Arrepender para crer ou crer para arrepender?

Nós começaremos hoje a primeira parte de uma série de estudos baseados no livro e nas aulas do Dr. Sinclair Ferguson entitulados “The Whole Christ: Legalism, Antinomianism, & Gospel Assurance – Why the Marrow Controversy Still Matter”¹. Como o material é extenso, muita coisa será cortada, ao passo que adicionarei alguns comentários pessoais, tentando aplicar as ricas verdades ensinadas à nossa realidade – jovens cristãos que vivem no Brasil.

Bem, para responder a pergunta feita no título, primeiro vou-lhes contar uma história. No dia 12 de fevereiro de 1717, o Presbitério de Auchterarder da Igreja Presbiteriana Escocesa se reuniu para discutir vários assuntos, dentre estes assuntos estava a avaliação e a ordenação de um seminarista chamado Willian Craig. Craig mostrou-se extremamente capaz, mas antes de ordená-lo o Presbitério fez a seguinte pergunta ao jovem seminarista: Senhor Willian Craig, você concorda que não é verdadeiro nem ortodoxo ensinar que nós [cristãos] devemos abandonar o
pecado para que possamos vir a Cristo? Pare a leitura por um instante e reflita sobre essa pergunta, qual seria sua resposta? Pense bem, responda para você mesmo. Continuemos.

Os membros do Presbitério colocaram o jovem seminarista contra a parede, pois sua resposta determinaria se ele iria ou não ser ordenado. Naquele momento, Willian respondeu positivamente ao que ficou conhecido como o Credo de Auchterarder. Ele foi devidamente ordenado e instalado como pastor em uma Igreja Presbiteriana Escocesa. Contudo, certo tempo depois, o pastor Craig foi até o Presbitério dizer que, após muito meditar na Palavra e orar, ele
não poderia continuar concordando com o Credo de Auchterarder. Diante disso, o Presbitério revogou sua licença.

O caso, então, foi levado à Assembleia Geral (AG) da Igreja Escocesa. A AG decidiu por anular a decisão do Presbitério de Auchterarder, afirmando que este Credo não estava em consonância nem com a Bíblia nem com os Símbolos de Fé presbiterianos. Nessa reunião, um Ministro do Evangelho, até então desconhecido, de nome Thomas Boston discordou da decisão da Assembleia e, mesmo sendo voto vencido, indicou que seus colegas de ministério e irmãos em Cristo lessem um livro até então desconhecido chamado “The Marrow of Modern Divinity”, escrito por Edward Fisher.

Pela providência divina, aquela sugestão de Thomas Boston surtiu efeito em alguns pastores da Igreja Presbiteriana Escocesa, de maneira que ele foi republicado na Escócia. Com o sucesso do livro e de suas ideias, a AG da Igreja Presbiteriana da Escócia se reuniu novamente, decidindo que o livro deveria ser banido por conter ensinamentos contrários à Bíblia e aos Símbolos de Fé da Igreja, sobretudo à Confissão de Fé de Westminster. A decisão da AG
levantou três acusações contra o livro, pois para eles, o livro defendia as doutrinas heréticas do universalismo, antinomismo e dava uma ênfase exagerada na segurança da salvação do cristão. Claro, essas acusações eram falsas e nós veremos o porquê adiante; por isso, após esta decisão, doze pastores presentes na AG se levantaram em protesto, ratificando os ensinamentos do livro e rebatendo as acusações feitas naquela reunião, por isso eles ficaram conhecidos como “The Marrow Men”, dentre eles estava o Reverendo Thomas Boston.

Essa decisão levantou uma série de debates que iriam dar a tônica das AGs que viriam a acontecer na Igreja Presbiteriana Escocesa. Em um breve resumo, as principais questões que foram levantadas ao longo dos anos, as quais os “Marrow Men” buscaram responder, foram: o que vem primeiro o arrependimento ou a fé em Jesus Cristo? Como podemos pregar e oferecer Jesus Cristo a todos se Ele morreu só pelos eleitos? Qual o propósito da Lei de Deus para o cristão? E, por que nós, como cristãos, temos tanta dificuldade em ter certeza de nossa salvação?”
Ora, diante disso, chegamos à seguinte conclusão: as questões que os “Marrow Men” responderam no século XVIII são extremamente relevantes para nós, cristãos do século XXI.

Por isso, nessa série de estudos procuraremos, com a graça de Deus, analisar como Dr. Ferguson, sob os ombros dos “Marrow Men”, responderá estas questões que ainda hoje são tão importantes para nós. Contudo, a questão proposta no título ainda continua: arrepender para crer ou crer para arrepender?

Adianto-lhes que nesse artigo nós iremos apenas responder de forma simplória essa pergunta; no entanto, prometo-lhes, com a graça de Deus, aprofundar essa resposta nos nossos próximos artigos da série, vez que um assunto estará intrinsecamente ligado ao outro de forma a complementá-lo, como vocês verão. A resposta para aquela pergunta é: primeiro nós cremos em Jesus Cristo para depois nos arrependermos de nossos pecados. Em outras palavras, defenderemos que o Credo de Auchtarader estava correto e a Igreja Presbiteriana Escocesa
errada em sua decisão conciliar.

A chave para entendermos essa reposta é a doutrina da união com Cristo. Essa doutrina vem sendo abordada desde os tempos dos pais da igreja, como Agostinho, por exemplo, de maneira que nós poderíamos escrever um livro-tratado sobre o assunto e não o esgotaríamos. Contudo, tentaremos resumir a doutrina para vocês.

Talvez o texto mais famoso que fundamenta a doutrina da união com Cristo seja Efésios 1. Nesse capítulo, o apóstolo Paulo escreve para os “fiéis em Cristo Jesus”, afirmando que Deus Pai os tem abençoado com “toda sorte de bençãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo”. Assim, “em Cristo”, Ele nos escolheu para sermos “santos e irrepreensíveis perante Ele”(santificação), nos predestinou para “adoção de filhos” (adoção), no qual temos “redenção” e “remissão de pecados” (redenção e justificação), até o dia em que seremos “resgatados” (glorificação). Em outras palavras, para o apóstolo Paulo, porque os irmãos da igreja de Éfeso estavam “em Cristo”, o Pai, por meio do “Espírito da promessa”, estava trabalhando na vida deles, abençoando-os com todas essas bençãos espirituais.

Seguindo a lógica bíblica, o Breve Catecismos de Westminster, após tratar sobre a pessoa e o trabalho de Jesus Cristo, nosso redentor, ensina-nos que “o Espírito aplica-nos a redenção adquirida por Cristo, operando em nós a fé, e unindo-nos a Cristo por meio dela em nossa vocação eficaz” (P. 30). Aqueles unidos a Cristo pela fé “gozam, nesta vida, da justificação, adoção e santificação, e das diversas bênçãos que acompanham estas graças ou delas procedem”
(P. 32). Ora, o arrependimento é uma graça concedida àqueles que estão em Cristo, fazendo parte de nosso processo de santificação e, portanto, flui de nossa união com Cristo, não a precede. Por isso, o Catecismo Maior de Westminster define o arrependimento para a vida (P. 76), após ensinar sobre a união com Cristo (P. 66), sobre a fé justificadora (P. 72) e sobre a santificação (P.75)².

Diante disso, nós temos sempre que olhar para Jesus Cristo, pois todas as bençãos espirituais são encontradas apenas nEle e fluem tão somente de nossa união com Ele. Na verdade, no Novo Testamento, nós, em regra, encontramos os cristãos sendo chamados de “cristãos” pejorativamente. Você sabe o “grande termo” utilizado no Novo Testamento para descrever os discípulos de Cristo? É o termo “em Cristo”. Esse termo é utilizado, por exemplo,
mais de 100 (CEM!) vezes pelo apóstolo Paulo em suas cartas! Não há uma página sequer nas cartas paulinas onde os crentes não são descritos como estando “em Cristo”. Com isso, o apóstolo quer deixar claro que pela fé nós estamos “em Cristo”, e “em Cristo” todas as bençãos espirituais são imediatamente nossas, e o Espírito Santo vai trabalhá-las progressivamente em nossa vida. Mas, estando “em Cristo”, tudo o que Ele fez e conquistou é imediatamente e simultaneamente nosso. O Credo de Auchterarder reconhece que não existe nada que pode nos
qualificar para vir a Cristo, nem mesmo o arrependimento, pois, nós recebemos todas as bençãos quando estamos “em Cristo”, sendo elas trabalhas pelo Espírito no decorrer de nossa caminhada cristã.

O problema é que às vezes os cristãos são distraídos de Jesus Cristo e se tornam o que Lutero chamava de incurvatus, ou seja, concentrados neles mesmos. Eles começam a olhar primeiramente para as bençãos que eles receberam ao invés do benfeitor, nosso Senhor Jesus Cristo. Quando nós compreendemos essa verdade, nós passamos a entender com maior profundidade o porquê da ênfase da Reforma Protestante no lema Solus Christus, pois somente estando firmados “em Cristo”, nós podemos usufruir das bençãos espirituais que dEle fluem, e.g., a graça do arrependimento verdadeiro. Mantendo os olhos fixos em Jesus Cristo, os Marrow Men responderiam à pergunta feita no título do presente artigo dizendo que somente aqueles que estão, pela fé, “em Cristo” iriam ter a graça do arrependimento trabalhada diariamente em seus corações pelo Espírito Santo de maneira que a cada dia essa pessoa morreria para seus pecados e iria sendo conformada à imagem de Cristo Jesus, seu Senhor e Salvador.

Revisão: Nathália Soares | Publicação: Alicia Catarina

 


NOTAS DO AUTOR

¹ No presente artigo, resumiremos o assunto abordado pelo Dr. Fegurson no capítulo “How a Marrow Grew”. Para mais informações, cf.: Ferguson, Sinclair B., The Whole Christ: Legalism, Antinomianism, & Gospel Assurance – Why the Marrow Controversy Still Matter, Illinois: Crossway, 2016, pp. 23-37.

² Nesse mesmo sentido, a Confissão de Fé de Westminster, após definir o que é a fé salvadora, ensina-nos que “os principais atos de fé salvadora são – aceitar e receber a Cristo e firmar-se só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isto em virtude do pacto da graça”. Você percebe a lógica que a Confissão estabelece? Primeiro, o Espírito Santo concede a fé à pessoa, unindo-a a Cristo; depois, como consequência, o cristão participa imediatamente e simultaneamente dos benefícios que Cristo conquistou, como por exemplo, a justificação e a santificação.

Cristão, reformado, presbiteriano, diácono da Igreja Presbiteriana do Brasil, casado com Daniele Leite, advogado, atualmente cursando o Master of Divinity no Greenville Presbyterian Theological Seminary. É também membro da Igreja Presbiteriana Memorial em Salvador – BA e da Fellowship Presbyterian Church (PCA) em Greer, South Carolina, onde atua como seminarista.

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