Papéis da mulher cristã, além da submissão

Qual é a primeira palavra que vem à sua mente quando a questão é mulher cristã? É muito provável que submissão tenha sido a resposta. Por certo, a Bíblia é expressamente clara ao requerer das mulheres casadas submissão aos seus maridos, mas as características biblicamente exigidas não se resumem simplesmente a uma atitude de sujeição e/ou subordinação, antes se desdobram em virtudes que devem acompanhar a vida da mulher verdadeiramente cristã em práticas cotidianas.

“Quanto às mulheres mais velhas, semelhantemente, que sejam sérias em seu proceder, não caluniadoras, não dadas a muito vinho; sejam mestras do bem, a fim de instruírem as mulheres mais jovens a amarem ao marido e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido, para que a palavra de Deus não seja difamada.” (Tt 2.3-5)

Ao descrever os deveres das mulheres cristãs nesta passagem, o apóstolo Paulo revela que a finalidade dessa instrução é “para que a palavra de Deus não seja difamada”. Desta forma, uma mulher cristã comprometida com a vida piedosa, a fim de que o nome do Senhor não seja blasfemado por sua causa, deve se dedicar à busca desses valores e à prática das boas obras listadas para ela nas Sagradas Escrituras. Parece-me, entretanto, que muitas se esforçam apenas para exercer a submissão feminina no sentido de obediência ao marido, achando que nisto se resume o modelo proposto por Deus de uma mulher fiel.

É importante destacar a princípio que apesar da passagem começar se referindo às mulheres mais velhas, o comportamento descrito não é esperado somente delas, pois o próprio texto pressupõe a disposição das mulheres mais jovens a aprenderem essas virtudes para praticá-las. Também levamos em consideração que as jovens de hoje serão as mais velhas de amanhã, que pela experiência no exercício dessas boas obras, se tornarão as mestras de outras. Por isso, tanto as jovens quanto as velhas estão debaixo do mesmo mandamento nesse contexto.

Da mesma forma, devemos entender que esses requerimentos não são meras sugestões. O Senhor não nos dá a opção de escolhermos difamar ou não o Seu nome. Pelo contrário, as Escrituras Sagradas dizem: “…mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que…observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus…” (1 Pe 2.12)Nossas ações devem sempre render glórias a Deus.

Tendo dito isto, buscarei explorar melhor as atribuições da mulher que ama ao Senhor mencionadas na passagem de Tt 2.3-5, além da submissão que é um assunto mais conhecido.

Sejam sérias em seu proceder

 Em 1 Timóteo 3.11, o apóstolo Paulo dá exatamente as mesmas instruções que vemos em Tito 2. O texto diz: “As mulheres igualmente sejam dignas, não caluniadoras, mas sóbrias…”. As orientações estão na mesma sequência: primeiramente o proceder sério (digno), não caluniadoras e que não negligenciem a importância da sobriedade.
Ser séria no proceder não se trata de um rosto sem expressões de alegria ou um comportamento quase que mal humorado, e sim, um procedimento que inspire confiança a outros. Logo após recomendar o procedimento sério, isto é, digno, Paulo cita alguns exemplos de uma mulher que se porta com seriedade: não caluniadora, não dada a muito vinho. Os dois são pecados frequentemente encontrados no gênero feminino se encararmos ambos como princípios; o primeiro, diz respeito a falta de domínio da língua, o segundo, como a dificuldade em manter-se apta para agir pela razão.

O pastor João Calvino sobre isso disse: “A maledicência é um pecado que grassa entre as mulheres… nunca ficam satisfeitas com sua conversação enquanto não se embranham pela vereda da tagarelice e difamação, atingindo a reputação alheia”[1]. De fato, é fácil demais para as mulheres se acharem envolvidas em conversas cheias de maledicência.

A Bíblia ainda nos ensina outras formas de nos comportarmos com dignidade: “Da mesma forma quero que as mulheres se vistam modestamente, com decência e discrição, não se adornando com tranças, nem ouro, nem pérolas, nem roupas caras, mas com boas obras, como convém a mulheres que professam adorar a Deus” (1 Tm 2.9-10).

A mulher piedosa deve se vestir de forma que as suas obras sejam mais notórias do que suas roupas. Ainda hoje, as mulheres são as mais atraídas pela cobiça dos olhos no mundo das confecções, apetrechos, moda e hairstyle [2]. São seduzidas e cobradas a se vestirem de forma que não as faça antiquadas no meio de outras pessoas. Isso as leva a competições, invejas, falta de contentamento e muitos outros males. Deus ordena a simplicidade não apenas por causa de nós mesmas, mas também porque podemos, com as nossas vestes, sermos pedra de tropeço para outras mulheres. Nem todas as coisas convém aos santos, por isso, é necessário que haja moderação na hora de escolher o que vestir, usar ou calçar, visando a edificação do próximo, não provocando os irmãos e irmãs à inveja ou lascívia.
Sobre isso, Calvino comenta o seguinte: “Seria por demais errôneo negar a conveniência da simplicidade às mulheres honradas e castas como sendo sua especial e perpétua característica de distinção…”[3]

Em 1 Pedro 3.3-5, somos instruídas a observarmos o proceder das santas mulheres de fé que a palavra nos mostra, as quais demonstravam suas belezas não pelos adereços externos, mas pelo caráter cristão que era “…manifesto num espírito gentil e pacífico, o que é de grande valor para Deus”. É precioso cultivarmos a comunhão com irmãs que representam para nós um exemplo de fé verdadeira, são aquelas em quem já podemos observar o procedimento sério que a palavra de Deus pede e por isso, estão aptas a nos ajudar no desenvolvimento das outras virtudes necessárias.

Em termos gerais, ter sério proceder diz respeito a falar com sabedoria, zelar pela sobriedade (não se deixando levar pelo comportamento emocional e irracional), vestir-se de maneira honrosa, decente e ser escrava da boa consciência.

Sejam mestras do bem

Mestre é aquele que está na posição de ensinar aos outros acerca de coisas já por ele conhecidas. As mestras do bem são aquelas que pelo exercício pessoal tornaram-se capazes de ensinar outras a praticarem o bem. As boas obras são próprias às mulheres que professam ser piedosas (1 Tm 2.10). A Bíblia nos mostra repetidamente a participação das mulheres nos serviços de misericórdia, assistência aos santos, cuidado, socorro, etc.

Lucas registra no evangelho escrito por ele, a participação financeira das mulheres no ministério de Jesus (Lc 8.1-3); na epístola aos Romanos, Paulo cita o serviço da irmã Febe em hospedar a muitos (Rm 16.1-2); na carta de Paulo ao jovem Timóteo, vemos uma lista de características de viúvas que foram grandes exemplos de fé durante suas vidas e por isso deveriam ser honradas pela igreja. O texto diz:

“...seja recomendada pelo testemunho de boas obras, tenha criado filhos, exercitado a hospitalidade, lavado os pés aos santos, socorrido a atribulados, se viveu na prática zelosa de toda boa obra.” (1 Tm 5.10)

Ao longo da história da igreja temos também grandes exemplos de mestras do bem, dentre as quais poderíamos mencionar Katarina Vonbora, esposa do reformador Martinho Lutero, que se desgastava em prol do reino e dos santos acolhendo a muitos estrangeiros, pregadores e estudantes em sua casa, servindo-lhes alimento, e lugar para dormir.

A mulher que ama a Deus deve entender a importância de servir. Ela deve se colocar a serviço dos seus, do reino e dos santos, a fim de ornarem em tudo a doutrina de Deus, nosso salvador.

A amarem ao marido e a seus filhos

Em uma leitura mais superficial, entendemos por obviedade que essa parte se refere àquelas mulheres que já estão casadas e já tem filhos. Mas uma visão ainda mais ampla desta passagem nos leva a entender que mesmo as solteiras devem amar filhos e maridos, isto é, a ideia de tê-los; elas devem valorizar a ideia de formar família.

O crescimento feminista da suposta luta pela suposta liberdade das mulheres na verdade tem as conduzido a odiar a visão bíblica de família. Muitas mulheres cristãs só conseguem se imaginar formando famílias se o modelo desta for tão somente igual ao modelo do mundo: ambos trabalhando pelo sustento da casa e evitando filhos. A maternidade se tornou um fardo para elas, o amor bíblico ao marido demonstrado em serviço também.

O amor bíblico é praticado e não sentido. Por ser o casamento uma representação de Cristo e a Igreja, o amor do homem é demonstrado em sacrifício (Ef 5.23,25-30), enquanto o amor da mulher é demonstrado em obediência (Ef 5.24) da mesma forma como a igreja é chamada a dar prova de seu amor mediante a observação dos mandamentos (Jo 14.15). Através da obediência e do respeito ao marido (Ef 5.33b), a mulher pratica o amor para com ele, reconhecendo o seu papel dado por Deus como cabeça do lar para a proteção dela mesma.

Quanto a maternidade, a Bíblia sempre nos mostra a condição da mulher de gerar filhos como bênção – e não somente isso, mas também nos dá todos os incentivos necessários para que amemos a ideia de sermos mães. Então por que tantas têm se deixado enredar na visão pós-moderna adotando o modelo de um casamento estéril?

Nos conselhos às mulheres encontrados na palavra de Deus, a maternidade está constantemente incluída; o amor aos filhos (possíveis e existentes) é tão importante que é dito que a “missão de mãe” preserva a mulher (1 Tm 2.15). As viúvas jovens deveriam casar-se novamente e criarem filhos (1 Tm 5.14), e a viúva mais velha para ser inscritas para receber o auxílio da igreja deveria ter criado filhos durante a vida (1 Tm 5.10). É importante observar que esses últimos textos não dizem que elas deveriam necessariamente dar luz a filhos, mas sim criar filhos. Isso implica em serem mães mesmo se limitações físicas as impedissem de gerar. E além de desses ensinamentos do Novo Testamento ainda há inúmeras passagens que exaltam a visão da mulher como mãe no Antigo Testamento.

Fomos criadas para sermos auxiliadoras e esse termo acima de tudo, representa o nosso auxílio principal: sermos mães. Deus nos criou para auxiliar o homem, dentre outras coisas, naquilo que ele não pode fazer sozinho, gerar vidas.

Boas donas de casa

Não tem sido difícil ouvir de mulheres (até mesmo as cristãs) a frase “eu não nasci para ser dona de casa”, é tão comum quanto ouvir “eu não nasci para ser mãe”. Mas será mesmo que uma mulher cristã pode acreditar de que não nasceu para fazer serviços domésticos? Entendo que nem todas as mulheres possuem as mesmas aptidões quando se trata de cuidados com o lar: algumas têm dificuldades em administrar o tempo, outras em executar as tarefas, umas não são muito familiarizadas com a cozinha, enquanto outras são muito mais habilidosas em todas essas coisas.

Independentemente da nossa capacidade, a mulher que teme ao Senhor deve buscar desempenhar seu papel como dona de casa com afinco. Não é um mero trabalho de limpeza e organização: há um motivo pelo qual o Senhor deseja que a mulher esteja no interior do lar (Sl 128.3). Cuidar dos serviços domésticos faz parte da edificação do lar, são cuidados externos que vão além das aparências, revelando a dedicação da mulher em manter um ambiente harmonioso para reunir sua família.

Paulo utiliza o adjetivo “boa” (Tt 2.5 e 1Tm 5.14) para mostrar que não se trata apenas de ser uma dona de casa, mas de fazer o melhor no serviço do lar. Como seres humanos, somos limitados no exercício de várias tarefas, porém nos esforçamos para melhorar nosso desempenho naquelas que são do nosso interesse. A mulher cristã deve buscar os interesses do seu Senhor acima dos seus próprios, sendo assim, diante de suas limitações em executar os serviços domésticos, ela deve empreender esforços para progredir no seu desempenho.

Ainda falando sobre o papel da mulher como dona de casa, a Bíblia nos ensina outros importantes princípios. Em 1 Timóteo 5, o apóstolo Paulo está dando instruções sobre as viúvas jovens e condena aquelas que andam “ociosas, andando de casa em casa…” (1Tm 5.13). A ociosidade diz respeito ao pecado da preguiça (parece que não é de hoje que donas de casa deixam seus serviços domésticos para conversar com as vizinhas – e assistir novelas). Logo no versículo posterior, o conceito antagônico à ociosidade é colocado: “Quero, portanto, que… se casem, criem filhos, sejam boas donas de casa e não deem ao adversário ocasião favorável de maledicência” (1 Tm 5.14). Uma boa dona de casa não pode viver ociosa, ela deve ter disposição para o serviço.

As Escrituras nos mostra um modelo da mulher ideal descrita em Provérbios 31. Embora pareça utopia, esta é a mulher na qual toda dona de casa cristã deve se espelhar para ser bem-sucedida. Ela trabalha com as próprias mãos, dorme tarde, acorda cedo, provê os mantimentos, planta, cuida das vestes de todos, “atende ao bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça” (Pv 31.27).

Ser uma boa dona de casa é uma boa obra indispensável para as mulheres que temem ao Senhor.

Entendemos assim: que a mulher cristã deve viver de maneira digna e séria, vestir-se decentemente, ser ativa na prática das boas obras, amar seu papel de esposa, mãe e dona de casa, e sobre tudo o que foi dito, tragamos à memória o essencial: todo ato cristão deve ser feito com fé. Uma mulher que ama a Deus buscará cada uma dessas características entendendo a sua situação de dependência diante dEle para viver piedosamente a feminilidade cristã. Que Deus nos ajude!

Soli Deo Gloria!

Revisão: Vanessa Lima | Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

[1] CALVINO, João em Série comentários Bíblicos Pastorais. 1. ed. – São Paulo: Editora Fiel, 2015. p. 330.

[2] Hairstyle neste caso é o conceito da moda aplicada ao corte, cor e penteado do cabelo.

[3] CALVINO, João em Série comentários Bíblicos Pastorais. 1. ed. – São Paulo: Editora Fiel, 2015. p. 69.

23 anos, casada, membro na Congregação  Batista da Graça em Recife; amante da boa teologia. Meu coração deseja a eternidade, Cristo em mim é a esperança da Glória.

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