Pecadores vestidos com a justiça de Cristo

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus.” (Rm 5.1,2)

Era dia do Senhor. Eu cantava com a congregação, e em meu coração recordava diversos pecados que eu havia cometido durante a semana. Lembrava das vezes em que eu não havia deixado tempo suficiente para o momento devocional, das dificuldades para ter uma vida de oração consistente, etc. Olhando para a minha vida, eu não conseguia ter alegria ao entoar louvores sobre o amor do Senhor, Sua salvação ou sobre a graça manifestada em minha vida e nas vidas dos irmãos que cantavam comigo. Me sentia incoerente e imaginava como Deus deveria estar desgostoso em relação a mim.

Não era a primeira vez que me sentia assim. O misto de frustração em relação a minha conduta e desânimo me impediam de realmente enxergar como Deus me vê, em Cristo Jesus, já há algum tempo. Com isso, não me refiro simplesmente à tristeza por meus pecados, afinal, entristecer-se por causa das transgressões é fundamental para o arrependimento. O problema era que, quando minha consciência sentia culpa por causa dos pecados cometidos, minha incredulidade míope me impedia de relembrar a perfeita vida de Cristo, sua morte na cruz por mim, sua ressurreição, a fé que Ele me deu e meu atual estado diante de Deus: justa. Eu não corria para os Seus braços em quebrantamento e humildade, reconhecendo que sou sua filha amada e que só Ele sempre, a cada dia, pode me salvar de mim mesma.

Esse sentimento é parecido a um relato que li no livro O Evangelho para a Vida Real, de Jerry Bridges. Uma mulher cristã expressou ao autor as seguintes palavras: “Eu sei que Deus me ama, mas às vezes me pergunto se ele gosta de mim”. O que ela queria dizer com isso? Ela provavelmente estava falando: “Eu sei que Deus me ama e que enviou o seu Filho para morrer por mim, mas, por causa dos meus pecados e falhas repetidas, sinto o seu descontentamento em relação a mim.” Essa frase, vinda de uma cristã comprometida, dedicada ao ministério cristão integral, mostra como muitas vezes, com o sentimento de culpa, condenação e alienação de Deus que o pecado traz, não experimentamos a alegria que o evangelho nos concede[1], porque, nas palavras de Richard Lovelace, muitos cristãos

“embora, no fundo, tenham consciência de serem culpados e inseguros…[baseiam] sua segurança de serem aceitos por Deus por meio de sua sinceridade, de sua experiência de conversão no passado, de seu desempenho religioso recente, ou da relativamente infrequente desobediência consciente, proposital.” [2]

Esses sentimentos que permeiam os corações de muitos crentes se devem, então, tanto ao nosso orgulho, querendo ter a certeza da aceitação de Deus com base na própria ‘justiça’, quanto a uma visão limitada que temos do evangelho. Muitas vezes pensamos nele apenas como uma porta que atravessamos para nos tornarmos cristãos. Nessa visão, ele serve só para os incrédulos, uma vez que, tornado cristão, é como se o indivíduo não precisasse mais dele, exceto para compartilhá-lo com os que ainda estão do lado de fora da porta. Ao invés disso, o já convertido precisaria ouvir os desafios e o passo a passo do discipulado. Nada poderia estar mais distante da verdade! O evangelho é a solução para o nosso maior problema: nossa culpa, condenação e alienação de Deus. Ele também é a base da aceitação diária de Deus em relação a nó[3].

O dilema de Lutero

Naquele mesmo domingo em que eu estava desanimada, o Senhor falou à igreja através da exposição de Romanos 1.16-17:

“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.”

Esse foi o texto através do qual o Senhor fez com que Martinho Lutero entendesse verdadeiramente o evangelho, quinhentos e um anos atrás.  Ele nos ensina que o evangelho é o  poder de Deus e a justiça de Deus para nós. Assim, o evangelho é tudo de que necessitamos: somos impotentes para fazer qualquer coisa quanto à salvação e completamente injustos diante de um Deus santo. Precisamos de Sua justiça, precisamos que Ele nos justifique, pois não conseguimos  ser pessoas justas por nossas próprias obras, de modo que o evangelho provê tudo para nós.

Porém, como entender o que o apóstolo Paulo define como “a justiça de Deus”?

Bem, ao tratar de justiça, ele não se refere ao atributo divino – Deus age corretamente com todos, sem parcialidade, dá a cada um de acordo com o seu merecimento, é o Justo Juiz. De fato, Deus não inocenta o culpado nem condena o justo, mas a justiça nesse trecho vai além desse sentido.

Antes de entender o evangelho, esse atributo trazia terror ao coração de Lutero, pois ele entendia quem Deus era (totalmente santo, reto e justo), quais as exigências de Sua lei e que ele mesmo era totalmente injusto. Assim, sua mente era assombrada pela seguinte questão: como uma pessoa injusta pode sobreviver na presença de um Deus justo? Consequentemente, ele procurava conquistar o favor de Deus de todos os modos (por exemplo, encerava o chão do mosteiro onde morava de forma absurda, jejuava por dias, fazia vigílias de oração mais longas do que as dos outros monges, recusava os cobertores fornecidos e passava horas no confessionário todos os dias)[4]. No entanto, por mais que tentasse, sempre contemplava a justiça de Deus diante de si, e isso o aterrorizava. Tamanha era sua agonia que ele chegou a exclamar: “Amar a Deus? Eu o odeio”.

Para Lutero, Deus era impossível de se agradar. E quanto a isso ele estava certo, pois “Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Somos todos culpados diante do Justo Juiz, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Assim, nenhum de nós, por mais que tente, conseguirá atingir a perfeita justiça que Deus aceita, “Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20).

A justiça de Deus se revela no evangelho

A maravilhosa notícia que o reformador compreendeu, pela ação do Espírito Santo em seu coração, quando ponderava os versículos 16 e 17 de Romanos 1, é que a justiça de Deus nesse trecho é a justiça que o próprio Deus providenciou para nós, a qual nada tem a ver com nossas obras, mas é a justiça do crer, do confiar – que procede da fé depositada na Pessoa do Senhor Jesus Cristo. Em outras palavras, a justiça que Deus exige, a obediência às elevadas exigências de Sua Lei é a justiça que Ele nos oferta através da fé em Cristo.

O Senhor Jesus se fez homem e representante tanto em sua vida quanto em sua morte de todos os que em algum momento confiarão nEle, vivendo uma vida de perfeita justiça, tomou todas as violações da lei de Deus, todos os pecados destes sobre si, e, satisfez a justiça de Deus, que demanda a morte do pecador, morrendo em obediência à vontade do Pai, tendo, portanto, cumprido a lei de Deus tanto em seus preceitos quanto em sua penalidade. Assim, todos nós que confiamos em Cristo estamos unidos com Ele, nossa dívida do pecado, impossível de ser paga por nós mesmos, foi paga pelo Salvador, e Sua verdadeira justiça é imputada a nós![5]

Revestidos com a justiça de Cristo, Deus nos declara justos, e nos enxerga perfeitos, inculpáveis! Temos paz com Deus, somos justificados!

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus.” (Rm 5.1,2)

 Nesses versículos, vemos também que hoje estamos firmes na graça da justificação – ou seja, pela graça de Jesus, estamos na posição de justificados. Permaneceremos pelo resto de nossas vidas e por toda a eternidade justificados diante de Deus, porque Ele nos deu a justiça de Cristo![6]

Diante dessa salvação gloriosa, Martinho Lutero teve alívio em sua angústia. Nas palavras do reformador:

“Noite e dia eu ponderava [o significado da expressão “a justiça de Deus”] até que vi a conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que “o justo viverá pela fé”. Então compreendi que a justiça de Deus é a justiça pela qual, através da graça e pura misericórdia, Deus nos justifica pela fé. Por causa disso, senti-me renascer e atravessar as portas abertas do paraíso. Toda a Escritura passou a ter um novo significado, e se antes “a justiça de Deus” me enchia de ódio, agora se tornou indescritivelmente doce em grandioso amor. Essa passagem de Paulo se tornou para mim um portão do céu…”[7]

Justificados aqui e agora, e na eternidade

 Infelizmente, apesar de conhecermos a doutrina da justificação pela fé, muitas vezes vivemos como se ela não fosse um estado permanente e duradouro. Mais frequentemente do que gostaríamos, parece que nossos pecados estão mais perto de nossa consciência do que a justiça de Deus em Cristo. Isso acontece porque nossos corações pecaminosos tendem a tirar o nosso senso de aceitação diante de Deus de nosso desempenho mais recente dos deveres cristãos ou de nossa evasão de certos pecados, quando, na verdade, tanto aqui e agora, quanto na eternidade, somos justos diante de Deus exclusivamente por causa da justiça de Cristo imputada a nós! O nosso “manto da justiça” para a vida diária não é o que nós mesmos costuramos por nosso próprio desempenho, mas é o manto da justiça de Cristo! [8]

É isso que o evangelho nos oferta: não temos que nos sentir culpados ou inseguros em nosso relacionamento com Deus. Não temos que ficar imaginando se Ele gosta de nós. Podemos viver a cada dia de fé em fé, na certeza de que, pela fé, somos aceitos diante de Deus, não com base no desempenho pessoal, mas com base na justiça do Senhor Jesus Cristo[9].

Que possamos, como o apóstolo Paulo, renunciar a qualquer confiança em nosso desempenho ou qualquer receio sobre nossa falta dele, para dizer que “Esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20).

“Não há nada em nós ou feito por nós, em qualquer fase do nosso desenvolvimento terreno, pelo que sejamos aceitáveis a Deus. Devemos sempre ser aceitos por amor de Cristo, ou jamais poderemos ser aceitos de forma alguma. Isso não é verdade para nós apenas quando cremos. Isso é igualmente verdadeiro, mesmo após termos crido. E continuará a ser verdadeiro enquanto vivermos. Nossa necessidade de Cristo não cessa com a nossa crença; nem a natureza da nossa relação com ele, ou com Deus por meio dele, nunca se altera, não importa quais sejam as nossas realizações nos meios de graça cristãos ou nossas conquistas comportamentais. É sempre em seu “sangue e justiça” somente que podemos descansar.”[10]

 Revisão: Vanessa Lima | Publicação: Alicia Catarina

REFERÊNCIAS

 [1] BRIDGES, Jerry. O Evangelho para a vida real: Voltando-se para o poder libertador da cruz… dia após dia… São José dos Campos: Editora Fiel, 2015, p. 14.

[2] LOVELACE, Richard. Teologia da Vida Cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2001, pp. 69-70.

[3] BRIDGES, Jerry. O Evangelho para a vida real: Voltando-se para o poder libertador da cruz… dia após dia… São José dos Campos: Editora Fiel, 2015, p. 15-16.

[4] SPROUL, R.C. Deus é santo! Como posso me aproximar dele? São José dos Campos: Editora Fiel, 2014, p. 61,64,70.

[5] BRIDGES, Jerry. O Evangelho para a vida real: Voltando-se para o poder libertador da cruz… dia após dia… São José dos Campos: Editora Fiel, 2015, p. 109-111.

[6] Ibid., p. 118.

[7] BAINTON, Roland H. Here I Stand: A Life of Martin Luther. Nashville, TN: Abingdon, 1950, p. 50.

[8] BRIDGES, Jerry. O Evangelho para a vida real: Voltando-se para o poder libertador da cruz… dia após dia… São José dos Campos: Editora Fiel, 2015, p. 119

[9] Ibid., p. 20.

[10] WARFIELD, Benjamin Breckinridge. The Works of Benjamin B. Warlfield, vol. VII. Grand Rapids, MI: Baker, 1931, p. 113.

22 anos, pernambucana, membro da Igreja Presbiteriana de Boa Viagem, em Recife e estudante de Direito. Uma sonhadora que permanece com os pés no chão graças à Palavra de Deus.

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