente. Geralmente, sugiro, sob essas considerações supracitadas, que se leia o Salmo após acordar, antes de uma das três refeições (a depender da ocasião e de sua viabilidade, seria a oração em família no momento da refeição) e antes de dormir.

Desta forma, seguindo disciplinadamente o recomendado, em um dia, ao menos três vezes, o memorizante foi estimulado, visual e auditivamente, em relação ao Salmo a ser decorado. Em dois dias, seis vezes; em uma semana, vinte e uma vezes; em um mês de trinta dias, 90 vezes. É recorrente, especialmente nos Salmos mais longos, por força desse hábito, que os últimos versículos já sejam sabidos mesmo sem a necessidade da disciplina a curto prazo.
Nesse sentido, a maior dificuldade de criar um hábito é o hábito já criado. Se busco criar o hábito de correr todas as manhãs às 7h, o meu grande adversário será o hábito de não correr todas as manhãs às 7h. O hábito, como um processo de condicionamento humano, embora permeie as nossas ações cotidianas, se visto só pelo momento específico, parece de pouco valor. Mas, se analisado à luz do todo, veremos o quanto estamos sob sua influência, seja para a nossa prosperidade ou desventura. É aqui que, conquanto não muito visível e vistoso como o seu fruto, a memorização do Salmo se tornará mais qualitativa e eficaz.

Uma questão a ser destacada desde já é que, quando o Salmo a ser memorizado é mais longo que o comum (por exemplo, os Sl. 119, 78, 18, 107, 106, 105, 37 etc.), é razoável dividi-lo em partes a fim de facilitar nas leituras diárias. Aqui, o ditado “Dividir para conquistar” é bem-vindo e oportuno. Com relação ao Sl 119, por exemplo, até pelo fato desse ser dividido em vinte e duas estrofes de oito versículos, em que cada estrofe pode ser denominada de oitava, já há a sugestão de memorizá-lo sob essa estrutura.

Como um apêndice à disciplina a longo prazo, há o que denomino de disciplina a longuíssimo prazo. Em certo aspecto, serve de resolução e para estabelecer limites numéricos e temporais na memorização do Saltério. No que tange aos limites numéricos, é interessante memorizar os Salmos em dezenas. Por exemplo, resolver memorizar do Sl. 1 ao 10.
Em vista disso, entretanto, não ignoro o critério da afeição subjetiva do memorizante no processo de memorização do Livro dos Louvores, mas o coloco sob limites objetivos a fim de não haver maior aleatoriedade e desorganização na memorização, especialmente com vistas a manter o que já foi decorado. Para isso, comparo um Salmo memorizado de modo mais avulso como uma nota musical mais solitária enquanto o Salmo decorado nesse conjunto decenário como uma nota que, junto às outras, cria um arranjo, transmitindo harmonia, ordem e beleza aos ouvintes.

Na prática, por exemplo, é mais comum termos mais familiaridade e apego a um Salmo 27 do que a um Salmo 26, salmo de inocência; é mais comum na cristandade o Salmo 136 do que o Salmo 137, salmo imprecatório. Sem entrar no mérito dos critérios utilizados consciente ou inconscientemente pelo povo de Deus para nortear sua preferência, sob essa estrutura decenária, os salmos menos comuns são mais valorizados do que o seriam se só valesse o critério subjetivo da afeição. Além disso, cria-se uma visão mais panorâmica, na qual vejo como os salmos se relacionam entre si, como uma unidade, e no livro em que estão inseridos com o fito de comunicar uma mensagem específica sob a sabedoria e inspiração de Deus.

Quanto aos limites temporais na disciplina a longuíssimo prazo, esses seriam como um período sabático em relação à memorização dos Salmos. Por exemplo, após a memorização do Sl. 1 ao 10, é importante que o memorizante pare cerca de um mês a fim de recordar e manter o que já foi decorado, tornando-o mais entranhado em si. Nesse momento, a depender de quantos salmos já foram memorizados, é interessante, além de recordar diuturnamente a seção decenária de salmos, já se habituar na leitura continuada de outra seção decenal a ser decorada.

No respeitante à disciplina a curto prazo, o memorizante, a título de resolução, deve se condicionar a memorizar pequenas porções do Salmo a ser decorado. Por exemplo, resolvi memorizar o Sl. 1, decorando um versículo por dia. Logo, seguindo com constância e disciplina, em seis dias teria o Salmo em memória. Feita a resolução de memorizar pequenas porções do Salmo a ser integralmente aprendido, como proceder para efetivamente memorizar essa pequena porção?

Aqui, novamente, a repetição se mostra fundamental. Sem maiores mistérios, o memorizante deve ler audivelmente repetidas vezes a seção a ser memorizada até perceber que pode falar exatamente o que leu sem olhar para o texto, servindo-se só da sua memória. Esse seria um momento de autopercepção. Caso ainda não esteja falando precisamente o que está no texto, é importante verificar onde há o erro para retificá-lo. Em relação a isso, acontece às vezes de o versículo a ser memorizado ser maior do que o comum. A recomendação nesses casos é de repartir o versículo em seções menores e realizar o mesmo procedimento que seria feito com os demais versículos.

Após o momento de autopercepção e de uma possível retificação, havendo correspondência entre o que o memorizante fala e o texto memorizado, agora partimos para o momento da ratificação. Na ratificação, o memorizante repete mais algumas vezes o que foi memorizado, a fim de fixar o que foi conseguido. O número de vezes fica a critério da pessoa, mas deve ser uma quantidade razoável de sorte que não haja repetições de menos ou em demasia. Geralmente costumo repetir sete vezes pois considero que essa quantidade atenda à razoabilidade acima mencionada.

Após a autopercepção, a retificação e a ratificação, no decorrer da memorização das outras seções do salmo pretendido, é importante, após a memorização de cada verso seguinte ao primeiro, haver a recapitulação. Na recapitulação, o memorizante deve recitar as porções do salmo já decoradas. Quanto a isso, costumo fazer uma subdivisão. Quando a recapitulação ocorre em uma mesma perícope do salmo, repito três vezes; quando a recapitulação abrange mais de uma perícope, repito três vezes a seção da perícope que está a ser memorizada e repito uma vez o todo embora, quando termino, repita três vezes a última perícope memorizada e três vezes todo o salmo decorado.

Pois bem, queridos, penso que, ao menos como um breve ensaio, os textos cumpram a sua finalidade. Estou caminhando em direção ao término da memorização do Saltério e tem sido tão abençoador para mim desbravar esse caminho trilhado segundo a Escritura, pela Igreja de Deus e precipuamente, pelo seu Cabeça, o Caminho, o Servo Sofredor, o Filho de Davi, o qual é o Deus de Davi! Em face de copiosa bênção, desonraria o nome de Deus se, sendo cumulado de tantas graças, não conclamasse todo o povo de Deus a desfrutar comigo desse inenarrável deleite, desse tesouro que já é nosso, mas que dele não fazemos uso diligente, revelando ainda nossa pobreza e miséria do lado de cá do paraíso.
Em vista disso, tem sido muito gratificante poder memorizar os Salmos na igreja da qual sou membro, bem como estimular outros irmãos a fazê-lo em seus contextos eclesiásticos. Que, sob a dulcíssima graça de Deus Pai, possamos resgatar essa prática nada nova debaixo do sol, a fim de fruirmos de comunhão nada inglória do Espírito em união com o Deus-Homem, segundo a sua Palavra.

“Ao esquecer-se do Saltério, a cristandade perde um tesouro inigualável. Ao recuperá-lo, será presenteada com forças jamais imaginadas” (Dietrich Bonhoeffer).


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Referências bibliográficas
BONHOEFFER, Dietrich. Orando com os Salmos. Curitiba, PR: Encontro, 2010, p. 20.

Indigno servo de Cristo, presbiteriano e amante do Saltério. Membro da Igreja Presbiteriana de Jardim São Paulo, seminarista no Seminário Presbiteriano do Norte e Bacharel em Direito pela Universidade de Pernambuco.

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