A glória da vida é viver para morrer – Parte I

Esse escrito é a primeira parte de um comentário do “Morrer de tanto viver” de Nathan David Wilson, publicado esse ano pela editora Monergismo, em Brasília, na tradução de Josaías Cardoso Ribeiro Júnior, dedicado à Heather Wilson, esposa do autor.

Em N. D. Wilson, a loucura é um salmo, pois a imaginação é quem pensa o tempo inteiro, conquistando o leitor a cada momento com “meditações criativas” (p.13) sobre “a loucura da realidade vivida por todos nós” (p.11). Meditações barulhentas, ele avisa. A genealogia do livro é um ensaio com título homônimo que cresceu e veio a ser este volume, “moldado em torno das fases da vida e do tempo” (p.12), e que parece um roteiro de viagem iniciado no princípio, entremeado por flashbacks e hiatos ou pausas para digressões sugestivas, e terminados no lar. É um livro um tanto autobiográfico e enfoca declaradamente o pôr do sol da existência, a morte. Mas o que ou o quanto podemos dizer da morte senão a própria vida? Todo o significado pertence à vida.

Uma filosofia, subjacente ao livro, funciona como uma sua espinha dorsal, seu coração, servindo de unidade das suas histórias esparsas, desconexas: o mundo e tudo que nele há foram trazidos a existência palavra de Deus, são falados, “tudo existe como batidas, ritmos e rimas na cósmica e constante arte com palavras do Deus Criador” (p.11): tudo e todos que existem são textos do Senhor. E diante disso deve o homem viver ao máximo e morrer de tanto ter gastado os instantes da vida, com todos os seus desastres e alegrias. O livro busca encarnar esta filosofia ou cosmovisão.

Não há linearidade na narrativa senão a onírica, a imaginativa: a “de uma grande onda do mar quebrando na costa” (p.14): é um escrito multilinear. Idas e vindas, avanço e recuo estão emaranhados sobre um cordão narrativo quiçá, porque um tanto inevidente, fácil de perder, mas não é outra senão a filosofia da ideia cosmonômica, e sua gloriosa visão multidimensional da realidade, integral e imensa. Influências o autor ganhou de autores que elegeu não citar, mas que diviso: por exemplo, o Agostinho de Hipona e sua meditação do tempo e a constante presença da filosofia da ideia cosmonômica. E não sei onde Wilson ceifou a ideia da vida como narrativa, mas lembra-me a visão de Calvino da criação ou mundo como teatro de Deus, repleto das suas maravilhas.

A vida não é unidimensional, é multidimensional. O Wilson leva essa verdade às suas últimas implicações. Tudo que foi criado tem valor e importância na narrativa maior do universo e nas particulares histórias de cada um dos filhos de Eva que ocupam espaço e tempo neste mundo. E cada criatura que surgiu no mundo é imagem física da Vox Dei que criou o céu e a terra e tudo o que neles tem semeado as raízes da sua existência. Deus falou e o universo veio à existência, e as mãos de Wilson e as nossas podem tocar a voz de Deus, podem acariciar e contemplar a palavra do próprio Soberano, no corpo interessante de uma jaca ou no voo suave e sugestivo de uma garça. Dessa graça das coisas pequenas não pode a nossa vida passar ao largo.

I

Abre o livro um convite estrondoso: vamos conversar (natureza basal da boa leitura). Os pós-modernos, personagens extravagantes, vazios, fakes, moralistas, cristãos laodicenos, drogados, vitimados, cansados, etc. são alérgicos ao diálogo, mas são todos convidados. E a pergunta de Deus ao Adão acende a conversação (antes do quem vem o onde): onde você está neste mundo e neste presente? Qual o seu lugar? Tu és um ator em Deus: qual, então, é o seu papel no drama? Será que sabemos? Sabemos responder? O Wilson nega fácil réplica, mas plena, multidimensional, maior do que soemos fornecer: “forneça-me suas coordenadas físicas, temporais, genealógicas, históricas, narrativas e espirituais” (p.18). A interrogação é para todos e revela-nos que dessabemos o nosso lugar existencial e a nossa história. Lost: estamos perdidos. O achamento de nosso self (que o Roger Scruton chamou rosto) exige crermos e entendermos isto: “Tudo na história é uma narrativa. Cada partícula conta com uma linha narrativa própria que remonta até a primeira Palavra do Um e Três, e todas essas linhas – essas muitas – estão entrelaçadas em uma grande e sempre crescente narrativa divinamente pronunciada. (…) Cada um de nós está no meio de uma história, uma narrativa” (p.19). É mister crermos nisso não só com leitura, mas com prática ou interpretação do nosso papel na narrativa, neste nômade palco do tempo. Eis Wilson medita: o Deus é nossa gênese e “nele vivemos, e nos movemos, e existimos”: i.e., perceber e conviver com a enormidade ou imensidão da realidade, a eternidade do tempo, apesar da nossa pequenez gritante.

A minha narrativa ou papel é só parte do grande livro de Deus, eu não sou maior como o ego faz-me pensar, eu sou menor. Ver com essa amplitude a vida e vivê-la na realidade humilha e exalta: somos pequenos demais e nada valemos diante da magnitude do universo e do seu criador, mas também somos alguma coisa de valor, pois Deus nos fala, ele nos cria verbalmente. Continuamente: O infinito vai até o mais alto e até o mais baixo; e, em todos os níveis, com atenção igual, Deus cria com uma dose completa de sua personalidade (…). Entenda isso: nós somos ao mesmo tempo pequenos e imensos. Não somos nada mais que barro moldado que recebeu fôlego, mas não somos nada menos que autorretratos divinos, a arfar e ofegar ao longo de cordilheiras de arcos narrativos épicos preparados para nós pela própria Palavra infinita. Encha-se de orgulho e gratidão, porque você é pequeno e recebeu muito (p.21).

De que raízes tu brotaste e brotas? Quem são os teus antepassados? Wilson escreveu esse livro para homenagear os seus, para cantar a passagem dos seus avôs para onde o irmão Lázaro está. Toda a narrativa tem um passado por trás e isso também é parte dela, assim também temos nós capítulos precedentes dos que compõem nossa existência.

Nosso tempo vive alienado e desinteressado de ouvir, ler e conhecer essas precedências, narrativas dos ancestrais que anteciparam e deram lugar, corpo e moldura (fundaram) às nossas, mas Wilson crê que olhar para trás e conhecer nossas anterioridades familiares, deixar o passado ler-nos, calibrar o nosso presente, limpar nossos olhos para vermos melhor e reimaginemos o futuro. Conscientemente. E esse livro é a tentativa dele de fazer esse exercício de “considerai o vosso passado”, como gritara Ageu. Dessabemos o nosso lugar na história. Mas esse desencontro do nosso espírito não é tudo, como uma visão estreita da vida faria parecer. A vantagem de crer, saber, sentir e imaginar que existimos em o Autor-Narrador da narrativa e para a sua glória vivemos é ter e esperar o Seu auxílio em descobrirmos em que parte da nossa história ou papel estamos nesse instante e onde deveríamos estar. O salmista diria isso assim: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios” (Salmos 90:12). Podemos perguntar da nossa parte ao Autor. No palco do teatro divino já estamos, ser bom ator depende do Supremo Dramaturgo. O lugar é algo espiritual. O papel é espiritual.

II

Somos almas viventes, segundo o Sopro de Deus. De que alimento necessita a alma? “Histórias são o alimento da alma” (p.24). Histórias, histórias que podemos observar pela óptica duma espécie de poética da atenção, atenção ao mundo: ver o que está aí, contemplar o que já entrou na realidade. Seja a guerra de lego, o barulho da máquina de lavar ou de metro no subsolo, os brinquedos, a formiga etc. O certo é que somos caçadores de histórias, esperamos por elas. E tudo que existe já nasce personagem de uma história, esperando apenas a hora em que alguém os verbalizará numa narrativa, numa estória. O nosso autor alimentava-se de histórias que imaginava (pela poética da atenção) e das que ouvia dos avôs. Uma salada de imagens reais e fictícias: “Nós somos criaturas narrativas e precisamos de nutrição narrativa – catecismos narrativos” (p.25).

As histórias são os materiais do nosso espírito: lembradas ou não, dão-nos afeições e molduras, voz, mensagem, imagens, etc. e conduzem nossos sentimentos e escolhas, formam nossa mundividência e práxis. Um exemplo: Wilson não só costuma escrever, mas também conta histórias toda noite aos filhos. Ele sabe que está assim a moldar a alma deles. Mas alerta-nos que as boas histórias não surgem facilmente: parir/formar espíritos é difícil. Exigem esforço e disciplina. Elas são imaginadas, pensadas e entregues às palavras. E as almas precisam encarnar as palavras. Se crermos em algo, devemos corporificá-lo com a práxis, não pode ficar apenas no abstrato das ideias: “Se você pensa algo, viva-o” (p.34). Isso é tudo que o mundo actual odeia: troca a realidade pela ideia, grita suas ideias, mas recusa encarná-las. As ideias entram nas nossas histórias se forem vividas. Caso contrário, viveremos uma esquizofrenia, uma incoerência: como estarmos numa cela achando que estamos numa praia. E é a encarnação, com seu peso de realidade, que prova, mede e pesa se as ideias revelando-as utópicas ou verdadeiras.

Vivendo a sua ideia de ser escritor, Wilson aprendeu a poética da atenção, não tentou ser o melhor, apenas quis ver o que já está aí, o que para ser avistado só se precisa de atenção: as histórias já existem, apenas desentranhamo-las dos fragmentos da realidade ao nosso redor. Não somos nada além de imitadores de Deus, subcriadores, pois usamos materiais já existentes para historiar a vida. O nosso lugar na existência é sermos imagens de Deus, logo, criadores à imagem do Criador. Wilson: Tornei-me escritor, não com a descoberta da minha voz (como alguns dizem), mas por meio da descoberta do meu papel. Esqueça a boina e o cigarro parisiense. Eu era um caçador (armando com olhos e língua), um cozinheiro, um beneficiário, um mortal entre mortais que se depara com milhões de tramas narrativas todos os dias. Eu só precisava de tesoura e cola (p.36). Ele achou-se escritor na grande narrativa de Deus. E tu? És médico, pastor, evangelista, professor, engenheiro, jornalista, etc.? Não importa. O teu lugar é sempre trabalhar com os materiais de Deus, imitando-o. A tua narrativa é importante na história, seja ela invisível ou não. Mas nunca é invisível, alguém sempre está nos observando e nossa vida sempre ensina a alguém.

E também todos contamos histórias, todos. Recolha as tuas histórias com atenção e conte-a com imaginação. Beleza vem aí. A contação de estórias: ver os mundos. Relatos dos avós, ler por indicação dos pais ou pastores ou amigos – histórias. Tudo isso para vermos o universo de Deus. Enquanto, essas histórias vão subversivamente moldando, reformando as nossas almas.

III

É interessante o olhar para trás. São quatro capítulos sobre o passado em que o Wilson volta aos seus avós, mostrando como suas vidas caminharam para a morte. Repito: falar da morte só é falarmos da vida. No primeiro olhar para trás, Wilson recorda as histórias sofridas de seus avós paterno e materno, e percebe que, embora estivesse no futuro ainda, poderia não ter existido, pois eles podiam ter morrido. Mas por que não morreram? Por que ele viria a existir? A nossa vida está nas mãos do Senhor, ele é quem escreve a narrativa que vivemos. A morte está sempre perto, mas só ataca na hora que o Mestre quiser.

O sentido da vida alarga-se com uma olhada para trás, uma espécie de chamado a que conhecemos, como é próprio do povo de Deus, os nossos antepassados. No palco da genealogia de Jesus, estendida até o próprio Adão por Lucas, Deus nos apresenta dramas e tragédias e até comédias de existências comuns e extravagantes, normais etnicamente mistas, fracas espiritualmente com homens lá não muito firmes, mas todos eles foram o sine qua non da existência de Jesus. Wilson tem um atraente pensamento genealógico, como várias partes da Escrituras.

Pensando genealogicamente, o meu filho não tem os dois meses que hoje completa, apareceu agora no mundo, mas foi cozinhado há anos nas vidas de meus antepassados e suas histórias que desconheço, foi cozinhado desde Adão e Eva e em Deus, gênese de todos nós. Ter essa compreensão humilha e exalta a alma. Não somos nada que não recebemos, só estamos aqui porque nossa vida foi conduzida por homens e mulheres, enredados em seus respectivos papeis no interminável teatro existencial escrito-falado-cantado por Deus, entrando ou/e saindo de cena-mundo. Retira um desses homens ou mulheres da nossa genealogia e nossa existência será uma absoluta impossibilidade.

Isso não porque esses homens são alguma coisa de divino, mas porque o Eussou quis e determinou que víssemos ao mundo através e somente através deles. Não há alternativa, nem outro mundo possível. Algum irmão de Jesus podia querer retirar Raabe ou Tamar ou a moabita Rute, por causa de seus passados vergonhosos e idólatras e gentílicos, mas isso seria impossibilitar a existência deles próprios. Wilson escreve como alguém que entendeu a importância das genealogias que muitos leitores da Bíblia não entendem e até evitam, por parecerem chatas. Jesus, o nosso salvador, só chegou ao mundo, por causa das vidas de Abraão e David, de Isaque e Salomão, de Judá e Tamar, de Raabe e de Rute, de Boaz e de Jessé, etc. Estes e suas histórias moldaram e agenciaram a chegada de Maria e José ao mundo, e assim a chegada do Senhor Jesus, que é Deus bendito para sempre (amém!). Wilson olha para trás e agradece os avôs e os que possibilitaram ou facilitaram ou apoiaram as vidas dos avôs, ciente de que sua existência deve-lhes a própria realidade física (e até espiritual).

A poesia da genealogia, embora sempre lacônica como a de Jesus, amplia a nossa existência ao doar-nos a percepção de que somos amplos, rios correndo há muito. E é importante perceber a amplidão da vida para não assumirmos o niilismo prático ou teórico, para não pensarmos que só há dor e morte, pois a morte é pouca, Deus é sempre amplo em tudo que é e faz: “Deus é um Deus de galáxias, tempestades, mares turbulentos, mas ele também é o Deus do partir do pão, do sorriso de uma criança, dos grãos de poeira ao sol. Ele é quem ele é, e sempre será. Olhe a seu redor agora. Ele fala sempre e em todos os lugares. Sua personalidade pode ser vista, conhecida e é confiável. O sol libera chamas enquanto as montanhas raspam nosso céu e formigas ordenham pulgões em suas folhas coloniais, golfinhos riem enquanto surfam, o trigo se agita, o vento sopra forte e um garoto olha nos olhos de uma garota, e os mortais morrem”. Ver a existência com esse alargamento faz entender que morrer é um acontecimento entre milhares de coisas que Deus está fazendo em nós e ao nosso redor. É sempre estreiteza de visão e de viver acharmos que a circunstância é tudo. A nossa história escapa-nos, é mais ampla e estamos sempre nas mãos de Deus e ele é Emanuel até nos mínimos detalhes: “Deus esteve conosco presente todos os segundos… Ele estará lá quando chegarmos ao fim.” E não tem nem como ser diferente uma vez que ele é mesmo Alfa e Ômega da história da vida de cada um de nós e de todas as formigas.

IV

Viver inclui olhar para trás e perceber que existimos todos por um milagre, pela vontade de Deus. Mas que poderíamos não existir. Isso cria gratidão. Mas também inclui viver aventuras como viajar com a família, com o risco de desastre sempre por perto. Os vômitos dos filhos fazem parte, o olhar fuzilador dos outros tripulantes está presente – o que fazer com os desastres? Elas, para Wilson, não surgem do nada, mas são enviadas por Deus. A resposta é ou aceitar e rir ou irritar-se e cair na autopiedade: i.e., ser Jó ou a Mulher de Jó. Incorporar os desastres ao fio condutor da vida é importante, permite-nos não perder a cabeça, não ser a Mulher de Jó, não ceder ao medo e ao stress, não esquecer que esses momentos difíceis também estão escrevendo nossa história e que estão dentro do controlo do Criador, mas perceber que de todas as formas estamos vivendo a nossa narrativa e temos encarnar a nossa fé em que cada instante é eterno, único e vasto. Deus está a trabalhar e nunca a atrapalhar a nossa existência.

Como viver, então, essa vida sendo um pai? Servindo os filhos com histórias, com visões da realidade, com aventuras imaginárias e reais – sendo “um moldador de infâncias, um instilador de instintos, um alimentador (ou esfomeador) de almas, um sensei do humor” (p.55): imitando Deus. Mas o tempo de aventurar com as crianças passará, não há viagem que não finde. O que o futuro guarda para nós é envelhecimento, redução à morte. Somos findáveis. E todo o nosso tempo existencial é cheio de perdas, fins, mortes. O que deixamos de fazer, hoje, será impossível amanhã. Não aceitamos que o amanhã nos escapa, que somente o hoje é nosso. Somos feitos de aventuras, desastres, mas também de arrependimentos: tantas coisas que deveríamos ter feito e não fizemos. E o passado é imutável. Tempo ido. A minha tia que faleceu este mês, em Lisboa, não regressará e eu viverei com o arrependimento horrível de não ter telefonado quando pude, de não ter ido lá visitá-la antes da sua morte.

Viver é aventura, mas não só. Viajar por lugares não basta, há que ler os lugares, conhecer, no possível, a sua história. A vida tem de ter sempre o compromisso de ser maior, mais ampla. As histórias agenciam esse alargamento. Então, em Roma, na Prisão Mamertina, Wilson revê a história de Pedro e Paulo, presos ali antes de serem assassinados pelos romanos: “Eles aguardaram a morte nesse lugar, a linha de chegada de sua corrida, a última sequência de golpes nos combates – eles combateram bem até o fim. Eles haviam alcançado a morte por viverem” (pp.62-63). Toda viagem termina, eu disse. E é povoada de perdas. Como se essas prenunciassem nossa derrota para a morte, ela separará nossa alma de seu corpo: que seja morte vitoriosa. O mundo é um índice.

V

Wilson conta a história da visita a Roma, com sua família: “passeando no corredor do papa” (p.67). A sua maneira de viver o turismo é olhando tudo, prestando atenção aos detalhes: o mundo é um índice. Tira fotos. Tem de ver e tem de cuidar dos filhos. Entre os muitos quadros renascentistas, o autor questiona a ausência de outro quadro: a história dos arquitetos do edifício. Ele sempre quer ver a cena maior do que parece, ir dentro do que as coisas visíveis e presentes indicam, quer viver cada instante e lugar de maneira ampliada: o mundo é um índice. Mas sempre há um tempo que perdemos para sempre, há cenas que não voltam. Os quadros e as fotografias querem vencer o tempo, congelando momentos, mas tempus fugit, e o mundo não pára. Nossas artes não capturam a sua totalidade. Pedaços de realidade, pedaços do tempo temos. Mas não há alternativa, é impossível pararmos de tentar de capturar o momento nas imagens que pintamos, nos postais. Mas sempre fica incompleto. Assim como nós, com a diferença de que Deus concluirá o que em nós está a obrar, antes mesmo do nosso nascimento e introdução no palco da história.

VI

Por que nascemos? Não criamos a nossa narrativa, ela antecede nossa existência, é certo. Mas por que nascemos? Para viver, e a vida tem seus dramas, tragédias e peripécias dos vivos; no linguajar de Wilson (que tem São Marcos por ancestral), nascemos para ter problemas: morte, doença, dor, stress. Um cemitério, a última reclusão. O homem segue um curso para onde a sua vida dirige-o, não há escape: o pó volta ao pó e o espírito regressa ao Espírito. Mas isto só acontece sempre dentro dum mundo de sol, calor, montes, céu azul, grama verde e seca, pedras e cemitério. A morte é só um dos elementos, portanto. No funeral, os remanescentes ficam de pé: diante da morte, seus rostos são emblema da vitória da vida, mas também promessas, entre lágrimas, de um acompanhar o defunto que ora honram com o sepultamento: os hinos cantados ou chorados preludiam a morte, revelam a grandeza da vida. O sentido da nossa morte está com os remanescentes, está neles: familiares e amigos. Mas dois aviões que têm de passar por cima, não deixam de passar somente porque morremos, o universo parece desconhecer o luto, ou desdenhá-lo. Diante dele, nossa morte parece mera fumaça deixada no rosto da nuvem por avião comercial.

Os problemas são naturais ao homem, diz Wilson, e exemplifica com o Jó. Ele perdeu tudo. O aborrecimento é normal na nossa vida. Mas qual é o caminho? Robert Musil diz que the only way out is always through. Diante da tempestade, fugir não podemos, mas encarrar, passar através dela e descobrir o Deus por trás dela: “Quando Jó ergueu o rosto para a tempestade, quando ele perguntou e foi respondido, aprendeu que era muito pequeno. Aprendeu que sua vida era uma história. Ele falou com o autor e aprendeu que o gênero não tinha sido um acidente” (p.77). A realidade não poupa-nos, não é moralista (no sentido negativo), não é higiênico, farisaicamente falando. É crua. E rasga-nos. Todavia, a única via é através da realidade e não fora dela: “veremos o interior da tempestade. Veremos o outro lado da tempestade, onde não há morte que vem de viver.” O sepultamento passa a ser mero semear: “Nós plantamos um homem”, diz Wilson sobre um dos avôs.

A morte semeia a nossa páscoa e isso é que é seguir a Jesus, que Wilson chama de o “homem que foi plantado”: Jesus passou pela páscoa, assim também nós. Sermos imago Dei implica e auxilia arcarmos obstáculos, limites que vão conformando-nos à estatura do Rabi.

O avô sepultado é contributo à história do autor. É assim que somos parte dos outros que nem conhecemos, muita vez, pela vida e pela morte; e assim também eles constituem-nos: Sua vida contribuirá para uma grande e maravilhosa história não importa o que você faça. Você foi falado. Está aqui, existe, escolhe, vive, molda o futuro e esculpe o passado. Sua matéria física e sua alma existem, não de modo necessário, voluntário e pela própria força.

Não há absolutamente nada que você ou eu possamos fazer para garantir a continuidade de nossa existência. Você não faz nada para ser. Nós não somos o autor. Você e eu fomos falados. Fomos chamados para essa parte como personagens, nascidos nesse fio de ocorrência que desce corrente abaixo ao longo Niágara de perdas movimentadas pelo problema enfrentado por nossos primeiros pais. Nós contribuiremos para a narrativa (p.80). E contribuiremos vivendo uma boa história, sendo bons personagens: “estranhas criaturas humanas criadas com histórias bíblicas” (p.85), o único significado veraz de sermos nós mesmos; contribuindo para a narrativa dos outros também seja boa.

E a morte está sempre no limiar de nós, porque estamos vivos, somos histórias e o fim é chapéu de tudo. Pensamos na morte para poder bem viver: “Tome a sua vida e siga Jesus. Enfrente os problemas. Persiga-os. Escale-os. Ria diante de seu rugido como uma árvore plantada junto à água fria…” (p.89). Pensamos a vida para poder morrer bem – que é morrer pelos outros, gastarmo-nos em prol dos outros, o sinônimo de viver Jesus, segui-lo: “Viver é o mesmo que morrer. Viver bem é a mesma coisa que morrer pelos outros” (p.90). Nós somos o que os nossos avôs escolheram, guardaram, perderam, amaram na vida, a sua narrativa. Somos continuação única e independente da narrativa de outros.


Revisão: Laísa Caroline | Publicação: Alicia Catarina

O irmão Delo é pregador do Evangelho, poeta e, nos tempos livres, professor. É casado com a Carolina Nanque e membro da Igreja Presbiteriana de Casa Amarela. É natural da Guiné-Bissau (África do Oeste) e, desde 2008, reside em Recife. A sua paixão: a Bíblia e a literatura.

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